EM NOME DO OVO

Na entrevista dada à TV Cultura, ao ser questionada sobre se se considera uma escritora popular, Clarice Lispector é incisiva: “Não. Me chamam até de hermética. Como é que posso ser popular sendo hermética?” O entrevistador quer saber a que ela atribui essa adjetivação; responde: “Eu me compreendo, de modo que não sou hermética para mim.” Mas logo em seguida faz uma objeção e declara que há um conto que escreveu e que ela própria não o compreende muito bem, “é um mistério para mim”. Este texto se chama “O ovo e a galinha” e, talvez, por atribuir-lhe caráter misterioso, Clarice o escolhe para lê-lo no primeiro Congresso de Bruxaria, em Bogotá, ocorrido em 1975.

Mas ao contrário de Clarice Lispector, sem qualquer pretensão de impor meu entendimento a quem quer que seja, declaro que entendo “O ovo e a galinha” muito bem. Objeto de inúmeras, incansáveis e inesgotáveis leituras, “O ovo e a galinha” não permanece de todo misterioso e indecifrável para mim. O que há de invisível e oculto nele não é sobre o que se fala, mas a origem ou causa a respeito do que se fala. De onde viemos, para onde vamos, o que somos são as grandes perguntas sem respostas que permeiam a obra de Clarice, mas a falta de respostas não a impediu de perscrutar o mistério, mesmo ciente de que jamais conseguiria revelá-lo; sequer tocá-lo.

A galinha é personagem que se faz presente nos textos de Clarice como figura representativa da mulher, da mãe, a “depositária do ovo”, aquela cujo destino foi previamente traçado e impresso no próprio corpo que é todo configurado e moldado para receber, abrigar o filho e alimentá-lo, “nascida que fora para a maternidade”. A mulher é mero instrumento utilizado “por quem?” para perpetuar a espécie. “Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso.”

Segundo a autora “há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito”, cuja mulher foi diretamente escolhida para ser peça fundamental. Nem mesmo Deus, em toda sua onipotência, trouxe a luz ao mundo sem utilizar-se de um corpo de mulher. Marias, mulheres, todas eleitas.

Para Clarice “o destino de uma mulher é ser mulher” e ela não teme dizer que esse destino é a maternidade, no entanto, diz simbolicamente, porque há verdades que não são para todos os ouvidos. “Chamar de branco o que é branco pode destruir a humanidade.” E aqueles que ousaram dizer certas coisas foram punidos com a morte. “A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “rosto” morre; por ter esgotado o assunto.” O assunto esgota-se quando se diz: “O destino de uma mulher é ser mulher.” Ao contrário do que pensou Simone de Beauvoir, mulher nasce mulher e as que não nascem, mas sentem-se, querem tornar-se.

Clarice ousa afirmar que as mulheres não servem a si próprias, mas a esse destino que chega a ser mais importante que elas mesmas, que as ultrapassam, de modo que suas vidas não interessam. “A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha.” Ainda que se dediquem a outras funções, tudo é feito para que não esqueçam a função-maior. Inclusive, a proteção e as vantagens que se dão à galinha são apenas “as condições ideais para o ovo”. Mas elas acham que é tudo em nome da mãe. Daí que devem manter-se sempre distraídas, míopes, tontas, desocupadas e fúteis. A cabeça de uma galinha é tão pequena se comparado ao seu corpo; elas são tão nervosas, ciscam pra lá e pra cá, “cacarejam o dia inteiro”… Porque galinha não foi feita para pensar sob pena de desistir de sacrificar sua vida.

“O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.”

Ser mãe é sacrificar-se em prol do ovo, com prazeres e dores, sob a justificativa de amor grande, incondicional, sem considerar que amar implica lutos e perdas e que o amor não é dado em benefício da agente, mas daquilo que ela abriga com o fim de privá-lo do sofrimento da galinha de ser.

“Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal.”

Mas há aquelas que não querem sacrificar a própria vida, nem por amor, as que não sabem perder a si mesmas, doar-se, entregar-se; portanto, lutam contra o destino. São as que se sentem preciosas. “A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria.”

Ocorre que para a mulher que já viu o filho ter vida própria é que passa a ser sacrifício; “Nasce a mãe, nasce a culpa”. “Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu.” Nessa culpa, muitas se afundam, choram, adoecem, suicidam, sentem-se incompreendidas e cansadas. “Amo meu filho, mas odeio a maternidade” – a frase que muitas não conseguem mais calar, como quem diz: “Odeio meu destino, mas não consigo fugir dele”.

Feixe de lucidez

Não raro, Clarice Lispector retrata em seus contos a vida da dona de casa comum, dedicada ao marido, às exigências dos filhos e ao ambiente doméstico, que, em algum momento, diante da observação de um acontecimento corriqueiro ou mesmo de algo natural e aparentemente incólume como a visão de uma rosa, revê toda a vida de modo a fazê-la pensar se realmente a vive da forma que melhor corresponda aos próprios anseios íntimos, à maneira que mais lhe apraz ou deixa-se levar cegamente por convenções, ideias e imposições alheias.

Algumas dessas mulheres, num feixe de lucidez, até conseguem sonhar abandonando-se ao desejo de escapar da situação na qual se instalara, como aquela do conto “A fuga”, que decide partir e deixar o marido, programa a viagem de navio que a afastará da prisão onde se encontra, no entanto retorna cansada ao lar e deita-se na cama onde enxuga as lágrimas e silencia. Ela se lembra que nem ao menos possui dinheiro para realizar a viagem, além do mais, o costume e o hábito paralisantes rondam-lhe os pensamentos: “Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa.”

Também a portuguesa do conto “Devaneio e embriaguez duma rapariga” encontra-se angustiada e triste com a própria vida. Certa vez, diante da ausência do marido e dos filhos, decide aproveitar o silêncio da casa para ficar um dia inteiro dentro do quarto entregue a si mesma. Vai até o espelho, olha os seios refletidos, entoa um canto de liberdade, mas no momento em que se lembra de sua condição de mulher fecha-se subitamente dura, colérica e feroz. Dorme algumas horas, acorda quando o homem chega, mas volta ao sono. Ele que se sirva das sobras do almoço e sequer ouse tocá-la. “Ai que não me maces! não me venhas a rondar como um galo velho.” Ela amava, mas não este com quem dormia todas as noites e que a fizera transformar-se numa “folha seca”.

“Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar. Quem sabe lá, isso às vezes aconteceria, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois.”

Houve um dia em que saiu com o marido para encontrarem-se com um negociante. Bebeu vinho, ficou tão eloquente que admirava a própria fala, embebia-se de si mesma; ardor, gargalhadas, desejo, brilho e malícia frente a outro tão mais interessante, rico e fino. Sensibilizou-se ao ver um quadro. Bem que poderia se tornar artista. “Ninguém lhe tiraria cá das ideias que nascera para outras cousas. Ela sempre fora pelas obras d’arte.”

Voltam para casa e, sentada no leito comum, vê-se diante da realidade. Sentia-se muito maior do que de costume, o vinho a alargara e a tornara luminosa, mas para se adequar ao ambiente concreto, feito de carne e sangue, precisava reduzir de tamanho, não se abandonar em sonhos. Lembra-se de quando uma mosca pousou-lhe na pele excitando-a muito mais que o toque do marido. “… que não me venhas a maçar com carinhos.” Abre os olhos, tudo igual, familiar. A falta de sentido, o “corpo anestesiado”, ela conformada, resignada, desiludida, triste.

Mas a promessa do dia seguinte encheu-a de força, pois representava a fuga de seus devaneios. Retiraria toda a sujeira da casa que havia negligenciado um dia inteiro, removeria a imundície daquele lugar já que não se permitiria limpar as poeiras de dentro dela. Nesta noite, era a “cadela” no cio a contemplar a lua alta. Mas na manhã seguinte, voltaria a ser a esposa, a mãe e a dona de casa que tudo ordena para que ela mesma não saia dos trilhos.

Dias e dias

Chovia lá fora e em seus olhos. Espiou pela janela e sentiu o dia sombrio, triste, pesaroso como para igualar-se à tempestade que a desconcertava naquela manhã. E era sábado, meu Deus! Bem podia estar alegre.

A casa vazia, o silêncio interrompido pela chuva. A respiração ofegante. Sentou-se na cama, apoiou os cotovelos nos joelhos e com as duas mãos tapou o rosto devastado. Levantou-se, fitou a imagem refletida no espelho. Envelhecera, as feições davam mostras de cansaço, curvara o corpo como quem carrega mais que o próprio peso nas costas. Os anos transformaram tanto suas certezas que mal sabia de onde tirara a coragem que a fez decidir. E a força, a firmeza com que sentenciou: “Agora é a hora”.

Ergueu-se num rompante, endireitou os ombros, levantou o rosto, pisou firme no chão. Não sabia por onde começar a arrumar suas coisas ou seria melhor desistir e recuar? Mas o pensamento de voltar atrás não mais lhe ocupava. Passara muito tempo meditando, juntando os motivos e catando os pedaços de sua alma destroçada a fim de libertar-se do desconforto que há tempos tomara-lhe o ser.

Se tanto relutara era para ser fiel a si mesma até o último instante. Enquanto o amor e o desejo lhe dominavam havia porque lutar e continuar. Uma força a permitia levantar a cada manhã sob promessa de recomeço. Mas tudo se repetia a ponto de lhe vir o pensamento de que se aqueles momentos se eternizassem viveria atormentada. Falava e falava, mas padecia de socorro. Alguém a escutava, mas só tinha por resposta o esboço de um sorriso enquanto virava as costas.

Os pensamentos desordenados tentavam lhe tomar e, como para fazê-la desistir, só lhe vinham aqueles raros instantes em que se percebia sorrindo em fugaz alegria. Afastava-os de imediato, pois bem sabe que quem padece no deserto se excita com as poucas gotas de água que surgem e é capaz de esquecer os muitos dias de plena secura. Não se deixaria enganar nem sucumbiria ao medo de dar um passo rumo ao novo. Mas o amor tentava travar-lhe as pernas para fazê-la mais tempo prisioneira. Ah! Como se amar só bastasse – pensou.

O gosto do sal intensificava na boca enquanto descia as escadas, os olhos encharcados nas ruas da cidade molhada em direção a ninguém, a garganta cheia de ar; no peito, o grito de dor contido. Ainda poderia regressar ao lugar de costume, ao ar conhecido da casa em que passara dias e noites sedenta. Esperar um pouco mais, não precipitar em impulsos, pensar demoradamente. Mas o clamor da vida a rebentar-lhe as veias do corpo todo. Como sufocar anseios íntimos em nome de tanta incerteza? Avidez de moça não queda muda ante o tempo que tudo quer devorar.

Uma estrada se faria com o avançar dos passos. Um destino de mulher sozinha, à margem. Porque na solidão a luz resplandece sem que faíscas queimem a ninguém. No espaço vazio move-se livremente distante do perigo de perturbar os que dormem.

Os olhos hão de secar como ocorria na época de menina em que depois de brincar um bom tempo com os pés descalços nas enxurradas, de uma hora para outra, era obrigada a sair correndo, pois o sol esquentara demais as pedras onde pisava. Também porque no fundo de si sabe que as estrelas nunca perdem o brilho depois de chover dias e dias.

É com essa sua sabedoria de cega que passeia pela vida, ora fechando, outras vezes abrindo caminhos.

Desejo de amor

O espanto provinha da sabedoria de quem sente; ainda que quisesse não poderia voltar atrás, pois o desejo conduzira naturalmente os passos. Desejo de amor.

Outros foram os tempos em que experimentava o gosto bom de ter. De quando saía às cegas ao encontro daquilo que nem precisava procurar porque sempre achava. Mas tanto havia se passado sem que ninguém lhe desse as mãos suspensas no ar porque ela tudo dispensava. Parecia querer viver no deserto para provar a própria força e resistência. Como se tivesse que ir até o fundo de um poço sem fundo e, mais tarde, ressurgisse gloriosa.

Glória não há que se compare ao prazer de querer e ter; ou talvez de ter e, mesmo assim, não querer. Mas por que não querer o que se quer? Que coisa é essa tão maior que amedronta a ponto de deixar de viver mesmo diante da certeza do ultimato que sobrevirá?

A vida chamando, o amor gritando. “Fale mais baixo” – diz. “Se puder, cale-se”. Perdera o jeito. Mas vai desajeitada enquanto arruma o vestido e acerta o passo. Não há outro modo senão ir e ir vendo e provando o que vem vindo no caminho. O encontro ao que não se evita.

Essa mulher nada sabe. É tão burrinha que acredita nas ideias formadas pelos outros que também de nada sabem. Ela achava que as coisas deveriam ocorrer devagar e nunca lhe passara pela cabeça que em poucos minutos uma avalanche pode tomar conta de tudo. E descobriu que não era tão sabida para ficar todo o tempo de queixo e peito erguidos. Precisava ser mais humilde para reconhecer que há chama em tudo o que vive.

Sem querer assustar, chega de mansinho, ajusta o tom de voz, tateia… tudo em nome da delicadeza dos sentimentos. Como se o amor também não exigisse mãos fortes. Parece até uma iniciada.

Um homem disse-lhe, com culpa nos olhos: “Não quero deixá-la em pedaços”. E nem lhe vinha a lembrança de que algum dia fora inteira.

Ela só precisa sentir e saber que basta a alguém estar vivo para que haja fogo.

Fatal destino

Tantas vezes aquele acontecimento lhe vinha à cabeça, invadia sem prévio aviso. Como flashes de instantes, sorrateiramente penetrava por entre frestas não fechadas pelo tempo que nem sempre dá conta de tudo. Quando menos esperava aí mesmo é que surgia com a força estranha do oculto. Uma vaga lembrança perdida que chegava a se perguntar se de fato ocorrera aquilo que pensava ter existido.

O homem aproximava-se, sem pedir licença, e ela calava, atenta, sentindo, deixando… Ele voltava, devagarinho. Permitia, não alardeava, muito menos confessava.

Em algum ponto as visitas deixaram de acontecer. Eram tão silenciosos aqueles momentos, desprovidos de resquícios, que ela mesma duvidava de que alguém estivera ali. Preferia acreditar que não passava de imaginação e evitava pensar no sofrimento de uma vaga ideia. Sentia-se culpada. Ela, tão menina, uma criança, por que obrigavam-na a coisas de adulto? Ora, talvez já tivesse nascido um pouco velha.

Certo dia, numa fila de supermercado, um homem a interpelou: “Menina, você sabe do seu poder?” Ela sabia, mas relutava. Também não queria nada que a diferenciasse das outras em troca de ter que suportar carga tão pesada. Não pedira para nascer, muito menos exigira graças ou benevolências. Para quê? A troco de ter que lidar com os extremos dos sexos? Porque o que nela fazia com que homens se aproximassem desde muito cedo era o mesmo que distanciava as mulheres desde muito cedo. Amada e odiada, venerada e antipatizada por motivo comum.

A amizade lhe era escassa, quase impossível de acontecer. Se, de um lado, recebia desprezo e indiferença das filhas de Eva, cujas comparações deságuam em ciúmes e desavenças, do outro, ficava de sobreaviso a aguardar o momento em que os pretensos amigos lhe revelariam as reais intenções. Era sozinha por imposição de um destino que não escolhera.

Com um desses amigos ousara mais, pois sabia que o desejo dele não recaía em mulheres. Imaginou que estava diante de um sentimento que poderia durar toda a vida, pois isento de expectativas escusas vindas da outra parte. Por um longo tempo saíam para almoçar, tantas risadas e cumplicidade que era bonito vê-los juntos. Algumas pessoas estavam tão acostumadas com os dois que, ao deparar-se com um, já perguntavam pelo outro. Ela contava-lhe sobre encontros e namoros. Ele mantinha suas reais preferências em segredo. Sabendo, ela nem lhe indagava a respeito e mantinha a discrição como uma das chaves do relacionamento.

Num dia em que voltavam sorridentes de um evento, em plena luz do dia, ele desviou o caminho e parou o carro debaixo de uma árvore. Ela, sem entender, imaginou que o veículo apresentava algum problema. “O que aconteceu?” – questionou-lhe. Ele não titubeou: “É que não aguento mais de vontade de lhe dar um beijo.”

Surpresa, atônita, tomada por um misto de desilusão e tristeza, disse-lhe: “Pensei que podíamos ser apenas amigos. Vamos já sair daqui.”

Não quis encará-la outra vez. Nunca mais se viram. Mais tarde, tomou conhecimento de que ele estava casado com outro homem. Quanto a ela, sem amigos ou amigas. Sozinha por fatal destino.

FIM

É que não seria apenas por um ato que as coisas morreriam lá dentro. Existia o processo a ser respeitado para que, chegado ao fim, não houvessem resquícios de sentimentos não diluídos. Também não poderia afastar-se de vez a julgar por algo isolado, esporádico, movido pela fraqueza de quem, por não ter do que acusar, ataca. Perdoava. E perdoar lhe era fácil, pois não é das que se vingam. Mas esquecer não é mero ato de vontade. Como acessar a memória com uma borracha e apagar fatos e fotos que se sobrepõem e somam uns aos outros?

Com a paciência dos que amam, aguentava um pouco e mais um pouco. Mas entregava-se cada vez menos, porque vagarosamente, a cada palavra, pensada na sobriedade e proferida na conveniência de um momento justificável, algo se quebrava lá no fundo. E o que temia era que o cristal se despedaçasse todo e sangrasse a alma. Porque tudo acontecia dentro, mesmo que não desse mostras de um fim que se fazia.

“Não diga! Não diga!” Dizia para desafiá-la ou porque só dizendo para despejar a raiva contida no peito grande e vazio. Raiva da própria vida e dos que não souberam fazê-lo amar. Aqueles para quem até os afetos só se materializam na ferocidade.

Com a paciência dos que amam, procurava compreender. Além do mais, a esperança… “As coisas vão mudar”. Não mudavam. E dentro tudo se modificando… Os fios tecidos com mãos fortes para que não corresse o risco de ceder de novo e sempre.

a sabedoria dos ruins

O conto “Os desastres de Sofia” é um dos textos de Clarice Lispector que mais me impressiona. Após incontáveis leituras, sem, no entanto, vislumbrar deixar de relê-lo sempre que meu íntimo desejar, pareço a própria Sofia atônita diante de um homem que se revela: “Mas sei que vi. Vi tão fundo quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo.” Eu também vi, embora não saiba dizer o que vi.

Uma menina de nove anos cuja façanha é seduzir o professor alto, gordo, feio e de ombros contraídos, movida pela ânsia da matéria orgânica e ignorância de que é feita, guiada pela intuição, fome e sede que fatalmente a conduz ao homem. Ele, o santo. Ela, a prostituta culpada. Como seduzi-lo? Provoca-o durante as aulas, fala e sorri alto, irrita-o a ponto de fazê-lo odiá-la, tenta chamar a atenção do mestre das formas mais bizarras e inconsequentes, encara-o, mas ele nem a olha. Ao sair do colégio, leva o professor consigo até a cama, onde pensa nele antes de dormir. Ele a perturba mesmo quando não está em sua presença. No outro dia, recomeça o jogo da sedução que a fascina como se já houvesse tornado mulher.

Quer trazê-lo para o seu mundo a fim de salvá-lo dele mesmo. Do abismo em que imagina que aquele homem inocente, bom e desprotegido se encontra. Ela o ama como uma criança ruim que vê no crescimento uma redenção da maldade de que os infantes são feitos. Para Sofia, a meninice parece não ter fim. O que a move é a esperança de se tornar adulta e mais pura, já que, conhecendo a si mesma desde muito cedo, percebe-se, por vezes, má, dotada de instintos e ferocidades. A velocidade e a rapidez são os meios utilizados para alcançar mais depressa o estágio que pretende. Até chegar lá e perceber o quanto “a esperança é burrinha”.

Nada do que fizera até então conduzira-o ao seu mundo, pelo contrário, ele a evitava com todas as forças. Até que um dia o professor resolve contar uma história a respeito de um homem que sonhara com um tesouro e, ao acordar, decidiu viajar pelo mundo a fim de procurar o objeto precioso. Não o tendo encontrado, retornou para casa. Tanto plantou no seu quintal e tanto colheu que acabou ficando rico.

O professor pede aos alunos para completarem a narrativa cujo sentido é que a riqueza só pode ser fruto do trabalho duro. No entanto, Sofia, que já aprendera a “tirar a moral das histórias”, oferece-lhe uma totalmente destoante da que esperava. Escrever para ela era muito fácil e simples, pois “só sabia usar as próprias palavras”. E são essas palavras que provocam no professor algo que ela jamais imaginara. Na versão da menina, o tesouro está onde menos se espera. Bem diante dos olhos. É só achar.

“Suponho que, arbitrariamente, eu de algum modo já me prometia por escrito que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. (…) Ao contrário do trabalhador da história, na composição eu sacudia dos ombros os deveres e dela saía livre e pobre, e com um tesouro na mão.”

Pela primeira vez, o professor volta-se para Sofia com especial interesse. Quer saber sobre a história do tesouro que o deixou surpreso. Agora, ele a olha nos olhos, o que sempre evitara. Fala o nome da aluna em voz alta. O homem a reconhece; o texto, o verbo confere-lhe existência.

Quando percebe o estado em que o professor se encontra, misto de perplexidade e alegria, quer saber o que de tão excepcional havia escrito. Ela o enganara com a “lorota do tesouro”. Movida pela pressa de sair da sala para brincar e correr no pátio com os meninos, narrara qualquer coisa a fim de se ver livre da tarefa. E o “tolo” acreditara na mentira, pois ninguém encontra tesouro em qualquer lugar. E como se insinuasse que ela poderia ser esse tesouro, aí mesmo é que estava totalmente enganado. Ela não era “engraçada” nem “doidinha” como supunha. Era uma “safadinha” por quem um homem grande e bobo se deixava ludibriar.

Minguava a esperança que acompanhara a menina de encontrar redenção no crescimento. Esse homem, na tentativa de se salvar, agarrava-se a qualquer coisa, mesmo numa história descabida, sem pé nem cabeça. A mentira não serve apenas às crianças, os adultos também se deixam levar por ela. Há sede, vazio e carência por toda parte. O abismo da vida que nos leva a fantasiar, fingir e mentir não abandona o íntimo com a mudança dos estágios do corpo. Sofia e o professor se amaram, cada qual a seu modo. É preciso amar o ruim e o impuro mesmo que com amor duro e cheio de garras. Talvez, apenas nisso, o rei da Criação e a mulher do rei da Criação possam se redimir um pouco. Pois que assim seja! Amem!

A água que lhe sai dos olhos escorre pelo corpo misturada com a torrente jorrada do chuveiro. Chora como se dentro dela houvesse uma fonte interminável de dor vinda de tempos longínquos que ultrapassam muito o tempo de sua vida. Sonda os motivos nas profundezas para ir além do que sabe. “É porque sou assim… Mas haveria de ser outra?” Tão enraizada na própria pele que a mínima ameaça de não sê-la a deixa em permanente estado de alerta. Olha-se no espelho e vê os esboços definidos e limitados de um espaço que não lhe cabe. Essa, a razão por que tem chorado.

Mãos vazias

Na noite anterior, minha mãe relembrou-me o nosso compromisso do dia seguinte: “Filha, não se esqueça, o corpo chega às 9.”

À hora marcada nos dirigimos ao cemitério onde seria enterrado um tio-avô que, quando vivo, pedira para descansar eternamente na mesma cidade onde repousava os pais e demais irmãos mortos.

Ainda não conhecia a nova morada física dos que partem. Há tempos residindo fora de Coribe, na última vez que fora a um enterro, o cemitério ficava ao fundo do quintal de meus avós maternos que, ao morrerem, nem precisaram se afastar tanto da casa onde ficaram por tanto tempo. Apenas um muro os separam, hoje, do lugar em que viveram muitos anos de suas vidas.

Diante da falta de espaço para novos chegados, a municipalidade providenciou outro local, agora, distante do centro da cidade, para aqueles que tiverem suas almas desprendidas do corpo e, inertes, precisem ser abrigados. Soube que ninguém queria inaugurar o novo cemitério para não ter que lidar com o fato de um parente padecer, sozinho, em lugar afastado e ermo, até que um senhor se ofereceu para ali ser enterrado, quando sobreviesse sua morte, de modo que a partir desse momento outros concordaram em deixar os entes em tão corajosa companhia.

Percebi que muitos habitavam aquele lugar que há bem pouco tempo todos temiam. O esquife encontrava-se quase no chão, apoiado em dois tijolos, um em cada extremidade, enquanto aguardava-se a presença de alguns familiares que estavam prestes a chegar. Ao redor, poucas pessoas conversavam, choravam e lastimavam a perda daquele que no dia anterior vivia como se nada fosse acontecer. Mal sabia que uma insuficiência cardíaca lhe arrancaria de surpresa o último sopro.

Atrás dos óculos escuros, eu olhava e via o tio inerte e aos demais como quem dorme. A viúva fez questão de deixar bem claro que cuidara dele até o último momento, fazendo-lhe todas as vontades, alicerçada na desnecessidade de quaisquer provas. Duas filhas em desespero de dor pelo motivo óbvio da perda e, talvez, por outros que jamais suporia. Um único irmão presente, pensativo e distante. Os filhos inquietos andando de um lado para outro, quem sabe se, dois deles, entorpecidos para não sentirem ou sofrerem.

Do vidro, observava e refletia, disposta a logo esquecer, sobre um rosto imóvel que, sem prévio anúncio ou despedidas, tudo deixava e, assim, retornava ao pó apenas de mãos vazias entrecruzadas sobre o peito .

O peso da luz

A solidão permeia toda literatura de Clarice Lispector. Percebe-se a presença desse tema nos contos, nas crônicas, nas cartas, sobretudo nos romances. O primeiro deles “Perto do Coração Selvagem” traz Joana, a mulher que experimenta a solidão já na infância e assim transcorre a vida, mesmo no período em que permanece casada com Otávio. Também, o último deles, “A Hora da Estrela”, com a pobre Macabéa, perdida e sozinha na cidade grande, abandonada pelo namorado, único que poderia confirmar-lhe a existência, mas a troca por outra na primeira oportunidade.

As personagens, na maior parte, femininas, parecem carregar os próprios dramas da escritora, que também deixou transparecer de inúmeras formas que a solidão era um estar em si. Talvez isso se devesse, em especial, à condição da família, que se viu obrigada a deixar o país de origem, em virtude da perseguição aos judeus, e aportar em terras estranhas à maneira dos exilados. Clarice nasceu no percurso de fuga, numa pequena aldeia da Ucrânia, onde pararam apenas para a mãe dar à luz a menina. Ainda, conviveu com a doença que progressivamente paralisava essa mãe, levando-a à morte.

O sentimento de culpa jamais abandonou a filha mais nova e a fez acreditar ser a causa da patologia que atingira a mulher que a gerou. Como se não bastasse, na adolescência, perdeu também o pai, restando-lhe apenas duas irmãs, das quais se afastou fisicamente durante os muitos anos em que viveu fora do Brasil para acompanhar o marido em seu ofício de diplomata.

Antes de casar-se, experimentou a desilusão do amor não correspondido, o qual era destinado a Lúcio Cardoso, com quem manteve apenas a proximidade de amigos ao tempo em que permaneceu o distanciamento do desejo irrealizável que ela jamais usufruiria.

Tanto a relação familiar como a do amor impossível foram retratadas no livro “O lustre”, seu segundo romance. Nele, Virgínia experimenta o estranhamento de pertencer a uma família cujos membros são totalmente alheios aos pensamentos e sentimentos dela, ao que se passa em seu interior, inclusive ao amor que sente pelo próprio irmão Daniel, com quem mantém um segredo que a ilumina contra o mundo. Clarice acredita na força que um segredo pode dar a alguém e, não raro, apresenta personagens, aparentemente frágeis, mas vigorosos pelo inconfessável tesouro que guardam dentro de si.

No casarão antigo e vazio de objetos, ornado por um solitário lustre e um tapete de veludo vermelho, mora a família composta por pai, mãe e filhos, Esmeralda, Daniel e Virgínia, além da avó paterna. Esmeralda, a preferida da mãe por lembrar-lhe os bons tempos idos, silenciosamente resignada, exasperada, nervosa por se ver presa ao ambiente doméstico e aos cuidados forçados de sua gente. Em contraposição, Virgínia, livre como um cão, fluida, movida por sensações que lhe percorrem o corpo, amando impossivelmente e fazendo desse amor a força de seus dias. Amor, que por não se materializar, é ainda maior e mais precioso dentro dela. “Ela só tinha ardor.” E, de tanto ardor, queimava sozinha e liberava todos da obrigação de amá-la e a ela se prender, inclusive Daniel, que se afasta sem que jamais tente impedi-lo.

Quando Virgínia e Daniel, sob a justificativa de estudarem na cidade grande, partem juntos para, anônimos, viverem sozinhos, ele se une a outra mulher e recua ante a liberdade. Retorna para a família com a esposa, enquanto a irmã permanece só para sentir a si mesma e tudo o que a cerca, sem interrupções ou pausas, imune ao peso dos outros.

Ao se ver diante da necessidade de abandonar o quarto em que morava e abrigar-se junto a duas primas percebe ser impossível dividir o espaço com alguém sem deixar-se influenciar ou contaminar. A liberdade de Virgínia incomoda as outras mulheres a ponto de exigirem dela o mesmo comportamento. No entanto, recusa-se a passar os dias sentada diante de uma máquina de costura em companhia das primas que há muito fecharam as portas para tudo o mais que se apresenta além do espaço físico onde ocupam.

Como o lustre aceso só e imponente numa sala; como o sol sozinho a clarear o dia; e a lua solitária a iluminar a noite, Virgínia precisava estar distante de todos. O brilho intenso atrai, mas também afasta por ofuscar a visão dos que o contemplam. O peso da luz é a solidão.

“Ela seria fluida durante toda a vida.” Com essa frase, Clarice inicia “O lustre” e nos dá mostras de que a personagem corre como um rio e nada a aprisiona, nem mesmo o amor, quer da família, quer de um homem.

Com essa fluidez, percorre todos os lugares e relaciona-se, mas jamais ancora-se em lugar algum. Daniel, Vicente, Adriano, Miguel… quantos homens de fato a possuíram para, depois de morta, ser acusada de prostituta por uma mulher que temeu perder o homem que supunha ser seu?

Sem pertencer a ninguém, Virgínia viveu uma espécie de liberdade alicerçada no centro vivo de si mesma. Se para Clarice Lispector, “a solidão é um luxo”, para a sua personagem a solidão é uma necessidade sem a qual a vida não pode ser verdadeiramente sentida.