Grande Sertão: veredas

Não foi no primeiro contato com o livro “Grande Sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, que consegui dar prosseguimento à leitura.

Ao abri-lo na primeira página: “- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.”

Pensei: Ah! Este volta para a estante. Dou conta dele agora não.

Lá ficou por um bom tempo, até que um amigo revelou ter lido “Grande Sertão: veredas” quatro vezes e, caso tivesse de levar apenas um livro para uma ilha deserta, seria a consagrada obra de Rosa.

Despertada a minha curiosidade, decidi que começaria a lê-lo no primeiro dia de um período de dez dias de férias.

Intuí que seria uma viagem inesquecível, como nenhuma outra, onde haveria um mergulho profundo na alma humana, verdadeiro Grande Sertão que constitui o cerne da narrativa.

Engana-se quem pensa que o Sertão, de Rosa, reduz-se a um mero espaço geográfico. “O sertão está em toda parte”, alude logo no início, e sugere, pois, que o homem é homem onde quer que esteja.

Trata-se de uma instigante travessia que fiz sozinha, com meus próprios pés e sem mãos que me apoiassem. Bem imaginei que, ao fim da leitura, jamais seria aquela que ousou, num ato de coragem e bravura, transpor as linhas iniciais.

O Sertão me atravessou por inteiro. Eu atravessei o Sertão. Desemboquei na terceira margem do rio, que não parou de correr, mesmo quando eu mais quis. Ou não quis?

Há sede em todo lugar. E há veredazinhas aqui, ali, acolá…

Olhei para todos os lados na vã tentativa de pedir que me dessem uma das mãos. Não existia sequer alma capaz de reconhecer quando alguém precisa de ajuda.

O orgulho é um grito mudo, um pedido abafado, um esforço tremendo de ser maior do que se é quando nem se sabe o próprio tamanho. Estava só, no mais escuro breu, e pude ouvir o estrondo ensurdecedor do silêncio que jaz dentro de mim.

Não podia correr para os braços de ninguém, nem mesmo de quem amava, porque todas as acusações me dilaceravam, me atingiam o centro do peito. Tinha de esconder a fraqueza para que não fosse usada como flechas contra mim. Era tão grande a fúria que me questionava ter escolhido para amar aquele de quem ouvia as piores palavras, os indiferentes olhares e a ausência de toques que mudamente ansiava.

Como supor receber o menos de quem me dispus a dar tanto? Carrego a dor aguda daquilo que vai desmoronando aos poucos, sem anestesia ou morfina. Desfeitos os sonhos, perdidas as ilusões, todas as fantasias jogadas no chão da sala onde amar poderia ter sido simples e nu.

A cama fria, vazia, o espaço aberto instando-me a abandonar tudo ao atingir o extremo limite da capacidade de suportar; os dias empurrando-me para o abismo do não ser, não pertencer, não sentir nada além do ar que atravessa os pulmões e deixa a boca seca no deserto das coisas negadas.

Era uma vez…

Era uma vez ela, que – na verdade – é eu. Como explicar que não sabe enganar a si mesma e, em vez de mentir sobre o que quer, prefere se dizer a verdade?

Não gostaria de estar numa varanda sentindo a brisa gelada em sua pele e ouvindo o balançar das folhas da árvore. A árvore que se mantém em pé e sozinha durante todo o tempo, no sol ou na chuva, como para lembrá-la que é preciso se sustentar nas próprias raízes longas e profundas.

E que tenho eu a ver com a árvore?

O que ela sente é a angústia de uma saudade que só passaria depois que encostasse a cabeça no peito do homem e dormisse. Não em paz, pois ele nunca lhe dera a calma necessária para mergulhar tranquila no escuro. Mas dormiria encostada no peito e ele a abraçaria como quando criança era envolvida pelos braços do pai.

Olhava para os lados, mas não havia ninguém, e se existisse pessoa, que faria? Daria as costas para provar que é capaz de ultrapassar dores sozinha, sem o auxilio de quem jamais a entenderia. Porque os outros nada sabem de nós. E nós também pouco sabemos.

Ela – não queria casamento nem filhos e almejava morar num hotel – alcançou a plenitude ao realizar todos os desejos e fantasias. Mal sabia que a realização joga uma pessoa no mais completo vazio. Ela, que sempre quisera ter um homem, mas não o tem como gostaria. Ela, que quis ser livre desde quando abriu os olhos pela primeira vez e se tornou tão livre que chega a se perguntar: então querer é poder?

Com que cara se dirigir a Deus para lhe pedir alguma coisa se tudo que pediu teve e, nem sempre, o que teve mostrou-se bom? Pediu, recebeu, doeu. Depois, chorando, admitiu: “Não aguento mais”.

Não quero mais correr o risco de pedir e ter. Que Deus faça conforme achar que deve, pois estou muda diante Dele que tanto deu. Quer me mostrar que a vida nada tem a ver com o que tive até agora?

Estou cansada de saber coisas, de ver e de sentir tudo e tanto. E só o peito quente do homem serviria nessa hora. Mas não posso continuar pedindo cegamente. É capaz de eu ter e depois não aguentar todos os outros dias em que o homem se nega. Não quero pagar um momento de alegria com contínuos dias de dor.

Parece que ninguém sai dessa vida impunemente. Paga-se por tudo. E quanto mais se tem mais se exige. O preço foi tão alto que até agora estou sem palavras. Reduzida à inteira quietude perante os homens e ao absoluto silêncio diante de Deus.

Atrás do véu

“Fulana se perdeu”. Essa expressão não era usada para indicar que alguém errara o caminho ou se enfiara no denso escuro de uma floresta, muito menos indicava aquela que não sabia qual rumo tomar.

Numa roda de conversa, principalmente em que a presença das mulheres da família se fazia em maior número, era comum, ao se referir a alguma moça que deixara de ser virgem, apontá-la como uma pessoa perdida.

“Não serve para casar.”

“Ninguém a quer para coisa séria”.

“Os homens só se aproveitam dela.”

“Ela não se valoriza.”

Frases desse tipo costumavam ser proferidas contra aquelas que se entregavam sexualmente sem que, antes, precisassem da assinatura de um contrato, da chancela de testemunhas ou das bençãos de uma autoridade religiosa. Nem mesmo a proibição dos pais pesava tanto ou mais que o desejo de ceder ao desejo que pulsa naquilo que vive.

Estranhava que alguém precisasse se guardar, se anestesiar e se privar dos prazeres que o corpo estava apto a sentir, em nome de um outro que já surgiria contemplado com o prêmio da exclusividade, como se a mais alta conquista frente a uma mulher fosse o orgulho de dizer: “Só eu toquei e adentrei neste corpo. Ele me pertence. É só meu.”

Dona Justina mal deixava que as filhas namorassem. Logo as obrigava ao casamento para que também “não se perdessem” e dessem o que falar na pequena cidade onde tudo se sabe. A vaidade de andar por entre as ruas em que era conhecida como a mulher que casara todas as filhas se intensificava à medida que essas uniões perduravam sabe-se lá em que condições. E o tempo passava. E os netos nasciam.

Conta-se que tia Julieta se recusou fortemente a casar vestida de noiva. Não revelava o motivo da negativa, embora muitos o imaginassem e, a mãe, dona Justina, desconfiasse. Acreditava-se que aquela que fingisse virgindade seria publicamente desmascarada, pois a queda do véu aconteceria assim que adentrasse no recinto, como prova de flagrante “impureza”. Todos continuavam a fingir que seu filho João nascera de sete meses. E Julieta permanece a mais séria e conservadora entre as irmãs.

Um dia após as núpcias de uma prima, enquanto os demais se preocupavam com o que havia para comer e beber, me pus a olhar para a recém-casada: cabeça levemente inclinada, semblante triste, olhar perdido e vago. O mais perfeito retrato da insatisfação. Então, poupara-se tanto para “aquilo”?

Henriqueta foi quem não imitou o rigor da mãe Justina e dizia para as filhas: “Virgindade não tem valor. Se tivesse, o pai de vocês não teria me trocado por uma putz!”

Filha de Henriqueta, não herdei um código de conduta puritano que me infundisse culpa. Mesmo meu pai não atirou pedras em Madalena, antes a tomou por segunda esposa. Não cresci sob o tormento do proibido ou do “não me toque”.

Em matéria de sexo, nunca pequei por morder uma maçã. Não fui expulsa do Éden. O Paraíso continua sendo o meu mar de amar.

Por trás do sorriso

Há um mês não escrevo nada. Penso em discorrer sobre muitas coisas que me vem, faço anotações, chego a elaborar textos inteiros na cabeça, mas falta-me disposição para movimentar os dedos.

Volta e meia, Raquel de Queiroz declarava ter preguiça de escrever e, só o fazia, por não dominar outro ofício. Além do mais, transformou a escrita em ato gerador de sustento. Jornalista, tinha obrigação de encaminhar semanalmente suas crônicas aos periódicos.

Escrever exige tal força que só agora consigo perceber. Parece-me que antes escrevia naturalmente, com mais facilidade; sentava-me frente à máquina e as ideias vinham e fluíam sem peleja ou sofrimento. Agora não. Estou cada vez mais exigente. Tenho lido tantos textos bons e bem escritos, e acabo com a impressão de que tudo que vier a escrever será menor, sem importância e dispensável. Mas também não duvido que esteja dominada pela preguiça admitida de forma tão digna pela escritora nordestina.

Antes de tudo, fui e sou leitora. Ao ler nos posicionamos mais passivamente, ainda que haja um diálogo com o autor e mesmo diante do esforço necessário à interpretação e compreensão. Por outro lado, escrever exige postura ativa e de comando, de disposição ordenada das ideias, escolha das palavras que melhor as expressem. Espero que essa fase de ficar “só recebendo” dos outros passe logo e que meu animus escrevendis seja resgatado.

Quero muito terminar um conto sobre dois amantes que se encontram no Café Visconde, cuja história já está com os contornos delineados. A mulher se deixou envolver porque confundiu desejo com amor. Conversa fiada. Pura mentira. Ela sabia que era desejo e desejava também. A fome nunca engana. Parece-me que ela diz pensar ser amor para se justificar. Não aos outros, mas a si mesma. Tenho de dar fim à narrativa, pois há muito eles estão sentados num restaurante, de mãos dadas. Nesse momento parei de escrever; a inspiração fugiu-me. Mas admito que deixo-os mais tempo juntos, porque há de vir o instante em que a separação será inevitável.

Pedi minha mãe que me mandasse a cópia de algumas anotações que fiz quando estive em sua casa. Entre os temas listados está escrito: “A mentira gagueja”.

Pretendo conseguir escrever sobre a mentira que tanto me incomoda à medida que não minto. Longe de afirmar isso na tentativa de infundir um moralismo falso. Não minto por incompetência. Ouso dizer, por falta de dom.

Na vida não precisei me utilizar desse subterfúgio. Acho humilhante mentir, porque, a pretexto de enganar uma pessoa, tenho de admitir, antes, para mim mesma, que estou mentindo, ainda que o outro sequer desconfie. Não gosto de me trapacear. Tenho a impressão de que a cada mentira perderia a admiração e o respeito por mim mesma. E o que pode restar de alguém que não se respeita?

Sei que poderia mentir pelo menos enquanto escrevo, mas nem isso. Nem isso.

Também quero escrever sobre um homem que não sai da minha cabeça, porque não o transfigurei em palavras. Um dia, estava num restaurante lendo um livro e, gentilmente, ele pediu para conversar comigo. Consenti.

Queria me vender um exemplar da Revista Traços, cuja parte do valor é destinada a auxiliar ex-dependentes químicos. Um apoio à ressocialização dessas pessoas que, em algum momento da vida, se entregaram à sedução de não se pertencerem.

Perguntei-lhe o nome. “Samuel. E o seu?”

“Ana”.

Ele: “Sabia que, na Bíblia, Ana é mãe de Samuel?”

De certa forma, um homem quer uma mãe em todas as mulheres. Mas se não pude dar-lhe colo, pelo menos prestei-lhe ouvidos atentos.

“Posso contar minha história?”

Fiz gesto afirmativo. Prontamente, agachou-se diante de mim como quem se prostra à Virgem.

Era um ex-alcoólatra que perdera contato com mulher e filhos em decorrência do vício. Ela o deixou, pois não suportava as agressões, além das desconfianças e dos ciúmes que passou a apresentar. Admitiu que eram invenções da cabeça dele, provenientes dos delírios causados pelo álcool. Agora, sem ninguém, tentava recuperar a dignidade perdida.

Ao terminar a fala, deu uma risada para expor o interior de sua boca, e disse-me com olhos vagos: “Veja, perdi até o sorriso”.

Uma mudez me invadiu com a proximidade daquela boca sem dentes. Que fazer?

Num movimento rápido desviei os olhos para dentro da bolsa à procura de dinheiro.

Comprei a revista.

Ao se despedir, ainda fitou-me: “Por que seus olhos estão tristes, moça?”

“Porque perdi alguém que gosto muito” – respondi sobressaltada.

“Oh! Seu coraçãozinho deve estar muito doído. Mas vai passar, porque Deus vai cuidar de você.”

Sorri-lhe: “Ah sim. Deus vai cuidar de mim.”

E dele, Deus meu, quem cuida?

Quem?

À espera

Acendi velas brancas, rosas e amarelas

Eu as vi queimar até a última flama

E o milagre não veio.

Cedi minha cama aos hóspedes enquanto dormia no chão frio

Preparei os melhores pratos para recebê-los

E o milagre não veio.

Não faltei às missas

Comunguei todas as vezes em que me estenderam o corpo de Cristo

E o milagre não veio.

Estive em campo inimigo

Não verguei à ira, não me rendi ao combate

E o milagre não veio.

Ajoelhei-me diante de um homem que nem era deus

Lavei seus pés, servi-o com mãos santas

E o milagre não veio.

Expulsei os pecados para bem longe

Não traí nem menti sequer um instante

E o milagre não veio.

Esforcei-me para afastar da boca os julgamentos

Busquei compreender os meus iguais diferentes

E o milagre não veio.

Chorei em silêncio para disfarçar a dor

Sufoquei a voz que queria gritar por socorro humano

E o milagre não veio.

Rezei o terço três vezes num só dia

Tranquei a porta do quarto enquanto implorava baixinho

E o milagre não veio.

Distribuí dinheiro e comida aos pobres

Deixei vir a mim as criancinhas e as envolvi com amor

E o milagre não veio.

Até agora não descobri o que mais Deus quer de mim

Mas sei lá no fundo o que eu quero dEle

E o milagre ainda não veio.

Eu passarinho!

Um pensamento ocupou-me durante alguns dias após ler um parágrafo de um texto que eu mesma escrevi. Parece-me que também escrevo para esconder meus segredos, enganar minhas dores e vencê-las a ponto de lhes dizer: vocês não me dominarão. Recuso-me a padecer de meus males. Luto contra todos. Que desaforo render-se a eles!

Escrever me organiza, ainda que o caos arrombe novamente a porta . Enquanto houver vida há de se transformar caos em cosmos, buscar forças sabe-se lá em quê. Cada um é que sabe.

Um livro pode ser a tentativa de se refazer, de eternizar acontecimentos e sensações, mas também o desejo de ultrapassá-los para que algo novo possa surgir na vida e na arte.

“O sentir mais belo” brotou da necessidade de me libertar das prisões cujas correntes eu mesma me impus e, impiedosamente, apertava-as. Dezoito contos, aparentemente desconexos, que, lidos na ordem disposta, formam um todo interligado e único. Um sentimento profundo e subterrâneo percorre o livro, um fio invisível que liga seus componentes à maneira de um colar de pérolas.

As histórias são protagonizadas por uma personagem em diversas fases da vida. Menina, adolescente ou mulher descobre que ser amada não basta. Quer ser adorada, reverenciada, e entende que ao homem, submetido à precariedade de sua condição, não foi dada a possibilidade de um sentimento dessa magnitude. Cai na mesma ambição da poeta Florbela Espanca em que apenas a ideia do amor de um Deus a faz dormir tranquila.

O título carrega o adjetivo “belo”, não no sentido de bonito ou harmônico, mas querendo significar algo verdadeiro, de alguém que, em momento algum, pretende se enganar a respeito do que sente, ainda que seja dor.

A capa do livro não é menos desprovida de sentido. Um esboço de rosto de mulher com sobrancelhas, olho, nariz, boca e queixo. Não há cabeça? É que ela é “um coração batendo no mundo”; coração que morre um pouco a cada dia, porque sente tudo com muita intensidade. Um casal olha o rosto da mulher mergulhada em si própria, mas há quem diga que eles estão a contemplar pássaros no céu azul. O céu que a invade ao fim da narrativa.

Talvez, num primeiro momento, poucos vejam os pássaros. O rosto da mulher é tão mais óbvio e chamativo. As aves, apenas simbólicas, disfarçadas de sobrancelhas e olho, representativas da liberdade a que a personagem se lançará depois de se convencer que nada pode subjugá-la, pois é amada por um Deus.

Ao estar com o livro em mão, meu sobrinho de apenas dois anos, Otto, cujo nome carrega a imponência que percebo em sua postura, nada viu além do oculto. Ao mirar a capa, disse num tom firme como quem profere sentença: “passarinho”. A mãe, sem nada entender e, preferindo perder a cunhada do que a piada, aproveitou para brincar: “Sua tia está igual passarinho mesmo, Otto… livre, leve e solta”.

O episódio restou provado num vídeo em que Otto revela o que poucos veem: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

“Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. Não, Nicodemos. Não será preciso retornar ao útero materno. Nem seria possível. Veja o que está por trás dessa frase, o oculto que a permeia. Renascer é morrer para as ideias preconcebidas e ver as coisas com o mesmo olhar com que as crianças veem.

Diante da capa de “O sentir mais belo”, se não conseguires ver uma mulher que deseja a liberdade dos passarinhos é porque vos é necessário olhar de novo.

A construção do ser em Clarice

Em “Água Viva”, Clarice diz: “Criar de si próprio um ser é grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se.”

Toda a obra de Clarice concentra-se na busca do ser, em atingir o “é da coisa” que consiste numa espécie de núcleo ou cerne que há em nós e que nos dá o animus de vida. Assim, na tentativa de se aproximar de nosso centro vivo, básico, primitivo e originário, Clarice busca a construção do ser que, na sua Literatura, passa primeiro por uma desconstrução para que seja reconstruído. A construção dá-se num movimento de fora para dentro, até chegar ao “caroço”, “semente viva” e, para tanto, é necessário o despojamento total do eu construído.

Desse modo é que seus personagens se veem diante de acontecimentos cotidianos e rotineiros que os fazem pensar o tipo de vida que levam, muitas vezes, provocando o desmoronamento de tudo aquilo que até então constituía o alicerce sobre o qual se ancoraram por anos.

Entretanto, nem sempre, estes personagens possuem a coragem ou as condições de tentarem vida nova, pois tal atitude demandaria uma mudança profunda em crenças e ações, a ponto de passarem a ser uns desconhecidos tanto para eles mesmos como para os outros. Assim é que, mesmo ao perceberem a mentira na qual se instalaram, porém sem forças ou disposição a fim de lutarem contra as várias pernas falsamente criadas, os personagens retornam às suas vidas e tentam esquecer o que viram para não passarem pela reconstrução.

Em “A cidade sitiada”, Lucrécia mora com a mãe no subúrbio de S. Geraldo. As duas, apesar de habitarem o mesmo espaço, mal se falam e, mesmo quando a mãe, viúva, tenta enveredar por intimidades sobre si mesma, Lucrécia sempre encontra um jeito de fugir das conversas. Vai para a sala de visitas que nunca recebe visitas e fica a observar os objetos, quase a se comunicar com eles como se ela própria fosse apenas um objeto a ser olhado. Flerta alguns moços, mas se casa com Mateus, homem bem mais velho, e que representa a possibilidade de ir embora de S. Geraldo, além de lhe oferecer o conforto e a comodidade econômica que ambiciona. S. Geraldo está em pleno desenvolvimento e progresso com suas indústrias, lixos e esgotos, a cidade está em construção e seus habitantes também vão se formando, não assentados na busca do ser, mas do ter e do fazer que dão toda uma aparência de evolução do homem.

O tema da construção do ser é retomado em seu quarto romance “A maçã no escuro”, cujo protagonista é Martin, engenheiro, não por acaso, que foge de São Paulo, crente de que cometera um crime contra a esposa com quem tem um filho. Sozinho, começa a experimentar a falta de sentido da vida, mas pelo menos diante da possibilidade de se ver “livre do incômodo de ser compreendido.” No silêncio que se faz no seu interior começa a sentir a própria presença e a libertar-se para ser ele mesmo. “Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio”.

Martin é um homem que quer ser herói, reconstruir o mundo, mas percebe que há enorme pretensão no seu desejo, pois antes é preciso começar por si próprio. Para tanto, ele comete um crime, que representa a destruição do homem anterior, e entrega-se à fuga, ao silêncio e ao vazio, longe da prévia ordem e de todos que pertenciam à antiga vida. Martin percebe que ao homem só é possível ser herói de si mesmo. Herói de sua própria reconstrução.

A paixão segundo G.H. é todo voltado para a despersonalização e desconstrução da personagem, preconceituosa e mesquinha, cuja aparência de ser se apoia na posição social, nos bens que possui, numa “profissão” que exerce de forma amadora e na ideia que os outros fazem a respeito dela. G.H. só percebe a mentira em que vive quando se contrasta com o vazio e a claridade do quarto da empregada que ela pretendia limpar por imaginar imundo. Seu “eu” é demolido ao constatar que de pouco se precisa para ser e viver. “A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mais eu quisera mais”.

No entanto, Clarice revela o despojamento total do ser por intermédio de Macabéa, personagem de seu último romance “A hora da estrela”. Sozinha no mundo, pobre, tão desprovida de linguagem que é quase muda, Macabéa representa a nudez final. Ela é apenas a “semente viva”, seu viver resume quase no respirar. Macabéa é o caroço, é a desconstrução até chegar aos ossos, é a estrela que brilha porque representa o ser nu e cru, livre de máscaras, de coisas e de nomenclaturas que enfeitam.

De todos os personagens dos romances de Clarice, Macabéa é a única que morre, talvez para demonstrar que a morte nos iguala, momento em que nos despimos de absolutamente tudo aquilo que construímos à custa de tempo que é vida, mas que não nos priva da morte. Ela, que fulmina a todos. Morre-se num instante. Mas o grande problema é que a gente se esquece.

CORAÇÃO PURO

Chovera durante toda a tarde. Em casa, atenta ao barulho dos pingos d’água caírem fortes no chão, a árvore molhada defronte à janela, um livro nas mãos, o dia frio, o coração ardente. Como tudo estava bom!

Quando a chuva deu uma trégua, a tarde morria. A noite convidava a sentir o seu perfume de flores e de terra molhada. O frescor após horas de lágrimas torrenciais. Saí a caminhar tranquilamente enquanto ouvia a suave melodia que me cantava a vida e o amor. Leve como pluma. Havia gozado o mundo num só instante. Flutuava.

De repente, um pensamento a rondar. Desavenças e indiferenças que nada tinham a ver com o que sinto dentro de mim. Não queria sair do estado de levitação em que me encontrava, então pensei que apenas as intenções e o que se passa no meu íntimo é que de fato importam. Que tenho a ver com tortos olhares? De fora para dentro, ninguém pode dizer quem sou. “Tenho um bom coração. Deus pode sondá-lo neste mesmo instante que não hei de temer” – pensei ao tempo em que recuperava a leveza anterior.

Como por milagre, deparei-me com uma criança que caminhava em sentido contrário. A menina sorriu-me um sorriso gratuito e, após dar alguns passos, virou-se e correu em minha direção abandonando a mãe que estava ao seu lado. Devolvi o sorriso à pureza enquanto andava.

A mãe correu para segurar a menina que avançara alguns metros; mas a criança se soltava e, novamente, ia em minha direção a fim de me seguir, totalmente entregue e confiante a quem nunca antes vira. A mãe teve que pegá-la no colo ao perceber que, se permitisse, a filha a deixaria e me seguiria para onde eu fosse.

Sorri para a mulher e disse-lhe que as crianças costumam agir assim comigo. Ela respondeu: “É que você tem um coração bom.”

E não havia passado um minuto de quando desejei que Deus me sondasse. “Deixai vir a mim as criancinhas.” Quase não acreditei na verdade de que uma criança veio até mim. Mas ela veio e me sorriu. Eu nem preciso me dar ao trabalho de provar a ninguém um coração puro. Criança sente.

A PIOR DAS TENTAÇÕES

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada ao forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou como que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

“Quando lhe haviam dado para ler a “Imitação de Cristo”, com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido – perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação.”

Se Laura escapou ao fascínio de imitar Cristo, por imaginar que copiá-lo representaria a perdição de uma pessoa, não se pode dizer o mesmo sobre a tentação de imitar uma rosa, a qual cedera a ponto de ser internada sob o argumento de que “não estava bem”.

Após alguns dias de internação, Laura volta para casa sem, no entanto, esquecer a recomendação médica de que ela tomasse um copo de leite entre as refeições para evitar a ansiedade ocasionada pela fome e, principalmente: “Não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem”.

Mas para estar “bem”, Laura deveria ocupar-se, sem pausas, o que fazia com certa destreza ao passar as roupas do marido, organizar metodicamente as atividades domésticas, ordenar a casa e ficar à espera de Armando com o fim de atendê-lo em suas necessidades. Vestida discretamente de marrom, “ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser”, passava o dia cuidando de tudo, sempre cansada, exausta, sonolenta, vivendo a “verdadeira vida” ao lado de um homem que nunca pretendeu se casar com uma bailarina, mas com uma mulher larga, lenta e de pernas grossas, de quem poderia se esquecer por horas já que ela não representava qualquer perigo à sua virilidade.

Para tanto, Laura não parava um instante sequer, “as pessoas na Terra se cansavam e envelheciam” e assim devia ser, “ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem” vivia para agradá-lo; ele, que fingia escutá-la em suas conversas cansativas, preferia mesmo que a esposa fosse pequena, chatinha, boa diligente, “uma senhora distinta”, “mulher sua”.

Armando retornava do trabalho às pressas, ofegante, temeroso de encontrar Laura calma e serena, entregue a si mesma. Tudo que mais desejava era olhá-la e deparar-se com um sorriso que passou a ser símbolo de sanidade da mulher à espera do homem. Porque não a suportaria com aqueles sintomas dos quais ela já havia se curado. “Não mais aquela falta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir – nem de dia nem de noite – que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo.”

A normalidade seria apenas o cansaço, a ocupação sem tréguas, a falta de tempo, o rosto decaído, a busca de uma finalidade para cada ação, a falência diária, a obediência cega e muda. Laura cuidava para ser “normal” como os demais, de modo a não escandalizar aos outros nem ao marido de quem sentia tanta piedade que cuidava de não ultrapassá-lo. “Ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranquilo se empluma nas águas, se tornara super-humana”.

Era preciso igualar-se aos outros, entregar-se à vida comum, fugir das extravagâncias para não ser novamente mandada àquele lugar dos que não estão bem. “E, como para todo mundo, cada dia a fatigava; como todo o mundo, humana e perecível. Não mais aquela perfeição, não mais aquela juventude. Não mais aquela coisa que um dia se alastrara clara, como um câncer, a sua alma.”

“Olhai os lírios do campo”, “olhai para as aves do céu”. “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”, “não vos inquieteis”. Se Laura fugiu ao chamado de Cristo, “a pior tentação”, quando se percebeu estava diante do apelo mudo de rosas perfeitas, belas e tranquilas. As rosas plenas em suas vestes de ser. Majestosas a não mais poder.

Era preciso se desfazer delas, pois também eram tentadoras. “Aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco.” Pensou em dá-las à amiga Carlota. Evitar olhá-las e deixar-se seduzir. Olhai, olhai, diz Cristo. E olhar é pura loucura do corpo. Laura resistia. Até quando? “Olhou-as com enlevo, pensativa, profunda”. E antes que a empregada levasse as rosas para Carlota, Laura se deixara tentar pela perfeição.

Não mais fatigada, cansada e sonolenta. Livre de preocupações e ansiedades, “eu me deixo ser”. As rosas abriram-lhe a claridade. Laura estava fresca, luminosa, calma e suave. Serena, sem pressa, altiva na sua solidão. Perfeita e desabrochada como uma rosa.

“Voltou, Armando. Voltou” – disse Laura ao marido.

Era a perfeição. “Sede vós perfeitos, como é perfeito vosso Pai celestial” – ah Cristo!

Armando fingiu não entender. “Ele sabia que ela fizera o possível para não ser luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso”.

Laura, alerta, tranquila, com “a serenidade do vaga-lume que tem luz”. Ao imitar a rosa, ao sê-la, ela cedera à pior das tentações. Mulher.