O defeito que sustenta

Numa carta endereçada a uma das irmãs, Clarice diz assim: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro… Essa frase sempre me pareceu carregada de densidade e sentido. Clarice tinha defeitos reconhecidos por si mesma. Aliás, todos temos. Mas como nos é doloroso admitir. Como é mais fácil vê-los nos outros enquanto em nós os disfarçamos ou negamos. O que é uma grande bobagem, sabia Clarice. Sabia também que há defeitos que nos dão tanta força a ponto de, assentados neles, erguermos edifícios, quem sabe arranha-céus.

No entanto, quase sempre os vemos como algo maléfico que deve ficar oculto num lugar bem ao fundo para que não sejam percebidos nem mesmo por nós. Tentamos afastá-los para os recônditos da alma de tal modo que há um esforço sobre-humano no sentido de disfarçar o que é flagrantemente humano.

Ao que me consta, como parecia à escritora, há algumas falhas que, a despeito da reprovação provocada, é como uma espécie de alicerce sobre o qual construímos a vida. Nas muitas cartas direcionadas às irmãs, Clarice não se enfeita, não pretende se ocultar e revela partes de seu ser, temperamento e da própria personalidade que só os verdadeiramente grandes têm coragem de expor. Afinal, só os grandes sabem e admitem que também são pequenos.

Ela intitulou sua literatura como caótica e confusa. Admitiu o orgulho e a altivez, próprios dos que se dão importância. Ousou dizer que não era nem gostaria de ser popular, mesmo correndo o risco de ser antipatizada. Reconheceu em si violências, ferocidades, fragilidades, inseguranças. Afirmou: sempre fui um pouco cínica. Confessou: Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior. E como se não bastasse: Estou tão enojada de mim

Insatisfeita, instável, indecisa, ciumenta, áspera. Desesperançosa, anormal, colérica, egoísta, desumana. Irada, aflita, esquecida. Ainda disparou: Não me dou com quase ninguém. Seu repúdio a si mesma chegou ao extremo de dizer: Detesto pessoas que se parecem comigo. Denunciou ser esnobe por não se interessar pelas coisas do mundo, mas em vez de acusar o mundo, reconheceu que, na verdade, era ela quem tinha o temperamento pobre.

Chegou a questionar a irmã Tânia: eu sempre fui assim, difícil, melancólica? Até se via boa para com as irmãs, mas proclamou ser ruim para os outros. Sabia quão mais fácil é amar os que nos amam e a falta de surpresa e mérito que há nisso, o que a tornava comum como os que dão a vida pelos pais, filhos, netos… Tão óbvio e pouco heroico!

Diante do reconhecimento sincero de tantas falhas, Clarice tentou extirpar muitas delas para melhor conviver com os outros. E o que aconteceu? O touro castrado se transformou em boi.

Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim.

Ao cortar em si o que poderia fazer mal e incomodar os outros, ela afirma ter cortado a própria força, tão necessária para percorrer o caminho até o fim.

Postos esses inúmeros defeitos, como Clarice conseguiu produzir obras tão ricas vendo-se como ordinária, apesar de, para nós, parecer extraordinária e incomum?

A insatisfação constante, a permanente busca, o desejo de alcançar o inalcançável são desafios enfrentados pelos que não param de lutar até atingirem certo nível de consciência que os redima, por pouco que seja, dessa infinidade de falhas que o entendimento rejeita, mas não extingue. Se Clarice se sentisse satisfeita e completa em suas qualidades, não teria criado até a morte da pobre personagem Macabéa, que, de algum modo, representou a morte da pobre Clarice.

Mas não sou completa, não. Completa lembra realizada. Realizada é acabada. Acabada é o que não se renova a cada instante da vida e do mundo. Eu vivo me completando… mas falta um bocado.

Esse bocado que faltava não se completou durante a vida dessa mulher a qual não se poupava: Mas tantos defeitos tenho…. Defeitos que a levaram longe, tão longe que, ainda hoje, sua vida e obra vence as barreiras do tempo e do espaço. O que teria sido de Clarice caso se considerasse perfeita? Provavelmente, não teria ultrapassado nem as fronteiras da pequena aldeia ucraniana de Tchetchélnik, onde nasceu.

Não agasalho meus erros – escreveu. Soa tão mais digno admiti-los, não justificá-los aos outros, os quais, tantas vezes, não sabem e jamais compreenderão o que se passa dentro de nós.

A forma como se via refletiu na criação de suas personagens que nunca foram só boazinhas ou virtuosas. Joana, de Perto do Coração Selvagem, rouba livros sem o menor pudor, porque pensa que pode tudo. Agride um senhor atirando-lhe um objeto, sem culpas. Visita a amante do marido por quem sente desprezo. Por fim, o abandona sem remorsos.

Lóri, de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, é uma moça fútil, extravagante, vazia e que não se dava aos outros. Macabéa, de A hora da estrela, nem se sente muito gente. G.H é preconceituosa e mesquinha.

Coragem não lhe faltou para admitir tudo o que a constituía, quer soasse agradável ou nem tanto. Esconder-se é negar-se. Há que se ter cuidado para que a negação não alcance proporções abaixo de zero.

É Joana quem diz: Aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas. Clarice também aceitava tudo que dela vinha. Usou de confessos defeitos para dar vida e luz aos seus personagens, os quais só alcançavam certa iluminação pela consciência e aceitação da baixeza que os habitavam. Apenas quando G.H. se iguala à barata, animal imundo e nojento, é que se eleva acima da mediocridade em que vive.

Tocar as próprias imundícies sem julgamentos é o que faz Joana: Não se acusar. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é.

Se o abjeto, o escuro e o nojento habitam o mesmo espaço ilustre, límpido e admirável que há em nós, devem, igualmente, nos interessar e merecer a atenção, porque nos pertencem e, mesmo que os disfarcemos a fim de não deixá-los emergir aos outros, eles se mantêm latentes no mais profundo de nós.

Um defeito que nos serve de sustentáculo pode até soar estranho, mas não menos verdadeiro. Clarice talvez dissesse, mas se não, digo-o em seu lugar: eu vos amo, oh defeitos!, pois sem vocês, eu poderia ter sido tudo, menos a grandiosa escritora Clarice Lispector.

Clausuras

Logo que cheguei em Brasília, no ano de 2009, comuniquei a uma colega de trabalho sobre a necessidade de agendar consulta com dentista para iniciar um tratamento destinado a aliviar os incômodos de algumas dores na face e no pescoço, as quais certamente decorriam da protuberante dentição inferior, herança genética da família materna.

A colega indicou-me uma profissional bastante conhecida na cidade, sob argumento de que se tratava de uma das melhores que se tinha notícias. Não hesitei me dirigir ao lugar indicado, onde fui examinada, de imediato e sem exames, apenas pelo olhar experiente da tão bem falada doutora.

Sem qualquer instrumento preciso de medir, salvo o próprio olho acostumado a encarar tantos outros rostos, pediu-me que sentasse numa cadeira frente a ela, para que pudesse enunciar o diagnóstico exato.

Disse-me que o problema era sério, no entanto havia duas possíveis soluções: a primeira, usar aparelho ortodôntico; a segunda, submeter a uma cirurgia ortognática. Ou faria uma dessas coisas, ou teria que lidar com dores ainda mais insuportáveis no futuro. Mal sabia que dores maiores já me acompanhavam naquele momento presente. Ainda, tratou de afirmar que meu rosto era torto, assimétrico, mas com grandes chances de ser corrigido mediante a escolha de uma das alternativas apresentadas.

Claro que a visão limitada daquela mulher não atingiu todos os desarranjos que tinha para ajustar, tão mais graves e urgentes que os evidenciados num mero rosto. Inclusive, mais importantes e prioritários. Nunca mais voltei para outros encontros e, sozinha, me empenhei a corrigir e alinhar incongruências não reveladas, a consertar outras falhas ocultas e vícios redibitórios que não confesso aos céus nem sob promessa de paz eterna entre os homens.

Além do mais, não desejo consertar meu rosto, gosto dele da maneira que é. Não me rendo a interferências que o transformem e afastem dele o estado original em que foi concebido, desenhado e moldado para corresponder aos ditames íntimos. Não é dos mais bonitos, não é dos mais feios. É meu. Ninguém no mundo teve, tem ou terá igual. Daí a preciosidade desse semblante e o cuidado de não transformá-lo.

Torto ou não, que tem ela a ver com isso? Quero minha face dissonante como nos primórdios, mas límpida, pura, transparente, sem pinturas definitivas, livre de procedimentos estéticos que tentem modificá-la para forçar juventude ou de cirurgias simuladoras de perfeição. Quero a assimetria de meus contornos. A cara torta com seu par de grandes olhos, sobrancelhas de arcos e pelos naturais, nariz farejador de doçuras e ameaças, boca sedenta cuja fome ninguém mata. Quero as rugas que aparecerão à medida que atravessar os tempos. Quero tudo conforme me foi e será dado.

Fui embora dali decidida a impedir que me tocassem o rosto ou qualquer outra parte. Suportaria todas as dores da face, do pescoço e da alma se com isso pudesse me manter intacta.

Passados dez anos desse episódio, meu rosto em nada me incomoda, muito pelo contrário, gosto dele cada vez mais. Retrata o mundo que há em mim. É um rosto duramente e alegremente conquistado, à custa de ousadias, pequenas vaidades, pitadas de orgulho, agudas indiferenças.

Mas o que começou a me incomodar foi a rapidez com que meus dentes se movimentaram desregradamente na boca sem nunca ter mastigado nada com violência. Dessa vez não precisei de alguém que me apontasse algo a corrigir. A estética me é cara, não a ditada por quem me olha de fora, mas aquela que busco e percebo como desejada, dentro daquilo que me apraz e do que concebo como harmônico e belo a partir de algo interno que ressoa. O rosto permaneceria o mesmo como forma de preservar e ressaltar a identidade. Os dentes não.

Dessa vez não pedi referências a ninguém. Escolhi o doutor a partir de meus pressupostos. O primeiro deles: tinha que ser homem. Por que? Não pretendo revelar. Adianto que, dentro desses critérios, a depender da especialidade médica, escolho pessoa de um sexo ou outro. Assim: psicologia, mulher; dentista, homem; ginecologia, mulher; cardiologia, mulher ou homem; nutrição, de preferência homem; oftalmologia, homem ou mulher. Cirurgia, sempre homem; parto, de preferência mulher. Nada tem a ver com preconceito. É uma espécie de sensibilidade para captar quem deve fazer o quê, não com os outros, comigo. Que isso fique muito bem claro! Você que me lê estabeleça os próprios limites e exigências.

Escolhi um dentista que nem se ateve às assimetrias do meu rosto, creio que nem as notou, foi direto ao ponto.

Vamos consertar esses dentes, mocinha. Abre a boquinha, dá a mãozinha. Ah esses dentinhos irão para os devidos lugares.

Assim mesmo, no diminutivo e com carinho.

Geralmente nas consultas, que são mensais, enquanto aguardo o doutor chegar, as assistentes mexem aqui, mexem ali, dizem uma coisa ou outra, até ele aparecer e decidir onde apertar ou afrouxar o aparelho ortodôntico.

Na última oportunidade em que compareci à clínica, pela primeira vez, o assistente era um homem. Um homem alto, magro, mascarado, mas não tanto a ponto de me impedir senti-lo. Eu estava totalmente descoberta, sem máscara e, mesmo em condição desigual, isso não me amedrontou. Para um homem, é preferível que tudo o mais esteja encoberto, menos o rosto. Um corpo toca outro com o corpo. Uma alma toca a outra com os olhos. Mesmo olhos míopes e nus de óculos ou lentes como estavam os meus naquele momento.

O doutor demoraria uns trinta minutos para atender, de modo que ficaríamos, o assistente e eu, no silêncio da sala branca e clara, pois é norma do estabelecimento não deixar os pacientes sozinhos enquanto esperam. Ele se moveu até o computador, onde consultou o prontuário e disse: Você está usando elásticos e vejo que passaram alguns exercícios para fazer. Respondi que sim, embora nunca os tivesse feito. Acho que soou tão naturalmente que ele riu em alto som. Mas por que não faz? Por preguiça. As respostas eram espontâneas e pareciam chegar aos ouvidos dele de modo engraçado. Sorriu mais uma vez para reforçar: Tem que fazer conforme prescrito.

É verdade! Farei! Senão meus lábios vão murchar não é? Como se houvesse maneira de mantê-los lisos e volumosos para sempre.

Ele ficou à vontade para conversar. Tenho impressão de que, quando usamos de franqueza ocorrem dois movimentos possíveis: o outro gosta disso e se aproxima muito de nós, ou odeia isso e se mantém a quilômetros de distância.

Confessou que nos últimos tempos tem sido difícil atender pacientes, pois a maioria está temerosa com o vírus que circula. Não querem ser tocados, apesar da impossibilidade de tratamento odontológico à distância.

Só ficaremos em paz quando todos forem vacinados – disse.

Não quis frustrá-lo com a verdade. Como lhe diria que não ficaremos em paz mesmo vacinados contra todos os tipos de vírus e doenças do mundo?

Contou-me que perdera um cunhado em decorrência da pandemia.

Você sabe como é o enterro de quem morre em decorrência do vírus? – questionou.

Nunca presenciei, mas sei que é indigno se levarmos em conta se tratar do último ato de despedida de uma pessoa.

Você já foi num enterro desse?

Não, mas li um livro que conta como funciona. A peste, de Albert Camus, já ouviu falar?

Respondeu que não. Discorri um pouco sobre a obra, mostrou-se interessado, anotou o nome, disse que a procuraria.

Gosta de ler? – perguntei

Sim.

Quais livros?

A bomba, A Bíblia…

A bomba me assusta, mas a Bíblia, ao contrário, me acalenta.

Falamos sobre a importância dos livros, a transformação que eles causam em nós, sobre a criação dos filhos. Disse que não é nada fácil educá-los. É pai de um homem de 25 anos, apesar de aparentar ser muito jovem.

Você tem filhos?

Respondi-lhe que ainda não tive coragem de dar um passo tão maior que minhas pernas e nem sei se terei.

Conversamos também sobre a importância da vida e de vivê-la, mesmo diante do risco da morte a nos rondar. Com vírus ou sem vírus, ela nos espreita a todo momento e pode nos surpreender a qualquer hora. Não devemos perder tempo. Ele concordou. Conversamos sobre o respeito que precisamos direcionar a nós próprios e aos demais. Revelei que escrevo. Ele suspirou, atônito: Agora entendi. Mas eu mesma, até agora, não entendi nada. Disse-lhe que, apesar do isolamento físico, experimento muitas alegrias em casa, principalmente em virtude do prazer estético de ler um livro, ouvir boa música e do contato com as variadas formas de arte.

A vista estava turva, não o enxergava bem. Ouvia apenas a voz suave, baixa, pausada, sentia a presença e a discrição daquele homem cuja metade da vida havia se passado dentro daquele consultório de pacientes intocáveis. Os anos que tenho em idade, ele passou dentro daquela empresa.

Prometi-lhe um livro de minha autoria. Senti sua alma, apreendi a atmosfera do seu ser. Ele precisa de pessoas que se deixem aproximar e tocar. Se o encontrar na rua, não o reconhecerei. A sorte é que a miopia só me impede ver a matéria, não a transcendência. Quanto a isso, o embaçamento da visão nada atrapalha. Meus olhos o viram sem ver.

Quando o doutor entrou na sala nossa conversa já tinha ido muito longe. Talvez o assistente nunca tivesse ultrapassado as paredes brancas e o silêncio daquele consultório em seus mais de trinta anos de prisão. Deu tempo de anunciar que estou lendo Dom Quixote. Perguntou se o livro é bom. Acho que não descobri adjetivo que o qualifique de tão bom – respondi. Despedimos-nos, sob o reconhecimento mútuo de que tivemos uma conversa agradável e prazerosa.

Prestes a sair da clínica, ele veio ao meu encontro. Você esqueceu isso. Estendeu as mãos e me entregou um objeto. Eu não havia esquecido nada.

Em breve nos encontraremos. Ele se aproximará de mim, tocará meu livro e me escutará falar em silêncio sobre coisas que aprendi durante os mais de trinta anos em que vivi sob outra espécie de clausura.

Tio Juquinha e a porquinha

É, meus amados leitores, como o mundo dá voltas, e como, muitas vezes, nos vemos obrigados, por imposição própria ou pedido alheio, a fazer as mesmas coisas que um dia serviram de fundamento para julgarmos e condenarmos os outros. Quantas vezes ousamos acusar sem, antes, entender os motivos alheios que os levaram a determinada atitude ou comportamento. No entanto, para pagarmos a nossa língua, como bem dizia minha avó, eis que nos vemos repetir as mesmas ações outrora veementemente reprovadas.

Vocês devem estar se perguntando a que me refiro. Acalmem-se, pois para mim não é nada fácil admitir o que ora venho expor, tendo em vista dois motivos: o primeiro, admitir publicamente um desatino fere em demasia meu orgulho; o segundo, ter que relembrar uma morte trágica, cujo abalo acometeu a família, é rememorar tristeza já vencida e afastada por essa memória que aprendeu por si mesma distanciar acontecimentos passados. O problema é que a forma encontrada por ela para dispersar os acontecimentos tristes ou danosos atinge os alegres e benéficos, de maneira que todos acabam por cair numa imensa teia neural de esquecimento. Resta, pois, contentar-me apenas com aquilo que está sendo no exato momento que é.

Nunca pensei escrever por encomenda ou em troca de dinheiro. Até critiquei muito quem assim o faz. Quanto a mim, se o fizesse em decorrência desses motivos, a escrita seria fatalmente abalada pela ideia da obrigação que tanto me oprime, inibe e paralisa. Sempre tratei de escrever por mera disposição da vontade, na hora em que o assunto se revela de tal maneira que ou escrevo ou a inquietação me toma e não me deixa fazer outra coisa senão desabrochar em palavras.

O emprego público que conquistei, por mérito, paga-me o suficiente para prover meu sustento, de modo que posso me gabar de escrever tão somente por vontade e na hora que bem quero. Portanto, valho-me disso para enunciar aos quatro cantos que só escrevo sobre aquilo que me vem à cabeça e, se tivesse que ser remunerada para isso, não conseguiria esboçar uma linha sequer.

Ocorre que um amigo de infância surgiu das profundezas de São Salvador da Bahia noticiando-me que está lendo o livro “Quero dar minha mãe ao mundo”, de minha autoria, o qual lhe transporta à nossa infância e o leva a rememorar episódios que vivenciamos juntos. Inclusive, ao ler um de meus textos, cujos nomes dos personagens troco para despistar os verdadeiros, disse-me: Essa Maria preta né Maria preta não, viu? É fulana de tal… Pensa que me engana… Gargalhamos até não poder mais. Ele é fogo. Para não ser de novo desmascarada, aqui, vou me referir ao dito cujo pelo seu nome verdadeiro. Quem manda mexer com quem escreve?

Portanto, percebo que mesmo quando invento a verdade se revela.

Pois esse mesmo amigo tratou de me fazer uma encomenda: Escreve sobre a porquinha do Juca… Escreve também sobre a nossa vizinha, aquela bruxa… Escreve….

Pode parar – disse-lhe. Uma coisa de cada vez, além do mais, não sou escritora de encomenda.

O problema também é relembrar os detalhes dos acontecimentos, pois falo e repito, minha memória não é das mais registradoras. Penso até que ela deveria ser estudada e analisada pelas ciências cognitivas ou mesmo pela Literatura, neste último caso, para equiparar-me a Michel de Montaigne, o que não seria nada mal, caso essa fragilidade comum me levasse a escrever como ele.

Uma vez que fui instada a escrever sobre temas impostos pelo grande amigo Nilo, que de tão grande recebeu por nome o do maior e mais importante rio do Egito Antigo, não me esquivei de atender-lhe o desejo. Quem gosto faz de mim o que bem entende, às vezes, até misérias, as quais obedeço por pura intenção de provar o amor.

Tive que buscar informações adicionais para formular o enredo da história de tio Juquinha e sua porquinha, uma vez que quase nada me resta na lembrança a esse respeito. Consultei o encomendador do texto e as primas cujas memórias são infalíveis quando se trata de rememorar maus feitos.

Eis o que segue:

Tio Juquinha não para quieto um só minuto. Mexe aqui, ali, acolá, cria, inventa e reinventa. É um criador de primeira qualidade. Há quem, até hoje, não se conforma de ele não ter ido estudar em Harvard, como legítimo representante do Brasil, tendo em vista sua inteligência e aguda capacidade criativa. Tudo ele conserta, ajeita, remenda e repara. Ao me visitar, dá conta de todas as coisas quebradas da casa e, quando menos se espera, consertou todas elas como num passe de mágica.

Suas mãos são milagrosas de um tanto que deu agora para fazer as vezes de curandeiro. Se alguém passa mal do estômago, mistura umas ervas fortes e dá para a pessoa beber. Quando a gente pergunta o que tem dentro, responde: Bebe! E se a gente insiste, ele fala mais alto: Bebe! Quem bebe põe até as tripas para fora, fica curado e os créditos vão para tio Juquinha como a pessoa que faz o mais potente remédio. Nem precisa pagar uma consulta ao gastro. Tio Juquinha é mil e uma utilidades.

Há um tempo, quando morava na Bahia, foi presenteado com uma porquinha que, além de porca, era muito burra. Diferente dos cachorros, conhecidos pelas semelhanças que têm com os donos, a porquinha em nada se parecia com o prodigioso tio Juquinha. Vou contar por quê.

Mas tenham calma, leitores, e você também Nilo. Eu bem sei que está curioso para chegar ao fim dessa estória encomendada. Basta a obrigação de criá-la, a qual aceitei sem relutâncias, apesar de contrariar meus princípios de escrevinhadora. Se não a escrevo por dinheiro, posto não ter me oferecido nenhuma recompensa, faço por imensa consideração que tenho à nossa longa amizade. Nem pense que isso lhe dá o direito de fazer novas exigências. Sei muito bem que tem condições suficientes de se tornar um grande escritor e discorrer sobre os temas que lhe são aprazíveis ou desprezíveis. Por ora, fique bem claro: não me peça mais nada. Nem para terminar rápido essa narrativa.

Nilo, me conta como vai a vida em Salvador. Tem ido a Coribe? Ainda irei à capital baiana lhe fazer uma visita e tomar um café naquela sua sala chique e espaçosa, frente ao mar. Você me leva a fazer cada coisa. Da última vez que visitei a cidade, também por sua causa, jurei nunca mais voltar. E olha eu querendo retornar para vê-lo mais uma vez.

Senhor Superintendente Federal, Vossa Excelência manda, eu obedeço. Sou sua serva, meu amigo. Nilo, você está ganhando muito bem, eu sei. Você é rico, sei inclusive. Vai virar político, pode escrever. Quando isso acontecer baterei à porta do seu gabinete e exigirei o pagamento dessa minha profecia. E por esse texto, Nilo, vai pagar quanto? Já que feri um de meus princípios de escrevinhadora, a liberdade de escolher os assuntos a tratar, sem desmandos alheios, nada mais impede que agora escreva por dinheiro.

Onde estava mesmo? Lembrei. De posse da porquinha, tio Juquinha decidiu colocá-la em seu devido lugar. Alguma coisa nela deve ter lhe despertado a ponto de tentar protegê-la contra possível furto, de modo que o chiqueiro a ela destinado contou com algo inovador – uma cerca elétrica. Só tio Juquinha no mundo pensaria numa coisa dessa.

Enquanto colocava a cerca em volta do chiqueiro, feliz e compenetrado com a mais nova invenção, a porquinha se mantinha quieta, amarrada num coqueiro, olhando-o de longe, mal sabendo o destino que a esperava.

Quando tudo ficou pronto, tio Juquinha convocou a família para assistir o teste do experimento. Quem tocaria na cerca elétrica para conferir se estava em pleno funcionamento? A própria porquinha, por expressa disposição do proprietário da bichinha. Quem seria doido de pôr à prova a própria vida? Nem tio Juquinha, apesar da coragem, ousaria tanto.

Desamarrou a porquinha e a carregou no colo até o chiqueiro.

Agora é só tangê-la para que ela toque a cerca – gritou.

Apesar de um pouco assustada, movimentava-se com seu rabinho para lá e para cá, mas ficava só enrolando no meio do chiqueiro, sem encostar no cercado, como se pressentisse o pior.

No entanto, tio Juquinha não é dos que desistem facilmente. Tanto tangeu, tanto cutucou, tanto azucrinou a bichinha que ela tocou a cerca por três vezes. Suspensão no ar… Nada aconteceu. Nem mesmo um pequeno choque.

Tio Juquinha não se deu por satisfeito, e logo bolou um plano, porque como disse, ele é dos que insistem e persistem até conseguir o que quer. Teve uma ideia das mais geniais e a proclamou aos ouvintes, que a essa hora estavam ávidos para o desfecho dessa história.

Você lembra, Nilo? Eu não lembro de nada. Tudo que conto aqui ouvi de alguns dos presentes, cujas narrativas juntei para atender seu pedido. Calma, Nilo. Consigo pressentir daqui sua agonia para que termine logo. Não se avexe, senão paro de escrever agora e ninguém mais saberá o que aconteceu. O escritor tem lá suas vinganças. Oh tempo bom aquele de nossa infância, não é mesmo? Nossas brincadeiras infindáveis, nossas correrias por detrás dos cartórios e no jardim, as brigas, as competições, as reconciliações, os toques e retoques da meninice. E a porquinha…

Pois bem, tio Juquinha teve outra magnífica ideia após a porquinha tocar três vezes a cerca elétrica, sem sucesso. Disparou a falar: Vamos jogar água nela e na cerca. Pega o balde d’agua, Luizinho.

A porquinha encharcada relutava aproximar da cerca, até grunhia alto como último grito de protesto. Tão molhadinha estava, tão ouriçada, doidinha e burrinha que tocou o cercado e…. explosão.

Caiu dura e estatelada no chão. Mortinha, com o seu couro frito, pedindo, aliás, implorando para ser comida.

Nenhum dos narradores contou-me como tio Juquinha reagiu ao acontecimento. E eu realmente não me lembro. À noite, fez-se um churrasco da bichinha e todos se deliciaram com sua desgraça. Houve até paródia para homenageá-la, a qual foi cantada em seu entorno, enquanto era degustada:

Que horror, a porquinha tio Juquinha matou/Na cerquinha água ele jogou/E a porquinha eletrocutou.

Uma e vinte da manhã. Chega, Nilo. Deu uma fome danada agora e nem ao menos tenho porquinha em casa para contar estória ou virar churrasco com o qual poderia me saciar antes de dormir.

P.S. Uma prima leu o texto e disse: faltou contar que tio Juquinha odiou a paródia que fizemos para retratar o acontecimento e ficou com raiva de nós todos, pois embora goste de pirraçar os outros, parece que não costuma achar muita graça quando é ele o motivo da piada.

Essa narrativa pode ir bastante longe à medida que novos contadores surgirem para completá-la com o muito que falta à minha curta memória.

DUAS MULHERES, DOIS CACHORROS E UM DESTINO

Para falar sobre cachorros, antes de mais nada, preciso esclarecer que não sou a favor de nenhum tipo de maus tratos destinado a quem quer que seja, bicho ou homem. E digo isso para não confundirem a calorosa indignação que ora venho expor com uma aparente tendência à maldade, pois não me volto nem mesmo contra inofensivas baratas, desde a mais recente descoberta que, também elas, tem pleno direito à vida, porque tudo o que nasce merece viver. Aliás, tem um bicho, e não vou nem mencionar o nome dele, que poderia nem ter nascido. Mas não sou a criadora do mundo para ousar decidir quem sim e quem nunca, portanto, deixo tudo ser como é.

Mas acontece que, por aí, estão achando ser o cachorro mais importante que gente. E não é. Ah você por acaso já teve cachorro para saber? Hão de perguntar-me… tive sim; o nome era Harry e eu gostava muito dele, apesar de nunca o ter reconhecido como filho, sobrinho, irmão ou enquadrá-lo em qualquer grau de parentesco, por mais próximo ou distante que fosse.

Ah mas tem gente que gosta mais do seu próprio cachorro do que dos parentes…. Hão de dizer-me. Eu sei, bem sei, inclusive tem gente que gosta mais de coisas, do carro, da casa, do diamante, do dinheiro e do ouro que dos parentes. Tudo isso sei e, também, tudo isso me espanta. Não deveríamos ser assim. Mas acontece que somos o que somos. Inclassificáveis, inclassificáveis… ora essa, já caí foi no embalo de uma canção.

Meu cachorro era branquinho, bonitinho e muito teimoso, tão teimoso que morreu atropelado por pura teimosia e desobediência. Um dia, minha mãe saiu para fazer sua caminhada ritualística, uma hora por dia a que ela se dedica religiosamente há mais de vinte anos, e o danado do Harry resolveu ir atrás dela, que o repreendeu assim: Harry, fique em casa, senão você será atropelado na rua. Harry não ficou em casa e foi atropelado. Como não sou teimosa, todas as vezes em que minha mãe me mandou ficar em casa, eu fiquei. Vai saber o que teria sido de mim se fosse relutante como Harry. E daí é que nem todo cachorro se parece com seu dono. Comigo, ele não se parecia em nada.

Minha mãe ficou responsável por cuidar dele durante minha ausência, quando tive que deixá-lo para seguir meu próprio destino e Harry não mais cabia em minha vida. Ela até tentou evitar um mal, mas se não tivesse sido atropelado, eu o teria perdido por outros motivos, como doença ou velhice. A desobediência dele apenas lhe antecipou o que viria mais tarde.

Depois disso não quis mais ter cachorro. Agora é que não terei mesmo, pois não sou maluca de deixar um bicho preso num apartamento. Não faço nem com um bicho o que não gostaria que fizessem comigo. Deus me livre de ficar presa, sob o argumento de cuidado e de amor. Amor a quem? Sai de mim, abacaxi. Era assim que minha avó paterna dizia. Repito o que os outros dizem se é o que também quero dizer nas mesmas ou semelhantes situações.

Em Brasília, os moradores gostam muito de cachorros. Alguém pode me dizer que em São Paulo também gostam, no Rio de Janeiro, na Bahia ou no sul… Mas vou falar de Brasilia, porque é onde vivo e posso acompanhar o cotidiano de pessoas com seus animais.

Esses dias vi um homem: com a mão esquerda segurava um cachorro pela coleira e, com a direita, outro no colo. Fiquei olhando, entregue a pensamentos como esses: Será que ele não consegue andar e segurar em si mesmo? Será que a liberdade de ter as mãos vazias o deixaria desorientado e perdido? Será que ele precisa se agarrar a qualquer coisa? Será que não consegue ser livre e leve e, por isso, precisa carregar o peso de outros seres? Será que esses cachorros precisam dele ou ele é quem mais precisa desses cachorros? Os bichos nunca precisam dos homens. Os homens é que precisam dos bichos, sob pena de sucumbência, concluí.

A necessidade e a carência humanas podem ser tão grandes que, muitas vezes, até tratam os bichos por seus descendentes. Só teriam condições de provar que cachorros não são filhos se tivessem diante de situações onde precisassem escolher entre salvar a vida do filho-homem ou do filho-bicho. Não tenho a menor dúvida que, por mais culto e inteligente que fosse, a pessoa agiria tal qual Fabiano, sertanejo rude, personagem de Graciliano Ramos, que, apesar da ignorância, mas movido pelo instinto, resolveu matar baleia e salvar os filhos. Ou então como fez o pai de uma amigo que, tendo a canoa virado no rio, entre resgatar o filho e o cachorro que afogava, também escolheu o primeiro. Minha dúvida paira em pensar se na modernidade houve uma decadência no conceito de filho ou se elevaram demais o de cachorro.

Esses dias também vi uma mulher no shopping dando um passeio no qual empurrava um carro de bebê. Andava à minha frente e, como adoro ver as carinhas dos bebês enquanto passeiam, aproveitei quando ela parou e fiz questão de passar ao seu lado para dar uma olhadinha dentro do carrinho. Acontece que não havia bebê algum. Tinha uma cachorrinha muito bem tratada, devidamente bem vestida com roupas da moda, laços nos cabelos e tomando sua mamadeira. Susto! Não seria capaz de passear sozinha, sem ter que trocar fraldas, dar de comer, água ou tudo o mais que a cachorrinha lhe exigia? Aliás, que a mulher exigia de si mesma, porque a coitada da cachorra era uma indefesa em mãos humanas que teima transformar bicho em gente, sem nenhum consentimento da vítima. Um abuso, uma invasão imperdoável que fazem aos animais, que nunca pediram para serem civilizados ao truculento modo dos famintos humanos os quais querem o outro à sua forçada maneira.

Outro dia, num restaurante, percebi que havia pessoas aguardando lugares enquanto eu permanecia sozinha numa mesa com quatro cadeiras, lendo um livro e bem satisfeita após ter almoçado. Ofereci o meu lugar a uma mulher que estava do lado de fora, ao que ela respondeu que, infelizmente, não poderia entrar no restaurante, apesar da fome, porque estava acompanhada de seu cachorro, e este estava proibido de entrar no recinto. Nada mais disse! Mas bem que ela poderia ter saído sozinha se o seu destino não era um pet shop ou simplesmente um passeio ao ar livre. O pior é que estava crente que comeria com o seu cachorro à mesa, se não tivessem sido barrados logo na entrada.

Também já contei que meu próprio irmão me convidou para um almoço onde eu seria apresentada às minhas sobrinhas, e fui saltitante por imaginar que ele havia entrado com um processo de adoção de meninas, sem me avisar, portanto queria me fazer uma surpresa. Quando chego em sua casa, eis que me deparo com Juju e Bete, duas cachorrinhas muito bem vestidas e penteadas ao calor de um secador jamais dispensado por elas. Ou seria por ele? Fazer o quê? Tia de verdade não renega sua descendência. Estou aqui para o que der e vier. Tive que cumprir minha palavra de irmã.

Na casa da minha mãe também tem cachorro no quintal e o nome dele é Peter. Diz o marido dela que Peter foi ali colocado para ficar de olho na casa, mas bem desconfio que a função primeira do vigia é ficar de olho nela, porque é um cachorro tão bravo que ameaça morder até o dono, quanto mais outros que queiram beirar a esposa amada. A última vez que fui a Coribe tive que colocar esse cachorro feito detetive em seu devido lugar.

Numa manhã fria, acordei tão disposta e alegre que decidi ler um delicioso texto. Envolta, compenetrada, absolutamente entregue à leitura, fui inconvenientemente interrompida pelo latido constante, agudo e continuado de Peter o qual não dava trégua. Dirigi-me até o quintal, olhei bem para os seus olhos e lhe disse num tom grave: Peter, deixa de ser mal educado. Vê se cala essa boca. Não vê que estou lendo?

Ele continuou a latir, assim me desloquei novamente ao seu encontro, olho por olho, dente por dente:

Peter, você não tem educação? Cala a boca que você está atrapalhando a minha leitura.

Antes de me sentar no sofá, ele voltou a latir. Dessa vez, fui muito brava em sua direção, disposta a falar de um jeito que seria a última, a definitiva, gritei:

Peter, cala essa sua boca, senão você vai ver o que vou fazer com você.

Peter calou-se imediatamente, ficou mudo durante todo o dia, não latiu para pedir almoço, não latiu para soltá-lo às três horas da tarde. Permaneceu silente, desconfiado, amedrontado, patético.

O que você fez com meu cachorro? – perguntou o marido de minha mãe.

Dei uns três gritos nele – respondi heroica.

Você calou a voz do meu cachorro – disse-me.

Era uma acusação grave demais para mim. Peter não latia, fiquei preocupada, me sentindo uma ditadora a abafar a voz dos que atentam contra minha paz e meu sossego. Não poderia ficar conhecida como a mulher que calou o grito de um bicho, logo eu, que brado, a meu modo, sobre a importância da liberdade de expressão e me expresso como bem quero, sem nunca admitir calarem-me.

Peter ficou muito triste, caminhava devagar, cabeça baixa. Um só latido não soava de sua boca de dentes afiados para não me incomodar. Em casa, todos ficamos assustados, sem entender muito bem o acontecimento. O esposo de minha mãe me olhava de lado, como a indagar, que mulher é essa que até o bravo e destemido Peter obedece?

A culpa e o remorso me tomaram. Fui até o quintal, mansinha, implorando-lhe perdão: Peter, meu amor, vem aqui na tia. A tia não vai mais brigar com você, meu amor. Venha, chegue perto. Toma uma paõzinho que trouxe para você, coma meu bem.

Peter rejeitava o alimento e os meus carinhos. Aquele cachorro valente se transformara num animal reprimido, fraco, medroso, acabrunhado.

Apelei para Deus ao perceber que, por mais doce que eu fosse, Peter não voltaria a ser como antes. A resolução do caso exigiria forças mais potentes. Algo se quebrara dentro dele, um olhar inexpressivo anunciava uma possível depressão. Fiquei apavorada. À noite, rezei o terço e, antes de cada dezena, repetia:

Meu Deus, devolve a voz de Peter. Não quero entrar para a história como a mulher que calou o latir natural de um cachorro.

Quando balbuciei “seja feita a Vossa vontade…”, ouvi um barulho. Era Peter. Cheia de alegria, acordei minha mãe para dizer-lhe: Mãe, Peter voltou a latir.

Dormimos em paz, e eu prometi a Deus que jamais gritarei com ninguém durante toda a minha vida, nem com gente, nem com bichos.

Pelo menos o meu caso com Peter teve solução. Mas o da minha mãe com Harry foi obrigatoriamente arquivado por morte real do sujeito.

Santo bonito

Desde criança ouço minha mãe dizer que é por demais devota e adoradora de Santo Expedito. Na família materna, muitos recorrem, de preferência, a Nossa Senhora Aparecida, a boa e generosa mãe que, com seu manto sagrado, cobre a todos indistintamente e sem pausas. Mãe a gente chama toda hora. Dizemos: Ave Maria! Mãe do céu! Virgem Maria Mãe de Deus! Mãe é nome tão doce que até sem ter o que falar a gente chama: Mãaaae!

Que é?

Nada não!

É só para pronunciar mesmo e ter na boca o gosto da palavra dita.

Diferente dos outros familiares, minha mãe resolveu se apegar foi ao santo das urgências, o que diz muito sobre o seu modo de ser. Parece que ela só se desespera mesmo em casos de extrema necessidade, quando a coisa fica tão feia que se mostra irresolúvel por instâncias digamos mais fracas, e é preciso apelar para forças poderosíssimas e mais ágeis.

Além de responsável pela solução de questões urgentes, urgentíssimas, Santo Expedito também é conhecido como o santo das causas impossíveis. Mas sinceramente não sei o que tanto minha mãe tem de urgente para resolver e quais as situações impossíveis a que ela tanto demanda interferências. Nunca conversamos a respeito. E também não pergunto para não violar a intimidade que os dois estabeleceram e que dura há tanto tempo.

Só sei que uma vez entramos numa conversa sobre figuras religiosas e ela me disse: Minha filha, compra um Santo Expedito para você. Para ele, não há causas impossíveis. É meu santo preferido e ele nunca nega nada a ninguém.

Filha obediente que sou, lá fui atrás do milagreiro. Comprei um bem grande, bonito e forte, porque além de milagres queria uma imagem de um homem muito bem apessoado na minha sala.

O problema é que, de tão bonito, forte e poderoso, nunca tive coragem de me aproximar dele para pedir nada, nem mesmo nas minhas mais avassaladoras urgências. Olho para Expedito, o qual segura com a mão direita aquela cruz levantada para o alto, onde está escrito hodie, e pisa, com o pé direito, num corvo que tentava adiar a sua conversão ao repetir-lhe cras, cras, cras, que quer dizer amanhã, amanhã, amanhã, e fico toda inibida de chegar perto. Embora a cruz que carrega com a palavra “hoje” seja convidativa para não mais adiar a proximidade, sua beleza me intimida.

Tenho recorrido a outros, às vezes, até a mim mesma quando não consigo balbuciar sequer uma palavra, atônita que fico frente a ideia de pedir algo que muito quero no momento e ver a graça concedida, tendo depois que arcar com as consequências daí advindas. Falo assim: Ai Deus, o Senhor sabe o que preciso. Muitas vezes não sei o que peço. Então não vou pedir. Aí acontece umas coisas que só Deus mesmo para saber que era bem o que eu queria e não disse.

Uma vez que Santo Expedito está há muito tempo em minha casa, virgem de pedidos, pela falta de demandas de minha parte, resolvi mandá-lo para a minha mãe, que recorre tanto a ele. Junto a ela, o benevolente santo teria favoráveis condições de mostrar a que veio e muito mais oportunidades de provar o que sempre ouvi dela – que Expedito é o santo das causas impossíveis e urgentes.

Mãe, vou mandar Santo Expedito para a senhora.

Por que, filha?

Acho que ele não ficou bem aqui. Assim que souber de alguém que viaje de Brasília para Coribe me avise que vou mandá-lo praí.

Assim ela fez. Quando soube de alguém que poderia transportá-lo avisou-me para embalar o santo e entregá-lo para fulano que o faria chegar em suas mãos.

Procurei papelões, isopor e caixa para protegê-lo, a fim de evitar ferimentos decorrentes de possíveis pancadas durante a viagem. Estava tudo pronto e eu não tinha dúvidas de que estava fazendo a coisa certa. Fitei Santo Expedito com um genuíno olhar de despedida e eis o que se seguiu:

Quando fui deitá-lo na caixa, num ato de total desprendimento e desapego, ocorreu-me questionamentos paralisantes: onde estou com a cabeça a ponto de colocar um santo poderosíssimo como Santo Expedito para fora de minha casa? E se um dia resolver comprar outro e ele não aceitar minha residência como morada, ao lembrar-se que o despachei para tão longe?Estaria subliminarmente deixando transparecer que não tinha urgências a resolver e que nada era impossível para mim e, por isso, dispensaria a sua presença?

Só sei que não tive coragem de me desfazer dele e, como para compensar o meu quase desatino, dei-lhe um lugar de destaque na estante que mais gosto, num lugar bem visível da sala, que é onde merece ficar.

Tive que revelar para minha mãe o ocorrido e ela concordou com a minha decisão de cancelar a viagem de Santo Expedito.

Continuo calada diante dele, sem coragem para lhe pedir nada. Olho-o de lado, desconfiada, à distância, e rezo para que nunca precise de algo tão urgente ou impossível assim que tenha de me render e me jogar aos seus pés desesperada. Mas a verdade verdadeira é que não quero mostrar desespero frente a um santo que, de tão bonito, me emudece toda.

Na teoria tudo é uma maravilha

Quem mora em apartamento, assim como eu, deve ter escutado de vizinhos muitas coisas as quais preferiria que tivessem passado longe dos ouvidos. Comigo acontece o mesmo, e olha que vivi até agora em quatro apartamentos diferentes e, em todos eles, fui e sou expectadora de conversas e acontecimentos da desconhecida vizinhança que se faz conhecida apenas pelos seus berros.

E por falar em berros, já fui acordada no meio da noite por muitos deles, vindos de uma mulher que apanhava do marido e tinha uma filhinha que presenciava tudo. Mas todas as vezes que pensava em denunciar, lá estava ela no outro dia toda sorridente junto ao torturador. Era tão comovente a cena que cheguei a pensar que, na verdade, ela não apanhava de verdade. Provavelmente, existia conivência sua para acaloradas noites de sadomasoquismo. Só essa hipótese explicaria ela chamá-lo de amor e estar tão aparentemente feliz ao seu lado após noites em que se ouvia tamanha gritaria.

Esses não são mais meus vizinhos, graças a Deus. Agora, tenho outros, cujos gritos e conversas são de diferente ordem.

Os diálogos acontecem num tom muito alto. A voz de uma das mulheres é chata, estridente e me incomoda profundamente.

Miguel, vai tomar banho. Miguel, você já comeu? Miguel, vá escovar os dentes. Miguel, eu sou a sua mãe e você tem que me respeitar.

Miguel dá-lhe cada uma na cara dessa mãe que fico daqui encabulada. Viro para meu esposo e digo: mas que menino petulante, mas esse Miguel é muito do atrevido, mas que menino desobediente. Ah se fosse meu filho…

E penso logo que se fosse meu filho, não estaria fazendo o que Miguel faz, mas outras coisas perfeitamente justificáveis pela idade, pela fome, pela noite mal dormida, pelo resfriado… Mas bem que esse filho é também o resultado da relação estabelecida com essa mãe e do comportamento dela. E como fala alto, como grita, como repete e repete e repete. Ah se fosse minha mãe… Deve ser bem isso que Miguel também pensa para faltar alto, gritar e repetir, repetir e repetir.

Sem falar que o único assunto da casa é comida. Claro que é dos mais importantes para nos manter de pé, mas de que mais eles se alimentam além de feijão e arroz? Pelas conversas que ouço, ainda não consegui descobrir. No entanto, o fogão não para e dá para sentir o cheiro de comida até quando acordo na madrugada.

Às vezes fico tão indignada com a quebra do meu silêncio que vou lá na minha cozinha, fecho a janela bem violentamente e balbucio algumas palavras para eles escutarem e perceberem o quanto incomodam. Parece que não tem surtido nenhum efeito. Vai ver que nem mesmo escutam.

Há poucos dias, assisti uma entrevista com uma atriz que acaba de se tornar mãe e ela disse que as leituras que fazia reduziram drasticamente após a chegada da filha, a qual exige muito cuidado e atenção. De fato, como os filhos exigem de suas mães. E exigem sobretudo que elas tenham certo jogo de cintura que, vamos combinar, não é nada fácil em muitas ocasiões. Às vezes, tudo o que se aprende sobre civilização e elegância não dura um segundo diante das birras e teimosias dessas criaturinhas que são bem filhas de seus pais. Uma amiga paraguaia, dizia-me: Só tive um Maiara, porque filho escraviza. Entendi tanto o recado que até agora sou senhora de mim mesma.

Um dia comentei aqui em casa: Se esse Miguel ficasse dois dias comigo, ele ia se ajeitar. Ah se ia!

Meu esposo olhou-me de soslaio: Quando tiver um filho, ele vai fazer pior com você.

Ah, mas não vai mesmo.

E o que você iria fazer com ele? – perguntou-me.

Pensei em como me relaciono com os meus sobrinhos e demais crianças, sorri ao responder:

Eu diria: faça o que você quiser, meu filho. Mamãe deixa, meu amor.

Na teoria, caros leitores, tudo é uma maravilha.

A arte da sedução

O vento lá fora uiva, atinge-me sentada no sofá da sala. Gélido, não consegue esfriar-me, tomada que estou pela lembrança sorrateira que ora chega e aquece o meu desejoso coração humano.

Era uma manhã também gelada na cidadezinha de Penedo, interior de Alagoas, quando coloquei os pés para fora do carro e fui transportada para uma outra época, quem sabe pela forte presença do passado em suas ruas e centro histórico.

Não tive a menor dúvida de que, em algum momento do tempo e do espaço estivera ali, como senhora ou escrava, mas com certeza num corpo de mulher. Assim serei nas sucessivas e eternas vidas. Menos que um tormento, ser mulher, feminina, sabedora de mistérios e profundezas, é a minha exaltação e o meu modo de existir nesse mundo que, a despeito das pluralidades, foi configurado dual.

Dirigi-me ao hotel e, da varanda de uma suíte do quinto andar, contemplei o verde, a neblina e as construções antigas que imperavam no meio da ultrapassada modernidade. À noite, mais uma vez de pé, frente à cidade adormecida, ouvi o telefone tocar.

Era o recepcionista, o qual informava sobre uma visita à minha espera. Afirmei ter ele confundido a numeração do quarto, pois não conhecia absolutamente ninguém naquelas redondezas. Alguém chegara para um acerto de contas relacionado a acontecimentos pretéritos? Alguma pessoa de quem utilizei-me de seus serviços forçados na época em que fui possuidora de homens?

Tenho certeza que essa visita não é para mim – relutei.

É sim, senhora – disse e, mais uma vez, ao repetir o número do quarto, não havia como fugir.

Apresentou-se a mim um homem com quem havia conversado apenas por telefone sobre os ajustes das reuniões que sucederiam ao longo da semana. Adiantou-se, segundo ele, pela curiosidade que lhe despertou o meu tom de voz.

Não consegui esperar até amanhã – disse-me.

Chegou um pouco mais próximo, com os olhos postos e fixos em cada parte de mim, elogiou os cabelos, balbuciou perplexo algo em torno dos meus olhos, convidou-me a dar um passeio pela cidade morta.

Aceitei.

Mostrou ruas, igrejas, construções levantadas à custa da longa escravidão que imperou no país. Num desses lugares, ainda era possível sentir um clima abafado e sufocante, como se almas vagassem ali, sem esquecerem seus passados roubados para atender interesses ambiciosos que não elevaram nem dominados, nem senhores.

Quis voltar para o hotel e descansar, teria pela frente uma semana agitada, em que apresentaria um longo trabalho com suas inúmeras e inacabáveis regras e leis. O homem se aproximou ainda mais, impetuosamente estendeu as mãos até os meus cabelos; afastei-me. Ele se aproximou, tentou um beijo. Afastei e me despedi: Até amanhã.

Logo cedo ansiava por me ver chegar. No primeiro dia, um funcionário em carro oficial buscou-me no hotel, o qual foi dispensado pelo homem, que fez questão de fazer as vezes de motorista. Tentava me concentrar nos assuntos técnicos que precisava expor nas reuniões, e era novamente surpreendida por um olhar investigativo de quem quer possuir um corpo.

Mas a barreira desse mesmo corpo é uma alma que não se deixa tocar por quem não pretende ser tocada. Um único olhar, encontro ou despedida é capaz de me fornecer as percepções que preciso para saber se ocorrerá outro olhar, outro encontro e outra despedida. Eu sabia, desde o primeiro momento naquela noite no hotel, que aquele homem não tocaria a matéria física de meu ser. Muito menos o imaterial desse mesmo ser.

Ele era rústico, agressivo na sua maneira de aproximar, não me dava espaços, sufocava-me a sua deliberada vontade de agradar que tanto me desagradava.

A sedução não passa pelo campo do visível e palpável, ela é sutil, permeia lugares impenetráveis que o pretenso amante deve sondar devagar, paciente, sem ultrapassagem perigosa que possa ser fatal e minar toda aura de jogo e mistério.

Convidou-me para jantar. Aceitei. Ele poderia ter atrasado alguns minutos para não evidenciar sua ânsia, mas como imaginei, chegou minutos antes. Desci à hora marcada. Elogiou minha roupa. A comida estava saborosa, o vinho delicioso, a luz de velas deixava o ambiente convidativo para permanecer ali por toda uma vida se estivesse em melhor companhia.

Quando saía do carro, tocou forte o meu braço:

Não vai me convidar para subir?

Por que convidaria?

Sorri, desci do carro, fui para o quarto onde uma cama grande e quente me aguardava. Dormi feito anja durante toda a noite.

Faltavam apenas dois dias para a minha partida. No descanso entre um intervalo e outro das reuniões, fui despertada de um curto sono pelo toque do telefone. Era o recepcionista anunciando a chegada de uma encomenda. Um buquê de rosas vermelhas e bombons. Aceitei.

Minutos após, o telefone tocou mais uma vez. Era o homem, curioso para saber se havia gostado do presente. Não gostava de flores, mas ocultei-lhe a informação para não feri-lo diretamente . Só mais tarde passei a comprar orquídeas e me sentir fascinada por elas.

Convidou-me mais uma vez para um jantar no meu último dia na cidade. Dessa vez, recusei. Aleguei cansaço e indisposição, o que era verdade. Tive um pesadelo horrível, onde me vi perdendo o voo de volta para casa. Felizmente, nada daquilo que me atormentou era real. Estava pronta para o retorno. Na recepção do hotel, um objeto aguardava para ser entregue antes de minha partida. Num papel estava escrito: “só abra quando chegar em casa”. Obedeci.

Ao desembrulhar o presente fui surpreendida com uma lingerie vermelho-sangue. Mandou abrir em casa, creio, por saber que não a usaria em Penedo, sob nenhuma hipótese. Afinal, com quem?

Mas também não a vesti em Brasília. Não uso roupas vermelhas, à exceção da noite de Natal, e, ao contrário das flores, que passei a gostar muito, continuo sem dar espaço para o vermelho e para os homens que ainda não descobriram as sutilezas da instigante arte da sedução.

Jogo de porcelana

Diminuiu o ritmo dos passos, pé ante pé, vagarosos, curtos, fracos. O quintal comprido ficou ainda maior diante da nova dificuldade que lhe surgia. Aproximou-se do muro em busca de apoio, virou-se à procura de alguém a quem pudesse suplicar por socorro. A voz abafada não alcançaria o tom necessário para fazer-se ouvir. Por sorte, deparou-se com o filho mais velho que correu em sua direção. Estava pálida, olhos assustados, o rosto encharcado de suor. Mais uma vez aquela maldita que, por vezes, maltratava o seu corpo.

Ai! Dor! Muita dor! – exclamou.

O filho suspendeu o braço esquerdo da mãe, colocou-o em volta do pescoço e a carregou no colo até a cama onde, sozinha, esperou quase duas horas por auxílio.

O cenário não era dos melhores. Hospitais lotados, leitos entupidos de pacientes sem ar e sem cuidados, médicos à beira da estafa, enfermeiros temerosos e divididos entre a missão de ajudar salvar vidas e o desejo de voltarem intactos para junto da família.

Essas eram as circunstâncias quando Tereza foi internada para tratar-se. As visitas proibidas devido ao risco de contágio de um vírus que se alastrava. Familiares mal conseguiam informações sobre o estado de saúde de seus entes que agonizavam por falta de assistência geral. Somava-se à dor física o silêncio ensurdecedor do quarto, onde as paredes brancas e iluminadas a obrigavam mergulhar numa viagem pelo seu íntimo. O cume da dor é o desespero ou o silêncio. Optou por calar-se.

Quando conseguia levantar-se da cama, com muito esforço, alcançava o celular e digitava algumas poucas palavras que direcionava a alguns parentes, os quais, do lado de fora, esbravejavam, mas rendiam-se à impotência.

Que fazer? As instituições públicas de saúde mal cabiam os próprios profissionais de tão abarrotadas, os hospitais privados inviabilizavam qualquer tentativa de internação pelos altos preços cobrados antecipadamente por seus serviços. O direito à saúde, aparentemente garantido pelo estado, com suas leis mortas e inexequíveis, nunca foi tão desmascarado. Que fazer? Continuar na imobilização total de um leito pouco confortável.

Após verificar todas as possibilidades para mudar o cenário desolador e constatar que nada podia ser feito, restava apelar para forças invisíveis, mas não menos poderosas.

Sem muito o que fazer, restava aos familiares a união de suas forças numa corrente de oração.Todos os dias à hora marcada, reuniam-se para rezarem o terço cujas intenções, repetidas incansavelmente a cada dezena, eram dirigidas apenas ao restabelecimento da saúde de Tereza. Nada mais importava naquele instante de dor e amor. Deus precisava ouvir as preces e os apelos dos fiéis que a Ele se dirigiam, cheios de fé, após o fracasso das instâncias humanas.

Nunca um ritual programado por aquele grupo cumpriu com tanto rigor os procedimentos para que houvesse a mais eficaz tentativa de salvação. Ninguém se atrasava nem dispensava sequer uma conta do rosário. Todos acompanhavam as cinquenta Ave-marias no mesmo tom e ritmo. Tereza estava entre a vida e a morte, de modo que toda concentração destinada à prece pela sua cura não se poderia perder por descompasso e dispersão dos humildes pedintes.

As últimas notícias dadas pela própria paciente foram de que houve uma melhora significativa em seu quadro clínico. As orações se intensificaram, afinal, fez questão de relembrar uma das rezadeiras, só Deus para conceder tamanho milagre.

Tereza voltou para casa mais magra, mais serena e poderia-se dizer, de longe, até mais desprendida dos objetos que a rodeavam. O filho que a socorrera dias atrás teve a ideia de comemorar com um jantar o retorno triunfante da mãe, anunciando-lhe que usaria o seu jogo de porcelana, única peça doméstica à altura do ocorrido.

Há trinta anos, a peça estava mantida trancada no armário, e a memória relembrava o exato momento em que recebera o presente de casamento caríssimo das mãos de um parente tão rico e nada miserável. Tereza não a usaria por nada nesse mundo.

Meu filho, o jogo de porcelana não. Pode quebrar, e é a única peça digna que tenho.

Mas mamãe, a senhora acaba de sair do hospital por milagre de Deus. Por um triz poderia não estar aqui. Por muito pouco também jamais colocaria as mãos em seu jogo de porcelana.

Mas eu estou aqui e viva. Vamos usar pratos e copos normais.

O filho não insistiu. O jantar foi servido em pratos duplex e em copos de molho de tomate comprados no supermercado da esquina. A doença que acometeu Tereza parece em nada ter insinuado que a existência é breve e traiçoeira. A qualquer momento podemos ser abocanhados e, se o jogo de porcelana não for urgentemente utilizado nessa vida, nas próximas, é bem pouco provável que seja, pois nem mesmo Tereza acredita em reencarnações.

Tia única

O telefone tocou às nove da manhã de um domingo ensolarado. Atendi às pressas, pois estava atrasada para um encontro marcado para ocorrer no parque da cidade. Faria duas horas de caminhada para aproveitar o sol ao tempo em que movimentaria o corpo inerte e preguiçoso depois de meses encalhada num glorioso sedentarismo. Do outro lado da linha, meu irmão relembrava-me do compromisso que assumi, dias antes, de almoçarmos juntos, o qual ocorreria dali algumas horas. Ao ouvir a confirmação de minha presença, vibrou e anunciou que me faria uma surpresa. Sem dúvidas, iria gostar muito, segundo as suas palavras.

– Ah irmão, por favor, adianta o assunto – sondei curiosa.

– Surpresa é surpresa – respondeu firme.

– Estava saindo de casa para ir ao parque quando você me ligou. Desembucha que vou chegar atrasada por sua culpa.

Sabendo que não desistiria fácil, resolveu dar uma prévia.

– Então, minha irmã, hoje você vai conhecer suas sobrinhas.

– É o quêeeeeeeee? Como assim? Por que não me disse nada antes?

– Sem mais, irmã. Aguardo você aqui meio dia em ponto.

Na certa, ele tinha dado início ao processo de adoção e ocultara de mim os acontecimentos. Fui para o parque saltitante e, se a previsão era que a caminhada durasse duas horas, durou apenas uma.

Cheguei em casa, tomei um “banho de gato” e às onze estava prontíssima para conhecer as novas integrantes da família.

É verdade, meu irmão falara em “sobrinhas”, no plural, e até então não havia me atentado para isso. Pensei que provavelmente tivesse adotado gêmeas ou crianças que, por serem irmãs, sofreriam muito com a separação. Olhei o relógio. Eram onze e cinco. Apenas cinco minutos havia passado enquanto conjecturava. Claro que entendi errado. Com certeza! Ele devia ter adotado apenas uma menininha.

Não aguentei, peguei o telefone:

– Irmão, já posso ir para sua casa? Não posso mais esperar para conhecer minhas sobrinhas. É isso mesmo né? São duas?

– Sim. São duas bonequinhas lindas. E antes que fique mais ansiosa, venha logo que estamos aguardando você.

Eufórica, toquei a campanhia. Meu irmão abriu a porta. Em seu colo, toda branquinha, fofinha e peludinha, estava Bete, para quem fui devidamente apresentada como a melhor irmã, tendo em vista ser a única, e recebi dela como cumprimento agudos latidos que indicavam o seu estranhamento diante da desconhecida.

-Bete, pelo amor de Deus, seja educada. Não é isso que papai está te ensinando nessa casa. Já disse que você deve se comportar tão elegantemente quanto à sua titia que acaba de chegar para uma visita.

Arregalei os olhos. E antes que perguntasse pelas crianças, minhas pretensas sobrinhas, ele disse:

– Entre irmã e fique a vontade. Sente-se e espere um pouco enquanto Gustavo termina de dar banho e secar os pelos de sua outra sobrinha.

– Ãaaaannnn? Os pelos? – indaguei boquiaberta.

– Sim irmã. Estou falando da Juju. Pensa numa cachorrinha custosa. Só aceita sair do banho depois de meia hora na banheira e, se não secamos seus pelos logo em seguida, ela corre nessa casa o tempo todo para chamar a nossa atenção. Estou desconfiado que ela gosta é do quentinho do secador.

Minutos depois, chega Juju no colo de Gustavo toda vestida de rosa e com lacinho na cabeça.

-Agora sim, filha. Está linda e à altura da titia.

Vira-se para mim e diz sério:

-Essas meninas são tão vaidosas quanto você.

Eu só quis morrer, mas estou aqui bem viva para contar essa história. Vai que minhas sobrinhas precisem de mim. Afinal de contas, sou tia única.

Demasiado humano

Do chá saía uma fumaça aromática cujo prenúncio evidenciava o gosto saboroso que em breve provaria. Acompanhando a bebida, numa vasilha pequenina ao lado da bandeja, estava um minúsculo pedaço de bolo que, apesar de adoçar o paladar, não seria suficiente para matar minha fome. Queria mais dele. Queria um pedaço bem grande e, sei, conseguiria.

Graciosa, chamei o garçom. A mesma graça com que uma mulher pode arrancar qualquer coisa de um homem, se descobrir como bem usá-la. Primeiro, elogiei o sabor e a temperatura do chá para dizer-lhe logo em seguida: gostaria de mais desse bolo, pois ele está muito gostoso. O homem abriu um largo sorriso e comunicou: vou ver o que consigo fazer pela senhorita. Não o corrigi para que dissesse senhora, assim como não teria pedido-lhe para me chamar de senhorita caso tivesse enunciado a expressão adequada para uma mulher casada. É um dos muitos truques e faz parte da graciosidade usada para conseguir o que se quer.

Regressou com duas bandejas contendo dois pedaços de bolos bem maiores, só que de sabores chocolate e coco, anunciando-me que, infelizmente, não tinha o de limão disponível naquele tamanho. Fingi interesse em inspecionar os bolos em cada uma de suas mãos, agradeci a gentileza em tentar atender meu desejo, mas disse-lhe que só serviria mesmo se fosse o de limão, pois gosto dos sabores mais acres.

Minutos depois, um homem de terno e gravata aproximou-se. Era o gerente do estabelecimento fazendo que eu confirmasse o interesse em realmente levar o bolo de limão, ao que ouviu minha resposta afirmativa, e disse: se for possível aguardar um pouco mais de tempo, conseguirei providenciá-lo para a senhora.

Não tinha a intenção que meu desejo chegasse a instâncias superiores, mas ainda assim fiz questão de aguardar o tempo que fosse preciso para vê-lo satisfeito. Enquanto aguardava, um homem alto, branco e gordo sentado na mesa ao lado virou-se para mim: esses bolinhos que acompanham os chás e os cafés são muito bons não é verdade? Dá vontade de comer uns trinta. Assustei com o exagero. Trinta é muito para mim. Mas se não é tanto para ele que se há de fazer?

Sorri e respondi que era verdade. Ele estava sozinho e aguardava a conta. Tentou emendar um outro papo, mas eu realmente não estava a fim de usar simpatia para conseguir mais nada a não ser o bolo tão esperado. Deve ter percebido, porque acabou tentando me dar uma espécie de recado por meio de uma conversa num tom muito alto com o garçom que acabava de chegar.

Eu estou falando como médico. Eu sou médico.

Foi só o que consegui ouvir. De cabeça baixa estava; de cabeça baixa fiquei. Poderia ser o papa, o homem mais rico do mundo, o profissional mais qualificado do mercado nacional ou estrangeiro, o ganhador do Nobel em física ou química, o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Ninguém chamaria minha atenção por seus títulos e glórias. Estava interessada tão somente naquilo que ansiosamente aguardava.

Ao escutar sua voz altíssima anunciando que era médico, só consegui enxergar o humano, o demasiado humano, e me compadecer que ele precisasse se fazer conhecer e se mostrar por um diploma, o qual nada ou muito pouco diz sobre alguém. Se ele soubesse o meu desejo imediato, teria tido mais sucesso se dissesse que era confeiteiro.

O bolo chegou quentinho e saí triunfante com ele nas mãos. Como de outras vezes, havia conseguido o que queria. Ao sair do restaurante, escuto a voz: até mais moça. Era ele. Respondi silenciosamente: até nunca doutor.