Tratado sobre elegância

Talvez muitos pensem apenas no quesito vestimenta quando se fala em elegância. Não raro, notamos o quanto uma pessoa é elegante pela roupa que veste somada à sua postura corporal. No entanto, ela vai muito além da roupa que usamos e da posição ereta e altiva que adotamos. Elegância abrange, sobretudo, o comportamento.

Ela parece estar estreitamente ligada a uma certa simplicidade, discrição e delicadeza na apresentação, nos gestos e nas ações. Estardalhaços, gritos, indiscrição, fofocas, agressividades e inconveniências são coisas que minam a elegância de qualquer pessoa, ainda que sua beleza seja estonteante.

Ao procurar o termo no dicionário encontramos várias significações que compreende desde questões relacionadas às vestes, ao porte, ao decoro, até aquelas que sugerem ser ela algo ligada à esbelteza ou à magreza. Ou seja, além de ser demonstrada por meio de comportamentos, ela também é denunciada pela forma com que o físico é apresentado.

Ainda que neguem, somos a união inseparável de corpo e espírito. E a despeito da denúncia referente à escravidão aos padrões de beleza, ninguém há de negar que nos sentimos melhores quando estamos mais magros. Persigo um corpo esbelto não porque há alguém com uma arma apontada para a minha cabeça obrigando-me a ser magra, mas porque me sinto mais bonita e confiante quando as partes do meu corpo se ajustam às minhas roupas sem quaisquer sobras. Nenhuma ditadura da beleza há de vencer os meus próprios mandos no sentido de impor-me a aparência que melhor me apraz. E por falar nesse assunto, gosto muito dos dizeres de Clarice Lispector: a boa aparência faz com que a pessoa se sinta mais feliz e com um sentimento de segurança que muito a ajudará na vida. A boa opinião que fazem de nós é na realidade muito mais importante do que admitimos a nós mesmos.

Quando nos vestimos temos a oportunidade de demonstrar a elegância que mora em nós. O ato de vestir é um momento em que podemos exteriorizar todo o requinte que nos habita. A roupa muito curta, decotada ou justa não fica bonita em todos os corpos e muito menos é aconselhável para todas as ocasiões. E embora queiramos derrubar muitas fronteiras que nos separam, convenhamos que esse tipo de modelito não combina para todas as idades.

Clarice diz ainda que elegante é aquela que escolhe a discrição e valoriza os detalhes. Para a escritora, a mulher elegante é discreta e usa também de discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz e até mesmo nas opiniões. Nada é tão deselegante quanto o comportamento de pessoas que buscam impor seus pensamentos como única verdade possível. Pessoas grosseiras, agressivas e intolerantes jamais serão vistas como símbolo de elegância.

Constanza Pascolato em seu livro A elegância do agora discorre sobre comportamentos que devem ser evitados, principalmente quando nos relacionamos com o outro. Não invadir o espaço alheio, não fazer perguntas íntimas ou indiscretas, cumprimentar as pessoas (não precisa abraçar e beijar, desde que você não as ignore ou finja que não as viu), evitar gestos demasiados e falar sem parar, bem como gritar, uma vez que as pessoas não são surdas.

Além disso, sugere que há hábitos a serem ensinados desde criança: não falar alto, não interromper quem fala, não se atrasar, não reclamar e não fazer perguntas indiscretas. É um dever dos pais ensinarem bons modos a seus filhos, mas para isso eles devem dar o exemplo.

O contrário de elegância é o exagero. Nós podemos demonstrá-la em todos os atos externos que executamos, na maneira como nos vestimos, como organizamos a nossa casa, como nos relacionamos com outras pessoas, como discutimos e discordamos.

Em uma de suas definições sobre vida elegante, Honoré de Balzac diz que é a arte de despender as suas rendas como homem de espírito. Isso demonstra que elegância é intrínseca, mas que se externa das mais diversas formas. Ainda afirma que não basta ter se tornado ou nascido rico para levar uma vida elegante: é preciso ter o sentimento disso.

Sólon escreveu: Não pose de príncipe se você não aprendeu a sê-lo.

A elegância se faz notar em atos externos, mas vem de dentro, e há quem diga que alguém pode até se tornar rico, mas que já se nasce ou não elegante.

Elegância diz respeito à harmonia com a qual dispomos de todo o conjunto que nos rodeia. Ser elegante é um diferencial numa época em que as pessoas não se escutam, não se olham, não se percebem e falam pelos cotovelos. Para ser elegante, precisamos antes de mais nada nos subtrairmos de nossos excessos.

Assim, uma vez que é elegante aquele que usa de poucas palavras, termino esse texto breve no qual me despojo de toda prolixidade.

Opinião formada sobre tudo.

Todo mundo tem opinião formada a respeito de tudo, no entanto digo-lhes que, por não ser todo mundo, nem sempre a tenho para dar. Dou tudo mais quanto quiser. Quanto a opinar e dizer só porque muitos dizem, recuso-me.

Aprendi desde cedo que não devo fazer algo só porque outros o fazem. Quando criança, ao me dirigir até minha mãe a fim de pedir autorização para realizar os passeios de colégio, fora do alcance da cidade, sob o argumento de que todos os demais colegas iriam, ela me dizia: você não é todo mundo. Assim, eu punha o rabo entre as pernas e saía de fininho depois de aprender a primeira lição sobre singularidade a qual jamais esqueci.

Há um tempo, a moda girava em torno de vestuários, calçados, peças e acessórios. Agora, ela perpassa todos os setores possíveis a ponto de atingir até a conversação. Hoje, por exemplo, a moda é falar sobre racismo, violência contra as mulheres, romantização da maternidade, feminismo e outros assuntos sobre os quais não sinto necessidade alguma de manifestar ao tempo em que todos se manifestam. Basta a mídia noticiar e dar ênfase incansavelmente a um acontecimento para que ele seja o assunto da vez.

É evidente que as mais variadas formas de preconceito e de violência me incomodam. Não recebo com alegria a informação de que uma mulher foi espancada ou morta pelo namorado, o qual, por não aceitar a separação, decidiu se vingar tirando-lhe o que de mais importante alguém pode ter que é a própria vida. É com repugnância que ouço notícias em que se revela que alguém foi torturado e morto por se relacionar intimamente com pessoas do mesmo sexo. É com horror e um certo desprezo pela ignorância alheia que leio os noticiários os quais nos informam que ainda hoje há aqueles que são cruelmente atacados por nascerem com a pele negra. Tudo isso faz parte de uma triste realidade que, a despeito de ser desprezível, nos dá prova da truculência humana.

O problema da mulher, da criança, do negro, do índio, dos idosos, dos jovens, dos pobres, dos ricos e dos homens também me dilacera, mas não quero me manifestar sobre eles no afã de um acontecimento que os destacam quando, na verdade, sabemos que todos vivem suas dificuldades diariamente e essas coisas devem ser combatidas sempre e independente de serem ou não noticiadas. Nesse exato momento, provavelmente várias crianças estão sendo vítimas de algum tipo de abuso e ninguém diz nada, pois não está na moda falar sobre isso. E quais são as causas do silêncio? Promover estardalhaço em torno de um fato para atender a modismos, sem, no entanto, debruçar sobre os reais motivos que o fazem acontecer e se repetir não vale nem resolve nada.

O racismo, por exemplo, parece estar enraizado em nossa lembrança e substância. Certa vez, numa cena que presenciei, uma criança manifestou-se contrariamente a brincar com outra. Ao ser questionada sobre o motivo, respondeu que não gostaria de brincar com o coleguinha por esse ser negro. Os pais, assustados, disseram-lhe que isso não fazia a menor diferença e, tendo em vista que o menino gostava de mim, disse-lhe: olha, ele é da cor da sua tia. Sabe o que o menino respondeu? A tia não é preta, a tia é marrom. Isso mesmo. Eu tenho quase certeza que os pais dessa criança nunca o incitaram ao racismo. Talvez ele, por perceber, nos ambientes em que frequenta, que a quantidade de pessoas negras é muito menor que a de pessoas brancas, diferenciava por si mesmo aqueles de quem gostaria ou não de se aproximar.

Num país em que a escravidão durou até pouco tempo, creio que o combate ao racismo deve ser promovido diariamente, por meio de campanhas, sensibilização, educação e, principalmente, ações. O canal midiático que faz sensacionalismo em torno de uma notícia em que se denuncia o racismo é o mesmo que em suas novelas contratam os negros para figurarem apenas como empregados. Eu costumo dizer que colocam um negro ou outro em posição de destaque somente para enganar e se fazerem passar por defensores das mais diversas raças.

O combate ao racismo deve estar presente nas propagandas, nos currículos escolares, nos discursos promovidos por autoridades e instituições sociais, governamentais e religiosas. No entanto, acredito que num país iletrado e periférico como é o nosso, enquanto não for promovida uma educação de qualidade, baseada não em um programa de matérias que não servem para nada, mas naquelas que visam promover o respeito ao outro e às diferenças, não conseguiremos avançar muito em termos de dignidade humana e civilidade.

Darcy Ribeiro sugeriu que a crise da educação em nosso país não é bem uma crise, mas um projeto. É cômodo para as classes dominantes que não haja o despertar da consciência daqueles que nele habitam, principalmente quando o objetivo não está centrado na promoção da melhoria de vida da coletividade. Um país onde há um bom projeto de educação possui cidadãos mais exigentes, eleitores com menores chances de se deixarem vender ou enganar. E por que não representantes mais aptos e com menor propensão a enganos, corrupções e fraudes?

As questões ligadas à violência contra a mulher tem raízes muito mais profundas do que podemos imaginar. Não é pelo fato de sua parceira ser mulher que um homem a agride. O problema não está no sexo da vítima, mas numa relação doentia que se estabelece ao longo do tempo, a qual muitas vezes a mulher se submete e é conivente por inúmeras razões que não se esgotam tão prontamente quanto muitos o queiram ao tentar enumerá-las. E antes de insinuarem que estou sugerindo ser a mulher culpada pela agressão, digo-lhes desde já que não se trata de afirmar que elas têm qualquer espécie de culpa, no entanto não posso deixar de registrar que muitas delas consentem. Há homens que dão mostras de agressividade logo no início do relacionamento, e não raras vezes esse abuso vem disfarçado sob a forma de ciúmes, os quais muitas mulheres se comprazem em anunciar como para mostrar que são amadas e desejadas. Se um homem lhe dá sucessivas provas de ciúmes não encare esse sentimento como evidência de amor, mas de futuros dissabores. Sei bem o que lhes digo.

Quanto a esse tipo de violência, educar não é o bastante, mas necessário. Há que se evitar, combater e criminalizar. Muitas vezes, está relacionado a questões psicológicas que, em não sendo resolvidas ao longo do tempo, acabam levando a novas agressões. No campo das paixões, as coisas não são sanadas automaticamente ao se criar mais um tipo penal, até porque, ainda que o agressor fique mais tempo preso, isso não trará de volta aquela que teve a sua vida ceifada. A mulher precisa adotar uma espécie de postura perante o parceiro que seja capaz de o inibir a praticar qualquer tipo de abuso e não se deixar levar por carências que as façam aceitar demonstrações doentias como se fossem as mais belas confissões de amor.

Outra coisa que também me incomoda profundamente é a discriminação que sofre os homossexuais. Apenas criminalizar as agressões também não se mostra eficaz. É preciso promover campanhas de sensibilização e educação, mas sobretudo fazer com que eles próprios não sejam os primeiros a se diferenciarem. Por que digo isso?

Em momento algum, presenciei uma pessoa heterossexual se apresentar e desejar se impor e se fazer respeitar pela sua sexualidade. No entanto, certa vez, conheci um rapaz em uma livraria e começamos a conversar sobre assuntos literários. Fiquei extremamente interessada nas coisas que ele tinha a me dizer. Eu estava diante de uma pessoa com a qual havia me identificado por possuirmos interesses comuns e eu seria capaz de passar uma tarde inteira conversando com ele sem querer saber nem mesmo o seu nome. Mas antes que pudéssemos passar mais tempo naquele papo, ele me anunciou que era homossexual. A minha reação súbita foi perguntar-lhe o porquê daquela informação uma vez que ela não acrescentaria nem mudaria em nada o rumo da nossa conversa. Eu disse: você é um ser que pensa e raciocina e isso é suficiente para mantermos esse contato.

Gosto muito da forma como Ney Matogrosso se manifesta sobre a homossexualidade. Primeiro, ele nunca se apresentou nos palcos ou em qualquer lugar buscando evidenciá-la. Também, recusa-se a levantar bandeiras nesse sentido, pois segundo declarações suas, ele é a própria bandeira, o próprio estandarte.

Segundo Ney, seria muito interessante para as autoridades do país, em especial as pertencentes ao regime ditatorial, vigente quando surgiu o grupo Secos e Molhados, que o rotulassem de gay, reduzindo-o à sua sexualidade. Ney afirma que defende a causa dos homossexuais com o seu próprio comportamento de homem transgressor, o qual não se submete a normas ou padrões. Nunca precisou gritar sobre sua sexualidade, mas sempre a viveu e a exercitou como bem quis. Continua escapando do rótulo de gay e afirma que seus interesses permeiam por outras esferas que envolvem o ser humano. Mantém-se distante de estigmas que possam reduzi-lo e assim segue participando de conversas em que discute e evidencia o que pensa a respeito dos mais variados assuntos. Ney me faz lembrar uma frase de Clarice Lispector que nem ao menos gostava de ser chamada de escritora. Ela disse – Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.

Eu poderia discorrer sobre muitas outras coisas que me desagradam, mas não teria uma solução imediata para todas elas. Não tenho opiniões a respeito de tudo e meu desejo seria que as pessoas pudessem conversar sobre todos os assuntos sem ataques, paixões ou resposta única possível como se a complexidade humana fosse resolvida com uma fórmula matemática.

É claro que não podemos nos calar e cruzar os braços diante do preconceito, da violência e da barbárie, mas não creio que poderemos avançar ao atacar e insultar quem pensa diferente de nós. Eu não sei como resolver o problema da violência contra as mulheres, os homossexuais e os negros, mas podemos conversar e tentar atacar as causas que são inúmeras, complexas e até irreveláveis. Ou atuamos sobre elas, ou quaisquer discursos e opiniões serão apenas palavras, palavras e palavras. Quem garante que respostas não nos venham por meio de menos opiniões, batuques, estardalhaços e um pouco mais de silêncio?

Convido-vos a claricear.

Clarice Lispector. Só em pronunciar o seu nome, a emoção invade e me faz emudecer. Sem saber por onde iniciar, paro e penso um pouco a fim de me recompor, pois há tanto para dizer sobre ela sem que jamais a conclua. Eis que decido começar pelo dia de sua existência.

Clarice nasceu em 10 de dezembro de 1920, numa aldeia ucraniana chamada Tchetchelnik, num momento em que seus pais juntamente com suas duas irmãs fugiam da Ucrânia, em virtude da ocorrência de ataques contra o povo judeu. Clarice pertencia à uma família de origem judaica, a qual abandonou seu país e aportou no nordeste do Brasil, mais precisamente em Maceió, no estado de Alagoas.

Depois de um tempo, partiram para Recife, onde Clarice viveu sua infância, a qual foi retratada lindamente em alguns de seus contos, apesar das dificuldades que enfrentavam em meio a doença que paralisara e matara a sua mãe.

Desde criança, ela inventava histórias e fabulava. Pelo que se sabe, costumava criar enredos nos quais, ao final, aconteciam milagres de salvação. O que ela mais queria era curar a sua mãe da doença que a atingira. Sobre isso, escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei.

Esse acontecimento é algo que marca bastante a literatura de Clarice e, inclusive, está bem evidenciado no conto Restos de carnaval, no qual ela narra um episódio em que a sua alegria carnavalesca é abruptamente interrompida devido ao agravamento do estado de saúde de sua mãe, obrigando-a a abandonar os festejos para comprar um remédio que pudesse aplacar as dores daquela que a gerou movida pela esperança de recuperar-se.

Clarice perdeu a mãe quando criança e, um pouco mais tarde, já morando no Rio de Janeiro, teve que lidar também com a falta de seu pai, o qual falecera devido a complicações decorrentes de uma cirurgia de apendicite.

Assim, restara-lhe apenas as duas irmãs, Elisa e Tânia, com as quais Clarice manteve profunda ligação e cuja relação fraternal está registrada em cartas ternas e amorosas lhes enviadas no tempo em que ela morou no exterior, em virtude de acompanhar Maury Gurgel Valente, seu esposo, no exercício de servir a missões diplomáticas.

Clarice cursou Direito movida por um ideal de reformar as penitenciárias do país. Mais tarde, comentou que jamais exerceria a função advocatícia por não se imaginar imersa na burocracia inerente a essa atividade. Foi na faculdade que conheceu o seu futuro esposo com o qual conviveu por dezesseis anos e de quem teve dois filhos, Pedro e Paulo.

Antes de se mudar do Brasil, trabalhou em alguns jornais, publicou alguns contos, crônicas e o seu primeiro romance intitulado Perto do Coração Selvagem, escrito aos vinte e dois anos.

Clarice se descrevia como tímida e ousada ao mesmo tempo. Era com sua timidez de ousada que se dirigia aos jornais com seus textos em mãos a fim de tentar publicá-los. De quem é esse texto? Perguntavam-lhe. Ela respondia: É meu mesmo. Assim, conseguia que os divulgassem.

O seu primeiro romance chamou bastante a atenção dos críticos. Não existia nada na literatura brasileira que chegasse próximo ao estilo de Clarice. Para quem estava acostumado com histórias sequenciais, Perto do Coração Selvagem não se prendia à linearidade, muito menos se parecia com os romances publicados à época, os quais costumavam tratar de questões regionais e sociais.

No auge de seu reconhecimento literário trazido-lhe pela publicação desse livro, Clarice mudou-se para o exterior com Maury. Durante os dezesseis anos em que permaneceu casada, morou seis meses em Belém (Brasil) e o restante dos anos em Berna (Suíça), Nápoles (Roma), Torquay (Inglaterra), por último, em Washington (Estados Unidos).

De todos esses lugares, Clarice declarou que viver em Berna lhe parecia a prova mais difícil. A escritora, que em outra oportunidade dissera detestar o domingo por ser oco, afirmou que em Berna era sempre domingo, tamanho vazio e solidão enfrentava nessa cidade. Somando-se ao fato de estar fora do Brasil, distante das irmãs e de amigos, ela também sofria por não se adaptar aos ambientes formais do mundo diplomático, os quais era obrigada a frequentar em virtude do ofício de seu esposo. Nesses lugares, não podia conversar a respeito de seus interesses literários e culturais. Era um universo por demais superficial para suportar assuntos relacionados à arte.

Clarice era uma mulher linda e encantadora, no entanto inalcançável. Colegas de jornais, conhecidos e escritores chegaram a declarar a respeito do deslumbramento que ela despertava nos homens. Ferreira Gullar contou que ao conhecê-la ficou espantado com essa mulher que mais parecia uma loba. O presidente do Brasil, Jânio Quadros, tentou agarrá-la à força, outro ameaçou se matar caso ela não o correspondesse e Maury só desistiu de reatar o casamento depois de tentar convencê-la por sete anos. Ela era consciente do fascínio que exercia sobre os homens, pois disse: Há homens que nem em dez anos me esqueceram.

Durante os anos no exterior, Clarice não parou de escrever seus livros. No entanto, tinha dificuldades para encontrar quem os publicassem e, algumas vezes, foi auxiliada por amigos, mas nem sempre eles conseguiam um editor no Brasil.

Na Suíça ficou grávida do seu primeiro filho, o qual, mais tarde, foi diagnosticado com esquizofrenia, algo que rendeu a Clarice muita tristeza e desespero, pois não tinha tato para lidar com a doença dele. Foi a então esposa do seu ex-marido quem melhor exerceu a tarefa de cuidar de Pedro. O segundo filho, Paulo, nasceu quando ela morava em Washington.

Clarice quis ser mãe. Seus filhos foram desejados e ela se definia como uma pessoa muito maternal. Além da maternidade, a escrita era uma das coisas mais importantes em sua vida. Ela declarou:

Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

Ao desejar ser mãe, ela não ignorava as agruras porque tinha que passar. Sabia que o tamanho do amor de uma mãe é proporcional à sua dor, e tanto sabia que disse: Filhos dão muita alegria. Mas também tenho dores de parto todos os dias.

Sobre ser mãe também escreveu:

Toda mulher, ao saber que está grávida, leva a mão à garganta: ela sabe que dará à luz um ser que seguirá forçosamente o caminho de Cristo, caindo na sua via muitas vezes sob o peso da cruz. Não há como escapar.

Ela tinha consciência de que todos nós carregamos as nossas dores, nos decepcionamos, somos julgados, traídos. E uma mãe, assim como Maria, suporta tudo isso junto ao filho aos pés da cruz.

No que diz respeito a sua literatura, Clarice foi e ainda é considerada uma escritora hermética, enigmática e caótica, cujos livros podem ser enquadrados como de difícil compreensão. Há aqueles que a acusam de bruxaria e ocultismo. No entanto, numa entrevista dada à TV Cultura, a própria escritora disse não entender porque alguns doutos não a compreendiam, enquanto jovens de dezesseis anos tinha sua obra como livro de cabeceira. Então, ela afirmou que entendê-la não era um questão de inteligência, mas de senti-la, de entrar em contato, ou seja, ou toca, ou não toca.

O que Clarice escreveu não entra em nós pela cabeça. Entra pela pele, pelo coração, pelas entranhas, às vezes, pelo estômago. Não é preciso ser um grande estudioso para compreender suas entrelinhas e nuances. Nem ao menos é necessário ser um intelectual, mas uma pessoa de sensibilidade inteligente. Para ler e entender Clarice é preciso ser Clarice. Talvez por isso ela tenha instigado o leitor a penetrar no mistério de sua escrita ao dizer o leitor é o escritor.

Ela escreveu muito e sua escrita transitou por vários gêneros literários: contos, crônicas, correspondências, romances, livros infantis, artigos para jornais, fragmentos de textos e outros escritos. Um de seus romances, A paixão segundo G.H. é um dos livros que mais me impactaram e se trata de uma mergulho no interior da protagonista enquanto ela passa algumas horas dentro do quarto da empregada que acabara de deixar o apartamento. O clímax da narrativa se dá quando G.H. põe na boca uma barata que fora esmagada, o qual simboliza o encontro com o divino. Quando essa mulher entra em contato com a coisa nua e crua, sem asco, ojeriza ou nojo, sem os preconceitos humanos, sem a pata humana, é que ela consegue encontrar-se com Deus. O que entendemos por humano impede a divinização.

Antes de iniciar essa história, Clarice emite uma nota na qual pede que A paixão segundo G.H. seja lido apenas por pessoas de alma já formada. Clarice é para poucos.

Em Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres, ela narra o encontro amoroso entre Lóri e Ulisses. Lóri o quer, Ulisses só pretende aceitá-la após ela entender que não se resume apenas num corpo. Diferente do que estamos acostumados a ver, ou seja, um homem que deseja somente a mulher com o seu sexo, Ulisses a deseja desde que ela seja corpo e alma; é Lóri quem quer se entregar tão logo a ele, mas isso só acontece quando ela entende e passa a sentir que é um ser e não apenas um invólucro.

E o que dizer de A hora da estrela? Último livro escrito por Clarice, cuja personagem principal, Macabéa, é uma nordestina orfã que vai morar no Rio de Janeiro e vive alheia ao mundo. A escritora denuncia a miséria, a marginalização social, a coisificação das pessoas, a exploração, a prostituição. E também o machismo, pois cria um narrador homem para dar seriedade à narrativa, uma vez que escritora mulher pode lacrimejar piegas.

Perto do Coração Selvagem, seu romance de estréia, conta a história de Joana, uma jovem que se casa com um homem apático, nem frio nem quente, mas morno. Otávio mantém uma amante e Joana finge não saber, pois não depende sentimentalmente desse homem e até prefere que a outra lhe dê um filho, pois depois que uma mulher dá um filho a um homem não há mais nada que ele possa lhe pedir.

Clarice é inesgotável e inescrutável. Cada leitura e releitura de seus textos nos traz surpresas jamais imaginadas. Uma velhinha que quer sentir prazer sexual aos oitenta anos, uma mulher que repensa toda a sua vida ao ver um cego mastigando chiclete, um despertar depois que uma folha cai suavemente num cílio, uma decepção de uma personagem quando percebe a crueldade de sua filha, uma senhora indignada ao tomar consciência de que tivera filhos medíocres, os banhos de mar em Olinda, o roubo de rosas, o abandono de um cão, a transformação forçada com que o dono de um quati impõe-lhe uma coleira para lhe dar ares de cachorro e tantas outras histórias instigantes e inesquecíveis que ao mesmo tempo revela e aprofunda o mistério clariceano.

Sua literatura é muito vasta e aborda vários temas e assuntos. Quem entra em contato com Clarice, quem a sente e se identifica com ela jamais deixará de procurá-la. Segundo Benjamim Moser, um dos biógrafos da escritora, o cantor e compositor Cazuza leu o livro Água Viva cento e onze vezes. Clarice é simplesmente apaixonante e hipnotizante.

Após o término de seu casamento, ela retornou ao Brasil e estabeleceu moradia no Rio de Janeiro, onde morreu um dia antes de completar 57 anos, em 09 de dezembro de 1977, acometida por um câncer no ovário.

Nesse ano de 2020 comemora-se o centenário de seu nascimento e em homenagem a essa data, a Editora Rocco está reeditando os seus livros, cujas capas retratam imagens dos quadros feitos por Clarice, que também se aventurou pelo mundo da pintura. A escola de samba Tradição anunciou que no ano 2021 o tema do samba-enredo será a vida de Clarice Lispector.

É com imenso prazer que esboço essas linhas sobre essa instigante escritora, com a finalidade de apresentá-la a quem queira conhecê-la, mesmo que de forma bastante simplista. Há quem diga ser a escrita de Clarice toda autobiográfica, isso significa que nada melhor que a leitura de sua obra para penetrar em seus mistérios e ser inteiramente enfeitiçado por ela.

Otto Lara Resende disse para ter cuidado com Clarice, pois não se trata de literatura, mas de bruxaria. E ela própria enunciou: Se alguém me ler será por conta própria e alto-risco.

Ao ler Clarice, o risco é alto, não nego. Ninguém sai incólume de seus labirintos e é possível que se perca neles. No entanto, ela escreveu perder-se também é caminho. E eu afirmo que esse pode ser um caminho do qual nunca mais se queira desviar ou abandonar.

A miséria adora companhia

À frente do prédio onde moro há uma casa sobre a qual se tem notícias de que fora abandonada pelo possível proprietário. Um vizinho da quadra me informou que, na verdade, ela está sendo objeto de uma lide judicial que já dura alguns anos sem até agora ter-se encontrado uma solução que culmine em sua ocupação legalizada.

A casa está ilegalmente habitada por pessoas presumivelmente desprovidas de teto, de trabalho e de educação. Não sei como se dá o processo de invasão, nem como uma família expulsa a anterior tomando-lhe o lugar como se esse lhe pertencesse de pleno direito. Digo isso porque, antes dessa família, atual ocupante, outros eram os moradores. Esses também não tinham teto, nem trabalho, tampouco educação. Faço um adendo apenas para explicar-lhes que ao apontar o termo educação refiro-me a um mínimo de civilidade.

Pois bem, há exatos dois anos resido nesse lugar e pude observar como as relações entre essas pessoas ocorrem. Muitas vezes fico à janela a observar seus gestos, comportamentos e a escutar suas falas. Observo-os à distância necessária para tomar nota do que se passa, de modo a fazer as minhas considerações que, muito longe de julgamentos, prendem-se tão somente aos fatos verificados.

Para mencionar as pessoas que moraram e as que ainda moram na casa até o momento em que pude constatar, referirei-me a elas como primeira e segunda família, nessa ordem, ainda que mal saiba os laços que os unem, apesar de alguns serem bem visíveis e audíveis.

Uma das mulheres pertencente à primeira família era negra, baixa, cabelos crespos, os quais mantinha sempre em coque, olhar perdido e totalmente revoltada com a vida que levava. Em seus momentos de embriaguez, que aconteciam quase sempre no período noturno, acordávamos com os seus gritos e xingamentos dirigidos aos vizinhos, os quais ela acusava, sem distinção, de serem os responsáveis pela sua dor e miséria. Praguejava contra todos indiscriminadamente e desejava-nos os piores acontecimentos como punição para a nossa aparente culpa pela sua desastrosa vida.

Apesar de ser incomodada e acordada do meu profundo sono, eu procurava entender o desespero daquela senhora. Muitas vezes fui invadida por uma espécie de raiva por ela desferir seus golpes verbais a quem pudesse escutá-lo, sem, no entanto, dizer-nos diretamente o que queria de cada um de nós. Dinheiro, comida, atenção, afeto, olhar de compreensão e não de indiferença? Alguém pode explicar-me o que podemos oferecer a um desconhecido que brada em alto tom a sua miséria? Confesso que não sabia agir diante de seus gritos dolorosos e muitas vezes o que eu sentia era mesmo uma espécie de desprezo alternado de compaixão, esses sentimentos dúbios e contraditórios que habitam-nos e faz-nos incompreensíveis até para nós próprios.

Essa senhora era a única moradora que nos perturbava o sono, o sossego e a consciência. Os outros, apesar de também se entregarem ao álcool, não manifestavam suas revoltas, quer por resignação ou por preferirem guardá-las para si, tendo em vista que dizê-las não alteraria em nada a realidade na qual estavam mergulhados.

Algumas vezes suspeitei que a primeira família houvesse desocupado a casa e, ao perceber o lugar vazio, não nego que respirava um pouco aliviada. É muito fácil defender os pobres e oprimidos quando eles estão a léguas de nós, no entanto pude constatar que encará-los diariamente e tão perto é quase um atentado e uma acusação contra nossa paralisia social. Acordar e dar de cara com essa gente a cada manhã faz brotar de minhas entranhas uma certa repugnância, não por eles, mas pela vida abundante, confortável e de tantos supérfluos que muitos de nós levamos, como se não houvesse miseráveis logo adiante.

Durante o tempo em que escrevo escuto crianças gritando e chorando. São integrantes da segunda família ocupante da casa. Essa é bastante numerosa, barulhenta e caótica. As pessoas não falam entre si, elas gritam e gritam o tempo todo. Talvez outros vizinhos não se incomodem tanto, mas a mim eles perturbam profundamente a ponto de ter pensado, pela primeira vez, em trocar de moradia.

A mãe de três filhos é uma mulher que não só parece ter a minha idade como tem também o meu nome. Assim, vivo agora a pensar que estou sendo demandada, pois quanto a chamam aos gritos penso que é por mim que eles clamam, o que obriga-me a sair de dentro para escutar os outros.

E como me espanta o fato de essa mulher não ter qualquer compostura para lidar com seus filhos. Escuto os mais diversos palavrões com os quais ela se dirige às crias: caralho, filho da puta, filho de uma égua, satanás, vagabundo, rapariga e por aí vai. Ela fala aos berros, os meninos respondem e choram aos berros e eu fico a imaginar o que será dessas crianças quando crescerem.

Meu esposo rechaça meus comentários sobre a falta de educação das crianças dizendo se tratar de crianças-raiz. Ele é mais pacífico que eu, mais paciente, mais tolerante, e isso não hei de negar. Esses dias, pela janela, ao olhá-las brincando e gritando, comentei com ele sobre uma ideia que tive para tentar, a meu ver, ajudá-los. O que não deixa de ser uma ajuda também a mim mesma, pois se elas aprenderem um pouco sobre civilidade poderei ter momentos mais silenciosos para ler e escrever e ter paz.

Pensei que poderia conversar com a mãe delas para que as deixassem comigo pelo menos por uma hora durante o dia para que eu lhes ensine a ler, a escrever e, principalmente, impingir-lhes boas maneiras. Enfim, minha vontade é adestrá-las tal qual fui e continuo a ser adestrada para me comportar de modo que não perturbe os outros. Pensei também em pedir ao síndico do prédio para ceder o salão de festa por pelo menos uma hora durante três dias da semana para que os receba, pois não pretendo trazê-los para o apartamento enquanto não tiver a certeza de que estão prontos.

Acredito que as pessoas podem mudar atitudes e comportamentos por meio de uma educação que fomente o aprimoramento da consciência. Não vislumbro outra forma de ajudá-los, pois qualquer esmola que os der não os preparará para um futuro sem que eles propaguem a penúria herdada de seus pais.

A miséria é como uma epidemia. Se não for contida, ela se alastra por toda parte, cria raízes e se multiplica indefinidamente em muitos filhos igualmente miseráveis. E se digo que a miséria adora companhia é porque não basta a cada uma das pessoas enfrentarem a dura realidade de suas vidas, elas reproduzem em quantidade desproporcional às suas forças físicas, econômicas e emocionais. E como se não bastasse, decidem por criar cachorros, gatos, coelhos e papagaios como se as carências que enfrentam devessem ser compartilhadas não só com os de sua classe, mas também com os bichos, os quais gemem a noite toda, ora de fome, ora de sede.

Jamais conseguirei entender essas pessoas, pois esse exercício de se colocar no lugar do outro é um dos mais infundados, justamente pela impossibilidade de ser o outro com seu passado e suas dores. Se eu fosse essa mulher, cuidaria melhor dos filhos, não gritaria com eles, não teria parido três, não me relacionaria com homens embriagados que batem à porta tarde da noite desferindo-lhes xingamentos e desaforos.

Se eu fosse essa mulher talvez seja a pior frase que já inventei, porque só conseguimos estar dentro de nossa própria pele e toda essa falácia que gira em torno de se colocar no lugar do outro é, como eu disse, pura falácia.

Sem pai e sem paz

Acordei num sobressalto. Estava a sonhar com o meu pai que daqui a dois dias faria sessenta e um anos, caso estivesse vivo. Quando falecera, eu contava quinze anos de idade e era uma adolescente cheia de sonhos, os quais, adulta, ainda conservo.

Crescer sem a presença constante da figura paterna sobre a qual uma menina costuma descansar por sentir-se protegida nunca me impediu de amar aquele que eu sabia ser meu pai. É engraçado como nunca o acusei pela distância, pela falta de carinhos, que dirá pela falta de amor. Como o compreendi desde a mais tenra idade. Como entendi os seus motivos, sem nunca termos conversado a respeito de nada.

Todas as vezes em que nos aproximamos, curtíssimos eram esses encontros e tão pouca coisa havia por falar. Eu deixava que ele reclamasse de minha mãe, pois parecia não aceitar que ela já tivesse se arranjado com outro. Quereria ele que ela o esperasse por toda a eternidade? Nem a minha mãe nem eu nascemos para viver longas esperas, famintas que somos por alegria, confessas devoradoras do viver.

Ele também já havia se ajeitado com outra mulher, a qual tivera filhos que nunca senti como irmãos pela falta de contato e nenhuma convivência.

Não sei o motivo que fez meu pai imaginar minha mãe o esperando sempre de portas abertas, no entanto sei de sua frustração diante da realidade a qual lhe certificou que ela se cansara de seu modo boêmio com que passava pela vida.

O pandeiro era o instrumento de que ele se utilizava para espantar a tristeza, o samba sua diversão, a bebida seu refúgio e os corpos das muitas mulheres eram a sua morada. Gostava de viver solto no mundo com apenas uma mochila nas costas, na qual carregava seus poucos pertences cheirando a álcool, a cigarro e aos mais diversos odores, prova de suas libertinagens.

Tudo isso o distanciava de mulher e filhos. As obrigações de uma vida segura não o interessavam e, se amou alguém, esse amor não foi suficiente para privá-lo de seus prazeres.

Viveu como um errante, sem saber de suas origens paternas, algo que sempre lhe causou muita perturbação. Indagava à minha avó sobre quem era o seu pai. Ela desconversava e eu, na qualidade de sua neta, não sei apontar quais motivos tinha para ocultar-lhe essas informações. No entanto, ele nunca aceitou essa orfandade paterna imposta por circunstâncias alheias à sua vontade e, talvez por isso, tenha deixado seus filhos igualmente órfãos, mesmo quando ainda era vivo. Estava mais preocupado em saber quem era o seu próprio pai do que em ser pai.

Seus problemas e suas carências sempre me pareceram elementos suficientes para eu nunca atribuir-lhe culpas, ao passo que minha mãe, por muito menos, era alvo de infundadas acusações as quais só lhe dei absolvição mais tarde.

Sempre achei que meu pai merecia complacência, que eu deveria compreendê-lo e, acima de tudo, honrá-lo. Eu nem mesmo precisei perdoá-lo de suas omissões, pois, no meu íntimo, encontrei justificativas para todas elas. Nem mágoa, nem raiva, nem indiferenças para com ele. Sinto que jamais teria forças para delatá-lo, condená-lo e julgá-lo. Muito pelo contrário, caso estivesse vivo tentaria protegê-lo e faria todo o possível para apaziguá-lo e ajudá-lo em seus instantes vazios.

Não é por machismo que eu seja uma protetora dos homens, é por achá-los mais vulneráveis. É porque eles, diferentes de nós mulheres, são mais propícios ao vício, à fraqueza, à violência e à perdição. Vejam só minha mãe: casou aos dezesseis anos, teve filhos, separou, casou de novo, teve mais um filho e está aí linda, forte e feliz da vida. Agora, onde está o meu pai? Sucumbiu, não teve forças para continuar, afundou-se na incompreensão de si, dos outros e do mundo. Não teve ninguém que lhe dissesse que a vida é difícil para todos e que cabe a cada um de nós decidir o que faremos com essa verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.

Eu poderia tê-lo dito, mas à época, que sabia sobre a vida? Muito pouco para ajudar um homem sem paz e sem pai.

Lembro-me que as referências a respeito de meu pai eram as melhores possíveis. Diziam se tratar de um homem de coração bom e puro cujas ações só prejudicavam a ele mesmo. Um homem alegre que gostava de se divertir e cantar, que sabia falar e se comunicar bem com os outros e conquistava todos com seu jeito descontraído. Minha avó materna o adorava e ficou muito mais desolada com a separação que minha mãe. Era tão apaixonada pelo meu pai que custou-lhe permitir outro em seu lugar. Morreu sem aceitar substituto que lhe correspondesse.

Ah como muitas vezes me perdi a olhar um homem carregando uma filha nos braços enquanto ficava a pensar: não me lembro de viver momentos desses com o meu pai. Não tenho lembranças de receber dele abraços, beijos ou afagos. É minha mãe quem narra um episódio no qual, desde muito cedo, demonstra que fui eu quem sempre quis protegê-lo e cuidá-lo. Conta ela que certa vez meu pai estava no alto de um poste e eu, muito pequenina, disse-lhe alto: cuidado papai!

Parece-me que desde bebê dispensei as proteções por me sentir forte e invencível. Era como se, ao saber disso, eu tivesse que devotar proteção aos outros por percebê-los mais necessitados. E se tenho tanta força assim como não reconhecer que devo isso também a ele cujo sangue corre em minhas veias? Devo a ele também a existência de um dos meus irmãos que me deu sobrinhos, os quais animam a ideia de que não serei sozinha, ainda que vislumbre não deixar descendentes.

Diante do meu pai morto, imóvel, naquele 23 de janeiro de 2004 chuvoso, eu estava igualmente paralisada, mas agradecida por ele ter dado-me a vida que tanto prezo e amo.

Olho o espelho e vejo o reflexo de traços seus e de minha avó paterna. E quantos mais de seus ancestrais moram em mim? Essa minha cor escura, esses meus olhos grandes e vivos, esse orgulho, essa vaidade, essa vontade de não ser mãe de ninguém para ser mãe de quem precisar de mim… Tudo isso terá vindo de quem? Essa ânsia por saber, essa vontade de ser, de entender e de transcender… Esse desejo de eternizá-lo em meus escritos, deixar a minha e a sua marca no papel para que todos saibam que ele existiu e existirá para além dos séculos…

Ah meu pai! Que lindo sonho! Sonhei com você e escrevo essas linhas para que esse instante não escape entre os meus dedos. Sonhei que eu sorria muito sentada em seu colo. E lembro-me até agora do seu sorriso a olhar para mim como se nunca tivéssemos nos afastado um do outro. Nós dois juntos e unidos para além do tempo e do espaço, pois esteja onde estiver, serei sempre grata e alegre por ser sua filha e por você nunca ter deixado de ser o meu pai.

O avião que é um bicho e eu que sou má pagadora de promessa

Dias atrás, meu irmão mais velho anunciou-me que faria uma viagem a São Paulo e a primeira preocupação que me veio à mente relacionava-se ao meio de transporte que o conduziria até o seu destino, ou seja, o avião. É que, acreditem ou não, tenho pavor desse bicho. Um pavor sem justo motivo, eu sei. Mas não hei de negar que os mistérios que o envolvem causam-me certo pânico. Não sei como algo tão pesado consegue se manter no ar e ainda que tentem explicar-me como funciona cada uma de suas operações, digo de antemão que não as concebo de modo de algum.

Vão querer me convencer que as estatísticas demonstram ser o avião um dos meios de transportes mais seguros do mundo e vou responder: meta as suas estatísticas no bolso e deixa eu cá com o meu medo, porque medo não se discute. 

Por exemplo, conheço uma mulher que perde o sono porque teme ser raptada por alienígenas e discos voadores. Nem por isso, tento convencê-la de que ela não tem juízo. Conheço algumas pessoas que tem medo de baratas, enquanto piso nelas com gosto de pisar. Conheço um homem que tem medo de um tal de Nibiru se chocar com a Terra. Ironicamente, digo-lhe: pelo menos iremos todos juntos. Conheço gente que receia morrer só, como se houvesse outra alternativa. Há os que temem trovões e chuvas fortes. Outros, preocupam-se em não serem amados nem aceitos. 
E há aqueles que têm medo da morte, como se houvesse escapatória.

Enfim, somos seres que muitas vezes se apavoram por essa coisa chamada medo. Infundado ou real, ele nos assola.
O medo de andar de avião me persegue sem que eu saiba nem ao menos porquê. Parece que é algo tão ancestral que não se explica, pois jamais passei por uma situação alarmante que o justifique. Chego a pensar que nasci com ele.

Quando criança, época em que morava numa cidade muito pequena, sobrevoada apenas por pássaros, avistar no céu um pontinho luminoso acendia uma esperança de enxergar um avião, ainda que muito distante. Essa era uma atração inexplicável a qual fazia com que os meninos e as meninas parassem quaisquer brincadeiras para correrem na busca por acompanhá-lo com os olhos, aos gritos: Olha o avião!

O barulho de sua passagem confirmava ser ele mesmo. E quando o objeto sumia no horizonte, eu ficava a pensar: será que tem gente dentro dele? Para mim, ele voava sozinho e sem ninguém, movido por uma força que eu não sabia explicar de onde vinha e sustentado no ar pelo mesmo que sustenta o sol, a lua, as estrelas e os planetas. Assim eu pensava. 

Hoje sei que tem piloto e passageiros e já fui passageira também, no entanto continuo sem entender como ele sobe e permanece nessa imensidão e se mantém no ar. Então, adulta, a tese continua sendo essa – ele é sustentado pelo mesmo que sustenta os astros.

Um colega que entende muito de física tentou me esclarecer tecnicamente o que faz um avião decolar, sobrevoar e aterrissar, mas enquanto explicava nada se alterava em meu pensamento. Sou provinciana demais para acompanhar essa modernidade toda. Sei lidar melhor com coisas mais simples, que também às vezes não me convencem. Ou então aceito a minha ignorância e deixo tudo como está.

A última viagem que fiz no bicho foi desesperadora. Nada demais aconteceu. O desespero era todo dentro de mim.
Entrei numa fila para embarque e à medida que se aproximava a minha vez de entrar, eu tinha vontade de chorar ou sair correndo do aeroporto. Entrava tanta gente que parecia não caber mais. E cada passageiro com suas malas. Como suportar tanta gente e tanta coisa? Como dar conta de ficar lá em cima com tanto peso? Se quem o segura é o mesmo que sustenta os planetas os quais são bem maiores e mais pesados, por que não me consolei?

Porque, na verdade, nunca ouvi dizer que um planeta tenha se espatifado no chão. Agora, o avião… De vez em quando alguém larga as mãos dele e a coisa se estraçalha toda e quem tá dentro também.

Durante a minha viagem, fiz questão de controlar tudo naquela telinha que aparece pra gente. Qualquer diminuição na velocidade e eu ficava atenta. Quando o piloto freava, eu pensava que o avião perderia as forças e sucumbiria à queda. Um senhor sentado ao lado roncava que dava gosto de ver e escutar, enquanto eu estava sendo consumida pela ansiedade da chegada e pelo medo de não chegar.

Quando ele acordou, puxei papo só de nervosismo: O senhor não tem medo?

Ele: Não, minha filha. Viajo toda semana e ainda volto hoje a noite para Brasília. 

Pelo menos ele me chamou de filha e isso não deixava de ser um consolo.

Fui e voltei sã e salva, mas não desejando entrar nesse bicho de novo por tão cedo.

Falei tanto sobre o objeto voador que não continuei a história sobre a viagem do meu irmão.

Um dia antes de ele viajar, tive pesadelos horríveis. Sonhei que nossa avó materna falecida morria de novo e era preciso providenciar o velório. Perguntei à minha mãe: vai velar na nossa casa ou na dela? Minha mãe disse que não gostaria de ter velório na nossa casa.

Acordei num sobressalto às três horas da manhã e numa angústia sufocante. Seria algum prenúncio? Quando viva, essa avó era um dos elos mais fortes entre mim e meu irmão. Pensei logo nele: daqui a pouco ele vai entrar naquele bicho. 

O que eu podia fazer? Rezar. Peguei o terço e pedi fervorosamente. A cada dezena eu repetia desesperada a Deus, a Jesus, à Virgem Maria e a todos os santos existentes no céu e na Terra: só quero que proteja meu irmão antes, durante e na volta. Ao terminar, ainda prometi que iria à missa em agradecimento pela salvação dele.

Depois de rezar, caí em sono profundo. Como que informada pelo inconsciente, acordei cinco minutos antes do meu irmão decolar, a tempo de desejar-lhe uma boa viagem e fazer todas as recomendações necessárias e desnecessárias também.

Deu tudo certo, pois ele chegou bem a São Paulo.

Assim, os dias foram passando e nada de missa. Não que eu tenha deixado de rezar durante esses dias, mas a promessa foi ficando… Eu havia me esquecido dela depois do alcance da graça.
Até que ouvi de uma pregadora: não é porque você fez algo de que Deus não tenha gostado que Ele vai te abandonar. Aí é que fiquei ainda mais descansada. Eu que, num de meus textos, julgara Bentinho (Dom Casmurro) por não cumprir as próprias promessas incorri na mesma conduta. Ficou muito claro porque não se pode julgar, mas daí a gente esquece e julga de novo.

A volta do meu irmão estava marcada para uma certa data, mas foi adiada. O dia de seu retorno coincidiu com a data de aniversário do nosso pai falecido. Prenúncio? Como sou supersticiosa! Chega a dar raiva.
Meu Deus, chegou o dia de ele voltar a Brasília e nada de eu ter ido à missa.

Na hora de pedir a Deus para proteger o meu irmão durante o seu retorno da viagem, eu estava por demais envergonhada. Resolvi dizer o mínimo, pois estava em débito. Calada, eu já estava errada, mas precisava contar mais uma vez com a misericórdia divina. Então sussurrei: Ah Deus! Proteja-o que ele não tem culpa das minhas falhas nem das minhas dívidas. Depois eu me acerto com o Senhor. E concluí com um amém baixinho e de olhos bem fechados que era para não encará-Lo.

Tratei de tentar ficar calma durante as horas da viagem de regresso. De qualquer modo, por segurança não sei de quem, localizei o voo pela internet e o acompanhei até o pouso em Brasília.

Ao pousar, meu irmão mandou-me uma mensagem para avisar sobre sua chegada, ao que disse-lhe: vejo aqui pelo meu controle que o voo chegou à hora marcada. Eu estava te acompanhando.

Ele deu risada e respondeu: já que estava me acompanhando, qualquer sinal de que o avião tivesse caído você morreria antes mesmo de mim.

Sim. Eu morreria. Só não morri, porque o avião foi muito bem segurado pelo sustentador dos astros.
Agora, a promessa não se sustentou. Deus, meu Deus, me perdoe!

A águia e a galinha, de Leonardo Boff

A águia e a galinha foram os animais escolhidos pelo autor para figurar como título desse livro e simbolizar duas dimensões da vida humana: a corpórea e a espiritual. Somos seres concretos, porque temos um corpo material, palpável, delimitado. Por outro lado, temos aspirações, sonhos e desejos que brotam do nosso espírito e extrapolam o território e o espaço desse mesmo corpo.

A nossa dimensão física é representada pela galinha. A galinha expressa a situação humana na sua materialidade, no seu cotidiano, no círculo da vida privada, nos afazeres domésticos, nos hábitos familiares e culturais, na labuta cotidiana pelo pão de cada dia. Já a representação do nosso espírito é figurada pela águia. A águia representa a mesma vida humana em sua espiritualidade, na capacidade de romper com os limites, em seus sonhos, em sua capacidade de criar coisas novas, em sua potencialidade de conectar-se com outras pessoas, com o futuro, com a evolução, com o universo e com Deus. A grande questão que se nos apresenta é a capacidade para lidar com essas duas dimensões humanas e alcançar o equilíbrio na construção de nossos caminhos.

Construir o próprio caminho pressupõe um estado de liberdade que nem sempre é atingido por todos. Posso afirmar que a verdadeira liberdade é conhecida por muito poucos. No entanto, convém indagar: onde começa a liberdade?

Leonardo Boff nos responde essa pergunta ao dizer que para libertar um país é preciso, antes de tudo, libertar a consciência do povo. Portanto, a liberdade do indivíduo pressupõe a libertação da consciência. Até me veio à mente uma frase que passei a usar com frequência após ler Hamlet, de Shakespeare: se minha consciência não me acusa, ninguém mais me acusa. Vocês não têm noção do quanto essa frase é libertadora.

Primeiro, o processo de libertação acontece na mente; depois, na organização. Por fim, na prática. Primeiramente, precisamos nos lembrar que é a consciência que nos torna diferentes de todos os outros animais existentes e ela está intimamente ligada à nossa dimensão águia. Como seres espirituais temos conhecimento de que somos conjuntamente corpo e alma. É o espírito que nos dá a consciência do corpo e também de si próprio.

Esse raciocínio me remete a uma frase de Teilhard de Chardin: Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana. Portanto, criados à imagem e semelhança de Deus, ganhamos um corpo para vivenciar nele a nossa dimensão espiritual, com liberdade e não presos em um cativeiro.

Corpo e alma são indissociáveis, pelo menos nessa existência terrena. É essa inseparabilidade de nossas dimensões que nos dá inteireza enquanto seres. Leonardo Boff considera esse entendimento separatista do corpo e da alma como um desvio da antropologia ocidental, já que essa divisão impossibilita a expressão da complexidade e da realidade humana, culminando numa visão reducionista do homem. Para ele, não temos corpo e alma. Somos corpo e alma. Não somos seres fragmentados e a fragmentação dificulta a compreensão da totalidade.

Para o autor, o nosso maior desafio é fazer conviverem a águia e a galinha. A águia possui asas compridas para sustentar seus voos altíssimos. É um animal que enxerga longe, oito vezes mais que nós humanos; cuida de seu habitat e de seus filhotes, ensina-os, por meio do exemplo, a voarem e procurarem seu próprio alimento. O casal de águia permanece juntos por cerca de vinte anos, fiéis um ao outro e, na fase inicial de enamoramento, chegam a copular até oito vezes por dia. Felizes os convidados a “amar” como esse par. É um animal que inspira dimensões espirituais como amor, liberdade, fidelidade, cuidado, coragem, proteção, disposição.

Também nós sonhamos voar alto, transcender os limites do nosso corpo, vencer nossas instabilidades e nossa natureza corpórea decadente. Boff adverte: Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar. Ele está dizendo para não figurarmos apenas como galinhas e convida-nos a libertar essa águia que existe em cada um de nós. Para isso, é preciso nos construirmos. Não recebemos a existência pronta. Devemos construí-la progressivamente. Lembrando que não somos seres perfeitos, mas perfectíveis.

A solidariedade, a compaixão e a sinergia do outro para conosco é de extrema importância no nosso processo de construção. Entretanto, a exigência maior é para com nós mesmos. Cada um é provocado a ser herói/heroína de si mesmo e de sua própria saga.

Herói/heroína é cada pessoa que assume a vida assim como se apresenta com caos e cosmos, com ordem e desordem, com realizações e frustrações, com um buraco interior do tamanho de Deus.

O caminho da construção tem lá seus riscos: incompreensões, traições, frustrações e fracassos. Mas, também tem amizade, amor, amadurecimento e sabedoria de vida. Muitas coisas consideradas ruins podem nos acontecer, entretanto o que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem, mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas.
E, com certeza, uma reação equilibrada e consciente de nossa parte reduz a possibilidade de mais frustrações e decepções.

Muitas vezes seremos confrontados com o desamparo existencial/emocional e com o sentimento de perda. Sentiremos necessidade de apoio e de alguém em quem confiar. Essas situações exigirão de nós uma ação de enfrentamento que nos levará ao crescimento e conscientização de que não somos onipotentes e que precisamos uns dos outros.
Ao invés de culpar os outros por nosso desamparo ou de nos omitir de batalhar contra ele, assumimos uma atitude positiva de empenho e luta.

Construir um caminho exige esforço e combate. Faz-se necessário superar as quedas, vencer os medos e seguir adiante, sempre adiante, tendo como alvo a libertação da sua própria identidade e a realização de suas potencialidades, deixando-se guiar pela esperança e afastando o desânimo. Construir um caminho também significa cuidar de nosso ser, em suas dimensões corporal, mental e espiritual. Todas, e não uma ou outra, pois somos um ser em totalidade, embora queiram nos fragmentar, criar divisões que mais nos afastam que nos unem.

Nesse sentido, Boff afirma que a cultura dominante dilacerou o ser humano em mil fragmentos. Separam-nos em homens, mulheres, crianças, jovens, idosos, negros, homossexuais e mais inúmeras classificações. E eu pergunto: para que isso se temos as mesmas aspirações de liberdade e dignidade?

Deus nos criou iguais para que tivéssemos comunhão e unidade. A separação é do diabo, do latim diabolus, do grego diábolos, ou seja divisão, aquele que desune. É o diabo que deseja que nos classifiquemos para implantar seu projeto de desunião.

Nós somos de Deus, possuímos interioridade, há presença divina em nós. Precisamos saciar não só nossa fome de pão, mas também de espiritualidade. Não devemos permitir que apaguem em nós a consciência da vocação águia. Precisamos nos orientar à construção de nossa individualidade e singularidade, sem para isso pisotear os demais.

Querem nos enquadrar em nichos, categorizações. Querem nos anular quanto espíritos que também somos. Por isso, a grande maioria da humanidade é homogeneizada nos gostos, nas ideias, no consumo, nos valores, conforme um só tipo de cultura (ocidental), de música (rock), de comida (fast-food), de língua (inglês) de modo de produção (mercado capitalista), de desenvolvimento (material).

Não somos homogêneos e nunca seremos. Vivemos nossas dimensões em locais, contextos, culturas e sob óticas diferentes. Cada um deve seguir o seu próprio caminho, sem comparações. Cada um deve alçar seus voos em direção aos próprios desejos. Só a individualidade nos diz quem somos, a que viemos e para onde vamos.

É preciso não deixar morrer essa águia existente em nosso interior. É preciso expandir os limites impostos pelo corpo para se tornar um ser total. As águias descem ao chão para buscar alimento, porque sem ele não tem forças para voar, ainda que suas asas sejam enormes. E nós, muitas vezes, teremos que pisar no chão, mas não para permanecermos nele, como galinhas, apenas com a finalidade de buscar a energia necessária para alçar novos voos.

Minhas queridas, de Clarice Lispector

Trata-se de um livro epistolar, o qual contém as cartas escritas por Clarice Lispector às suas irmãs, Elisa e Tânia, no período em que a escritora viveu fora do Brasil para acompanhar seu marido, diplomata, Maury Gurgel Valente.

Reli todas as cartas com a emoção de uma pessoa, que assim como Clarice, ama os irmãos. A coisa melhor da vida é ter irmãs. Não há quem as substitua, disse ela. E eu afirmo: ter irmãos é a coisa mais melhor do mundo. Isso mesmo. Mais melhor.

Nas primeiras cartas, Clarice encontrava-se ainda no Brasil, na cidade de Belém, mesmo assim, escrevia às irmãs como quem já estivesse do outro lado do planeta. Nesses escritos, Clarice, intencionalmente ou não, fazia literatura. Parecia saber que as cartas ficariam para a posteridade.

Ler as cartas de Clarice é como saborear garrafas de champanhe espumante, escreveu Teresa Montero. Eu digo, pois, que ler as cartas de Clarice é como saborear taças de vinho seco, ainda que a embriaguez seja decorrente mais de suas palavras que do álcool.

Leio-as sentindo todos os sentimentos externados pela escritora: saudade, angústia, tristeza, alegria, medo, insegurança, amor, ciúmes, desespero. É preciso ter coragem para ter vida nova. Clarice teve muita coragem quando decidiu deixar o seu amado país e se afastar fisicamente das irmãs. Mas, seu coração, nunca esteve fora daqui. Um único desejo a acompanhou por todo esse tempo: o retorno ao Brasil.

Então, ela escrevia incansavelmente. Escrevo porque encontro nisso um prazer que não sei traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando.

E como chorou essa sua alma enquanto ela sobreviveu longe das irmãs. Parece-me que o período mais difícil que enfrentou foi aquele durante o qual esteve em Berna, na Suíça. Ali, Clarice viveu o ápice de sua solidão, a ponto de dizer estou considerando Berna como uma prova. E ela repetiu esse pensamento em outras cartas escritas de lá: Berna vai ser a dura prova que me mostrará se eu sou capaz de ser gente ou não.

Apesar de morar em alguns países, Clarice não se entusiasmou com nenhum deles. Eram as pessoas que a interessavam. De nada adiantaria ver coisas bonitas se não podia compartilhá-las com os seres que amava. Só tenho na verdade interesse e esperança em certas pessoas, em conhecer certas pessoas. O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível. Também escreveu: o mundo todo me parece ligeiramente chato.

As descrições de Berna eram sempre feitas em tom melancólico. Já tendo declarado em outra oportunidade que detestava o domingo por ser oco, chegou a dizer que em Berna era diariamente domingo. Berna é um silêncio terrível: as pessoas também são silenciosas e riem pouco. Eu é que tenho tido acessos de riso.

Vivo com parte do corpo e da cabeça voltada para o Brasil e às vezes todo o corpo e toda a cabeça.

Ela não tinha qualquer interesse pelo mundo como também não tenho. Sinto-me como se fosse um extraterrestre quando digo aos outros que não gosto de viajar, de sair da simplicidade do meu lar. Logo querem arrumar uma justificativa para o meu não-gosto: não é porque você tem medo de avião? Tenho mesmo esse medo. Algumas vezes até o enfrentei e, apesar do pavor, voava, mas quando chegava aos destinos, pensava: Ah! é só isso? É que como Clarice: Eu infelizmente sou um espírito cansado e “blasé”; pouca coisa me entusiasma, eu bebi demais na literatura.

Todos querem conhecer o mundo todo porque falar do mundo todo impressiona. E eu não quero impressionar ninguém. Sou interiorana que, por ter vivido até a adolescência num espaço geograficamente muito pequeno, como é minha cidade de origem, tive que desenvolver um mundo vasto dentro de mim e o tamanho desse mundo interior ultrapassou a extensão do Universo. Não tenho interesse em conhecer o que está fora e distante demais. É que já tenho muito ao meu alcance sem que eu precise pôr os pés para fora.

A impressão que tenho é que hoje as pessoas viajam tanto que voltam mais tontas do que foram. É porque elas ainda não encontraram esse mundo ao alcance das mãos de que falo. Esse desinteresse pode ser a pior espécie de esnobismo que alguém pode ter: não sentir prazer nas coisas do mundo. Se assim é, faz parte da minha natureza e não deve ser pecado. E se for, Deus há de perdoar.

Numa das cartas, ela escreveu: O mundo todo é ligeiramente chato, parece. O que importa na vida é estar junto de quem se gosta. Isso é a maior verdade do mundo. E se existe um lugar especialmente simpático é o Brasil.

Clarice não poupava em palavras delicadas e amorosas para se dirigir às irmãs: queridinha, filhinha, Elisinha, Leinha, minha florzinha. Escrevia e cobrava incessantemente que as irmãs lhe dessem breve retorno. Queria saber detalhes da vida delas, como estavam de saúde, de dinheiro, de trabalho. Dava-lhes os melhores conselhos e as mais cuidadosas recomendações. Seja feliz, cuide-se, poupe-se, ame-se, faça isso, faça aquilo, enquanto ela mesma é que precisava de cuidados e de amor. Quando esteve em Nápoles, escreveu: A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.

Eu sou uma pobre exilada. Você não imagina como longe do Brasil se tem saudade dele. Sou capaz de escrever um novo Brasil, país do futuro.

Eu lhes disse no início que Clarice teve duas irmãs. Quanto a mim, o que tenho são dois irmãos: bonitos, grandes e fortes. Sou a mais velha dos três filhos de minha mãe: nem bonita feia, nem grande, nem forte.

O filho do meio é de gênio difícil tanto quanto o meu. Quando vou lhe falar, chamo-lhe de Osmar e com firmeza. Sempre tive a sensação que com ele eu teria que ser dura e heroica. Acho que em muitas circunstâncias pesei demais a mão. Foi por amor, a maior desculpa para os meus exageros. Às vezes sai um “Ju” de Júnior, porque ele tem o nome de nosso pai. Somos parecidos em natureza e em orgulho. A origem comum, os problemas comuns, a vivência simultânea de nossas infâncias, o sangue dos mesmos ascendentes correndo em nossas veias, o amor incondicional e comum de nossos avós maternos nos fizeram mais parecidos. Ele se deixa acarinhar muito pouco. Eu, quase nada. Eu o amo como amo a tão poucos. E não é que o danado me ama também? Do jeito dele, meio distante, meio ressentido.

Esses dias ele aprontou uma comigo que até agora estou meio tonta, meio boba. Eu, que já sou madrinha do primeiro filho dele, fui surpreendida com o convite para ser também do segundo. E não é que no fundo eu já sabia? Às vezes finjo que não tenho só para receber mais e mais. Ainda há mais essa parte boa decorrente do fato de termos irmãos. Podemos ganhar sobrinhos e afilhados. Ser tia e madrinha ao mesmo tempo e dar a eles o amor que já sentimos pelos irmãos somado ao amor que temos pelos seus filhos. Mais que com os irmãos, é com os sobrinhos que nos revelamos. Eu me revelo.

O irmão caçula é um anjinho de olhos bem azuis, de um azul mais intenso que o céu. Branquinho e de uma pureza que de tão pura foi toda para ele e me faltou. As bochechas rosinhas. Tão lindinho. Peguei no colo, troquei as fraldas, dei-lhe banho, mamadeira, botei para dormir, amei, briguei (porque brigar é uma forma que tenho de amar também). Vi crescer. A vozinha é mansa. Boa de ouvir. Hoje é ele quem me dá colo, me chama Mamá. Tão acolhedor ele é. Tão meu irmão como o outro. Dizem que quando ganhamos um irmão por parte só de pai ou só de mãe ele é nosso meio-irmão. Que mentira! Pois é nele que eu somo e multiplico. Por ele, viro dez para sair em sua defesa. E ai de quem se engraçar para o seu lado. Cresço na hora e viro leoa. Nele me apequeno também. Porque ele é sutil, sutil, sutil. Tudo que não tenho de bom e belo vejo na imensidão azul de seu olhar.

E me deu uma saudade agora do meu bebê, do meu nenê, meu baby. É assim que o chamo. E mesmo quando fico brava com ele, por achar que não está se cuidando como deveria, continuo querendo dar-lhe colo. Por ele, sou capaz de perdoar até crimes. Nele, Deus se manifestou com mais clareza. Foi meu bebê quem me pediu que eu escrevesse algo em homenagem ao aniversário de Clarice, dia 10 de dezembro. Escrevo é em obediência. Ele nem sabe o quanto manda em mim e que não só gosto de suas ordens como as cumpro.

Mudando de assunto, não largo nem Brasília, nem o Brasil. Não saio de perto dos meus irmãos nem que me ofereçam ouro. Eles é que são minhas riquezas, e podem até querer ficarem longe de mim, mas eu não arredo o pé de perto deles.

No entanto, Clarice casou e foi embora com o marido diplomata. Pagou um alto preço em ficar longe das irmãs que tanto amava. Quem sabe a distância acabou aproximando-as? Quando estamos perto nem sempre manifestamos os sentimentos. Falar escrevendo é mais fácil que falar falando. É que quando estamos juntas não escrevemos cartas e parece que é escrevendo que se pode dizer certas coisas.

Carta é um excelente meio para ser intenso e verdadeiro. É pena que elas estão cada vez mais escassas. Eu mesma nunca escrevi carta a meus irmãos. Sobre as coisas bonitas que há no mundo, Clarice disse a irmã: Ser irmão é uma delas, gostar de irmã muissima delissima.

Clarice não conseguiu se adaptar longe dos seus: minha vida é um esforço diário de adaptação nesses lugares áridos, áridos porque vocês não estão comigo. Essas cartas me fizeram olhar a vida com outros olhos. Cada frase me abria a consciência para o que é verdadeiro, importante e fundamental. Ter irmãos é uma das coisas fundamentais da vida. Amá-los é o melhor dos sentimentos.

Para os meus irmãos quero o que há de mais belo na vida. Quero que eles sejam alegres, felizes e que a alegria lhes seja duradoura. Quero que, em tudo, sejam melhores e maiores que eu. Que eles me ultrapassem. A alegria deles é a minha alegria. A tristeza deles é a minha tristeza. A vida deles é um presente de Deus para mim. E os filhos deles são meus filhos.

Meus irmãos são os lírios do campo. Eu quero regá-los sempre com muito amor para que eles cresçam, cresçam e floresçam. À medida que crescerem, diminuirei mais e mais para caber dentro deles. É perto dos meus amados que eu quero viver e morrer, porque para mim, assim como para Clarice, não existem lugares, existem pessoas.

No entanto, diferente de Clarice, não estou disposta a me lançar no mundo, nem mesmo para seguir diplomata, pois quero mesmo é estar sempre onde estão os meus dois coraçõezinhos, quero dizer, os meus dois irmãozinhos

As virtudes do fracasso, de Charles Pépin

Charles Pépin é filósofo, escritor e professor francês que, tendo observado, na Filosofia, a escassez de reflexões acerca do fracasso, resolveu dedicar toda uma obra com considerações a respeito desse tema.

Ao apresentar o livro, o autor pondera que em nossa sociedade o fracasso não é algo visto com bons olhos, mas como uma fraqueza, uma falha. Enfim, ele não é encarado como prova de ousadia e experiência. Por outro lado, adverte que o sucesso raramente acontece sem percalços ou obstáculos.

Para provar o que afirma, cita vários exemplos de pessoas que só alcançaram a glória depois de terem passado por dificuldades e derrotas. Também, dá exemplo de produtos que ao serem fabricados inicialmente para uma determinada finalidade, acabaram, por uma espécie de erro, não cumprindo ao que se destinava, transformando-se em algo inesperado, mas que atendia a uma outra função, igualmente importante. Foi o que aconteceu com o marca-passo e com o milagroso viagra. É isso mesmo. O viagra foi fruto de um “erro” e, hoje, se muitos acertam é por causa dele, ainda que vocês deem risadas.

Conto-lhes como surgiu esse medicamento: pesquisadores do laboratório Pfizer queriam tratar anginas com substância química, mas erraram o alvo. A substância não produzia o efeito esperado, e sim um efeito secundário imprevisto: fortes ereções. Eles tinham falhado em tratar a hipertensão arterial pulmonar, mas acabavam de descobrir o remédio para a impotência que os homens buscavam havia séculos.

Pois bem, a falha que culminou no viagra hoje faz a alegria de muita gente.

Com algumas pessoas também aconteceram de seus fracassos transformarem as suas vidas em histórias de sucesso.

Antes de escrever Harry Potter, a autora britânica J.K. Rowling estava no fundo do poço: fim de um casamento, sem dinheiro, triste, desesperançosa e perdida. Começou a escrever algumas páginas para distrair-se da realidade difícil em que vivia e viu o sucesso chegar até ela.

Steve Jobs foi demitido da apple e, quando recontratado, desenvolveu aparelhos tecnológicos que fazem dessa empresa uma das mais rentáveis e inovadoras do mundo. Para ele, ter fracassado deu-lhe uma lição de humildade.

Agassi, jogador de tênis, descobriu que, apesar de ser número um nas competições, nunca havia gostado desse esporte. Quando tomou consciência disso, caiu numa depressão profunda, engordou quilos e mais quilos e começou a ingerir substâncias tóxicas. No fundo do poço, soube que a filha de um de seus melhores amigos havia sofrido um acidente, mas apesar do ocorrido, esse amigo estava ao lado da filha lutando pela recuperação dela. Esse episódio fez com que Agassi ressurgisse para a vida.

Nesse momento, ele teve aquilo que Clarice Lispector chama de epifania. Resolveu que fundaria uma instituição para ajudar os que necessitassem de auxílio. Para isso, precisaria de dinheiro. E para ter dinheiro teria que fazer algo. Lembrou que jogava tênis muito bem. Então, decidiu que voltaria a jogar por aqueles que se valeriam de sua ajuda. Voltou a treinar por uma causa maior, recuperou-se da depressão, perdeu peso, abandonou as drogas, disputou, ganhou mais prêmios e fundou a sonhada instituição.

Esses são apenas três exemplos de pessoas que fracassaram antes de vencer. Foi pelo fato de terem fracassado que conseguiram. Sem a resistência da realidade, sem esses reveses, sem todas as ocasiões para refletir ou se recuperar propiciadas por suas perdas, eles não teriam conseguido realizar o que realizaram.

Os fracassos por que passaram essas pessoas as fortaleceram, preparando-as para o combate.

Antes de inventar a lâmpada elétrica, Thomas Edison falhou inúmeras vezes. Ao ser questionado sobre isso, respondia: Eu não fracassei milhares de vezes, eu consegui fazer milhares de tentativas que não funcionaram. De tanto tentar, “fracassar” e tentar de novo, ele conseguiu concluir sua invenção e, se hoje estou escrevendo esse texto sob uma lâmpada acesa, devo gratidão às inúmeras tentativas desse persistente inventor.

Charles Pépin não faz apologia ao fracasso. Não defende que devemos persegui-lo, mas que, chegado, precisamos decidir o que fazer com ele: prostrarmo-nos ou transformarmo-nos.

Há fracassos que acarretam um fortalecimento da vontade, outros que resultam em seu afrouxamento; há fracassos que nos dão força para perseverar no mesmo caminho, e os que nos oferecem o impulso para transformá-lo. Há os fracassos que nos tornam combativos, os que nos tornam mais sábios, e há também os que nos tornam simplesmente disponíveis para outra coisa.

O fracasso pode ser um meio de aprender mais rápido, defende o autor. Apressemo-nos, portanto, a fracassar, porque assim encontraremos a verdade, mais do que se estivéssemos conquistado a vitória. Segundo o autor, há países que condenam o fracasso mais que outros. É o caso da França: Ter fracassado, na França, é ser culpado. Nos Estados Unidos, é ser audacioso. Ter fracassado ainda jovem, na França, é ter falhado em se colocar nos trilhos certos. Nos Estados Unidos, é ter começado jovem a buscar o próprio caminho.

A grande questão é que o fracasso, se não ignorado, tem o poder de nos reorientar, enquanto o sucesso pouco ensina.

Posso dar um exemplo particular de sucesso e fracasso. Com vinte anos, eu já estava terminando uma graduação em Administração de Empresas e, antes mesmo de finalizado esse curso, havia conseguido o terceiro lugar num concurso federal, nível superior. Era a mais nova de todos os empregados da empresa e em toda sua área de atuação (7 estados e o DF). Claro que fiquei muito feliz em ter sido aprovada. No entanto, esse resultado fez que eu imaginasse que nada mais me impediria de alcançar novos sucessos. Eu acreditava ser jovem, capaz, inteligente e, pior, imbatível. Pensava: agora, tenho condições de passar no concurso que eu quiser. Ter alcançado o sucesso muito cedo fez que o sentimento de onipotência se apoderasse de mim.

Dei com os burros n’água, mas o que tenho aprendido no decorrer desse tempo em que tenho tentado é enriquecedor. Só de ter me tornado mais humilde e entender que nem sempre podemos tudo já é um grande avanço. Acredito mesmo que as sucessões de fracassos colocaram meus pés no chão. O bom de detectarmos nossos erros é que podemos corrigi-los.

Os artistas, antes de terminarem suas obras, fazem, erram e refazem. Isso também acontece com os cientistas antes de acharem a fórmula certa de suas invenções.

O erro é a maneira humana, caracteristicamente humana, de aprender – elucida Bachelard.  É por meio dos erros que descobrimos as verdades.

Charles Pépin condena a visão do erro como algo maléfico. Para ele, o equívoco pode ser entendido como uma das etapas para a compreensão e não como algo humilhante. Contudo, ao incorrer num erro, deve-se fazer tudo para evitar sua reincidência. Novos erros são admissíveis; velhos erros devem ser extirpados. Se, com efeito, o homem só pode aprender através do erro, perseverar nele é fechar-se na ignorância, condenar-se a nunca entender nada.

Muitas vezes, depois de um fracasso, a crise se instala em nossa vida. Os gregos designavam a crise de kairós e a entendia como uma oportunidade para compreender o que estava escondido. Por exemplo, a crise provocada por um acidente aéreo resulta em conhecimentos úteis para aprimorar a segurança dos voos. O fim de um relacionamento pode nos fazer enxergar o quanto somos egoístas ou o quanto nos submetíamos a situações mendicantes. A depressão pode nos mostrar que algo deve ser esclarecido e resolvido.

As crises podem ser oportunidades de descobertas e indicam uma ruptura com a realidade. A crise é reveladora e nos informa que algo não vai bem. Uma crise é antes o começo do que um fim. Ela é sempre uma mudança de rumo.

O fracasso inclusive pode nos dar esclarecimentos. Na verdade, pode nos mostrar que aquilo não era bem o que queríamos, reorientando-nos. Ele também é uma importante forma de firmar nosso caráter: um caráter se afirma na adversidade.

Na perspectiva cristã, o fracasso pode ser visto como uma lição de humildade. Essa palavra vem do latim humilitas e deriva de humus, que significa terra.
Humildade significa, para mim, saber-se pó. Curar-se desse fantasma infantil da
onipotência.

É tomar pé, reaprender a se ver como se é, com realismo, o que pode ser um bom triunfo na construção de uma existência bem-sucedida.

Jesus elevou-se aos céus porque foi humilde e humilhado na terra. Quanto mais Jesus cai, sofre, mas se aproxima de Deus.
A humildade liga-se estreitamente a uma aprendizagem. Só tendo consciência de que somos pó e de que não sabemos tudo é que podemos aprender.

Na dimensão do estoicismo, o fracasso pode ser visto como algo que deve ser aceito, caso não seja permitido fazer nada para modificá-lo. Aceitá-lo não é resignar-se, mas não se rebelar quando não for possível agir. Trabalhar naquilo que depende de nós, aceitar o que não depende. Diante disso, podemos lembrar da oração da serenidade: Meu Deus, dai-me força para aceitar o que não posso mudar, a vontade de mudar o que posso e a sabedoria para saber distinguir os dois.

Por mais que tenhamos vontade de mudar certos acontecimentos, esbarramos com a realidade que nos adverte: nem sempre querer é poder. Muitas vezes, a realidade não se deixa moldar. Entretanto, aceitar um fracasso quando não há muito ou nada a se fazer não significa negá-lo. Fingir que ele não existe nos impossibilita de tirar algum proveito dele.

O aluno que recusa seu fracasso, alegando que o professor corrige de qualquer jeito ou jogando a prova no fundo de sua mochila para não pensar mais nela, não se dará ao trabalho de refletir sobre o que não funcionou.
Sabemos que jogar a poeira para debaixo do tapete nunca será a melhor coisa a se fazer, pois a sujeira continuará existindo mesmo não sendo vista e, algum dia, se espalhará pela casa. Lidar com o fracasso como um estoico é ser capaz de se perguntar o que ele nos revela na real.

Na concepção existencialista de Sartre, somos livres para existir, para nos reinventar e nos corrigir ao longo de nossa história de vida. Nessa linha, o fracasso não nos define. Fracassar num projeto não significa ser fracassado. O fracasso pode ser apenas uma oportunidade para mudar de vida, um estímulo para tomar um caminho mais de acordo com os nossos interesses.

Para Freud, quando falhamos é o inconsciente que consegue se exprimir. Na visão psicanalítica, falhamos porque aquilo que pensávamos que queríamos se distancia muito do que realmente somos. É como se o ato falho fosse o responsável por não nos deixarmos trair a nós próprios. O fracasso não pode nos definir. Nós podemos e devemos assumi-lo, mas sem nos identificar com ele. Repito, fracassar não é ser um fracassado. É ter desenvolvido um projeto no qual não obtivemos êxito.

Ousar é arriscar-se ao fracasso. A ousadia pertence aos audaciosos. Àqueles que, apesar do medo, agem. Quem toma decisões está sujeito a erros, frustrações e perdas de oportunidades. Mas, conforme Nietzsche, uma vida vivida de forma autêntica, exige tal senso de risco.

Mas quer saber o que Charles Pépin considera ser o maior risco? não tentar e ver a morte aproximar-se sem saber quem se é. Ainda, para o autor: A vida que nada arrisca definha pouco a pouco.

Apenas aqueles que estão presos a algo que não mais os definem sabem o preço da inação, do fracasso que é não tornar-se quem se é. Só os que batem carimbo durante todo o dia sabem do sentimento de inutilidade que os invadem. Arriscar-se tem lá os seus perigos, mas o comodismo é altamente danoso.

Alguns vão se acomodar à sua situação, encará-la como um ganha-pão e buscar alhures ocasiões para se sentirem vivos. Outros tomarão coragem para mudar de rumo, alguns deles se tornarão empresários para se sentir renascer. Outros enfim se deixarão dominar pela depressão, esgotamento. Eles não sucumbem por excesso de trabalho, mas porque trabalham alienados a si mesmos, de seus talentos, de sua possibilidade de expressão.

Só os que estão limitados pela visão de suas baias, presos o dia todo esperando uma ordem inútil, gastando tempo e energia em serviços inócuos sabem o quanto morrem a cada dia por não correrem o risco de tornarem-se o que são.

Entretanto, para agirmos é necessário que ignoremos muitas coisas. Tendo agido e falhado, pelo menos não correremos o risco de sentir o gosto amargo do pior fracasso que é não ter tentado e ousado.

Eu poderia escrever um outro livro com os ensinamentos de Charles Pépin. Li As virtudes do fracasso pela segunda vez e, ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que ele deve ser sempre relido.Vou ser bem sincera: não gosto de fracassar. E vou ser bem mais sincera: não fracassar é impossível.

Aos trinta anos, sinto que muitos de meus projetos não foram finalizados, outros foram revistos, alguns esquecidos, outros retomados e alguns iniciados. Entretanto, continuo insaciável no meu desejo de continuar. Tem uma frase de Adélia Prado que diz: Não quero faca nem queijo. Quero a fome. Essa fome, eu tenho.

Se você tem a faca e o queijo, mas não tem a fome, de nada adianta. Se você tem a fome, mas não tem a faca nem o queijo, você vai atrás da faca, do queijo ou do que você quiser. É a fome que nos impulsiona. É o desejo. A vontade. O querer. Quando alguém está em depressão não sente mais fome. O depressivo é aquele que nada mais quer apesar de sentir que nada mais tem. A fome insaciável pode nos levar a falhar, mas nesse processo crescemos, aprendemos e descobrimos. Fracassar é nos perguntar em que podemos nos transformar. Não correr o risco do fracasso é assumir outro risco: o de não viver. Portanto, identifique o seu desejo e vá em direção a ele, equilibrando-se entre sua liberdade e seus limites.

O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo. Perder o entusiasmo é ficar à deriva e à margem de si mesmo.

As lições contidas nesse livro de nada valem se não puderem mudar nossas vidas. Saber quais são as virtudes do fracasso é um chamado para não nos entregarmos a ele, mas seguir em frente apesar dele. A questão agora não é os inquirir a respeito do que vocês aprenderam, mas o que vocês, leitores, farão com o que aprenderam. A questão não é “o que”, mas “para que”.

Somente nós próprios sabemos dos nossos fracassos e o que fizemos de nós a partir deles. Esse livro nos apresenta várias perspectivas que podemos adotar ao fracassarmos. Cabe a cada um, em sua singularidade, adotar aquela que mais convém.
Portanto, a função maior desta obra como dos conhecimentos em geral é nos lançar na vida, na ação e na recriação contínua de nossas existências.

Nesse texto, eu tentei dar a vocês a faca e o queijo. Quanto à fome… Bem, isso já é demais.

Quero dar minha mãe ao mundo

Dirigindo-me em direção ao trabalho, eu pensava em como é bom ter uma mãe como a que eu tenho. Logo, fui comovida por uma espécie de caridade que me fez ter outro pensamento: gostaria que todas as pessoas sentissem com relação às suas mães o mesmo que sinto em relação à minha. Enfim, gostaria de dar minha mãe ao mundo.

Lendo alguns livros nos quais se aborda o tema depressão, parece que há uma forte ligação entre essa doença e a escassez do amor materno. Não que todos os casos dessa patologia sejam originados dessa carência, mas muitos, comprovadamente, são.

Alexander Lowen, em seu livro O Corpo em Depressão, afirma categoricamente: Toda reação depressiva tem como base a perda do amor da mãe. Ao ler essa frase, fiquei muito tocada, tanto por conhecer pessoas que enfrentam a doença quanto por imaginar que muitas delas não se sentiram amadas e protegidas por suas mães em algum momento de suas vidas. E, por incrível que pareça, aquelas que conheço e que têm a depressão ou um pezinho nela, são pessoas que tiveram seus laços maternos interrompidos, conturbados ou fragilizados por alguma situação alheia à sua vontade.

Quanto a mim, nunca me faltou o amor de mãe. Pelo contrário, fui tão inundada por ele que, ao ler a história de Freud, cuja mãe, de tanto amá-lo e protegê-lo, deu-lhe notável sustentação interna, inclusive para enfrentar com heroísmo a doença que o mataria, encontrei na mãe do psicanalista alguma semelhança com a minha, que tantas vezes tem me sustentado e, ininterruptamente, me amado.

Minha mãe sempre foi tão grande que sobrou espaço, tempo, amor e dedicação para ser mãe dos outros. Não bastavam seus três filhos. Ela arrumava mais alguns para também chamá-la de mãe.

Ouvia de meus primos e de amigos que frequentavam a minha casa algumas expressões a respeito dela:

Queria ter uma mãe como a sua.

Sua mãe não é chata como a minha.

Sua mãe é muito legal.

Sua mãe deixa você fazer festa em casa e recebe todo mundo com alegria. A minha jamais deixaria.

Essa é a minha mãe e, também, a mãe Sylenne de sobrinhos e filhos de sobrinhos.

Sempre disposta e alegre, minha mãe não tem uma coisa que se chama preguiça. Qualquer hora que você chegar em casa tem amor, mas também tem café e tem pão e arroz com feijão. Ah! E tem carne das mais saborosas!

Minha mãe nunca pronunciou algo que indicasse estar cansada, triste, decepcionada ou magoada. Ela tem sempre um sorriso largo no rosto e nunca a vi maltratar ninguém.

Ela está sempre bonita, nunca descabelada e sempre com cara de limpinha. Ela é macia, tem colo acolhedor e aquele cheirinho bom de mãe que a gente quer ficar bem perto. Tudo nela ilumina: cabelo, sorriso, pele e alma. Minha mãe exala a prova de que o Espírito Santo nela habita. Ela não tem tristeza e se a tem guarda consigo na elegância de quem silencia. Minha mãe não costuma reclamar e, se reclama, tento mostrá-la que há problemas maiores. Sugiro que ela reze, então ela reza e fica quietinha no seu canto.

Antes de falar que estou com fome, ela já tem comida pronta. E antes de terminarmos de comer, ela também já tirou o prato da mesa. Ela não faz por mal. É que ela gosta de deixar tudo limpo e arrumado, quer lavar tudo na hora ou antes da hora. Mas, se você quiser repetir a comida, ela te dá outro prato e você pode comer de novo e à vontade e ela lava de novo. Minha mãe é muito boazinha.

Ela gosta de tudo organizado e acho que esse é um dos motivos porque a casa de minha mãe é um lugar agradável e acolhedor. Tem cheiro de muita limpeza e tem organização.

O café é coado na hora de beber. Senão, depois, fica com gosto de garrafa e ninguém merece.

Quando criança, eu não entendia por que de os meus primos a chamarem de mãe se ela era só minha e dos meus irmãos. Eu cheguei a dizer a um deles, possessa de ciúmes: Ah! Mãe Sylenne! Mãe Sylenne nada! Ela não é sua mãe. Ela é a minha mãe. Entretanto, eles cresceram e continuam a chamá-la de mãe, o que significa que meu ciúme infantil de nada adiantou.

Minha mãe é um ser que sempre respeitou as minhas vontades e a minha liberdade desde o ventre. Ela diz que eu demorei para nascer. Senti dores a noite toda até você vir ao mundo. Você só foi nascer no outro dia pela manhã. Ela sentia as contrações, mas eu relutava em vir para esse palco de dementes. Lá estava muito quentinho e gostoso, mas para aliviar as dores de minha mãe, decidi que já era hora e nasci. Em respeito à minha vontade de só chegar ao mundo no dia 22 de julho de 1988, minha mãe suportou dores durante toda uma noite.

Mais tarde, eu disse para ela que não vim ao mundo antes porque queria nascer sob o signo de leão. Faltava só um dia. Se eu tivesse nascido antes seria canceriana. E eu queria ser leonina, porque dizem que leonino não nasce, estreia. E eu estava estreando na vida de minha mãe. Primeira filha. Única mulher.

Depois do primeiro ato de liberdade que foi o corte do cordão umbilical,  eu decidi, com três meses de vida, que era hora de parar de tomar o leite materno. Minha mãe conta esse fato assim: Essa aí (mostrando para mim) largou o peito com três meses. Já os outros dois (apontando para meus irmãos que já são homens feitos) se eu os deixasse estariam mamando até hoje.

É uma forma engraçada de dizer que meus irmãos continuariam dependentes se ela houvesse permitido. Quanto a mim, revela que sempre quis o afastamento de quaisquer tipos de dependência.

Minha mãe não insistiu para que eu continuasse me alimentando diretamente de sua fonte. Mais uma vez, respeitou minha vontade.

Ao negar o leite materno, ela arrumou outros meios de me dar de comer e eu não morri, nem fiquei com traumas, nem subnutrida. A única coisa que pode ter acontecido é que não cresci em tamanho como meus irmãos. Mas, como isso não faz muita diferença, uma vez que meu crescimento sempre foi de outras ordens, sinto que em nada fui prejudicada. Nem eu, nem ela, pois minha mãe não se acha péssima mãe por não ter insistido comigo mais um pouco.

Os anos se passavam e eu continuava sendo amada à maneira de minha mãe. Outra coisa que ela fazia como sinal de que estava me criando para a liberdade era deixar eu ir sozinha a uma loja escolher as roupas que eu iria vestir. Claro que ela limitava a quantidade e o preço. Entretanto, o modelito era de minha exclusiva escolha.

Aí eu vestia essas roupas novas e eram fotos e mais fotos que ela mesma registrava ou chamava um fotógrafo para tal. Era mão na cintura, nos joelhos, na nuca, no coração, era segurando frutas no quintal de casa… Tudo era pose aos olhos dela. Se eu tivesse crescido em tamanho, provavelmente teria parado numa passarela de tanto que fui modelo para as suas fotos amadoras.

Na infância, na adolescência e agora adulta, minha mãe continua sendo uma presença discreta, porém forte em minha vida. A primeira mensagem que recebo todos os dias é sempre a dela, dando-me bom dia, dizendo que me ama e querendo saber como estou. Ela não está perto, pois mora em outra cidade, mas mesmo distante se faz doce e presente.

Minha mãe é daquelas mães suaves, não invasivas, respeitosas e que nada impõe. Minha mãe não faz chantagem, nem cena, nem drama. Nunca peguei minha mãe numa mentira. Ela gosta de ser correta no trato com as pessoas. Em tudo ela diz: É você quem sabe, filha. Você é quem sabe se namora, se casa, se quer ter filhos… Você é quem escolhe a profissão que vai exercer…

Agora que inventei de escrever, ela me acompanha lendo todos os meus textos e sempre diz que é um melhor que o outro. E completa com frases assim: Você é muito inteligente; Você é espetacular; Você é abençoada; Mamãe tem tanto orgulho de você; Você é minha escritora preferida.

Quando digo-lhe que quero fazer alguma coisa, ela diz: Vá. Você consegue. Minha mãe nunca proferiu uma palavra de desânimo frente aos meus sonhos e desejos. Ela sempre me coloca para cima e para frente. Como não ser uma pessoa com autoestima elevada tendo uma mãe dessas?

Se ela me diz que eu posso, quem vai dizer o oposto? Quem vai me convencer do contrário? Absolutamente ninguém. Se eu disser que vou voar é provável que minha mãe tenha certeza de que sou capaz disso. Minha mãe acha que posso ser tudo que eu quiser ser. Para ela, eu fui feita para a liberdade.

Outra coisa que vou contar prova que minha mãe é um ser distinto e que muito ama. Ela e meu pai se separaram quando meu irmão do meio e eu éramos muito novinhos. Apesar de sabermos das artes aprontadas pelo nosso pai, minha mãe dizia: Não tem problema. Seu pai me deu vocês que são meus maiores tesouros.

Minha mãe perdoou as peripécias do meu pai, porque acreditou que ele havia dado a ela os melhores presentes, que somos nós, seus filhos. Ela nunca falou mal de nosso pai, pelo contrário, parecia lhe ser grata.

É por tudo isso, por ser essa fonte de amor, que eu pensei em dar um pouco de minha mãe para o mundo. Se os casos de depressão estão aumentando e grande parte dos depressivos experimentam essa sensação de perda do amor materno, então eu pensei que poderia oferecer minha mãe como cura para essas pessoas.

Ela que já é minha mãe e mãe de seus outros dois filhos, de sobrinhos e de filhos de sobrinhos, também poderia ser a mãe do mundo. Se minha mãe pudesse ser a mãe do mundo teríamos um mundo de restaurados e amados.

Como me faltam todas as palavras para defini-la, eu considero minha mãe como aquela que não abandona seus filhos nem que para isso tenha que estar aos pés de uma cruz.

Essa é a minha mãe e a mãe que o mundo precisa.