A rosa da semana

Hoje é sábado. A rosa da semana, como disse Clarice Lispector. Para mim também, sábado é a rosa da semana. Acordei cedinho e fazia um friozinho bom. Um frio revigorante. Fiquei um tempo na cama, abracei o corpo quente de meu esposo e acariciei os seus cabelos como ele gosta que eu faço. Um dengo. Faz um dengo, pede ele. E eu nunca recuso. Agradeci: obrigada, meu Deus, por este corpo que me aquece, por essa alma que me entende e aceita e ama quando todos os outros não me compreende.

Levantei e fui preparar o café, essa bebida forte, estimulante e aromática que traz à minha mente as lembranças de tempos idos nos quais meu avô materno me servia com o seu café nas madrugadas em que me acordava para eu estudar enquanto ele ficava à espreita e vigilante para que eu não caísse novamente no sono e me desse mal nas provas.

Quis ver o sol nascer, mas ainda agora que escrevo já passa das dez da manhã e ele sequer apontou. Li algumas páginas do livro O diário de Anne Frank que me tocou profundamente. Parei e pensei na truculência humana que matou os sonhos de uma menina de treze anos, cheia de ardor e esperança. Esperta, inteligente, sagaz… O que teria sido de Anne Frank se a ignorância e o preconceito de um ditador não tivessem colocado um fim à sua vida? Ah! Que revolta! Engulo-a e saio à rua para comprar alguns alimentos. Meu irmão mais novo está no quarto de visitas. Veio passar alguns dias comigo. Pensei em dizer-lhe: não vá embora. Quando você está perto de mim fico tão alegre e disposta que mal tenho tempo de parar e escrever. É que a alegria eufórica paralisa a gente. E o meu irmão do meio disse que vai almoçar aqui em casa hoje. Então, fui comprar as coisas para servi-los e agradá-los. Mal sabem os que amo o quanto gosto de fazer por eles.

Primeiro me dirigi até a banquinha de hortaliças para adquiri-las fresquinhas. As que são vendidas no supermercado não têm o mesmo cheiro e sabor. O moço quis me vender uns tomates, os quais intitulou de segunda categoria, e eu recusei. Hoje, só quero coisas de primeira qualidade. Hoje, sábado, é a rosa da semana.

Logo após, passei numa padaria a fim de comprar salgadinhos que agradam meu irmão mais novo. Coxinha e ravioli para o café da manhã e também pão francês saído do forno. Na frente da padaria, dois homens já encontravam-se a postos. Madame, me dá uns trocados para ajudar eu completar o que tenho e tomar um café. Eu dei os trocados. Não precisa ser agora, dona. Pode ser na saída. Ainda assim, fiz questão de repassar-lhes imediatamente. Sabe-se lá o que poderia me acontecer nesse ínterim entre a entrada e a saída do local. Não se deve deixar para depois o que pode ser feito agora. Quando saí, os dois pedintes me desejaram um bom dia e a benção de Deus. Eles sorriam por detrás das máscaras antivirais, no entanto fui totalmente contaminada pela alegria deles. Como pode alguém alegrar-se numa manhã tão fria enquanto se espera a boa vontade dos outros para lhes dar esmolas? Às vezes, parece que Deus tem urgência em me dar lições de humildade.

Dali fui ao sacolão comprar carnes. Meu irmão do meio adora, de modo que após milênios, nada o fez abandonar a dieta paleolítica. Só comprei carne de primeira. Maminha, picanha, alcatra, coxão mole… Eu entendo disso, pois fui criada em meio à abundância proteica. Meu esposo também é desses que continua a comer ao modo dos homens das cavernas. E por falar nele, hoje, que o almoço será caprichado, antevejo o que dirá ao meu irmão carnívoro: venha sempre, porque essas coisas deliciosas só aparecem quando você é o convidado da vez. Todo dia sirvo coisas gostosas para ele. Tudo que lhe dou é de primeira qualidade. Nem vem que não tem.

Parti em direção a uma casa de frios que fica ao lado do sacolão, com vistas a comprar laticínios e derivados. Não quero dar margem para que meu esposo diga que não me importei em preparar pratos que ele possa comer, uma vez que tem alergia à lactose. É capaz de insinuar que só me importo com meus irmãos. E mesmo em tom de brincadeira isso me fere, porque não é verdade. E por falar em marido, encontrei um conhecido seu, o qual sugeriu que não devo sair de casa para o supermercado, mas mandá-lo em meu lugar. Entretanto, prefiro eu mesma fazer as coisas, porque faço ao meu tempo, do meu modo e, o mais importante, com os cuidados que se deve ter em meio a essa epidemia. Vão dizer que é porque sou controladora, e não estão de todo enganados. E também tenho a impressão de que sou mais resistente a vírus e a invasores. Meu esposo é mais dado a distrações e conversações. Quanto a mim, poucos chegam perto.

Quando enfim estava voltando ao lar, lembrei-me que faltava um ingrediente. Parei num supermercado, pois não desejava sair novamente para mais nada. Ao chegar em casa, vi que todos continuavam dormindo. Sozinha, comi pão francês com manteiga derretida ao modo de quando acordava na casa de meus avós.

Só ouço agora o latido dos cães e o barulho de vizinhos, os quais se eu pudesse pediria também que se calassem. Uma amiga me mandou mensagem foi cedo me pedindo para ser paciente com os outros. Um outro amigo, certa vez, disse-me: seja paciente pelo menos com você, porque eu sei que com os outros você não é. E me abraçou forte como se eu estivesse precisando que me acariciassem. Será que sou tão dura? Será que tenho o coração de ferro? Tenho não. Meu coração é de carne, assim como o de Saramago, que disse: Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

É porque eu tenho que me manter forte e resguardar-me debaixo de minha concha óssea tal qual uma tartaruga. Há pessoas que precisam de mim, suponho. E como vou proteger a mim e aos outros sem utilizar as minhas armaduras?

O sol ainda não surgiu. O dia está com aparência sombria e triste. Escuto o barulho do vento uivando. Ele atravessa a janela, sacode as cortinas e, gelado, atinge minhas pernas descobertas. No entanto, meu coração está aquecido.

Peço-lhes, porém, licença. Vou limpar e organizar a casa, preparar um almoço à altura dos meus amores e servi-los. Antes, confesso-lhes uma de minhas fraquezas, eu não sei dizer te amo. Eu só sei mesmo é amar de um amor servil. Retiro-me, pois, agora, para doar-me aos que escolhi para exercerem sobre mim semelhantes direitos. Ainda não caí em domínio público.

A sutil arte de ligar o foda-se, de Mark Manson

Numa das livrarias que costumo frequentar, há um espaço específico destinado às obras mais vendidas e eu sempre notava o livro A sutil arte de ligar o foda-se figurando nessa categoria.

O livro me chamava atenção pela capa, pelo título, mas relutava muito em comprá-lo. Acho que principalmente em decorrência do nome “foda-se”. Uma espécie de  preconceito. Pensava comigo: não havia palavra mais sutil que pudesse substituí-la?

Até que um dia, nessa mesma livraria, fiquei atenta a um papo entre uma vendedora e uma cliente, na qual aquela realizava a mais convincente propaganda sobre a obra. Não resisti ao ouvir a conversa alheia e me rendi, venci o preconceito e fui para casa carregando o livro.

Ao chegar a casa comecei a lê-lo de imediato e, uma surpresa – o livro realmente era muito bom. Li em dois dias. Devorei-o com muita ânsia.

O autor nos convida a ver a vida como ela é, como dizia Nelson Rodrigues. É um chamado ao encontro de nossas limitações, das coisas que fogem ao nosso controle, mas também daquelas que estão em nossas nossas mãos.

Às vezes está tudo ruim mesmo, às vezes nos sentimos impotentes (e somos), outras, não podemos modificar os acontecimentos. Tudo isso é pode acontecer sem que precisemos nos sabotar diante dessa realidade.

Sabemos que somos cheios de falhas e limitações, mas não adianta fingir não vê-las – o melhor é reconhecê-las e aprender a aceitá-las. Uma vez que abraçamos nossos medos, defeitos e incertezas, uma vez que paramos de fugir e começamos a confrontar as verdades mais dolorosas, nos abrimos para encontrar a coragem, perseverança e entusiasmo.

Na verdade, é um livro realista e que nos chama a não mascarar os fatos, mas a enfrentá-los. Dentre os vários pontos que me chamaram a atenção, destaco a abordagem inicial a respeito do consumismo: estamos o tempo todo sendo atraídos para consumir. E logo que adquirimos algo, aparece outra coisa e depois outra ilimitadamente. Será mesmo que precisamos sempre de mais e mais?

O segredo para uma vida melhor não é precisar de mais coisas; é se importar com menos, e apenas com o que é verdadeiro, imediato e importante.

Por que apesar de podermos comprar mais estamos mais depressivos e ansiosos?

Problemas de saúde decorrentes de estresse, transtornos de ansiedade e casos de depressão dispararam nos últimos trinta anos, apesar de todo mundo ter uma TV de tela plana e pedir comida em casa.

Também, há a abordagem do tão falado sucesso. Todos querem o sucesso. Sempre ele. Nunca a importância do fracasso é matéria de divulgação, embora este detenha um poder maior de nos humanizar.

A felicidade exige esforço de nossa parte. Um bom emprego, um bom casamento, um corpo bonito e saúde exigem dedicação. Nada é fácil e é preciso encarar essa verdade. Muito querer, muito falar e pouca ação não nos levarão a lugar algum.

Outra coisa, a culpa dos nossos fracassos não pode sempre ser do outro. Negação e vitimização tendem a provocar um alívio imediato, mas não resolvem os nossos problemas.

Não dá para esgotar esse livro tão rico em um texto curto. Então, sugiro que leiam. O livro é composto de 9 capítulos: 1) Nem tente; 2) A felicidade é um problema; 3) Você não é especial; 4) O valor do sofrimento; 5) Você está sempre fazendo escolhas; 6) Você está errado em tudo (eu também); 7) Fracassar é seguir em frente; 8) A importância de dizer não.

E o capítulo 9 é “….e aí você morre!” É apenas para nos lembrar que somos mortais. E isso também é inevitável.  Bukowski disse: Todos vamos morrer, todos nós. Que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros, mas não. Ficamos apavorados e somos esmagados pelas trivialidades da vida; somos consumidos pelo nada.

Diante da riqueza deste livro e de tudo que aprendi com ele envergonho-me da minha pequenez em tê-lo julgado pelo título, assim como tantas vezes devo ter julgado as pessoas pela aparência.

O menino e o livro sobre transexualidade

Uma dos costumes que adquiri com o hábito de escrever foi o de notar tudo que se passa ao meu redor. Costumo andar sozinha pelos lugares, então fica mais fácil observar e refletir sobre as coisas que vejo. Olho para rostos, paisagens, cenas, gestos e há situações em que ouço a conversa de quem está ao lado. Nada disso faço por curiosidade, mas apenas para captar estímulos que me conduzam a escrever, porque de todas as atividades que exerço essa é a que dá mais sentido à minha vida.

Há alguns dias estava sentada num restaurante e havia um casal ao lado conversando de maneira acalorada. Eles pareciam estar com os ânimos exaltados e logo me dispus a escutá-los. Ocorre que estavam falando em inglês e, não sei se já comentei, meu inglês se resume a yes and no e olhe lá.

Saí com uma angústia tão grande que me deu vontade de aprender todas as línguas do mundo só para não perder oportunidades. Depois, acabei esquecendo e me contentando em escutar apenas as conversas exteriorizadas no português.

Entretanto, esse negócio de observar requer muito cuidado, pois é preciso disfarçar, senão as pessoas pensam que você as está encarando ou querendo roubá-las ou até mesmo interessada nelas. Digo por experiência.

Ano passado uma amiga convidou-me para ir numa festa e eu fui. Uma conhecida nossa chegou com o seu namorado que tinha uma aparência fora do comum. Cabelos batendo nos ombros e encaracolados, barba assimétrica, usava uns óculos meio arredondados e estava trajando vestimentas totalmente destoantes das que se costuma usar naquele tipo de evento. Não pude deixar de notar, mas resolvi me dirigir à pista de dança e esquecer a imagem que acabara de ver.

Dois dias depois da festa, a namorada dessa figura resolveu bater na minha porta para me questionar o porquê de eu ter olhado para o seu namorado. Quase respondi que era porque eu tenho olhos que veem, pois seria indelicado de minha parte dizer àquela mulher apaixonada e, portanto, que não vê, que achei a imagem dele um tanto quanto estranha, mas também não podia deixá-la imaginando que eu estava interessada no dito cujo. Isso não.

Eu disse que não estava olhando e ela insistia que sim, que eu estava olhando. Então fui obrigada a revelar: “se olhei não foi por interesse, mas por estranhamento”. Mais tarde, fiquei sabendo que todos os presentes da festa o estranharam. Então, depois dessa, compreendi que é necessário olhar com discrição para não haver mal entendidos.

Mas não sei se consegui olhar com discrição para um menino de uns vinte anos que entrou numa livraria enquanto eu lia e tomava um café. Ele era alto, corpulento, de nádegas avantajadas, quadril largo e seios um pouco mais levantados do que costumam ser os masculinos. Notei no seu corpo características predominantemente masculinas, com nuances femininas. Olhei para ele e vi uma indefinição.

Se alguém acha que não há essa diferença, tudo bem. Eu olho para um homem e uma mulher e as vejo. Então, vou falar das minhas percepções sem com isso obrigar qualquer pessoa a distinguir, tal qual faço, características físicas inerentes ao homem e à mulher.

Pois bem, esse garoto comprou um livro e dirigiu-se novamente à vendedora com outro em mãos. O objeto estava embalado num plástico e ele pediu autorização para abri-lo, pois queria ler ali mesmo na livraria. A vendedora consentiu e ele sentou-se à minha frente com o livro nas mãos. Na capa estava escrito Transexualidade.

Passei a observá-lo enquanto lia. Seus olhos expressavam uma profunda tristeza. À medida que ia passando as páginas, mordia os lábios e se inquietava na cadeira. Às vezes chegava o rosto mais próximo ao livro como que para enxergar melhor ou porque estava diante de algo que lhe causava perplexidade. Ficou fixo em sua leitura por muito tempo e nada em volta parecia interessar-lhe mais do que a coisa que lhe abria a percepção, quem sabe de si mesmo.

Tive certeza quanto à primeira impressão que senti ao olhá-lo. Ali havia uma indefinição. Aquela pessoa sofria por ser ou não ser alguma coisa. Provavelmente, tratava-se de alguém com um corpo predominantemente masculino, mas que se identifica melhor com os pensamentos, sentimentos e emoções do sexo feminino. E isso constitui uma evidência de que há diferenças, ou melhor, que nem tudo é construção social.

A vontade que me sobressaltou foi de chegar perto dele e consolá-lo. Abraçar aquele menino. Pedir que se abrisse comigo, pois imaginei que ele não teria essa liberdade em casa, uma vez que decidiu por ler a respeito de transexualidade ali mesmo. Intuitivamente, acreditei que ele se escondia e que a família não poderia saber que lê livros dessa espécie. Iriam perguntar que tipo de interesse tem no assunto, pois a família nunca enxerga e, mesmo quando vê, disfarça, causando muito mais dor naquele que necessita de amparo.

Os familiares chegam a um nível tão evoluído de egoísmo que negam um fato dessa importância e magnitude, porque imaginam que confirmar uma verdade dessas lhes causará tamanha dor, quando, na verdade, quem mais sofre é aquele que não se sente livre para admitir o que é ou não encontra apoio para assumir-se tal qual se identifica.

Senti a dor daquele menino. Claro que jamais no nível de intensidade em que ele sente na pele a sua própria dor. Mas nada fiz e nada posso fazer. Apenas lancei-lhe um olhar de compreensão e ternura e saí dali resignada.

Imagino que uma das coisas que mais perturba uma pessoa é não poder se apresentar do jeito que é, com suas imperfeições, estranhezas, defeitos e confusões. Às vezes, o preço que se paga por ser de um jeito ou de outro é alto, mas continuo acreditando que uma pessoa não deve ficar retesada e presa com a ilusão de que está protegida sob a máscara de uma farsa.

Esses dias estava conversando com um de meus irmãos sobre quem somos e eu disse a ele que às vezes é triste ser quem sou. Sua resposta foi essa: Mas, caso contrário, também se sentiria triste por não ser você.

Caetano Veloso tem uma música na qual diz que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mas é preciso saber o que se é. Não é confortável ficar na indefinição, no enclausuramento, vivendo às escondidas, disfarçando e, sobretudo, preso dentro de si mesmo.

Talvez nunca mais encontre aquele menino. Sei que ele nem mesmo me notou.  E nada posso fazer por ele. Reconhecer que não se tem condições de fazer nada é a mais autêntica forma de impotência. Mas durante aquele tempo em que estive lhe observando, agarrei-me à sua dor. Entretanto, isso não muda nada. Minha dor não diminui a dele, não lhe acalenta, nem lhe acrescenta qualquer coisa.

No meu caso, escrevo e nisso encontro um certo consolo. E quanto a ele? O que haverá de consolá-lo? Onde encontrará alguma espécie de alívio?

Verdades que mais ninguém diz

Em três anos de convivência com a minha avó paterna, tive a oportunidade de observar bem de perto se havia correspondência exata entre as suas palavras e ações. Digo isso porque, no meu entendimento, ao valorar os seus juízos e sentenças, surpreendia-me o teor, o significado e a sabedoria das muitas coisas que ela dizia, sem nunca ter frequentado uma escola. Na verdade, ela sequer sabia ler. Era uma senhora analfabeta que, no entanto, aprendera com a vida vivida, quer pela experiência fática e concreta da própria coisa, quer pelo olhar curioso, atento e perscrutador que tanto lhe caracterizava e do qual ninguém nega que eu, sua neta, herdara.

Mãe de oito, os quais criara sozinha, perdeu sete deles antes de sua própria morte. O último filho, do qual ela teve que se despedir, foi o meu pai, cuja vida se findou aos quarenta e três anos, ao ser fulminado por um AVC, resultante de sua vida boêmia regada a excessos de tóxicos, samba e mulheres.

Apesar da vida sofrida e marcada pela escassez de itens básicos necessários à sobrevivência, criou os filhos sozinha, mas com a dignidade de uma mulher que acordava todos os dias de madrugada a fim de preparar quitutes, os quais vendia para o sustento da casa.

Mais tarde, pôde gozar de um certo conforto oferecido-lhe pela filha que restara e que lhe dedicava os mais ternos cuidados como para compensar todo o sofrimento de uma vida de luta.

Já nesse tempo de glória é que tive o prazer de observar e extrair o máximo dos ensinamentos de minha avó, os quais transfiro com orgulho acentuado por reconhecer em mim os seus traços que tanto me causam alegria e satisfação. Dizem, e aqui registro minha aquiescência, que, no aspecto físico, sou uma mistura de minha mãe e da mãe de meu pai. E como me apetece a ideia de parecer com os meus e não com outros. A marca de minha ancestralidade corre no meu sangue, na minha alma e em tudo quanto não lhe posso negar. Mulheres marcantes da família surgem na minha lembrança e não posso ocultar que essa força, inclusive ante os homens, está em saber que o homem que tem que gamar na mulher e não a mulher gamar no homem.

As feministas que me perdoem, mas essa verdade é fundamental. Um dos ditados muito citados pela minha avó quando notava o quanto os homens desprezavam as mulheres quando essas lhe debruçavam totalmente aos seus pés. Ciente da natureza caçadora masculina, ela ensinava que a mulher deveria se valorizar a despeito de qualquer coisa e jamais ficar a caça de bicho que lhe foge. Nesse caso, o mais sensato seria recuar, esperar por ser caçada e conquistada. E mesmo após seduzida, ela talvez ainda precisasse atentar-se para as palavras do poeta do amor: Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos ao abri-los ela não mais estará presente.

Essa visão pode parecer arcaica se considerarmos os avanços pelos quais passamos nos últimos tempos, principalmente com relação à independência e à liberdade angariadas no âmbito feminino. No entanto, muitas dessas mudanças, as quais considero salutares, nada tem a ver com a realidade de que, ao serem surpreendidos por mulheres que investem forte na conquista e que são escancaradamente gamadas nos homens, elas os afugentam e os atemorizam, uma vez que eles, ao serem retirados de suas vestes de leão, viram tão somente gatinhos medrosos.

Quem muito se abaixa mostra o fundo das calças. Outra fala muito repetida pela senhora minha avó quando queria nos dizer que não devemos nos humilhar ou nos arrastar por quem quer que seja. A pobreza e as dificuldades que enfrentou não lhe fez perder o senso de sua própria importância, que não estava ligada à dimensão de suas posses, mas à noção de que devemos nos portar diante do outro de igual para igual, com respeito mútuo e recíproco. Isso não deve ser confundido com falta de humildade, pois se tivermos que nos arrastar e nos subjugar para nos conectarmos com o outro, provavelmente nada de proveitoso e agradável restará da lembrança desse tipo de relação e, ao final, nos sentiremos péssimos ao nos reconhecermos como seres que tiveram que se anular ou morrer de um certo modo. Clarice Lispector disse: (…) pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha própria importância – tudo estará perdido. Era esse o sentido da enunciação de minha avó quando pregava que não devemos nos abaixar de forma demasiada.

Ela, que em nada gostava de ser importunada, quer diante de um bêbado abusado, de uma criança chorosa, de um som muito alto e perturbador, ou de qualquer coisa que lhe tirasse a paz e o sossego, dizia com um sorriso no canto dos lábios: Eu vendi minha viola pra não ouvir ninguém tocar. Dessa frase me utilizo quando percebo que, ao ter desfeito de situações que me incomodavam, inclusive aquelas de que eu própria era autora, vejo-me diante de circunstâncias que me importunam e provém daqueles que simplesmente não têm a percepção de que não se deve dar cachorros a alguém que se desfez dos seus, pois significa que essa pessoa não tem mais a intenção de cuidar deles ou criá-los, se é que me entendem.

E por falar em cachorro, usarei esse bichinho para fazer alusão a outro dito de minha avó: Quem dá o seu cachorro é porque não precisa dele. Ela gostava de dizer, também sorrindo: Quem dá o que é seu é porque não precisa. Ou seja, não é proibido doar absolutamente nada, desde que seja dentro de nossas possibilidades, uma vez que, se ultrapassarmos nossos limites, poderemos mais tarde estar precisados justamente daquilo que demos. Assim, se a única proteção que existia em sua casa para avisar a presença de estranhos era o seu Pitbull e você o doa a pretexto de não mais precisar dele, não poderá, mais tarde, querê-lo de volta sob o argumento de que, por tê-lo dado, invadiram sua casa e lhe roubaram tudo. Portanto, minha avó chamava a atenção para que observássemos o que andávamos dando por aí… se é que, mais uma vez, me entendem.

É claro que eu notava o seu comportamento, tão observadora que também sempre fui, e via que, na prática, ela agia em coerência com os seus dizeres. Era o que se podia chamar de mulher esperta. Calada, olhos abertos e desafiadores, postura ereta e digna, pude aprender muito sem que ela, no entanto, soubesse que ensinava. Aliás, ela o sabia, como sabia de muitas outras coisas, a exemplo: já com Alzheimer, olhava para a televisão, no momento em que o jornalista se despedia, e dizia encarando-o: Esse homem não para de olhar para mim. Eu jamais deixaria ele dormir na minha cama.

Ah! E como entendi quais eram aqueles que ela jamais dividiria o leito, a casa, a intimidade e a vida. Como entendi minha avó. E como sou toda ela naquilo que mais gostava de ver ela sendo.

Esses homens, minha avó, digo-lhe, eu também jamais permitiria que me tocassem, quer o corpo, quer a alma.

Fragmento

Eu quero a vida nua e crua. Quero matar as sedes bebendo de minhas próprias águas. E que toda alegria e toda dor que eu sentir venha de meu próprio ser nascendo, crescendo e morrendo. E que toda força e coragem para viver não nasça da ideia de que há um filho a criar. Que toda eu seja causa e consequência de mim mesma. E que quando eu morrer nada mais reste. Quero a vida que se iniciou no ventre da mãe e que vai acabar com a minha inexistência. Quero me levar toda e não deixar partes minhas espalhadas por aí. Que a minha razão de viver se ache toda dentro do meu mundo. É forte aquele que resiste até o fim alimentando-se de suas fontes internas.

Correio Feminino, de Clarice Lispector (ou Como seduzir)

Esse texto é direcionado para uma categoria específica de mulheres. Faço questão de enunciar esse prévio esclarecimento para poupar algumas leitoras de perderem o precioso tempo delas com um assunto que não lhes interessa. Portanto, aqui escrevo para aquelas que gostam de homens e desejam seduzi-los e conquistá-los. Caso, querida leitora, não se enquadre nesse tipo, aconselho parar a leitura por aqui. Certamente, você tem coisas muito mais importantes a fazer, assim, podemos nos encontrar numa outra oportunidade na qual eu escreva sobre assuntos gerais ou mais úteis. Sinta-se à vontade para retirar-se, pois isso em nada prejudicará a relação tecida entre nós. Portanto, até a próxima.

Para as leitoras que ficaram, presumo que tenham um profundo interesse pelos homens e desejam seduzi-los acima de qualquer coisa. Imagino que o principal objeto de desejo de vocês sejam eles, assim como o objeto principal de desejo dos homens são as mulheres. Claro que estou me referindo às mulheres que gostam de homens e aos homens que gostam de mulheres. Não tratarei aqui dos casos de desejo e conquista de pessoas do mesmo sexo pelo simples fato de que não sei como funciona e não tenho intenção nenhuma de seduzir outra mulher. Só posso falar sobre aquilo que está ao meu alcance e deixo para outros a tarefa de falarem a respeito daquilo que está sob o domínio deles, afastando-me da presunção e do pedantismo.

Vamos lá?

Os homens são seres muito simples. Nós mulheres é que somos complexas, cheias de exigências e chatices. Pudera. Ninguém merece essa condição mensal que nos deixa tão atordoadas, impacientes, irritadas, mas que justifica em muito o fato de sermos como somos. Obra da natureza. Nada podemos fazer. Mesmo se matássemos todas as serpentes do mundo, a maldição já fora lançada e só nos resta aceitar o destino que nos cabe. Somos mulheres. Todas filhas de Eva. Astuciosas mulheres… Adão quem o diga!

Desde que Eva o seduziu, o segredo nos foi revelado. O homem infringiu a lei de Deus, porque a mulher que esse mesmo Deus fez para acompanhar o homem pode ser irresistível. O homem passou a conhecer a morte pelas mãos de uma mulher, mas também por intermédio de outra mulher conheceu a possibilidade de uma nova vida. Virgem Maria! Eu já estou é desviando o assunto.

E onde estão essas mulheres irresistíveis? Estão cada vez mais escassas, digo-lhes. Elas se cansaram de ser irresistíveis, porque ser irresistível é cansativo mesmo. Exige um esforço de nossa parte. Esforço físico, mental e espiritual que nem todas estão dispostas a fazer para, ao final, terem apenas um homem a seus pés. Vale o esforço? Respondo de modo muito pessoal: para mim, vale muito!

Seduzir é uma arte. Não é algo mágico que se consegue ao lançar tão somente um olhar 43. Arte é uma habilidade realizada de forma consciente, controlada e racional. É por isso que ninguém sai seduzindo todo mundo por aí. É por isso que os sedutores são a exceção e não a regra.

Antes de tudo, preciso ser bem sincera: primeiramente, os homens são atraídos pela aparência física da mulher. Neguem o quanto quiserem, mas é a verdade. Reparem bem o que acontece com os homens quando uma mulher bonita invade um ambiente. Todos eles se curvam espontaneamente, ficam boquiabertos e tão bobos que mal conseguem disfarçar.

A beleza atrai, isso é mais que óbvio, no entanto não é suficiente para manter um homem apaixonado e embasbacado por muito tempo. Há mulheres que até deixam os homens hipnotizados com sua notável beleza, mas quando abrem a boca para emitir qualquer opinião fazem esses homens voltarem do transe em poucos minutos. Proferem tanta babaquice que não compensa em nada a beleza que possuem.

Para seduzir, uma mulher tem que falar pouco e ouvir muito. Nada mais desagradável do que uma mulher faladeira, que mais parece uma goteira pingando em dia de chuva. Poucos homens suportam uma mulher que fala demais.

A aparência é muito importante e pouco tem a ver com possuir uma beleza do tipo miss. A mulher precisa cuidar de si, ter uma pele limpa e macia, cabelos sedosos e com o brilho daqueles que são lavados diariamente. Deve se preocupar em manter a saúde do corpo, por meio de um sono reparador, prática de exercícios físicos e uma alimentação balanceada e escassa de açúcares e gorduras que tanto prejudicam sua pele e silhueta. Uma mulher bem cuidada é reconhecida a quilômetros de distância e os homens são extremamente seduzidos por ela.

O perfume também conta muito na arte da sedução. As mulheres perfumadas deixam sua marca por onde quer que vão. Se nada mais chamar a atenção, o perfume fica e é preciso saber escolhê-lo como um complemento à sua personalidade. Há sempre um pouco de doçura nas intenções da mulher que carrega um perfume na bolsa.

A feminilidade é uma poderosa arma ao alcance da mulher e a discrição uma característica altamente apreciável. A mulher de gestos rudes e grosseiros pouco atrai. As que falam e riem alto espantam. As que bebem e fumam demais perdem toda a sua graça perante os homens.

A forma como a mulher caminha revela a sua elegância. A sedutora não anda como quem corre. Ela caminha de cabeça e ombros erguidos como se fosse levitar. Os saltos ajudam muito nessa hora, mas se você não tem tanto traquejo para usá-los, livre-se deles.

A mulher que quer seduzir precisa ter doçura ao falar, gestos amenos ao se expressar, educação ao discordar. Precisa se vestir com roupas que valorizem seu corpo e denotam o seu garbo. Nada de roupas muito curtas, decotadas e justas. Quanto menos se revela, mais uma mulher seduz. Quanto mais esconde, mais atiça o desejo masculino.

A maquiagem conta muito no conjunto da obra. Uma pele uniformizada, um leve batom, um rímel, um ajuste nas sobrancelhas faz toda a diferença. Outra coisa: a mulher fica mais atraente com os cabelos soltos, desde que estejam sedosos, limpos e cheirosos. Homens costumam não resistir a uma jogada despretensiosa dos cabelos. Ah! Eles também adoram pernas cruzadas. Mulher que senta com as pernas abertas é um horror.

Um amigo certa vez me disse: A primeira coisa que olho numa mulher são as mãos. Se as mãos e as unhas dela estão feias e mal cuidadas, já  fico imaginando o resto. Parece besteira, mas mãos sedosas e unhas feitas contam muito na hora de seduzir, pois revela autocuidado.

Nunca se revele totalmente a um homem. Há mulheres que querem contar tudo que já viveram, todas as frustrações, demonstram todas as suas carências, inseguranças, choram pelo que tiveram e não tiveram, apresentam todos os seus defeitos. É claro que o homem vai fugir. Primeiro, evidencie, por sugestão, tudo de melhor que você tem. Os defeitos saltarão aos poucos sem que se esforce para isso. Mas, quando isso acontecer, o homem já terá notado suas qualidades e será muito mais difícil desistir de você. Ao se fazer notar pelo que há de bom, os defeitos parecerão bem menores aos olhos dele.

E mais, ninguém aguenta lamúrias e reclamações. Essa atitude afasta todos de você.

A mulher sedutora tem outras aspirações que vão além de uma conquista amorosa. O alcance de sua visão não pode estar presa apenas ao homem e ao lar. Precisa se inteirar do que acontece ao seu redor, dedicar um tempo à leitura e ao próprio desenvolvimento. Afinal, nada é tão desinteressante como a mulher que não se importa com nada daquilo que está além de seus olhos.

A alegria e o bom-humor devem ser cultivados. Ninguém merece uma mulher de cara amarrada e mal humorada. Nada deixa uma mulher tão feia quanto o mal humor. Ela enfeia a si própria e contamina todo o ambiente em que se faz presente. E nunca seduzirá ninguém. Pode até achar quem a queira. Mas, nesse caso, seu amado vai morrer de tédio ou viver embriagado.

Repito, bom humor e alegria são fortes armas de sedução. Não a alegria estridente, mas aquela que se revela pelo brilho dos olhos. Ah! E os olhos… Esses dizem tudo e um pouco mais…

Outra coisa, se você souber cozinhar e se dispuser a preparar algo para o homem que quer seduzir, provavelmente terá dado um grande passo. É uma boa hora para mostrar o seu tempero: antes, durante e depois. Isso não quer dizer que você deve morar numa cozinha para agradar um homem. Tenha equilíbrio e saiba dosar. Aliás, mulher equilibrada seduz muito mais. Nem muito sonsa, nem muito histérica. O meio termo é sempre a melhor opção.

Sedução requer delicadeza, vontade e muita sutileza. É preciso gostar e querer seduzir. Não pode ser algo forçado e destituído de prazer. Afinal, nada assim pode ser. Uma sugestão é: imagine que está imersa numa brincadeira deliciosa enquanto seduz.

As mulheres que têm preguiça, as que acham perda de tempo, as que se cansaram e as que não têm paciência, não seduzam, ora bolas. Mulher nenhuma é obrigada. Como anunciei no início, escrevo aqui é para aquelas que, assim como eu, acham graça e querem aprender essa arte ousada. E como toda arte, à medida que se aprende, vai aperfeiçoando, tomando gosto pela coisa e…

E, quando menos se espera, seduz a si mesma num enlace que não tem mais volta.

A ridícula ideia de nunca mais te ver

Não pude acreditar que aquela mulher estranha o tivesse em mãos. Ao entrar na clínica e me deparar com a cena que descreverei não consegui controlar o ciúme, o mesmo que brotou no coração de Bentinho quando ele, ao acompanhar de longe Capitu, enquanto ela dançava num baile, imaginou que outros braços de homens roçavam os dela.

Mas eu não imaginei. A cena que vi foi real. Ela o segurava nas mãos, abria-o e fechava-o quando e como queria e, pior, colocava-o entre as suas pernas quentes, porque deveriam mesmo estar quentes, pelo que outrora ele me havia feito sentir.

Meu olhar não os desfitava. Existia cumplicidade e desejo na forma como a mulher manuseava-o. Eu podia sentir que ele a penetrava como há tempos fizera comigo. Ele, que me serviu de companhia em dias frios, que me fez chorar de emoção e deixou-me três dias acamada de paixão, como aceitar que agora, sem mais nem menos, estivesse sob a posse e o domínio de outra?

E ela sorria, sentia e sofria com ele tudo aquilo que um dia sorri, senti e sofri.

Naquele momento, eu já tinha um substituto em minhas mãos, o qual também me levava a terras distantes, a ter sentimentos nobres e a voar livremente. E havia outros a minha espera, clamando por mim, e cuja aproximação eu evitava por falta de tempo ou por escolher os que apeteceriam muito mais as minhas emoções ou os meus sentidos.

No entanto, eu queria ter novamente comigo aquele que estava com a outra mulher que jamais eu tinha visto na vida, mas que me despertou um intenso desejo de disputa. Pensei em apresentar-me a ela para reivindicar aquilo que um dia me pertenceu, mas o orgulho nunca me permitiu que eu tomasse algo de alguém, nem mesmo o que supunha ser meu.

Enquanto ela se inebriava lançando-lhe olhares cada vez mais desejosos de absorvê-lo, eu sofria por ele estar sendo manejado e tocado por outra de uma forma tão única. Por que quando ele estava ao meu alcance eu não lhe coloquei no colo e acariciei-lhe com as mãos para sentir sua textura de objeto masculino? Por que não lhe cheirei ao abri-lo como a vi cheirá-lo? Por que não tive a paciência de devorá-lo docemente como ela fazia ao voltar toda a sua atenção para cada detalhe dele e para cada palavra que lhe dizia?

Ele agora lhe pertencia quase totalmente, pois ela já estava chegando ao fim. Faltava muito pouco para tê-lo todo dentro de si como um dia tive e o deixei escapar. Eu pensava que ele era só meu, que ninguém mais o teria e que eu poderia possuí-lo quando bem entendesse, porque estaria sempre e somente à minha espera. Mas não. Ele é livre para ser de quem o queira.

A mulher foi embora com ele, mas antes o ajeitou carinhosamente e colocou num canto da bolsa para que nada o arranhasse. A ridícula ideia de nunca mais vê-lo tomou conta de mim e eu saí correndo daquele lugar em direção à minha casa na ânsia de encontrá-lo tal qual eu havia deixado. E ele estava no mesmo canto, parado, quieto, imóvel, alegre e triste em seus tons amarelo e preto. Ele estava lindo.

A ridícula ideia de nunca mais te ver não pode pertencer e fazer sentido apenas para mim. Ele é meu, mas também é dela, e é de quem o quiser. E eu não posso sentir ciúmes, pois quando algo é lançado para fora, não é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de todo mundo.

O pecado da inveja

É impossível discorrer a respeito da inveja sem antes voltar ao começo dos tempos para falar a respeito dos irmãos, personagens bíblicos, cuja relação culminou no primeiro homicídio do qual temos notícias.

Caim e Abel dirigiram-se a Deus com as suas oferendas, no entanto apenas uma foi aceita. O Criador rejeitou a oferta de Caim, o que o fez revoltar-se tanto contra Deus quanto em desfavor de seu irmão Abel.

Enfurecido e tomado pela inveja, Caim derramou o sangue de seu irmão, eliminando-o da face da Terra. Ao ser questionado por Deus a respeito do paradeiro de Abel, Caim respondeu-lhe: Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?

A inveja foi a causa desse tão conhecido fratricídio, o que significa que esse sentimento habita o coração do homem há muito mais tempo do que podemos imaginar.

Ela, a inveja, pode ser entendida como a dor e a tristeza que alguém sente diante das conquistas do outro e sempre nasce da comparação entre pessoas próximas. Talvez nunca sintamos inveja da riqueza e do poder do presidente dos Estados Unidos, mas podemos ser tocados por ela diante do triunfo, das habilidades e do sucesso de um irmão, de um primo ou de um colega de trabalho.

O reverso da inveja é o tributo disfarçado, pois invejar significa admitir para si mesmo a própria fraqueza, a incapacidade ou a inabilidade diante da força, da capacidade e da habilidade do outro. O invejoso admira e reconhece as qualidades do invejado, embora jamais admita.

O olho é a porta de entrada da inveja. Não é à toa que um dos amuletos protetores contra esse mal é o olho grego e que a pena atribuída ao invejoso no inferno dantesco é ter os seus olhos costurados para que aprenda a não mais querer para si aquilo que não lhe pertence.

O invejoso está sempre olhando o outro e esse é o motivo porque esquece de si mesmo, de modo que corre o risco de relegar os seus próprios dons e talentos pela cegueira na qual se encontra. Ele está sempre com as vistas postas fora de si.

Outro exemplo bíblico que ilustra a inveja entre irmãos ocorre com os gêmeos Esaú e Jacó, filhos de Isaac e Rebeca. Como Esaú foi o primeiro a sair do ventre de sua mãe, ele herdou o direito da primogenitura, que consistia no recebimento da benção do pai. Acontece que Esaú vendeu esse direito para Jacó.

Um dia, aproveitando-se da moléstia do pai e da ausência de Esaú, Jacó, com a ajuda da mãe, se disfarça, de modo que, assemelhando-se em aparência com o irmão, recebe a benção paterna em seu lugar. Quando Esaú toma conhecimento do que Jacó fizera volta-se contra ele e se torna seu maior inimigo.

Valendo-se dessa história, Machado de Assis escreveu um livro intitulado Esaú e Jacó, cujos personagens, Pedro e Paulo, são irmãos que se chocam desde o ventre materno e toda a trama gira em torno da rivalidade entre eles, que perpassa desde assuntos políticos até amorosos, pois ambos se apaixonam por Flora, mulher que prefere a morte do que ter que escolher entre um dos dois.

A mãe do gêmeos, Natividade, em seu leito de morte, faz com que os filhos prometam se unirem, mas passado um tempo após o enterro da mulher que os gerou, a inimizade entre Pedro e Paulo volta com a força necessária para que eles resolvam disputar a Presidência da República.

Machado retomou o tema da inveja em seu livro Dom Casmurro, onde Bentinho, que acusa Capitu durante toda a sua narrativa, confessa a inveja que sentia da esposa, ao declarar que Capitu era muito mais mulher do que ele era homem. Todas as minhas invejas se foram contra ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?

Shakespeare também abordou esse tema no livro Otelo. O personagem Iago cria expectativas no sentido de ser promovido de alferes ao posto de tenente. Entretanto, Otelo nomeia Cássio, o que causa grande revolta em Iago, que passa a perseguir Otelo a ponto de fazê-lo acreditar que sua esposa Desdêmona o trai com o seu oficial. Movido pelos ciúmes, Otelo mata Desdêmona e, após saber que ela era inocente, mata-se com um punhal. Em um de seus momentos de inveja contra Cássio, Iago dispara: Na sua vida, ele me mostra todos os dias a beleza que me torna feio.

Iago reconhecia que tanto Otelo quanto Cássio possuíam qualidades e virtudes que lhe faltavam e isso não só o conduziu à destruição dos seus invejados, como também a prisão de si próprio.

Já no filme Amadeus, o músico Mozart é o invejado da vez. Com um talento incomum e com a habilidade para compor de forma excelente, sem nem mesmo ter que recorrer a rascunhos, Mozart é alvo da fúria e da inveja de Salieri, que termina seus dias num manicômio quando se vê diante da grandeza e da genialidade do seu rival.

E por falar na genialidade que suscita tanta admiração e inveja, Oscar Wilde proferiu a frase: Como não foi genial, não teve inimigos.

Mas diante de tantos casos de inveja expostos, pergunto: Como se livrar dos invejosos? E a resposta é: Não há saída possível. Eles são numerosos e estão por toda parte, então é melhor fingir que não os vemos, de modo que a nossa vida seja tão brilhante que ofusque os seus olhos tornando-os tão mais cegos do que eles já são.

O fracasso da mulher moderna

Amigas desde os tempos do colégio, quem as conheceu unidas e inseparáveis jamais suporia vê-las tão distantes uma da outra. Inútil dizer que eram como irmãs para explicar o sentimento que as aproximavam. É que, entre irmãs, nem sempre há tantas confidências reveladas sem que o peso da disputa de atenção e de afetos arranhe a relação.

Entre as amigas não havia competição, pois os interesses de cada uma não se comunicavam com os da outra, de modo que a única semelhança notável era o fato de serem mulheres. Apenas a constituição biológica era similar, em tudo o mais se diferenciavam, inclusive seus pensamentos raramente se convergiam e hei de supor que só uma amizade alicerçada numa imensa consideração fazia com que suportassem as contradições sem que qualquer delas carregasse o peso da necessidade de convencer.

Divergiam não apenas em questões amorosas, domésticas e familiares, mas também em aspectos mais gerais como política, economia e sociedade.

O sonho de Clara se restringia a uma constituição familiar nos moldes tradicionais, embora não tivesse a coragem de se revelar por causa de seus ideais de liberdade da mulher. De pele tão límpida quanto o seu nome, defendia a igualdade entre todos os gêneros possíveis, lastimava pelos pobres e negros e era uma ferrenha defensora da adoção e da proibição da pena de morte ao tempo em que proclamava pela aceitação do aborto.

Clara propugnava pela liberação das drogas e pela bissexualidade e, embora tenha casado virgem e com um homem, mantinha secreta sua fantasia de se relacionar com mulheres. “Tenho curiosidade” – dizia ela, enquanto Virgínia ouvia com atenção e um certo ar de incredulidade, uma vez que sabia que essas ideias jamais seriam levadas a sério, pois a amiga vivia totalmente na contramão de seus devaneios de rapariga branca liberta.

Antes de se casar, enunciava que teria quatro filhos, adotaria mais alguns e até perdoaria traição se preciso fosse para conservar a família, mas antes que isso acontecesse seria preciso realizar-se profissionalmente, sem, no entanto, decidir qual rumo tomar no mundo dos negócios.

Nos momentos em que a interpelavam sobre os seus objetivos profissionais, não sabia ao certo o que queria e, de tanto não saber, acabou se rendendo, por cansaço e desilusão, ao seu primeiro desejo forte e latente de ser esposa e mãe.

No entanto, também se tornou uma profissional que se entrega diariamente a um emprego tedioso e inútil, meu Deus!, pensamento que é rapidamente afastado pela lembrança de que, apesar de tudo, é mensalmente bem pago e com depósitos pontuais, de modo que pouco importa ter que ficar sentada esperando o tempo passar, pois ao fim do dia voltará para casa, alegre e um tanto culposa, ao encontro de seu filho que passa o dia numa escola para crianças, longe do calor e do colo da mãe, essa mulher que jamais verá seus sonhos de outrora concretizados.

Nem mesmo conseguiu se realizar criando seu único filho. Ela, que sempre quis ter outros tantos biológicos e adotivos, acabou tendo que delegar e abrir mão do prazer de acompanhar os passos de sua cria, de sorte que, pensava, havia fracassado não apenas como a mulher moderna entregue ao mercado de trabalho, mas, o mais grave, fracassara também como mãe.

Clara pensava, com vergonha, terei me frustrado inclusive como mulher? Pois casei virgem e uma mulher que casa virgem continuará assim por toda a vida, sem repartir o pão e o vinho. Nem mesmo gozei a liberdade de dispor do meu corpo. O corpo, a única coisa tão minha, e que eu entreguei a um homem só. Logo eu, defensora da reforma agrária, da doação, da proibição da concentração de renda nas mãos de poucos. Eu, protetora dos pobres, negros e oprimidos, concentrei nas mãos de apenas um toda a minha riqueza. Virgem, imaculada como Maria. Com meus filhos será diferente, eu os direi: doem-se de corpo e alma. Dê-se, minha filha, a quem quiser se dar.

Em outra cidade, bem longe de Clara, Virgínia se dedica aos afazeres domésticos, ao cuidado do esposo e às atividades de leitura e escrita, sem filhos em casa, no ventre ou na cabeça, e sem pretensões de salvar o mundo, de doar-se. Nem mesmo possui ideais de igualdade, pois prima pelas diferenças ao lembrar-se da mãe dizendo-lhe: “Você não é todo mundo.”

Virgínia não tem opiniões absolutas a respeito de nada e, diferente da amiga, evita os assuntos genéricos, porque acredita que cada caso deve ser analisado em separado, uma vez que ninguém é igual a ninguém, mesmo ao viver situações que se assemelham. Talvez essa sua visão distanciada das coisas tenha sido intensificada pelo estudo jurídico a que se dedica, sem, no entanto, possuir aspirações advocatícias. Não quer defender nem acusar ninguém. Quer salvar-se a si própria interpondo todos os recursos cabíveis para se libertar de todas as prisões, até das mais ínfimas, como a que exige que ela sentencie sobre tudo.

Ao entardecer, enquanto espera o homem, Virgínia se dirige até a janela, olha para o alto e pensa: “O que terá sido de Clara?” E antes que pudesse tentar adivinhar os desígnios daquela que fora sua amiga, balbucia: “Mas o que tem sido de mim?”.

Não quer pensar nisso, então abre um livro aleatoriamente e se vê diante de uma pergunta: “Deve a mulher trabalhar?” Virgínia imaginava que esse questionamento restava superado.

“Seu papel no lar, é bastante absorvente e sério para que ela procure além dele, outro campo de atividade” – disse um.

“Penso em aproveitar minha profissão, de algum modo, embora não saiba em que sentido” – Virgínia lembrou-se de Clara que também nunca encontrara o sentido de seu trabalho.

“A mulher pode competir com o homem e até superá-lo, em diversos casos. Mas, se não for necessário trabalhar, que não trabalhe. Ela deve ser para a sociedade uma espécie de ornamento” – disse Luiza Gulkis.

Em meio ao texto que lê, Virgínia não consegue escapar de sua pergunta: “Mas o que tem sido de mim?”

“Um ornamento, meu Deus! E de barro!”

Quando a culpa é das instituições, ninguém é culpado

Fui instada por um amigo a responder uma pergunta sobre a qual meus escassos conhecimentos históricos jamais poderia alcançar a certeza e a precisão de uma resposta digna de consideração ou nota.

Perguntou-me ele o que penso sobre o dever que a Igreja Católica tem de emitir um pedido público de desculpas por ter corroborado com a escravidão. Segundo ele, a instituição manteve escravos em seu domínio por um bom tempo, de modo que essa prática não se coaduna com a finalidade a que a igreja se presta.

Mas afinal de contas, questionei-lhe, quem é a igreja? O papa, os bispos, os padres, os cristãos? Afinal, quem é a igreja?

Nunca entendi muito bem o que as pessoas querem dizer quando afirmam que a sociedade ou as instituições têm uma dívida para com os negros, as mulheres, as crianças, os pobres ou seja lá quem for. Sempre me pareceu um discurso vazio de significados e carente de termos precisos que o justifiquem. E mais, não saberia dizer a que se prestaria “um pedido público de desculpas”.

Não sou adepta a nenhum entendimento que queira negar o passado de injustiças, guerras ou catástrofes, pelo contrário, acredito que entender a história é importante para se ter uma ideia do que deu ou não deu certo, do que se deve imitar ou afastar, e até mesmo uma forma de compreender o contexto atual no qual estamos inseridos. Entretanto, nenhum pedido de desculpas apagará as marcas daqueles que foram subjugados nem dará uma nova vida aos que foram cruelmente aniquilados.

As instituições, a sociedade e o governo são entidades abstratas que se constituem de pessoas que as compõem e as administram. Cada uma dessas pessoas, com suas práticas e comportamentos individuais é que dão concretude aos atos a elas atribuídos, de modo que não cabe a nós, sob o pretexto da abstração ou da generalidade, imiscuirmo-nos daquilo que nos cabe, não com relação a um passado de desacertos consumados, mas de um presente onde nos é possível rever atitudes e comportamentos em busca de soluções ao que se nos apresenta.

Que a escravidão deve ser discutida e analisada sob vários aspectos, não restam dúvidas; que devemos ter conhecimento e consciência dos danos e estragos que ela significou a milhares de pessoas, parece óbvio. No entanto, muito mais importante que retratações ou pedidos de desculpas por comportamentos passados, que em nada podem ser alterados, é o empenho que cada um de nós deve realizar diariamente no sentido de não financiar ou fomentar novas formas camufladas e simuladas de dominação.

Parece-me que há um gosto consciente ou inconsciente em se discutir a respeito dos culpados de outrora em detrimento da análise acurada dos problemas que enfrentamos na atualidade. Ao invés de solicitar aos membros de instituições que reconheçam erros pretéritos, num ato meramente simbólico e que, a meu ver, não representa absolutamente nada, penso que o mais sensato e proveitoso é pedir que todos nós debrucemos na observação e contenção das atuais mazelas que, se não mais dizem respeito ao açoitamento e subjugação de escravos, detém-se na indiferença, no desprezo e no descaso em relação a tantas pessoas que, provavelmente, não se sentem nem um pouco diferentes dos negros historicamente escravizados.

Quis saber do meu amigo a quem a igreja deveria direcionar suas desculpas? Aos escravos que não mais existem? Aos parentes que, embora indiretamente afetados, não sofreram na pele as marcas da violência? Aos negros de hoje? A quem direcionar um ato pobre de reparações e vazio de sentido?

Quando atribuímos responsabilidade a um ente jurídico abstrato retiramos de nós a parte que nos cabe. Quem é a sociedade se não cada um de nós que nela se insere? Quem é a igreja, se não suas autoridades e fiéis? Quem é o governo se não os representantes e nós que os elegemos?

A igreja não se destina a escravizar e nem o governo a corromper. O pensamento que faz com que as instituições nasçam, com algumas exceções, não está assentado no flagrante desvio de finalidade a que muitas vezes nos deparamos. Mas há um componente nessa história toda que é capaz de cometer as maiores atrocidades sob o argumento do bem geral, da proteção ao outro e até mesmo da obediência a um Deus que ganha diferentes formas, a depender da necessidade de quem Dele se utiliza.

“O homem é o lobo do homem”, frase tão repetida e que já se tornou lugar comum, mas que contém tudo quanto o homem não quer admitir. Precisamos atribuir culpas e condenar alguém, desde que não seja nós mesmos. Então, o homem em sua individualidade se esconde em conceitos abstratos de família, governo, igreja, sociedade e tantos outros.

Enquanto a responsabilidade recair em instituições, existentes apenas por meio de uma lei ou de um registro de constituição jurídica, todos estaremos a salvo e impunes. É por isso que os grupos se fortalecem, porque escondidos em meio à multidão ninguém pode ser achado e individualizado.

Assim, a responsabilidade pelo rompimento de uma barragem que matou inúmeras pessoas é de uma empresa, porque a empresa não é ninguém. Os desmandos e abusos são do governo, porque o governo não é de ninguém, e a sociedade é a grande responsável pela baderna e instituição do caos a que estamos imersos, e ninguém consegue puni-la, por que, afinal de contas, quem é ela?