A morte de Ivan Ilitch, de León Tolstói.

Escrevo sobre A morte de Ivan Ilitch diante de uma paisagem esverdeada, sentada num banco debaixo de uma árvore, sentindo o vento tocar em meu rosto, ouvindo o canto dos pássaros, o cheiro das flores e o gosto da vida.

Ivan Ilitch era um homem de 45 anos quando de sua morte. Casou-se menos por amor e mais pelos ditames sociais. Teve dois filhos. Trabalhou como magistrado. E morreu. Morreu só, nas mesmas circunstâncias de seu nascimento e de toda sua vida – só!

Ao saber de sua morte, os assim chamados amigos do trabalho já murmuravam entre si sobre quem o sucederia ao cargo no Tribunal, mal podendo esperar por esse momento.

Diante da doença de Ivan Ilitch, esposa e filha se afastavam cada vez mais. Cada uma ocupada com seus afazeres cotidianos, sem que nada pudesse atrapalhá-las. Ilitch sentia o peso do abandono. Deitado numa cama, seu grau de impotência só aumentava. Inútil, era um peso para todos, pensava. Todos queriam se livrar dele, sentia. Sofria.

Sua casa, que por ele mesmo fora decorada para receber e alegrar os familiares, transformou-se num lugar vazio, senão de corpos, de almas.

Médico nenhum descobrira a causa de seu mal, nem mesmo os melhores especialistas. Esperança já não havia. A força acabara. O medo tomara conta. E a angústia de sua alma fazia com que o fim chegasse ainda mais rápido.

Pudera contar com a ajuda de um serviçal de nome Gerassim, que passou a ser a sua companhia e o seu consolo, se é que tinha algo que o fizesse consolar. Movido de compaixão e, quem sabe, de gratidão, Gerassim passou a cuidar de Ivan Ilitch com a paciência que faltava aos próprios familiares.

Gerassim virava-se de costas para que Ivan Ilitch pudesse colocar os pés em seus ombros, pois foi a melhor posição encontrada por Ilitch para aliviar um pouco a sua dor física. Enquanto isso, os demais continuavam suas vidas normalmente. A abundância de saúde avistada nos outros causava-lhe raiva. Afinal, por que ele?

O filho fitava-o sem nada lhe dizer, mas parecia entendê-lo lançado-lhe olhares de compaixão ou de pena. Inertes, pai e filho, nada podia ser feito. Apenas esperar o fim.

Era verdade, como disse o médico, que a dor física de Ivan Ilitch era terrível, mas, pior do que ela eram seus sofrimentos mentais, sua pior tortura.

Diante da iminência da morte, Ivan Ilitch se questiona: Vivera da melhor forma? Era isso? Perguntava-se: Fiz a coisa certa? Mas o que é a coisa certa?

Sabia que tinha vivido num ambiente hostil e de hipocrisia, no entanto deixara-se levar por ele. O tempo passou, a doença chegou, a vida se foi.

Três dias e três noites de sofrimentos terríveis e depois a morte.

Última página do livro e a morte de Ivan Ilitch atinge o meu peito. Olho a paisagem ao meu redor e o verde se transformou em preto e branco. Estou no mais profundo silêncio.

Hamlet, de Willian Shakespeare.

Claro que tinha ouvido falar de Shakespeare pelo seu tão famoso Romeu e Julieta. Mas Hamlet me era desconhecido até o momento em que assisti uma palestra no programa Café Filosófico, na TV Cultura, em que o professor e historiador Leandro Karnal comentava suas impressões sobre o livro, bem como a influência que a peça tem em sua vida.

Depois disso, fui tomada por uma curiosidade que me fez ler Hamlet o mais depressa possível. Acho que foi o primeiro clássico da literatura inglesa que li.

E o que é um clássico? Livro clássico é uma obra atemporal que tem a capacidade de dizer algo sobre o momento em que se vive independentemente da época em que se vive. Ele pode ter sido escrito há séculos, mas as impressões que causam são sempre muito atuais.

O livro clássico é aquele que teria tocado nossos tataravós e, provavelmente, tocará nossos tataranetos. Ele teve, tem, sempre terá algo a dizer, e funde, num só tempo, o presente, o passado e o futuro.

Pois bem, dito isso, vamos à história em si.

Hamlet-pai é o rei da Dinamarca que morre, mesmo a despeito de ser um Rei. Hamlet-filho depara-se com o possível fantasma do pai pedindo-o que vingue sua morte, a qual alega que fora tramada pelo próprio irmão Cláudio, movido pela única finalidade de herdar o poder.

Entretanto, Cláudio não só herda o poder como também “herda” a mulher do irmão, Gertrudes (mãe de Hamlet). Disse o fantasma: Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi, ao mesmo tempo, a coroa, a rainha e a vida.

Esses acontecimentos (morte do pai e casamento da mãe com o tio) causam uma reviravolta tão intensa no âmago de Hamlet que ele passa a viver em função de uma única causa, a qual é fiel até o fim, vingar a morte do pai.

Hamlet sofre profundamente. É um melancólico que não faz questão de fingir felicidade a quem quer que seja. Ele está diante de uma verdade dura, de uma perda dolorosa, de um ato de traição. E, como se não bastasse, é obrigado a presenciar a união de sua mãe com o seu tio quase antes do enterro do pai. Hamlet observa a mãe: Oh, olha só o ar fagueiro da senhora minha mãe. E meu pai morreu não tem nem duas horas.

Hamlet perde o pai, perde a confiança na mãe, no tio, nos “amigos” Rosencrantz e Guildenstern, que tentam subvertê-lo por ordem do rei Cláudio. Hamlet não tem a mais ninguém, salvo ele próprio, e conta apenas com a ajuda de seu único amigo, Horácio.

Aos olhos de todos, Hamlet está enlouquecido, pois só sendo louco para dizer as coisas que diz. A loucura provém de seu amor por Ofélia? É o que todos se põem a acreditar como se não houvesse algo “mais podre no reino da Dinamarca”.

Todos fingem, porém Hamlet é fiel ao pai e a si mesmo e quem é fiel a si mesmo nunca será falso com ninguém, diz Polônio ao aconselhar o filho Laertes.

Hamlet declara que poderia ser feliz numa casca de noz como quem diz que é a sua consciência o seu guia. E essa consciência o orienta até o fim de seus dias.

A sensação que tenho ao ler e reler esse livro é a de que uma lucidez se descortina em minha frente e me faz capaz de perceber muito além do que um ser já considerado lúcido é apto a enxergar.

Diante de Hamlet tenho uma consciência brutal que não me faz mais ou menos feliz, no entanto me mantém distante da mediocridade, do fingimento e da falsidade. Ó Deus, ó Deus! Como são enfadonhas, azedas ou rançosas todas as práticas do mundo! Ó tédio, ó nojo!

Não posso e nem quero dizer mais nada. Sigo o conselho hamletiano que sugere que eu tenha os olhos abertos e a língua imóvel. O resto é silêncio.

Água Viva, de Clarice Lispector

Tenho uma grande admiração por Clarice Lispector desde os tempos de menina. Posso dizer que é a minha escritora preferida.

E essa preferência nada tem a ver com um conhecimento profundo que eu tenha sobre Literatura.

Sinto Clarice. Sinto suas palavras em minhas entranhas e chego a pensar que ela estava muito certa quando disse: “O leitor é o escritor”. Sim. Eu sou Clarice. E digo isso com a sua própria permissão, inscrita no livro A descoberta do mundo.

Adquiri Água Viva,  primeiro pela beleza da edição, e depois porque ainda não o havia lido. Ocorre que acabei deixando-o como enfeite numa minibiblioteca que mantenho em casa.

Até que um dia, ao ler “Só as mães são felizes”, de Lucinha Araújo, chamou-me a atenção ela mencionar que seu filho Cazuza era um profundo admirador de Clarice e, mais tarde, ao assistir uma entrevista com o próprio cantor, ele declarou ser “Água Viva” um de seus livros prediletos.

Assim, minha curiosidade sobre o livro foi atiçada e resolvi tirá-lo da estante.

Água Viva não se configura numa história linear. São fragmentos escritos de uma pessoa que ama ao ser amado. Parece uma carta ao tempo em que não se assemelha a gênero algum. São palavras soltas – às vezes de um entendimento cristalino; outras, intraduzíveis. Parecem falas desordenadas que vão se ordenando à medida em que toca o mais íntimo de quem lê.

E a leitura flui como um rio que deságua não sei onde. Vai se sentindo, achando significados próprios dentro do ambiente caótico do escritor que é também o do leitor.

É um livro que fala de Deus, do feio, da solidão, da desorganização, do medo, do instante-já, da loucura, do amor, da liberdade, dos dias da semana, das flores, dos bichos, da morte, da vida.

É denso!

“Ninguém me prende mais”.

“Amor demais prejudica os trabalhos”.

“Vivo à beira”.

“Eu que detesto o domingo por ser oco”.

“Queria tanto morrer de saúde como quem explode”.

Clarice me prende é pelos pés. E eu tento correr à galope como um cavalo. Mas, quem me prende de fato? Provavelmente, eu mesma. Sim, Clarice. Eu sou você e você sou eu! O que você escreve continua. ” Estou enfeitiçada”. Continue…