O inominável

E agora, agora, agora? Pergunta Joana após se cansar de todas as possibilidades apresentadas. Brincava, estudava, vigiava as galinhas do quintal vizinho, inventava estórias, mas… e agora? O incessante movimento dos ponteiros do relógio, o silêncio que se impunha enquanto, sozinha, esperava que algo acontecesse, embora soubesse que nada acontece a quem espera.

Conta ao pai uma narrativa que acaba de inventar. Para Joana não é difícil fazer poesias, é só ir dizendo. Dizer, pois não age conforme sente, mas da maneira que diz. As palavras constituíam a matéria-prima para criar o próprio mundo e uma realidade que poderia ser bem diferente daquela sentida pela criança supostamente frágil e desprotegida. A menina órfã de mãe, essa mulher que, de tão esquisita, o pai não gostaria que Joana herdasse qualquer traço de personalidade. Nem mesmo que se parecesse com ele. Queria que a filha seguisse caminho diverso.

O que vai ser de Joana? Tão magrinha e precoce – pensa o pai. Não tenho nada o que fazer. Impaciente, ele responde: Bata com a cabeça na parede. A menina chora. Passava horas pensando, pensando. Joana tinha projetos de ser herói. Não sonhava com felicidade. Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? A professora ficou chocada com a pergunta. Ser feliz é para conseguir o quê? Como entender uma criança que, com altivez e orgulho, dizia-lhe que não gostava de se divertir? Infante, já possuía o esnobismo daqueles que caminham contrariamente à multidão.

Agora estava verdadeiramente sozinha no mundo. O pai morreu sem aviso prévio, o que lhe conduziu à casa de alguém que nada tinha a ver com ela, porque Joana nada tinha a ver com ninguém. Talvez você não encontre mais ninguém que sinta com você, como… disse-lhe o professor o qual a menina amava.

A mulher não se sentia bem com a presença da sobrinha na casa. Joana parecia saber o que eles pensavam. Calada, observava, analisava, mantinha distância dessas pessoas que apenas brincavam de viver, afogadas em afazeres diários e rotineiros, enclausuradas num ambiente onde nem o vento nem o sol possuíam licença para entrar. Joana não só penetrava as paredes, mas também o íntimo dos que ali habitavam. Vivia como se não precisasse de nenhum deles, de nada, bastavam-lhe as ideias, os pensamentos, a extensão do seu ser infiltrando em todos, espalhando-se pelo mundo.

Mas se estou dizendo que posso tudo… Joana respondeu ao ser flagrada roubando um livro. Aquilo de que a tia necessitava para se ver livre da menina de uma vez. Antes que encontrasse um jeito de anunciar para onde a mandaria, Joana sabia. Quando é que eu vou para o internato? Atônita, olhou para o marido. Ele permaneceu mudo enquanto devorava o alimento com violência.

Mesmo do professor, em quem confiava, viu obrigada a se despedir. O homem que não lhe dava respostas para as perguntas que fazia, por não sabê-las, que a aconselhava aprender encontrar tudo o que existe dentro dela e sugeria-lhe que lembrasse de firmar o próprio valor. Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Ele, o qual não só falava sobre prazer, mas o despertava na menina que, embora não estivesse inteiramente pronta, estremecia de gozos ao se aproximar do mestre.

Nunca sofra por não ter opiniões em relação a vários assuntos. Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la.

Joana compreendia as palavras e tudo o que elas continham, assim como compreendia esse homem que mudava totalmente de semblante e comportamento diante da esposa. A menina o amava. A culpa era dele por ter-se inclinado demais para Joana, por ter procurado, sim, procurado – não fuja, não fuja, – , pensando que seria impunemente, sua promessa de juventude, aquele talo frágil e ardente.

Ao notar a brusca mudança diante da mulher, ao perceber que ele recuava, Joana lhe deu as costas. Tivera dele o que precisava. Sabia que, talvez, ninguém mais lhe revelasse coisas como as que o professor ousava dizer. Vive-se e morre-se. Todos se esqueciam disso e só sabiam brincar.

Ela estava pronta para existir no agora. Diante da verdade óbvia e inescapável da morte ocuparia-se com a vida que pulsa a cada instante. Casar, ter filhos, trabalhar, contar dinheiro… Tudo isso era muito pouco. Não faria como os outros, não brincaria de viver. Jamais esqueceria que em pleno dia se morre. Só mais tarde encontraria novamente o professor, a quem se dirigiu para dar o último adeus antes de se casar com Otávio. Queria ver aquele que tanto lhe ensinara, olhar em seus olhos, dizer-lhe. Mas após sofrer o abandono da mulher, encontrava-se mais velho, gordo, doente, sem paciência para ouvir qualquer pessoa, inclusive Joana.

No orfanato, seu corpo de menina desabrochava. Joana sentia-se bem viva enquanto as outras meninas permaneciam imóveis, dormindo. As sensações a invadiam e tomavam o seu ser por inteiro. Entregava-se ao prazer de pertencer a si mesma, por meio de quem poderia sentir os outros e o mundo. Livre. Mas Joana queria mais. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por que casara? E com um homem tão previsível e pouco ardente.

Otávio caiu facilmente nos braços de Joana, a quem considerava forte e fria. Queria estar ao lado de alguém que não lhe condenasse os erros e não lhe imputasse culpa por fraquezas ou desatinos seus. Joana dava-lhe a impressão de que ele poderia pecar tranquilamente, sem o crivo dos julgamentos. Com ela, seria livre. Desfez o namoro com Lídia, tão dependente, passiva, frágil, inerte. Tão diferente da feroz, selvagem e destemida Joana.

No entanto, manteve-a como amante. Lídia lhe daria um filho, pois fora o único homem que conheceu durante a vida; para ela, Otávio representava o mundo e conferia-lhe existência. Tudo o que mais desejava era tê-lo de volta e formar uma pequena família.

Ao visitá-la, Otávio percebeu que Lídia se distanciara dele desde que carregava outro ser. Havia alguém crescendo no seu interior e isso deixava-a presunçosa de tal modo a desprezar outras mulheres. Apenas Joana seria capaz de desbancá-la do pedestal ao esfregar a verdade de que em todos os ventres de mulheres podem nascer filhos. Assim, não havia motivo para se dar tanta importância. Até os animais… Ela mesma poderia, se quisesse, mas não desejava ligar-se para sempre a alguém, mesmo um homem, quanto mais a Otávio que, aos seus olhos, não era nada estimulante.

Joana foi ao encontro de Lídia disposta a ceder-lhe o homem. Eu lhe darei Otávio, não agora, porém quando eu quiser. Se ela representava a víbora de quem não se sabia o que esperar, Lídia oferecia certeza e quietude. Ao seu lado, Otávio poderia descansar de pensamentos intranquilos, pois jamais o surpreenderia.

Ao sair dali, Joana caiu nos braços do amante. Um homem que sempre a seguia e agora, diante dela, vendo-a cansada, oferecia-lhe um lugar para repouso. Quem era? Pouco importava. Não queria saber de suas origens nem do seu passado. E mesmo sem questionar-lhe o nome entregava-se a ele como uma nova possibilidade de amar. Ainda que por instantes fugidios os quais no outro dia restariam esquecidos. Joana sentia-o penetrá-la e deixou-o. Não podia fugir dessa mulher que apenas com um olhar acendia dentro dele todas as capacidades. Você promete demais… Todas as possibilidades que você oferece às pessoas, dentro delas próprias, com um olhar… não sei. Palavras que ouviu de Otávio, outrora fatalmente atraído por ela.

Mas sabia que abandonaria esses homens. Impossível manter a liberdade ligando-se às pessoas. Nenhum deles teria mais o seu tempo. Iria sozinha, sem medo, pois se o seu destino era a grande morte, evitaria morrer diariamente dando-se aos outros. Sozinha no navio em direção a um não-lugar. Alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Sozinha a procurar algo maior que a liberdade. O inominável centro de quem tem dentro de si a própria constelação.

AMOR

“Ninguém me ama, ninguém me ama”, repetia baixinho enquanto escorregava inteiramente o corpo por debaixo das cobertas. “Ainda estou acordada. Acende a luz.” A mulher sorria; fazia-lhe as vontades até que o sono viesse atirá-la no escuro da inconsciência. No outro dia, desperta, sentia a mais amada dentre todas e a confiança lhe invadia como a certeza de um dom.

Caminhava altiva, crente que possuía grandeza para tocar o alto. Parecia acreditar que era destinada à salvação dos outros, que poderia dizer palavra ou frase capaz de transformar mendigo em abundante, prostituta em imaculada, criminoso em santo, doente em pessoa cheia de saúde. Imaginava que se desse muito aos outros seria irremediavelmente amada. Adorada por aqueles que diante dela se ajoelhariam com promessas de se tornarem cada vez mais sãos.

Porque entregue a ideal tão alto mantinha-se cada vez mais sozinha, isolada. Ao seu redor não lhe havia correspondência. As demais entregavam-se à banalidade cotidiana, deixavam-se conduzir facilmente por outras, incapazes de formular algo novo ou manifestar sobre coisas que não fossem as do momento. Quando tentava enveredar por caminhos pouco percorridos recebia em troca a indiferença de olhares vagos e sem brilho, como se ao ouvi-la sentissem o perigo de vir à tona verdades que preferiam manter abafadas, jamais reveladas para não perturbarem a vigília.

Compreendia cada expressão e por meio delas percebia que a ninguém é dado o poder de mentir ou disfarçar. Calava-se. No mais fundo de si brotava a certeza de que jamais se faria amada, pois relutava conceder.

Mas para continuar precisava de força e era da força de um amor que lhe pedisse, oh não!, lhe implorasse para manter-se como é. Quem se aproximaria sem garras que ferissem sua sensibilidade já arranhada ? Quem ousaria aceitá-la límpida e transparente em seu estado mais puro? Bruto?

Inventou que era amada por um Deus grande, mais tão grande que, de tanto amor, se refez toda. E quando vinha o pensamento “ninguém me ama, ninguém me ama” não mais surgia aquela que com um toque iluminava o quarto. Então clamava pelo sublime, pela fonte de amor incomensurável. Acreditava no milagre de que uma luz azul se acendia toda dentro dela. “O céu em mim”. Sentindo-se amada, adormecia.

Abandono

As primeiras horas da manhã eram de um silêncio sem promessas. Acordava bem cedo, preparava o café forte, sentava-se horas no sofá da sala, onde alternava entre pensamentos e leituras. O vento entrava pela janela, o canto dos pássaros soava tênue nos ouvidos, às vezes, vozes de pessoas, choro de crianças, barulho ao longe de carros em movimento. As horas passavam devagar e o dia se intensificava todo em seu interior.

As lembranças sobre si mesma sempre a mostravam caminhando sozinha. Só mais tarde rendeu-se a dividir o espaço com outra pessoa. Um homem que dormia enquanto ela, na sua ânsia, devorava atenta cada fiapo de vida. Quando acordava ao meio dia, anos de existência já haviam despertado dentro dela.

À hora de preparar o almoço, dirigia-se à cozinha. Precisava alimentá-lo antes que saísse para mais um dia de trabalho, o qual se estenderia até a noite. Mais uma vez, sozinha, entregava-se a afazeres domésticos ou a cuidados consigo. Só não dormia. Preferia permanecer gozando esses momentos em que a própria companhia não a deixava se perder. Gostava do que pensava e das coisas que sentia lá no fundo. Rememorava o tempo em que foi amada por outros homens. Adorada como acredita que deveria ser, pois também é adoradora.

Ele anunciava “estou indo”, virava as costas e batia a porta. Ela não esperava mais nem um beijo na testa. “Vai com Deus”, respondia. Fechava os olhos úmidos e o acompanhava pela janela até o carro desaparecer. Depois ficava a pensar se algum dia lhe surgiria alguém que dela se despedisse com o amor e a saudade dos amantes.

Havia dias em que aproveitava o tempo para enfeitar aquilo que pretendia ser um lar. Trocava os lençóis da cama por outros limpos e cheirosos, arrumava os travesseiros com a delicadeza de mãos pequenas, dava dois passos para trás e olhava admirada o que poderia ser um belo e prazeroso ninho de amor.

Gostava de ambientes aconchegantes e agradáveis, com almofadas, tapetes, abajures que dão o tom de meia luz a lhe conduzir para cenas de romance.

Comprava flores. Orquídeas brancas eram as suas preferidas, pois têm a simplicidade e a sofisticação no ponto exato para seduzir qualquer olhar afável. Enquanto molhava as raízes da flor, fitava-a silenciosa e imaginava que, também ela, era uma orquídea. Uma orquídea que só não murchava com a secura dos dias, porque bebia de águas profundas. Águas que minavam um pouco a cada dia pela rudeza. Rudeza que parecia precisar para contrapor seu mundo por demais sensível.

Os passos na escada prenunciavam a chegada. Entrava mudo, calado. Ela tentava conversar sobre algo que lhe encantara durante o dia, imaginava com isso poder animá-lo. Fingia escutar, não prestava atenção nas falas da mulher que calava-se de súbito no meio de uma frase. Ele nem ao menos percebia a falta de sentido que ficava suspensa após a interrupção. O olhar não repousava nela, mas nos objetos, na parede, no nada.

À hora de dormir, cada um nos extremos da cama larga de lençóis perfumados. O homem não percebia nada do que preparava para recebê-lo. De costas viradas, dormia logo nos primeiros minutos. E ela com as mãos cruzadas e repousadas junto ao peito se mantinha toda acordada com os olhos abertos no escuro.

não há respostas ou a falta de resposta

De onde vim? Quem sou? Para onde vou? Essas perguntas, subliminarmente ou de modo explícito, permeiam toda literatura de Clarice Lispector. Ainda que escape às definições possíveis, ela pode ser lembrada como alguém que passou a vida à procura da coisa, de algo que, embora invisível e intocável, fosse causa, fonte ou origem de tudo que se manifesta aos nossos olhos e constitui a chamada realidade.

Essa procura se reflete em sua escrita, com que se ocupou até a morte e por meio da qual buscou tocar o impalpável, ou melhor, encontrar as respostas para as principais perguntas existenciais. Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

No romance A hora da estrela, escrito à beira do suspiro final, ela não esconde, já na dedicatória, tratar-se de um livro inacabado, porque lhe falta a resposta. Uma vez que não a encontra, cumpre a promessa e escreve até o fim.

Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando. O espanto, o estranhamento, o mistério e as interrogações diante do absurdo de estar vivo e de morrer foram as grandes inquietações da Clarice menina e mulher. A que nasceu sem saber por que, viveu, amou os outros, criou os filhos, escreveu e partiu não se sabe para onde.

Ela reconhece que a busca por explicações se mostrou infrutífera, inclusive dá vida à personagem que, diante de perguntas feitas ao namorado, ouve dele: Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta? Macabéa é a própria Clarice de olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos, admitindo para si mesma, na iminência de partir, o fato de não ter conseguido desvendar o mistério da existência que tanto a inquietou. Existir não é lógico. Além disso, pode ser totalmente desprovido de sentido.

Quem conta a história de Macabéa é Rodrigo S.M., o qual faz questão de afirmar ser o personagem mais importante dos que integram esse livro de treze títulos, cujo começo diz: Tudo no mundo começou com um sim. E tem por “grand finale”, também, um Sim.

Rodrigo S.M. representa a Clarice escritora, cuja maior importância não é sem razão, pois se não escrevesse os outros personagens sequer existiriam. Antes de adentrar propriamente na vida de Macabéa, reflete sobre a palavra e o ato de escrever. Para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra. E procura falar de modo simples, nu, sem enfeites, tratando de dizer que essa simplicidade foi conseguida à custa de muito trabalho.

Admite que a escrita deu-lhe destino, pois a inseriu numa classe. No entanto, afirma que o faz não por ser intelectual, uma vez que escreve com o corpo. As sensações. E por que escreve? Não sabe responder. Só escrevo o que quero, não sou profissional.

Fazia questão de manter a liberdade e se considerava amadora. Ao tempo em que declarava estar morta quando não escrevia, também dizia que escrever lhe atrapalhava a vida. Mas deixou registrado que seguia esse destino por imposição. De quem? Escrevo por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”. Ofício que realizava de ouvido, isento de mentiras, sem fazer concessões ou rogar passagem. O que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: aguenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.

Com essa mesma dignidade, escreve o último livro no qual retrata a pobre vida de Macabéa, nordestina, órfã, perdida, que sai de Alagoas e vai para o Rio de Janeiro, onde arruma emprego de datilógrafa e mora num quarto com mais quatro moças, situado numa rua tomada pela prostituição. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha o terceiro ano primário.

Macabéa é tola, delicada, incompetente e vaga. Faltava-lhe jeito de se ajeitar. Para viver, pedia licença. Ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também Clarice, por meio do personagem principal Rodrigo S.M., confessa: Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus.

Mais uma vez confessa o que buscou durante a vida “encontrar o mundo e seu Deus”, busca que se mostrou inócua, luta que restou perdida, resposta que não veio, palavra não encontrada, mistério não revelado, motivo de “força maior” por que escrevia.

Quanto à Macabéa, ela era o próprio erro em forma de gente, além de encardida, suja e mal cheirosa. Mesmo sem saber tinha lá os seus encantos. Um dia, sob ameaça de ser demitida pelo chefe, desculpou-se com ele de modo a lhe revelar uma inesperada delicadeza que foi capaz de comovê-lo a adiar o ato. Saiu atordoada e se viu diante do espelho com a cara deformada, o corpo magro e encurvado, tão jovem e enferrujada, tão idiota e infeliz. Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha.

Vivia em meditação, entregue ao vazio de si mesma, acreditava em algo, “em quê?”, não se sabe, mas que lhe enchia de vontade de viver e a conduzia ao estado de graça própria dos santos. No entanto, não pensava em Deus, não o tocava. Ele também não pensava nela. Deus é de quem consegui pegá-lo. Macabéa não o pegava. Obediente, muda, subserviente, não indagava. É assim porque é assim. Melhor aceitar a falta de respostas que levar um baita “não” na cara. Vivia sua pobre vida vazia e murcha e nunca se revoltava ou gritava.

Virgem, seus ovários eram tão secos que ela seria incapaz de propagar-se em outros seres. Menos mal. No mundo há misérias suficientes. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. Macabéa bem que sentia uma coisa debaixo da saia, ah como sentia! Para passar o nervosismo da vontade insatisfeita tomava água com açúcar. Tinha sensualidade e muita lascívia dentro de seu corpo frágil. Quando olhava a foto 3 x 4 do namorado, a excitação subia ao sangue, pulsava-lhe as partes e ela precisava rezar a fim de ficar mais calma.

Atendendo ao apelo mudo de mulher é que foi conduzida ao homem. Olímpico, também nordestino, a convidou para passear. Ela, apesar de tola, sentia, e aceitou de imediato o convite receosa que ele desistisse. Olímpico passou a ser tudo para Macabéa, o outro que lhe conferia existência num mundo em que estava perdidamente sozinha.

Paraibano, foi criado por um padrasto que ensinou-lhe a arte de passar a perna nos outros. Roubava sem culpa e haver matado um homem constituía o segredo que lhe dava força. Queria vencer na vida, virar deputado, ver seu nome estampado nos cartazes, fazer que todos um dia soubessem quem ele era. Mas também tinha lá sua fraqueza. Chorava escondido nos enterros de desconhecidos. A verdade é que Olímpico era um coração solitário pulsando no mundo, o qual se afirmava grotesco, avarento e mesquinho, talvez como forma de mascarar sua precária condição de machozinho frágil.

Ao contrário de Olímpico, a moça achava que não precisava vencer na vida. Só queria mesmo era viver. Mas também alimentava o sonho de ser artista de cinema, o qual confidenciou ao namorado: Adoro as artistas de cinema. Sabe que Marylin era cor-de-rosa? Ele respondeu-lhe: E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema.

Ela não entendia as ofensas do rude Olímpico. Dava muito valor às boas maneiras, mas ele achava que a coisa mais importante da vida era mesmo o dinheiro. Macabéa não lhe causava prejuízo algum. A única cortesia que ele fez durante o namoro foi oferecer-lhe um café, o qual ela pediu para acrescentar um pouco de leite, mas o namorado tratou de avisar que se houvesse acréscimo ao preço ela pagaria a diferença. E quando foram ao zoológico, Macabéa pagou a própria entrada.

Não foi difícil para Olímpico deixar Macabéa e cair nos braços de Glória, que tinha gordura, casa e comida na hora certa, tudo o que podia interessá-lo. Na tentativa de amenizar a traição, Glória não só convidou a colega de trabalho para tomar um lanche em sua casa como também emprestou-lhe dinheiro para consultar uma cartomante.

Macabéa não recusou as bondades de Glória, nascidas do remorso de quem primeiro bate para depois alisar. Por não ter mais nada a perder, aceitou o dinheiro. Desesperada, foi ao encontro daquela que revelaria seu grande Destino.

A cartomante não só descreveu o futuro de Macabéa como a fez conhecer a vida miserável e infeliz que vivia no presente. Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!

Ela se espantou, pois não sabia que tinha vida tão ruim. Gostava de viver, alegrava-se, acreditava em anjos, tomava café frio antes de dormir, ia ao cinema de vez em quando e até se dava o luxo de comprar uma flor quando recebia o salário. Isso era tudo que tinha e conhecia. A vida que lhe agradava por não usufruir nenhuma outra. Mas, se agora descobria-se infeliz, havia a promessa de um belo futuro. Não seria demitida do emprego, teria o namorado de volta, melhor ainda, conheceria um homem que lhe entregaria uma grande quantia em dinheiro e depois se casaria com ela.

Macabéa transformou-se magicamente em outra pessoa. A promessa de felicidade a modificara por dentro. Uma felicidade explosiva que mal cabia dentro do corpo raquítico e fraco. As palavras! Oh! As palavras que contém em si mesmas o poder de alterar as sensações e a própria vida. Macabéa começou a tremelicar toda por causa do lado penoso que há na excessiva felicidade.

Saiu da cartomante ao encontro do seu maravilhoso e feliz Destino. A morte. Sim, a musa lhe alcançou em cheio ao ser atropelada por um Mercedes amarelo. Deitada no chão, seu corpo sangrava, as pessoas a notavam como quem olha para o céu e é ofuscado pelo brilho de uma única estrela.

Com a dignidade de barão, Rodrigo S.M. narra o ato final da personagem que ele tanto ama. Ele é Clarice imprimindo o registro da própria morte, recusando-se a deixar escapar o fim daquela que constitui o sujeito e o objeto de sua Literatura, o cerne de seu interesse – ela mesma. Eu me uso como forma de conhecimento. Eu te conheço até o osso.

Clarice se transmuta em suas personagens para viver todas as sensações possíveis, do nascer ao morrer. Não encontrou o que buscava, não tocou o intocável. O inalcançável fugiu à sua pretensão. E apesar de narrar a morte de Macabéa como se fosse a morte de si própria, intuía que, simbolicamente, não morreria: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.

Não morreu. Permanece viva no legado de sua vasta e inquietante obra, dentre a qual A hora da estrela, último romance. O livro que, para ela, não passa de um silêncio, de uma pergunta.

Pergunta sem resposta.

Sim.

Descoberta

Dei para falar de amor e, no meio da noite, acordar de sonhos onde não só o peito pulsa. Pieguice, pieguice, acuso-me. Fui avisada a não subestimar o deus da flecha, que pode ser muito traiçoeiro. Eu sei, eu sei. Levei a mão à boca como quem se obriga ao silêncio. Fechei os olhos para sentir mais e melhor. Quem sou eu para falar de amor? Uma mulher. Sinto sem pedir permissões e deixo-me levar pelas estradas sinuosas do desconhecido, embora saiba de antemão para onde ele leva. Sei, porque sei. Não há explicações para o querer, ainda assim quero. E porque quero tenho antes de ter. Quem pôs em mim essa certeza mesmo diante da verdade de que tudo pode mudar em instantes? Nem posso falar em confusão de tiros provindos de armas desgovernadas. Eu própria mirei e acertei o alvo. Sozinha. Então descobri que não estava só falando de amor. Eu estava era amando.

Ousar ser

Ainda ontem acordara contente, dava pulos de alegria pela casa, olhava-se no espelho para confirmar o semblante sereno e inebriava-se ao ver os próprios olhos brilhantes. Os pés plantados tão firmes que o chão parecia não conseguir aguentar o peso de tanta felicidade. A qualquer hora, o solo abruptamente se abriria a devorar-lhe com sua soberba grave. Podia, podia o que quisesse, quem quisesse e, sem pedir, possuía todas as coisas. Mas tudo pesava-lhe como chumbo. A alegria é uma ofensa aos outros.

Lá fora a multidão cansada briga, reclama, tenta se apoiar mutuamente, enquanto baixa a cabeça e contrai os ombros. Olhos tão tristes, pedintes, pesarosos, meu Deus. E ela tão vazia de misericórdia a esbanjar plenitude. Ofensiva, cruel, má. A matemática do mundo é desigual. Que culpa tem se o distribuidor de graças achou por bem lhe pesar a mão?

Nada lhe falta, nada pede, nada quer, pois se tudo tem, diriam. O templo não é um lugar em que implora aos céus, mas contempla o inexplicável de ser agraciada por aquilo que sabe. Não se indaga em por quês. Sente que ganhara a eleição sem ao menos render-se à humilhação das disputas.

E a liberdade que conquistou de andar pelas ruas com o corpo e a alma expostos também é afrontosa. As transparências minimamente calculadas para mostrar as partes e provar às outras mulheres que, se elas continuam a ser aviltadas, é porque não aprenderam a grande arte. Essas, que por viverem distraídas, nunca saberão o segredo.

A alegria lhe escapara por não ter com quem partilhar. Se disser em público o que costuma sentir é capaz de espantar os desavisados. Mas não aprendeu a ser triste, não lhe ensinaram chorar de dor, nem lamentar as perdas. Pois que aguente o ônus de sua insuportável felicidade. Que pague, sozinha, o preço de ousar ser.

Amor puro

Ao vê-lo pela primeira vez sentiu o coração aquecido e aquele desejo ardente de amor puro. Não era vertigem, antevia. Alguma coisa naquela voz despertava-lhe anseios adormecidos. Lembrou-se de quando tinha quinze anos, tão próximos na memória, mas já distantes no tempo. As lembranças das primeiras vezes eram as únicas que não restavam de todo esquecidas. Aquele olho no olho, a boca sedenta a lhe dizer “você é como o sol” e, depois, a boca ainda aberta.

Perseguiu-a como quem quer por prêmio um objeto precioso, mesmo que esperasse alguns anos. Teve o que quis. Mais do que imaginou. E teve muito que nem ao menos soube o que fazer com tanto ouro.

Mas agora não era uma menina, embora o sentir em tudo se igualasse. Só sabia que o queria. E longe ele estava e haveria de ficar. Contentava-se com a voz que lhe sorria pelo tom. Amava de longe. Sentia-o com a alma a arder mais que o sol. Pensar no homem algumas horas por dia, antes de dormir, após acordar. Mas o pensamento não lhe obedecia. Ao cair da tarde, ele.

Ah! Como é bom apaixonar-se depois de tanto tempo. A paixão por si mesma, o objeto longe, imune à posse que mata. E a paixão se transformando em amor. E o amor evaporando pela pele, irradiando por meio da distância, atingindo-o.

Destino de mulher

Uma constante na literatura de Clarice Lispector é a presença de personagens mulheres, casadas, donas de casa e mães que, em algum momento de suas vidas, diante de acontecimentos comuns ou corriqueiros, despertam da situação na qual se encontram e se percebem mergulhadas no cuidado e na atenção ao marido e aos filhos, ou mesmo imersas nos afazeres domésticos existentes ou inventados, com a finalidade de lhes ocupar a ponto de não sobrar tempo para pensarem em mais nada, mesmo em si próprias.

Assim acontece com Ana, do conto Amor. Num fim de tarde, sozinha em casa, sem a presença de marido e filhos a supostamente lhe exigirem, nem tarefas domésticas a realizar, uma vez que a casa e os móveis estão brilhantes de tanto limpá-los, decide fazer algo nessa hora considerada perigosa, porque é justamente a hora em que pode entregar-se plenamente a si mesma. Ana foge desse instante arriscado e procura repetidamente e sem pausas com que se entreter.

Cansada, com ar de meia satisfação, vai às compras, as quais carrega num saco de tricô tecido pelas próprias mãos durante as horas em que ninguém precisava dela e nada restava a fazer. Sobe no bonde, coloca-as no colo e, enquanto olha a movimentação das ruas pela janela, surpreende-se ao avistar um cego mastigando chicles.

Ana se perde ao olhar o homem cujo semblante aparenta alternar entre riso e choro, entregue à escuridão de si mesmo durante o insistente movimento repetitivo de mastigar algo que parece não acabar nunca e induz a pensar, não só na eternidade, como na falta de gosto que se sucede após os primeiros poucos minutos de doce degustação.

Seria também a vida de Ana uma eterna repetição sem sabor a que ela cegamente se entregava? Casa, marido, filhos. Ana sente a crise instalada ao pensar no que quis e escolheu, pois ninguém a obrigara. Estava presa ao lar, ao tempo em que o mundo do lado de fora pulsava vivíssimo, com cegos, famintos e leprosos a esperá-la e a precisar dela.

Quando o bonde dá uma arrancada brusca, Ana é jogada para trás e solta um grito que assusta os demais passageiros. As compras caem no chão, os ovos quebram. Sem cascas e subterfúgios, a vida claramente se mostra. Ana passa a ver melhor após ser atingida pela luz a ela lançada por meio do olhar de um homem sem visão .

Desce do bonde atordoada, caminha desorientada pelas ruas até se perceber dentro do Jardim Botânico. Senta-se num banco e ali deixa-se estar. Observa ao redor as plantas com folhas e frutos que nascem, caem sozinhos, apodrecem e servem não só de alimento mas também de adubo para a terra, onde outras vidas nascerão, cairão, apodrecerão. E os bichos de um lado para outro sem ninguém a lhes cuidar, crescendo como seus filhos. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se perceber. Um trabalho que não precisava de suas mãos nem das mãos de ninguém. As coisas naturalmente nasciam, cresciam e morriam. A renovação da vida era constante, contínua, permanente. E a morte não era o que pensávamos.

Ana estava diante da vastidão de um mundo que ignorava. O mundo era tão rico que apodrecia. Independente da atenção e do cuidado demasiado oferecido aos seus, eles nasceriam, cresceriam e morreriam como os seres do Jardim Botânico. A limpeza exagerada da casa, o esforço em mantê-la impecavelmente brilhante para que a família vivesse em ambiente puro e saudável não impediria a natural morte e decomposição do que é perecível.

E por um instante a vida sadia que levara pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.

Ana lembra-se de seus filhos com remorso e sai às pressas do Jardim Botânico. Estar ali por mais tempo seria um perigo. Corria o risco de esquecer o marido, os filhos e seguir sozinha ao chamado do homem que, mesmo cego, andava sem a condução de mãos humanas.

Ao chegar em casa abraça o filho com tanta força que ele corre assustado de seus braços e, ao longe, a examina com o pior olhar que jamais recebera. Ama-o violentamente a ponto de desejar detê-lo em seus braços . Essa mãe o quer acima de qualquer coisa. Assim como ama o marido e tenta, em vão, protegê-lo para que nada de ruim lhe aconteça.

É por amor que Ana se prende ao pequeno e limitado mundo do lar, cuida de tudo e todos até nos momentos em que se torna totalmente dispensável e nada a requisita. Ninguém a obriga seguir o destino de mulher, no entanto ela se agarra a ele sob pena de não saber o que fazer de si mesma, pois teme mais que tudo deixar-se guiar pelas mãos de um cego, o qual não vislumbra destino certo para levá-la.

A falta de destino deixa alguém muito livre, sem saber o que fazer de si. Ana precisa de âncora para onde retornar após as instabilidades. A casa, o marido, os filhos e o peso da culpa estão ali para confirmar o que Clarice intui com sabedoria: o destino de uma mulher é ser mulher.

Guerra dos sexos

Na crônica Amor Imorredouro, Clarice Lispector afirma, sem rodeios, que o maior interesse das mulheres são os homens. Antes que alguma mulher previsível o queira negar dizendo-lhe que não são os homens, mas os filhos, ela adianta:

Isto é diferente. Filhos são, como se diz, a nossa carne e o nosso sangue, e nem se chama de interesse. É outra coisa. É tão outra coisa que qualquer criança é como se fosse nossa carne e nosso sangue.

No entanto, adverte às mulheres que elas não precisam se sentir humilhadas ao admitir a importância dos homens em suas vidas, pois se perguntarmos ao maior técnico do mundo em engenharia eletrônica o que é que mais interessa ao homem, a resposta íntima, imediata e franca, será: a mulher.

Ao dizer isso, sabe que toca num assunto delicado, num ponto nevrálgico e declara: Como o homem nos dói. E como a mulher dói no homem.

Essa dor é sentida com profundidade pela personagem do conto O búfalo, mulher que acaba de ser desprezada pelo homem que ama e, diante disso, é tomada por intensa vontade de odiar, já que o amor ofertado não encontrou correspondência.

Nem mesmo a chegada da primavera com suas flores foi capaz de alterar o estado em que se encontrava, cheia da violência que costuma acompanhar uma fêmea desprezada e rejeitada pelo sujeito de seu amor: um homem cujo crime único era o de não amá-la.

Quantas guerras declaradas entre os sexos movidas pelo desejo de amor, o qual após ser rejeitado, se transforma em ódio, não a um, mas a todos os pertencentes da mesma raça?

A mulher do conto O búfalo adoece quando sente na pele a dor do desprezo. Tudo o que desejava era transferir sua fúria a alguém. Não queria outra vez o amor, porque lhe poderia pesar muito e sentia não ter mais condições de suportar tanto sofrimento.

Dirigiu-se ao zoológico à procura de um bicho para odiar, uma vez que não podia odiar os homens, apenas amá-los apesar de tudo. Odiá-los é tentar esconder a dor de não ser amada por eles. O ódio que sentia era amor às avessas, inconfessável e inadmissível para si mesma.

“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo único crime era o de não amá-la.

Onde estava o seu par no mundo? – perguntava a Deus. E a resposta vinha em forma de grito das outras mulheres que se divertiam com os namorados, enquanto sentava sozinha no banco da roda gigante. Gritos ofensivos para quem estava só, não por opção, mas por não encontrar quem a amasse.

O apelo ao ódio era fuga para não morrer esmagada pelo amor direcionado a quem dele não precisava, nem o queria.

Ninguém a notava ou se interessava por ela, não tinha mais esperança e seus olhos se enchiam de lágrimas que ficavam presas na escuridão do peito doído, dilacerado.

Dentre todos os animais com os quais se deparou, decidiu odiar um búfalo, olhar diretamente em seus olhos e entregar-lhe a violência contida.

Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la.

Quando achou que poderia desferir o ódio mortal que sentia em direção ao bicho percebeu que, na verdade, estava amando-o.

Se não conseguiu a glória de ser vista pelos homens, que pelo menos o búfalo olhasse para o seu olhar ferido, o qual implorava que, ao menos ele, imerso na inconsciência, a amasse.

Quem saberá se o búfalo a amou? Ainda assim, talvez os animais sejam uma triste saída quando não se tem o amor dos homens.

Morrer do coração

O coração dava mostras de que não ia bem. Acelerava diante das emoções mais inesperadas como quando, cheia de vertigem, olhava para o céu e via que um avião sobrevoava. Noites havia em que o silêncio era interrompido pelas batidas fortes no peito cujo barulho incomodava os ouvidos atentos. A boca seca, a cabeça pesada e uma leve dormência nos membros inferiores e nas mãos. Não morreria de outro modo. Intuía que seria arrebatada por algo fulminante que lhe atingiria o centro. Aniquilada pela velocidade descontrolada de seu órgão pulsante. Morrer do coração. Achou das mortes, a mais bonita.

Numa tarde ensolarada de sábado, a notícia. Os desavisados ficaram surpresos, mas se ela estivesse viva, ao saber da própria morte, não se surpreenderia.

Doaram os demais órgãos para funcionarem em outros corpos e dar-lhes mais anos de vida. Só levaria consigo o coração como prova que ninguém além dela ousaria sentir o que sentia.

Esse coração que tantas vezes sangrou de dor de ser era o mesmo que vivia em permanente contemplação diante do que existe. Sem falar nas alegrias íntimas e constantes que lhe tomavam um dia inteiro. Como foi alegre! E o amor! Não aquele amor de mulher para o homem, nem de uma mãe para o filho. O amor em si mesmo, sem sujeitos ou objetos, esquentando-lhe o corpo e inebriando a alma cheia de afetos.

Uma criança a lhe pedir doce, um morador de rua dirigindo-se a ela para solicitar tão pouco. Dá uns trocados, moça. Outro homem implorando-lhe um prato de comida. Punha-se a conversar com o estranho, porque sabia que a fome dele não era só de alimento. Como amava os homens. Quis ser mãe de todos aqueles que se aproximavam para lhe pedir qualquer coisa. Sabia que tinha amor demais dentro de si a ponto de nem ter filhos. Acaso os tivesse voltaria-se inteiramente para eles. Com sua potente força de amar os esmagaria. Essa mesma força que fez o coração cair em desatino e perder o compasso. Amo tanto você, meu filho. Não quero que o sofrimento lhe alcance, nem que a morte aniquile sua existência e, por consequência, a minha.

Não se renderia ao restritivo ofício da maternidade que dá as costas aos demais e cuida apenas dos seus. Daria-se toda aos carentes de amor e pão. Seu ideal era tocar a humanidade, indistintamente. Alimentar não apenas os gerados de suas entranhas.

Aos que se mantiveram em silêncio enquanto viveu, tenham, pelo menos, a dignidade de mantê-lo agora que sabem de sua morte. Não vertam lágrimas nem lhe dirijam palavras vazias inspiradas pelo remorso. Se percorreu a vida firme e imune aos frívolos sentimentos, agora é que não precisa deles. Que ninguém mostre bondade às custas de tal ausência. Morreu do coração. Isso quer dizer muita coisa. Não é preciso que digam mais nada.