Meu destino

Talvez seja muito cedo para esboçar algumas linhas sobre algo que passou recentemente a ser objeto de meu interesse. Refiro-me à Psicanálise, procedimento investigativo de processos mentais derivados do inconsciente, método de tratamento de neuroses e área de conhecimento científico, que foi concebida pelo neurologista Sigmund Freud em decorrência de sua prática clínica com pacientes acometidas pela histeria.

Pode ser pretensão de minha parte enveredar, neste momento, por um assunto que demanda estudo abrangente e profundo, mas ousada que sou, quero arriscar.

Certa vez, um amigo me afirmou que a literatura antecipa possíveis avanços da ciência e de outros ramos do conhecimento. No momento, não compreendi muito bem, mas a informação ficou armazenada em algum lugar dentro de mim.

Sempre tive curiosidade bastante aguçada, sede faustiana pelo conhecimento e ímpeto ardoroso por descobertas. Desde criança, os livros me despertam, os acontecimentos cotidianos demandam minha atenção e as conversas das pessoas me interessam. Fui e sou atenta a tudo. Uma menina viva e disposta a penetrar nas profundezas das coisas.

É provável que a literatura de Clarice Lispector tenha me seduzido desde o primeiro contato por se dispor a cercar e a rondar o escondido da existência, aquilo que não vemos, mas nem por isso deixa de ser real. O invisível, o oculto, a entrelinha, o enigma, o que não é dito no dito. Tudo funciona como isca para capturar os sequiosos de mistério. Há algo na vida que escapa a todos os conceitos e saberes. Algo que ri de nossa razão insuficiente, que brinca e zomba de nós quando pensamos ter o controle.

Antes de adentrar precisamente na Psicanálise, aventurei-me nas Neurociências, que se dispõe ao estudo do funcionamento do cérebro, suas funções cognitivas como memória, atenção, aprendizagem; as emoções, os sentimentos e os comportamentos humanos.

As Neurociências se aprimoraram com o desenvolvimento da tecnologia, em especial a partir dos exames de neuroimagens, que possibilitaram verificar, em tempo real, quais regiões do cérebro são ativadas em determinados estados experienciados por uma pessoa, como medo, raiva, alegria, tristeza, entre outros.

Além do mais, procurou afastar o dualismo corpo-alma, principalmente ao constatar que a lesão de determinadas áreas cerebrais afetam e comprometem certas funções corporais, cognitivas e sensoriais. Assim, parte da premissa de que é o corpo quem produz a consciência. Portanto, Descartes estaria redondamente enganado ao supor que seríamos uma espécie de máquina animada por uma alma. Para as Neurociências, a máquina é animada por si mesma, por seus próprios processos neurais.

Ocorre que, saber qual região do cérebro é ativada quando, por exemplo, estamos com medo, não explica de onde vem a consciência do medo. Não se pode afirmar em que lugar do cérebro ela mora ou o que a produz. Os cientistas não descobriram a origem da consciência que nos faz saber onde estamos e o que se passa dentro e ao redor de nós. Eis o que escapa às Neurociências. E eu não posso deixar de lembrar Shakespeare: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar vossa vã filosofia.”

E como se não bastasse a procura inócua, movida por um implacável desejo de busca, deságuo no mar da subjetividade de um saber que sobrevive mais de perguntas que de respostas, e que mergulha num universo de incertezas, onde o resultado de dois mais dois dependerá do sujeito que “fizer a conta”.

A Psicanálise está submetida às flutuações da subjetividade. E a subjetividade foge às certezas, além de suprimir todos os espaços em que se pretenda instalar verdades.

Cada sujeito é único, irrepetível, individual, física e psiquicamente. Sua constituição envolve questões genéticas, ambientais, fisiológicas, orgânicas, espirituais, culturais e tantas outras que até soa ingênuo a tentativa de aplicar a mesma fórmula indistintamente para todos, ou mesmo dois.

A Psicanálise surgiu da tentativa de compreender algo que escapava à ciência, no momento em que os médicos se quedaram mudos e impotentes diante de um território em que seus conhecimentos eram por demais insuficientes para entender e dominar certas manifestações. Como explicar a incidência de doenças nervosas em pessoas cujo aparelho físico estava em condições perfeitas de operação? E como explicar que pessoas conseguiam minimizar e eliminar os efeitos dos sintomas da histeria ao dar vazão ou voz, por meio da fala, aos episódios e eventos traumáticos vivenciados?

Freud percebeu a importância da escuta para a cura das pacientes, não uma escuta qualquer, mas aquela que se dá com o corpo todo, livre de restrições, interrupções, censuras e julgamentos. Assim, as regras básicas para que determinado método seja considerado psicanalítico é o que ele denominou de “associação livre”, aplicável ao paciente; e “atenção flutuante”, ao psicanalista.

O analisando iniciará o tratamento com a plena liberdade de começar sua fala por onde preferir, aleatoriamente, sem qualquer sugestão do analista, que deve escutar tudo sem se prender ou priorizar um fato ou outro. O psicanalista deve partir do pressuposto de que o paciente sabe muito mais a respeito de si próprio do que aquele para quem ele fala. É preciso deixar que o inconsciente emerja com toda a sua força; é necessário permitir que a cobra rastejante das cavernas submersas percorra a superfície para que seja capturada, ainda que ela novamente fuja ou escape, pois morrer, ela nunca morre.

Não pude deixar de pensar que se a escuta atenta e livre de interrupções e julgamentos é uma das chaves para que o paciente se sinta um pouco aliviado, nós somos péssimos “psicanalistas” uns dos outros. Raras vezes conseguimos escutar verdadeiramente alguém sem intromissões, quebras ou ensaios de respostas, ao tempo em que o outro fala, baseadas no juízo que fazemos de como o falante deveria agir e que parte tão somente de como pensamos que agiríamos, pois nem sempre há proximidade entre o que conjecturamos e praticamos.

A falácia mais descabida que conheço, tão descabida que está na boca de todo mundo, é a tal da empatia. Impossível se colocar no lugar de outro sujeito. Trata-se de um exercício impraticável que foi elevado a princípio máximo, ocupante do topo das paradas, justamente pelo seu caráter inalcançável. Para, hipoteticamente, nos colocarmos no lugar de alguém teríamos que vestir suas roupagens antes mesmo do início de seu tempo. Empreender um esforço hercúleo de tentar imaginar suas condições desde antes do nascimento até o momento do desejado exercício da empatia. É simples lidar com o irresolúvel. Basta respeitar o fato de o outro ser outro. Só ele pode dar respostas a si mesmo, talvez a única grande coisa que podemos fazer é ajudá-lo a enveredar por seus territórios.

Freud sugere que o analista diga ao paciente: “Antes que eu possa lhe dizer algo, tenho que saber muita coisa sobre você; conte-me o que sabe a respeito de si próprio.”

Ou seja, para afirmarmos algo sobre uma pessoa seria necessário, como dizia minha avó, comer um saco de sal com ela. Claro que estou sendo hiperbólica, mas devemos admitir que tudo que não fazemos é conhecer um pouco da história de vida de alguém para emitirmos nossas opiniões a seu respeito. Ninguém escuta ninguém. As pessoas são canceladas e excluídas por um única opinião, uma imagem, um acontecimento isolado, uma ideia divergente e outras ocorrências ínfimas a que nos apegamos e nos damos o direito de julgar o todo, eliminando-as ou atirando nelas a indiferença, a fixidez e a crueza de que somos destinatários e algozes.

Cá estou mergulhada no universo psicanalítico a que fui conduzida pela insaciável sede de que sou feita da cabeça aos pés e que tão bem sintetizou a poeta mineira Adélia Prado: “Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota”.

Rendo-me à busca de algo que está além e aquém de mim com o ardor de uma criança a descobrir o mundo. Meu destino é a procura incessante, permanente, infinita. Não necessito de âncora que, a pretexto de me oferecer segurança, ousa me prender como fazem aqueles cuja fome voraz encarcera os que dizem amar.

Meu destino é não ter destino. É querer saber tudo, mesmo sabendo que absolutamente tudo nos estreita e nos escapa.

Amantes

Fitaram-se: quatro olhos se acenderam brilhantes; bocas sorriram. À distância mesmo tocaram-se levemente com as pontas dos dedos. Uma possibilidade de amor lhe esquentava. Abria-se mais e mais, porque era com muita doçura que o homem pedia. Dava-se sem medo. O corpo queria o prazer de um novo toque que, de longe, se fazia sentir.

Quando, em outros tempos, preparava-se para receber aquele que não aparecia nem se explicava, esperava-o crente de que a espera é natural de quem ama. Até descobrir que amor é quando a pessoa chega minutos antes.

Com meia hora de antecedência lá estava o amante. Sorridente, dizia-lhe que a aguardava há um bom tempo. E ela se sentia amada porque se forçava a confundir desejo com amor. Nunca sabia muito bem o significado das palavras, a dimensão ou o alcance delas e, por inocência ou esperteza, deixava-se levar como quem é tomada de fé.

Punha-se a esperá-la por alguns minutos. Tirava a aliança e colocava-a no bolso antes que a amante chegasse. Não pretendia ocultar-lhe sua condição. Cada um sabia em relação ao outro que havia em casa quem os esperavam. Era um gesto de pura delicadeza e cuidado para evitar que, quando estivessem juntos, olhasse o objeto que a faria lembrar da outra, ainda que a marca no dedo não deixasse escapar a ninguém a evidência de uma longa história. Ela notava. Nada dizia para não se obrigar a fazer o mesmo. Não lhe incomodava que ele visse em sua mão a prova de que outro também a possuía. Quem sabe isso o faria desejá-la até mais.

Abraçavam-se cheios de saudade. Enquanto sussurravam um ao outro, as mãos entrelaçadas ou a dela acariciando-lhes os mágicos dedos; os olhares fixos um no outro, mergulhados no desejo intensificado à medida que não se entregavam por inteiro.

A mulher cheia de si, mal sabia que ele adiava o momento apenas para segurá-la com mais força. Era desejo o que fingia acreditar ser coisa mais profunda apenas para se dar o luxo de imaginar-se duplamente amada.

Seduzir era o que o fazia se sentir cada vez mais vivo e alimentava seu vigor diante de si mesmo. Dizia o que ela necessitava ouvir, mandava-lhe flores e presentes, parecia adivinhar-lhe os pensamentos quando fazia soar em seus ouvidos uma música que traduzia o que ela sentia.

Suspiravam e o ar entrava pleno em seus pulmões. Era a vida alimentando e revitalizando todas as células do corpo. Seja lá o que fosse, seria com a indestrutível força do que ambos queriam. Algo de que eles não ousaram fugir.

Grande Sertão: veredas

Não foi no primeiro contato com o livro “Grande Sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, que consegui dar prosseguimento à leitura.

Ao abri-lo na primeira página: “- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.”

Pensei: Ah! Este volta para a estante. Dou conta dele agora não.

Lá ficou por um bom tempo, até que um amigo revelou ter lido “Grande Sertão: veredas” quatro vezes e, caso tivesse de levar apenas um livro para uma ilha deserta, seria a consagrada obra de Rosa.

Despertada a minha curiosidade, decidi que começaria a lê-lo no primeiro dia de um período de dez dias de férias.

Intuí que seria uma viagem inesquecível, como nenhuma outra, onde haveria um mergulho profundo na alma humana, verdadeiro Grande Sertão que constitui o cerne da narrativa.

Engana-se quem pensa que o Sertão, de Rosa, reduz-se a um mero espaço geográfico. “O sertão está em toda parte”, alude logo no início, e sugere, pois, que o homem é homem onde quer que esteja.

Trata-se de uma instigante travessia que fiz sozinha, com meus próprios pés e sem mãos que me apoiassem. Bem imaginei que, ao fim da leitura, jamais seria aquela que ousou, num ato de coragem e bravura, transpor as linhas iniciais.

O Sertão me atravessou por inteiro. Eu atravessei o Sertão. Desemboquei na terceira margem do rio, que não parou de correr, mesmo quando eu mais quis. Ou não quis?

Há sede em todo lugar. E há veredazinhas aqui, ali, acolá…

Olhei para todos os lados na vã tentativa de pedir que me dessem uma das mãos. Não existia sequer alma capaz de reconhecer quando alguém precisa de ajuda.

O orgulho é um grito mudo, um pedido abafado, um esforço tremendo de ser maior do que se é quando nem se sabe o próprio tamanho. Estava só, no mais escuro breu, e pude ouvir o estrondo ensurdecedor do silêncio que jaz dentro de mim.

Não podia correr para os braços de ninguém, nem mesmo de quem amava, porque todas as acusações me dilaceravam, me atingiam o centro do peito. Tinha de esconder a fraqueza para que não fosse usada como flechas contra mim. Era tão grande a fúria que me questionava ter escolhido para amar aquele de quem ouvia as piores palavras, os indiferentes olhares e a ausência de toques que mudamente ansiava.

Como supor receber o menos de quem me dispus a dar tanto? Carrego a dor aguda daquilo que vai desmoronando aos poucos, sem anestesia ou morfina. Desfeitos os sonhos, perdidas as ilusões, todas as fantasias jogadas no chão da sala onde amar poderia ter sido simples e nu.

A cama fria, vazia, o espaço aberto instando-me a abandonar tudo ao atingir o extremo limite da capacidade de suportar; os dias empurrando-me para o abismo do não ser, não pertencer, não sentir nada além do ar que atravessa os pulmões e deixa a boca seca no deserto das coisas negadas.

Era uma vez…

Era uma vez ela, que – na verdade – é eu. Como explicar que não sabe enganar a si mesma e, em vez de mentir sobre o que quer, prefere se dizer a verdade?

Não gostaria de estar numa varanda sentindo a brisa gelada em sua pele e ouvindo o balançar das folhas da árvore. A árvore que se mantém em pé e sozinha durante todo o tempo, no sol ou na chuva, como para lembrá-la que é preciso se sustentar nas próprias raízes longas e profundas.

E que tenho eu a ver com a árvore?

O que ela sente é a angústia de uma saudade que só passaria depois que encostasse a cabeça no peito do homem e dormisse. Não em paz, pois ele nunca lhe dera a calma necessária para mergulhar tranquila no escuro. Mas dormiria encostada no peito e ele a abraçaria como quando criança era envolvida pelos braços do pai.

Olhava para os lados, mas não havia ninguém, e se existisse pessoa, que faria? Daria as costas para provar que é capaz de ultrapassar dores sozinha, sem o auxilio de quem jamais a entenderia. Porque os outros nada sabem de nós. E nós também pouco sabemos.

Ela – não queria casamento nem filhos e almejava morar num hotel – alcançou a plenitude ao realizar todos os desejos e fantasias. Mal sabia que a realização joga uma pessoa no mais completo vazio. Ela, que sempre quisera ter um homem, mas não o tem como gostaria. Ela, que quis ser livre desde quando abriu os olhos pela primeira vez e se tornou tão livre que chega a se perguntar: então querer é poder?

Com que cara se dirigir a Deus para lhe pedir alguma coisa se tudo que pediu teve e, nem sempre, o que teve mostrou-se bom? Pediu, recebeu, doeu. Depois, chorando, admitiu: “Não aguento mais”.

Não quero mais correr o risco de pedir e ter. Que Deus faça conforme achar que deve, pois estou muda diante Dele que tanto deu. Quer me mostrar que a vida nada tem a ver com o que tive até agora?

Estou cansada de saber coisas, de ver e de sentir tudo e tanto. E só o peito quente do homem serviria nessa hora. Mas não posso continuar pedindo cegamente. É capaz de eu ter e depois não aguentar todos os outros dias em que o homem se nega. Não quero pagar um momento de alegria com contínuos dias de dor.

Parece que ninguém sai dessa vida impunemente. Paga-se por tudo. E quanto mais se tem mais se exige. O preço foi tão alto que até agora estou sem palavras. Reduzida à inteira quietude perante os homens e ao absoluto silêncio diante de Deus.

Atrás do véu

“Fulana se perdeu”. Essa expressão não era usada para indicar que alguém errara o caminho ou se enfiara no denso escuro de uma floresta, muito menos indicava aquela que não sabia qual rumo tomar.

Numa roda de conversa, principalmente em que a presença das mulheres da família se fazia em maior número, era comum, ao se referir a alguma moça que deixara de ser virgem, apontá-la como uma pessoa perdida.

“Não serve para casar.”

“Ninguém a quer para coisa séria”.

“Os homens só se aproveitam dela.”

“Ela não se valoriza.”

Frases desse tipo costumavam ser proferidas contra aquelas que se entregavam sexualmente sem que, antes, precisassem da assinatura de um contrato, da chancela de testemunhas ou das bençãos de uma autoridade religiosa. Nem mesmo a proibição dos pais pesava tanto ou mais que o desejo de ceder ao desejo que pulsa naquilo que vive.

Estranhava que alguém precisasse se guardar, se anestesiar e se privar dos prazeres que o corpo estava apto a sentir, em nome de um outro que já surgiria contemplado com o prêmio da exclusividade, como se a mais alta conquista frente a uma mulher fosse o orgulho de dizer: “Só eu toquei e adentrei neste corpo. Ele me pertence. É só meu.”

Dona Justina mal deixava que as filhas namorassem. Logo as obrigava ao casamento para que também “não se perdessem” e dessem o que falar na pequena cidade onde tudo se sabe. A vaidade de andar por entre as ruas em que era conhecida como a mulher que casara todas as filhas se intensificava à medida que essas uniões perduravam sabe-se lá em que condições. E o tempo passava. E os netos nasciam.

Conta-se que tia Julieta se recusou fortemente a casar vestida de noiva. Não revelava o motivo da negativa, embora muitos o imaginassem e, a mãe, dona Justina, desconfiasse. Acreditava-se que aquela que fingisse virgindade seria publicamente desmascarada, pois a queda do véu aconteceria assim que adentrasse no recinto, como prova de flagrante “impureza”. Todos continuavam a fingir que seu filho João nascera de sete meses. E Julieta permanece a mais séria e conservadora entre as irmãs.

Um dia após as núpcias de uma prima, enquanto os demais se preocupavam com o que havia para comer e beber, me pus a olhar para a recém-casada: cabeça levemente inclinada, semblante triste, olhar perdido e vago. O mais perfeito retrato da insatisfação. Então, poupara-se tanto para “aquilo”?

Henriqueta foi quem não imitou o rigor da mãe Justina e dizia para as filhas: “Virgindade não tem valor. Se tivesse, o pai de vocês não teria me trocado por uma putz!”

Filha de Henriqueta, não herdei um código de conduta puritano que me infundisse culpa. Mesmo meu pai não atirou pedras em Madalena, antes a tomou por segunda esposa. Não cresci sob o tormento do proibido ou do “não me toque”.

Em matéria de sexo, nunca pequei por morder uma maçã. Não fui expulsa do Éden. O Paraíso continua sendo o meu mar de amar.

Por trás do sorriso

Há um mês não escrevo nada. Penso em discorrer sobre muitas coisas que me vem, faço anotações, chego a elaborar textos inteiros na cabeça, mas falta-me disposição para movimentar os dedos.

Volta e meia, Raquel de Queiroz declarava ter preguiça de escrever e, só o fazia, por não dominar outro ofício. Além do mais, transformou a escrita em ato gerador de sustento. Jornalista, tinha obrigação de encaminhar semanalmente suas crônicas aos periódicos.

Escrever exige tal força que só agora consigo perceber. Parece-me que antes escrevia naturalmente, com mais facilidade; sentava-me frente à máquina e as ideias vinham e fluíam sem peleja ou sofrimento. Agora não. Estou cada vez mais exigente. Tenho lido tantos textos bons e bem escritos, e acabo com a impressão de que tudo que vier a escrever será menor, sem importância e dispensável. Mas também não duvido que esteja dominada pela preguiça admitida de forma tão digna pela escritora nordestina.

Antes de tudo, fui e sou leitora. Ao ler nos posicionamos mais passivamente, ainda que haja um diálogo com o autor e mesmo diante do esforço necessário à interpretação e compreensão. Por outro lado, escrever exige postura ativa e de comando, de disposição ordenada das ideias, escolha das palavras que melhor as expressem. Espero que essa fase de ficar “só recebendo” dos outros passe logo e que meu animus escrevendis seja resgatado.

Quero muito terminar um conto sobre dois amantes que se encontram no Café Visconde, cuja história já está com os contornos delineados. A mulher se deixou envolver porque confundiu desejo com amor. Conversa fiada. Pura mentira. Ela sabia que era desejo e desejava também. A fome nunca engana. Parece-me que ela diz pensar ser amor para se justificar. Não aos outros, mas a si mesma. Tenho de dar fim à narrativa, pois há muito eles estão sentados num restaurante, de mãos dadas. Nesse momento parei de escrever; a inspiração fugiu-me. Mas admito que deixo-os mais tempo juntos, porque há de vir o instante em que a separação será inevitável.

Pedi minha mãe que me mandasse a cópia de algumas anotações que fiz quando estive em sua casa. Entre os temas listados está escrito: “A mentira gagueja”.

Pretendo conseguir escrever sobre a mentira que tanto me incomoda à medida que não minto. Longe de afirmar isso na tentativa de infundir um moralismo falso. Não minto por incompetência. Ouso dizer, por falta de dom.

Na vida não precisei me utilizar desse subterfúgio. Acho humilhante mentir, porque, a pretexto de enganar uma pessoa, tenho de admitir, antes, para mim mesma, que estou mentindo, ainda que o outro sequer desconfie. Não gosto de me trapacear. Tenho a impressão de que a cada mentira perderia a admiração e o respeito por mim mesma. E o que pode restar de alguém que não se respeita?

Sei que poderia mentir pelo menos enquanto escrevo, mas nem isso. Nem isso.

Também quero escrever sobre um homem que não sai da minha cabeça, porque não o transfigurei em palavras. Um dia, estava num restaurante lendo um livro e, gentilmente, ele pediu para conversar comigo. Consenti.

Queria me vender um exemplar da Revista Traços, cuja parte do valor é destinada a auxiliar ex-dependentes químicos. Um apoio à ressocialização dessas pessoas que, em algum momento da vida, se entregaram à sedução de não se pertencerem.

Perguntei-lhe o nome. “Samuel. E o seu?”

“Ana”.

Ele: “Sabia que, na Bíblia, Ana é mãe de Samuel?”

De certa forma, um homem quer uma mãe em todas as mulheres. Mas se não pude dar-lhe colo, pelo menos prestei-lhe ouvidos atentos.

“Posso contar minha história?”

Fiz gesto afirmativo. Prontamente, agachou-se diante de mim como quem se prostra à Virgem.

Era um ex-alcoólatra que perdera contato com mulher e filhos em decorrência do vício. Ela o deixou, pois não suportava as agressões, além das desconfianças e dos ciúmes que passou a apresentar. Admitiu que eram invenções da cabeça dele, provenientes dos delírios causados pelo álcool. Agora, sem ninguém, tentava recuperar a dignidade perdida.

Ao terminar a fala, deu uma risada para expor o interior de sua boca, e disse-me com olhos vagos: “Veja, perdi até o sorriso”.

Uma mudez me invadiu com a proximidade daquela boca sem dentes. Que fazer?

Num movimento rápido desviei os olhos para dentro da bolsa à procura de dinheiro.

Comprei a revista.

Ao se despedir, ainda fitou-me: “Por que seus olhos estão tristes, moça?”

“Porque perdi alguém que gosto muito” – respondi sobressaltada.

“Oh! Seu coraçãozinho deve estar muito doído. Mas vai passar, porque Deus vai cuidar de você.”

Sorri-lhe: “Ah sim. Deus vai cuidar de mim.”

E dele, Deus meu, quem cuida?

Quem?

À espera

Acendi velas brancas, rosas e amarelas

Eu as vi queimar até a última flama

E o milagre não veio.

Cedi minha cama aos hóspedes enquanto dormia no chão frio

Preparei os melhores pratos para recebê-los

E o milagre não veio.

Não faltei às missas

Comunguei todas as vezes em que me estenderam o corpo de Cristo

E o milagre não veio.

Estive em campo inimigo

Não verguei à ira, não me rendi ao combate

E o milagre não veio.

Ajoelhei-me diante de um homem que nem era deus

Lavei seus pés, servi-o com mãos santas

E o milagre não veio.

Expulsei os pecados para bem longe

Não traí nem menti sequer um instante

E o milagre não veio.

Esforcei-me para afastar da boca os julgamentos

Busquei compreender os meus iguais diferentes

E o milagre não veio.

Chorei em silêncio para disfarçar a dor

Sufoquei a voz que queria gritar por socorro humano

E o milagre não veio.

Rezei o terço três vezes num só dia

Tranquei a porta do quarto enquanto implorava baixinho

E o milagre não veio.

Distribuí dinheiro e comida aos pobres

Deixei vir a mim as criancinhas e as envolvi com amor

E o milagre não veio.

Até agora não descobri o que mais Deus quer de mim

Mas sei lá no fundo o que eu quero dEle

E o milagre ainda não veio.

Eu passarinho!

Um pensamento ocupou-me durante alguns dias após ler um parágrafo de um texto que eu mesma escrevi. Parece-me que também escrevo para esconder meus segredos, enganar minhas dores e vencê-las a ponto de lhes dizer: vocês não me dominarão. Recuso-me a padecer de meus males. Luto contra todos. Que desaforo render-se a eles!

Escrever me organiza, ainda que o caos arrombe novamente a porta . Enquanto houver vida há de se transformar caos em cosmos, buscar forças sabe-se lá em quê. Cada um é que sabe.

Um livro pode ser a tentativa de se refazer, de eternizar acontecimentos e sensações, mas também o desejo de ultrapassá-los para que algo novo possa surgir na vida e na arte.

“O sentir mais belo” brotou da necessidade de me libertar das prisões cujas correntes eu mesma me impus e, impiedosamente, apertava-as. Dezoito contos, aparentemente desconexos, que, lidos na ordem disposta, formam um todo interligado e único. Um sentimento profundo e subterrâneo percorre o livro, um fio invisível que liga seus componentes à maneira de um colar de pérolas.

As histórias são protagonizadas por uma personagem em diversas fases da vida. Menina, adolescente ou mulher descobre que ser amada não basta. Quer ser adorada, reverenciada, e entende que ao homem, submetido à precariedade de sua condição, não foi dada a possibilidade de um sentimento dessa magnitude. Cai na mesma ambição da poeta Florbela Espanca em que apenas a ideia do amor de um Deus a faz dormir tranquila.

O título carrega o adjetivo “belo”, não no sentido de bonito ou harmônico, mas querendo significar algo verdadeiro, de alguém que, em momento algum, pretende se enganar a respeito do que sente, ainda que seja dor.

A capa do livro não é menos desprovida de sentido. Um esboço de rosto de mulher com sobrancelhas, olho, nariz, boca e queixo. Não há cabeça? É que ela é “um coração batendo no mundo”; coração que morre um pouco a cada dia, porque sente tudo com muita intensidade. Um casal olha o rosto da mulher mergulhada em si própria, mas há quem diga que eles estão a contemplar pássaros no céu azul. O céu que a invade ao fim da narrativa.

Talvez, num primeiro momento, poucos vejam os pássaros. O rosto da mulher é tão mais óbvio e chamativo. As aves, apenas simbólicas, disfarçadas de sobrancelhas e olho, representativas da liberdade a que a personagem se lançará depois de se convencer que nada pode subjugá-la, pois é amada por um Deus.

Ao estar com o livro em mão, meu sobrinho de apenas dois anos, Otto, cujo nome carrega a imponência que percebo em sua postura, nada viu além do oculto. Ao mirar a capa, disse num tom firme como quem profere sentença: “passarinho”. A mãe, sem nada entender e, preferindo perder a cunhada do que a piada, aproveitou para brincar: “Sua tia está igual passarinho mesmo, Otto… livre, leve e solta”.

O episódio restou provado num vídeo em que Otto revela o que poucos veem: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

“Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. Não, Nicodemos. Não será preciso retornar ao útero materno. Nem seria possível. Veja o que está por trás dessa frase, o oculto que a permeia. Renascer é morrer para as ideias preconcebidas e ver as coisas com o mesmo olhar com que as crianças veem.

Diante da capa de “O sentir mais belo”, se não conseguires ver uma mulher que deseja a liberdade dos passarinhos é porque vos é necessário olhar de novo.

A construção do ser em Clarice

Em “Água Viva”, Clarice diz: “Criar de si próprio um ser é grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se.”

Toda a obra de Clarice concentra-se na busca do ser, em atingir o “é da coisa” que consiste numa espécie de núcleo ou cerne que há em nós e que nos dá o animus de vida. Assim, na tentativa de se aproximar de nosso centro vivo, básico, primitivo e originário, Clarice busca a construção do ser que, na sua Literatura, passa primeiro por uma desconstrução para que seja reconstruído. A construção dá-se num movimento de fora para dentro, até chegar ao “caroço”, “semente viva” e, para tanto, é necessário o despojamento total do eu construído.

Desse modo é que seus personagens se veem diante de acontecimentos cotidianos e rotineiros que os fazem pensar o tipo de vida que levam, muitas vezes, provocando o desmoronamento de tudo aquilo que até então constituía o alicerce sobre o qual se ancoraram por anos.

Entretanto, nem sempre, estes personagens possuem a coragem ou as condições de tentarem vida nova, pois tal atitude demandaria uma mudança profunda em crenças e ações, a ponto de passarem a ser uns desconhecidos tanto para eles mesmos como para os outros. Assim é que, mesmo ao perceberem a mentira na qual se instalaram, porém sem forças ou disposição a fim de lutarem contra as várias pernas falsamente criadas, os personagens retornam às suas vidas e tentam esquecer o que viram para não passarem pela reconstrução.

Em “A cidade sitiada”, Lucrécia mora com a mãe no subúrbio de S. Geraldo. As duas, apesar de habitarem o mesmo espaço, mal se falam e, mesmo quando a mãe, viúva, tenta enveredar por intimidades sobre si mesma, Lucrécia sempre encontra um jeito de fugir das conversas. Vai para a sala de visitas que nunca recebe visitas e fica a observar os objetos, quase a se comunicar com eles como se ela própria fosse apenas um objeto a ser olhado. Flerta alguns moços, mas se casa com Mateus, homem bem mais velho, e que representa a possibilidade de ir embora de S. Geraldo, além de lhe oferecer o conforto e a comodidade econômica que ambiciona. S. Geraldo está em pleno desenvolvimento e progresso com suas indústrias, lixos e esgotos, a cidade está em construção e seus habitantes também vão se formando, não assentados na busca do ser, mas do ter e do fazer que dão toda uma aparência de evolução do homem.

O tema da construção do ser é retomado em seu quarto romance “A maçã no escuro”, cujo protagonista é Martin, engenheiro, não por acaso, que foge de São Paulo, crente de que cometera um crime contra a esposa com quem tem um filho. Sozinho, começa a experimentar a falta de sentido da vida, mas pelo menos diante da possibilidade de se ver “livre do incômodo de ser compreendido.” No silêncio que se faz no seu interior começa a sentir a própria presença e a libertar-se para ser ele mesmo. “Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio”.

Martin é um homem que quer ser herói, reconstruir o mundo, mas percebe que há enorme pretensão no seu desejo, pois antes é preciso começar por si próprio. Para tanto, ele comete um crime, que representa a destruição do homem anterior, e entrega-se à fuga, ao silêncio e ao vazio, longe da prévia ordem e de todos que pertenciam à antiga vida. Martin percebe que ao homem só é possível ser herói de si mesmo. Herói de sua própria reconstrução.

A paixão segundo G.H. é todo voltado para a despersonalização e desconstrução da personagem, preconceituosa e mesquinha, cuja aparência de ser se apoia na posição social, nos bens que possui, numa “profissão” que exerce de forma amadora e na ideia que os outros fazem a respeito dela. G.H. só percebe a mentira em que vive quando se contrasta com o vazio e a claridade do quarto da empregada que ela pretendia limpar por imaginar imundo. Seu “eu” é demolido ao constatar que de pouco se precisa para ser e viver. “A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mais eu quisera mais”.

No entanto, Clarice revela o despojamento total do ser por intermédio de Macabéa, personagem de seu último romance “A hora da estrela”. Sozinha no mundo, pobre, tão desprovida de linguagem que é quase muda, Macabéa representa a nudez final. Ela é apenas a “semente viva”, seu viver resume quase no respirar. Macabéa é o caroço, é a desconstrução até chegar aos ossos, é a estrela que brilha porque representa o ser nu e cru, livre de máscaras, de coisas e de nomenclaturas que enfeitam.

De todos os personagens dos romances de Clarice, Macabéa é a única que morre, talvez para demonstrar que a morte nos iguala, momento em que nos despimos de absolutamente tudo aquilo que construímos à custa de tempo que é vida, mas que não nos priva da morte. Ela, que fulmina a todos. Morre-se num instante. Mas o grande problema é que a gente se esquece.