a sabedoria dos ruins

O conto “Os desastres de Sofia” é um dos textos de Clarice Lispector que mais me impressiona. Após incontáveis leituras, sem, no entanto, vislumbrar deixar de relê-lo sempre que meu íntimo desejar, pareço a própria Sofia atônita diante de um homem que se revela: “Mas sei que vi. Vi tão fundo quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo.” Eu também vi, embora não saiba dizer o que vi.

Uma menina de nove anos cuja façanha é seduzir o professor alto, gordo, feio e de ombros contraídos, movida pela ânsia da matéria orgânica e ignorância de que é feita, guiada pela intuição, fome e sede que fatalmente a conduz ao homem. Ele, o santo. Ela, a prostituta culpada. Como seduzi-lo? Provoca-o durante as aulas, fala e sorri alto, irrita-o a ponto de fazê-lo odiá-la, tenta chamar a atenção do mestre das formas mais bizarras e inconsequentes, encara-o, mas ele nem a olha. Ao sair do colégio, leva o professor consigo até a cama, onde pensa nele antes de dormir. Ele a perturba mesmo quando não está em sua presença. No outro dia, recomeça o jogo da sedução que a fascina como se já houvesse tornado mulher.

Quer trazê-lo para o seu mundo a fim de salvá-lo dele mesmo. Do abismo em que imagina que aquele homem inocente, bom e desprotegido se encontra. Ela o ama como uma criança ruim que vê no crescimento uma redenção da maldade de que os infantes são feitos. Para Sofia, a meninice parece não ter fim. O que a move é a esperança de se tornar adulta e mais pura, já que, conhecendo a si mesma desde muito cedo, percebe-se, por vezes, má, dotada de instintos e ferocidades. A velocidade e a rapidez são os meios utilizados para alcançar mais depressa o estágio que pretende. Até chegar lá e perceber o quanto “a esperança é burrinha”.

Nada do que fizera até então conduzira-o ao seu mundo, pelo contrário, ele a evitava com todas as forças. Até que um dia o professor resolve contar uma história a respeito de um homem que sonhara com um tesouro e, ao acordar, decidiu viajar pelo mundo a fim de procurar o objeto precioso. Não o tendo encontrado, retornou para casa. Tanto plantou no seu quintal e tanto colheu que acabou ficando rico.

O professor pede aos alunos para completarem a narrativa cujo sentido é que a riqueza só pode ser fruto do trabalho duro. No entanto, Sofia, que já aprendera a “tirar a moral das histórias”, oferece-lhe uma totalmente destoante da que esperava. Escrever para ela era muito fácil e simples, pois “só sabia usar as próprias palavras”. E são essas palavras que provocam no professor algo que ela jamais imaginara. Na versão da menina, o tesouro está onde menos se espera. Bem diante dos olhos. É só achar.

“Suponho que, arbitrariamente, eu de algum modo já me prometia por escrito que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. (…) Ao contrário do trabalhador da história, na composição eu sacudia dos ombros os deveres e dela saía livre e pobre, e com um tesouro na mão.”

Pela primeira vez, o professor volta-se para Sofia com especial interesse. Quer saber sobre a história do tesouro que o deixou surpreso. Agora, ele a olha nos olhos, o que sempre evitara. Fala o nome da aluna em voz alta. O homem a reconhece; o texto, o verbo confere-lhe existência.

Quando percebe o estado em que o professor se encontra, misto de perplexidade e alegria, quer saber o que de tão excepcional havia escrito. Ela o enganara com a “lorota do tesouro”. Movida pela pressa de sair da sala para brincar e correr no pátio com os meninos, narrara qualquer coisa a fim de se ver livre da tarefa. E o “tolo” acreditara na mentira, pois ninguém encontra tesouro em qualquer lugar. E como se insinuasse que ela poderia ser esse tesouro, aí mesmo é que estava totalmente enganado. Ela não era “engraçada” nem “doidinha” como supunha. Era uma “safadinha” por quem um homem grande e bobo se deixava ludibriar.

Minguava a esperança que acompanhara a menina de encontrar redenção no crescimento. Esse homem, na tentativa de se salvar, agarrava-se a qualquer coisa, mesmo numa história descabida, sem pé nem cabeça. A mentira não serve apenas às crianças, os adultos também se deixam levar por ela. Há sede, vazio e carência por toda parte. O abismo da vida que nos leva a fantasiar, fingir e mentir não abandona o íntimo com a mudança dos estágios do corpo. Sofia e o professor se amaram, cada qual a seu modo. É preciso amar o ruim e o impuro mesmo que com amor duro e cheio de garras. Talvez, apenas nisso, o rei da Criação e a mulher do rei da Criação possam se redimir um pouco. Pois que assim seja! Amem!

A água que lhe sai dos olhos escorre pelo corpo misturada com a torrente jorrada do chuveiro. Chora como se dentro dela houvesse uma fonte interminável de dor vinda de tempos longínquos que ultrapassam muito o tempo de sua vida. Sonda os motivos nas profundezas para ir além do que sabe. “É porque sou assim… Mas haveria de ser outra?” Tão enraizada na própria pele que a mínima ameaça de não sê-la a deixa em permanente estado de alerta. Olha-se no espelho e vê os esboços definidos e limitados de um espaço que não lhe cabe. Essa, a razão por que tem chorado.

Mãos vazias

Na noite anterior, minha mãe relembrou-me o nosso compromisso do dia seguinte: “Filha, não se esqueça, o corpo chega às 9.”

À hora marcada nos dirigimos ao cemitério onde seria enterrado um tio-avô que, quando vivo, pedira para descansar eternamente na mesma cidade onde repousava os pais e demais irmãos mortos.

Ainda não conhecia a nova morada física dos que partem. Há tempos residindo fora de Coribe, na última vez que fora a um enterro, o cemitério ficava ao fundo do quintal de meus avós maternos que, ao morrerem, nem precisaram se afastar tanto da casa onde ficaram por tanto tempo. Apenas um muro os separam, hoje, do lugar em que viveram muitos anos de suas vidas.

Diante da falta de espaço para novos chegados, a municipalidade providenciou outro local, agora, distante do centro da cidade, para aqueles que tiverem suas almas desprendidas do corpo e, inertes, precisem ser abrigados. Soube que ninguém queria inaugurar o novo cemitério para não ter que lidar com o fato de um parente padecer, sozinho, em lugar afastado e ermo, até que um senhor se ofereceu para ali ser enterrado, quando sobreviesse sua morte, de modo que a partir desse momento outros concordaram em deixar os entes em tão corajosa companhia.

Percebi que muitos habitavam aquele lugar que há bem pouco tempo todos temiam. O esquife encontrava-se quase no chão, apoiado em dois tijolos, um em cada extremidade, enquanto aguardava-se a presença de alguns familiares que estavam prestes a chegar. Ao redor, poucas pessoas conversavam, choravam e lastimavam a perda daquele que no dia anterior vivia como se nada fosse acontecer. Mal sabia que uma insuficiência cardíaca lhe arrancaria de surpresa o último sopro.

Atrás dos óculos escuros, eu olhava e via o tio inerte e aos demais como quem dorme. A viúva fez questão de deixar bem claro que cuidara dele até o último momento, fazendo-lhe todas as vontades, alicerçada na desnecessidade de quaisquer provas. Duas filhas em desespero de dor pelo motivo óbvio da perda e, talvez, por outros que jamais suporia. Um único irmão presente, pensativo e distante. Os filhos inquietos andando de um lado para outro, quem sabe se, dois deles, entorpecidos para não sentirem ou sofrerem.

Do vidro, observava e refletia, disposta a logo esquecer, sobre um rosto imóvel que, sem prévio anúncio ou despedidas, tudo deixava e, assim, retornava ao pó apenas de mãos vazias entrecruzadas sobre o peito .

O peso da luz

A solidão permeia toda literatura de Clarice Lispector. Percebe-se a presença desse tema nos contos, nas crônicas, nas cartas, sobretudo nos romances. O primeiro deles “Perto do Coração Selvagem” traz Joana, a mulher que experimenta a solidão já na infância e assim transcorre a vida, mesmo no período em que permanece casada com Otávio. Também, o último deles, “A Hora da Estrela”, com a pobre Macabéa, perdida e sozinha na cidade grande, abandonada pelo namorado, único que poderia confirmar-lhe a existência, mas a troca por outra na primeira oportunidade.

As personagens, na maior parte, femininas, parecem carregar os próprios dramas da escritora, que também deixou transparecer de inúmeras formas que a solidão era um estar em si. Talvez isso se devesse, em especial, à condição da família, que se viu obrigada a deixar o país de origem, em virtude da perseguição aos judeus, e aportar em terras estranhas à maneira dos exilados. Clarice nasceu no percurso de fuga, numa pequena aldeia da Ucrânia, onde pararam apenas para a mãe dar à luz a menina. Ainda, conviveu com a doença que progressivamente paralisava essa mãe, levando-a à morte.

O sentimento de culpa jamais abandonou a filha mais nova e a fez acreditar ser a causa da patologia que atingira a mulher que a gerou. Como se não bastasse, na adolescência, perdeu também o pai, restando-lhe apenas duas irmãs, das quais se afastou fisicamente durante os muitos anos em que viveu fora do Brasil para acompanhar o marido em seu ofício de diplomata.

Antes de casar-se, experimentou a desilusão do amor não correspondido, o qual era destinado a Lúcio Cardoso, com quem manteve apenas a proximidade de amigos ao tempo em que permaneceu o distanciamento do desejo irrealizável que ela jamais usufruiria.

Tanto a relação familiar como a do amor impossível foram retratadas no livro “O lustre”, seu segundo romance. Nele, Virgínia experimenta o estranhamento de pertencer a uma família cujos membros são totalmente alheios aos pensamentos e sentimentos dela, ao que se passa em seu interior, inclusive ao amor que sente pelo próprio irmão Daniel, com quem mantém um segredo que a ilumina contra o mundo. Clarice acredita na força que um segredo pode dar a alguém e, não raro, apresenta personagens, aparentemente frágeis, mas vigorosos pelo inconfessável tesouro que guardam dentro de si.

No casarão antigo e vazio de objetos, ornado por um solitário lustre e um tapete de veludo vermelho, mora a família composta por pai, mãe e filhos, Esmeralda, Daniel e Virgínia, além da avó paterna. Esmeralda, a preferida da mãe por lembrar-lhe os bons tempos idos, silenciosamente resignada, exasperada, nervosa por se ver presa ao ambiente doméstico e aos cuidados forçados de sua gente. Em contraposição, Virgínia, livre como um cão, fluida, movida por sensações que lhe percorrem o corpo, amando impossivelmente e fazendo desse amor a força de seus dias. Amor, que por não se materializar, é ainda maior e mais precioso dentro dela. “Ela só tinha ardor.” E, de tanto ardor, queimava sozinha e liberava todos da obrigação de amá-la e a ela se prender, inclusive Daniel, que se afasta sem que jamais tente impedi-lo.

Quando Virgínia e Daniel, sob a justificativa de estudarem na cidade grande, partem juntos para, anônimos, viverem sozinhos, ele se une a outra mulher e recua ante a liberdade. Retorna para a família com a esposa, enquanto a irmã permanece só para sentir a si mesma e tudo o que a cerca, sem interrupções ou pausas, imune ao peso dos outros.

Ao se ver diante da necessidade de abandonar o quarto em que morava e abrigar-se junto a duas primas percebe ser impossível dividir o espaço com alguém sem deixar-se influenciar ou contaminar. A liberdade de Virgínia incomoda as outras mulheres a ponto de exigirem dela o mesmo comportamento. No entanto, recusa-se a passar os dias sentada diante de uma máquina de costura em companhia das primas que há muito fecharam as portas para tudo o mais que se apresenta além do espaço físico onde ocupam.

Como o lustre aceso só e imponente numa sala; como o sol sozinho a clarear o dia; e a lua solitária a iluminar a noite, Virgínia precisava estar distante de todos. O brilho intenso atrai, mas também afasta por ofuscar a visão dos que o contemplam. O peso da luz é a solidão.

“Ela seria fluida durante toda a vida.” Com essa frase, Clarice inicia “O lustre” e nos dá mostras de que a personagem corre como um rio e nada a aprisiona, nem mesmo o amor, quer da família, quer de um homem.

Com essa fluidez, percorre todos os lugares e relaciona-se, mas jamais ancora-se em lugar algum. Daniel, Vicente, Adriano, Miguel… quantos homens de fato a possuíram para, depois de morta, ser acusada de prostituta por uma mulher que temeu perder o homem que supunha ser seu?

Sem pertencer a ninguém, Virgínia viveu uma espécie de liberdade alicerçada no centro vivo de si mesma. Se para Clarice Lispector, “a solidão é um luxo”, para a sua personagem a solidão é uma necessidade sem a qual a vida não pode ser verdadeiramente sentida.

Sede

A voz atingiu o peito feito flecha. Sangrou. Doeu. Dói. Acusada de um crime que não cometeu mesmo em legítima defesa. Não se defende mais. Fechou a porta, apagou as luzes, sentiu tudo outra vez, não adormeceu. Não chorou. Olhos secos. Boca seca. Um rio perpassando seu corpo e ela a morrer de sede.

Um dia de cada vez II

Coribe-BA, sexta-feira, 16 de julho de 2021.

Desde que cheguei a Coribe, sábado, 10 de julho de 2021, tenho acordado cedo todos os dias. Minha mãe levanta às 5, faz o café, realiza as atividades domésticas rotineiras com a pontualidade e o rigor de muitos anos. Varre o quintal e a frente da casa mesmo que não haja folhas caídas, limpa o chão limpo, retira o pó dos móveis e dos objetos que nunca se deleitaram na sujeira. Ela tem mania de limpeza e de organização que muito me agrada pelo prazer de estar num ambiente de frescor, no entanto penso que às vezes exagera nos afazeres. Faz tudo com tanta pressa que é quase impossível não ouvir o barulho que denuncia cada uma de suas tarefas diárias e repetidas as quais realiza antes de partir para o trabalho formal que a remunera.

É bom estar na terra de minhas origens materna, onde passei a infância e parte da adolescência. Aos 16 anos deixei a cidade para estudar, pois as possibilidades oferecidas não despertavam o meu interesse. Nessa época, não sabia bem o que queria, mas o que não apeteceria minha vida restou muito claro para mim, pois sempre observei bastante ao redor e, pela experiência dos outros, conseguia desvencilhar-me de situações que jamais seriam capazes de provocar-me alguma espécie de satisfação ou alegria.

Criança, já apreendia o ambiente, as emoções, os sentimentos, as lutas e as agruras dos que me eram próximos. Nunca condenei a maneira de viver de quem quer que fosse, nem mesmo quis impor meu modo àqueles em quem notava outras aspirações, mas havia acontecimentos que, para mim, seria a representação da própria morte. Uma morte em vida. O que é pior.

Não sou saudosa. Não há nada do passado que eu me pegue desejando reviver. Quando me vem alguma lembrança de outros tempos percebo-a muito fugaz. É que amo demais estar no presente, o exato momento em que vivo, como esse em que escrevo sentada no sofá da sala da casa da minha mãe enquanto ouço o barulho do vento frio de julho, o cachorro latir, o canto do galo do quintal vizinho e a melodia dos pássaros. A casa está silenciosa de vozes. Todos saíram. Aproveitei para ficar sozinha assim como quando estou em Brasília e passo grandes períodos gozando de tudo o que há dentro de mim. Eu não sei se isso é o que chamam de amor próprio, mas como curto estar comigo mesma. Como é difícil abrir mão de estar só para estar junto aos outros. Percebo que cada vez me afasto de tudo que vem de fora. Uma falta de interesse por tantas coisas. Sinto uma riqueza tão grande dentro de mim, gosto dos pensamentos que me habitam, dos sentimentos que movem meu espírito, das emoções que se apossam desse corpo que é tudo o que tenho. Modo de dizer. A consciência de que nada tenho não me deixou pobre, ao contrário, deu-me leveza, serenidade, compreensão e, quem sabe, um pouco de plenitude. Despertou-me o gozo de existir, de ser. Ser o quê? Bem, é muito profundo e impalpável para expressar em palavras. Mas sinto sou algo, embora intraduzível, confesso.

Coribe-BA, domingo, 18 de julho de 2021.

À noite fui à missa dominical. Entre muitas outras coisas, o padre falou sobre perdão, compaixão e fraternidade. Saí da igreja disposta a libertar todos de meus julgamentos, algo que talvez restasse possível se de lá me dirigisse a alguma montanha ou a um deserto. Só que meu destino era o jantar na casa de uma tia.

Ao chegar, os demais já estavam saciados de comida. Enquanto me servia da mesa farta conversavam sobre o mau comportamento de sacerdotes até desaguar em histórias de pessoas da família. A vítima da vez foi meu pai, que Deus o tenha!

Dele, basta-me conhecer um pouco de seu temperamento e comportamento. Mais para saber de mim do que do homem que foi. Quanto ao mais, não tenho sequer curiosidade. É prazeroso ouvir que era alguém alegre, inteligente e bom. Do meu pai, agarrei-me a esses adjetivos e ao mais dele que há em mim dentre tudo o mais que nem ao menos sei.

um dia de cada vez I

Coribe-Ba, domingo, 11 de julho de 2021.

Às 5h30min, acordo com a sonora e alegre voz da minha mãe a me chamar: “Filha”. O frio convidava-me para mais algumas horas sob as cobertas, no entanto, no dia anterior, havia assumido o compromisso de levantar bem cedo para realizarmos uma caminhada de pouco mais de uma hora. Ao me levantar, deparo-me com minha mãe prontamente trajada e desperta após tomar o café que preparara às 5h.

Em meia hora fico pronta e damos início à caminhada de domingo. Um vento gelado percorre o corpo durante os primeiros passos até que alguns minutos de puro movimento nos aqueça. Conversamos, rimos, fizemos algumas fotos durante o trajeto. Ao retornar, o nascer do sol ilumina pele e alma, faz-nos esbanjar um sorriso de contemplação.

“Como pode, filha, um único sol para iluminar qualquer lugar do mundo? Não é incrível?”

“Mãe, a senhora pensa nessas coisas?” – perguntei com espanto e admiração.

“Claro. Olha o céu. Parece estar pertinho de nós e, na verdade, é infinito. Não é incrível, filha?”

“Sim, mãe. É incrível. Eu também penso muito nessas coisas, mas não sabia de onde herdara. Agora entendi.”

O marido de minha mãe, ao nos escutar, balbucia: “Não precisavam se parecer tanto”.

Damos risadas. Dentro de mim aquela satisfação por sabê-la filósofa e não mera presença muda no mundo.

Que céu lindo pudemos admirar nessa manhã! Quão bom é ter olhos para ver, ouvidos para escutar, pernas para caminhar, espírito para perceber e mãos para elevar e agradecer.

Estávamos fascinados pela beleza do dia, contentes, luminosos, até sermos surpreendidos pelo barulho da ambulância que anunciava, talvez, algum trágico acontecimento. Percebemos à frente um agrupamento de pessoas em torno de alguém estendido no chão. Um acidente entre duas motocicletas deixa um rapaz ferido. Não me aproximei para vê-lo agonizar. O sofrimento do outro me dilacera, me entristece, me anula e coloca-me cara a cara com a realidade humana que tantas vezes reluto aceitar. Uma simples queda nos fere, debilita e derrama sangue.

Ah não! Como alguém pode sangrar e sofrer sob os belos e radiantes sol e céu? Entristeci. Não parava de pensar no rapaz que fora ferido enquanto percorria o caminho para chegar ao trabalho numa fria manhã de domingo.

Só mais tarde consegui respirar aliviada ao receber notícias de que ele estava bem. Não o conheço, mas nunca precisei ser íntima de ninguém para sentir a humanidade que nos une.

Depois do almoço, li algumas páginas de “Outros Escritos”, de Clarice Lispector, dado a mim pelo amigo Caminha. Não viajo sem Clarice. Tenho-a como uma velha amiga que, ao desnudar-se, possibilitou que eu me conhecesse melhor e, sobretudo, me aceitasse, me amasse. Clarice reforça a paixão que tenho pela pessoa que sou. Não é pretensão da minha parte. Como não nos querer bem se tudo o que somos, percebemos e sentimos só nos é possível por meio de nós próprios? Deveríamos intuir essa verdade logo nos primeiros anos de nossa vida a fim de não perdermos tempo ou nos torturar tanto.

“Talvez pela consciência tardia de que nós somos a única presença que não nos deixará até a morte. E é por isso que nós amamos e nos buscamos a nós mesmos. E porque, enquanto existirmos, existirá o mundo e existirá a humanidade. Eis como, afinal, nós nos ligamos a eles.” C.L.

Que não tardemos a nos amar, respeitar e entender no mais profundo de nós que representamos a única pessoa que não nos deixará até que a morte nos ultime!

À tarde, minha mãe insiste para que joguemos baralho. Concedo de bom grado, mas já nas primeiras partidas sobrevém o cansaço. Acho muito repetitivo, tedioso. Não gosto de jogo, não me anima nem me excita. Cheguei à conclusão que as competições não me atraem. O único jogo que permito jogar é o da sedução com os seus mistérios. Sutilezas, entrelinhas e delicadezas deveriam ser as únicas armas para fazer com que o outro se renda e nos conceda as cartas até a fatal entrega do trunfo.

18h30min Missa Dominical na Igreja da Praça da Matriz. Gosto de ir às missas. Essas que deixaram de ser apenas ritualísticas quando passei a entender os seus símbolos. Agradeço Dra. Filomena Camilo, médica pediatra e cristã que acompanho há pouco mais de três anos com suas explanações que me fizeram entender o significado da celebração cujos atos giram em torno do principal, a vinda de Jesus Cristo, o qual se faz pão para que dele alimentemos nosso espírito. Eis o pão vivo que desceu do céu.

É sempre bom revisitar a igreja onde ia às missas acompanhada de minha avó materna. Vejo o templo não apenas como um local de reforço da fé, mas também um lugar de memórias. De pé, frente a Cristo crucificado, lembro-me da primeira comunhão, do batismo ocorrido apenas aos 11 anos de idade, dos emocionados casamentos das últimas virgens da família com seus vestidos brancos e olhos sedentos e curiosos pela possível novidade da vida conjugal. A promessa de felicidade a que nunca aspirei numa vida a dois. Nunca desejei casar na igreja, muito menos virgem. Casar jamais foi um sonho. Pensava que se tivesse que ocorrer seria naturalmente, sem muitas euforias, fantasias ou festas. E como não representava sonho, casei acordada e de olhos bem abertos, sem papéis, testemunhas ou vestido branco que evidenciasse uma pureza há muito esquecida no paraíso perdido. Como jurar amor eterno? Senão que seja eterno enquanto dure como bem lembrou o poeta. Nunca esperei um príncipe. Sempre soube que os homens são homens todo o tempo e em qualquer idade. Ao saber de mim, compreendi-os bem.

Num relance, um dia posterior ao casamento de uma prima, apreendi em seu olhar certa tristeza de quem pouco gozou a noite de núpcias. No semblante, como quem pensa: “Era só isso?”. Sim. É só isso! Eu soube antes mesmo de casar.

A missa inicia com a convocação para pedirmos perdão pelos nossos pecados. Quanto a mim, nunca pequei. O proibido jamais me torturou. Amar é pecado? Eu amava. Tocar é pecado? Eu tocava. Sentir é pecado? Eu sentia tudo com muita intensidade. A consciência que me habita é de que não devo atentar contra nada que tenha sido criado. Então, não digo: “Perdoa os meus pecados.” Soa dentro de mim: “Perdoa-me por todas as vezes que atentei contra aquilo criado por Vós”.

Em êxtase, devoro um homem-Deus vivo, com seu corpo, espírito e sangue. “Vinde Senhor Jesus.”

“Eu não sou digno que entreis em minha morada…”.

Indigna, permito que entres em mim.

O padre anunciou a próxima missa para sexta-feira, 16 de julho, às 18h30min. Insaciável, se Deus permitir, lá estarei mais uma vez para atenuar fome e sede que nem mesmo Ele estanca.

costume

Sábado à tarde em casa, sozinha. A vida presa a quem não vinha por vontade pura, deliberada. Esperava. Há quanto tempo esperava? Perdera as contas de quantos dias e noites. Como estava cansada, sem esperanças. Como estava infeliz. O que via no horizonte era a repetição de uma rotina, um círculo em que sabia de antemão que daqui muitos anos à frente, nada. Nenhuma promessa. E aquele ardor de vida vivendo e queimando por dentro. Os olhos abertos no escuro de um dia de sol. Vazia, vazia por excesso de doação a quem não queria nem lhe pedia.

Angústia comprimindo-a toda. Nem beijos que aliviassem a ânsia da boca aberta e seca de ar. Um abraço que suportasse as batidas altas do peito quente, desordenado por amar demais. Amar a invenção de um amor. Tristes olhos que um dia brilharam. A chama aos poucos apagada nos minutos que correm sem oferendas. Para receber tem que pedir. Às vezes implorar migalhas de pão que pelo menos sirva para matar a fome do corpo, já que a alma é matéria inalcançável.

Um mundo que só precisa de um pouco mais de palavras delicadas, vindas das profundezas do sentir verdadeiro. Nenhuma lhe fora dita que já não tivesse inscrita no dicionário dos dias passados. Um único verbo e tudo se faria novo. Perdoaria anos de desejos frustrados e incompreensões. Perdoaria uma vida inteira não vivida e feita de esperas.

O perdão mais imediato deveria dar-se a fim de estancar uma mina que só pingava. Não sabia de onde vinha o pensamento de que não precisava, como se a ela coubesse apenas a obrigação da entrega. Se pudesse dar alguns passos para trás, mas havia avançado demais até chegar ao lugar onde habituou a não ter. A verdade é que se acostumou ao nada e quando lhe oferecem alguma coisa é tomada pelo desejo de fuga por puro medo de receber.

O inominável

E agora, agora, agora? Pergunta Joana após se cansar de todas as possibilidades apresentadas. Brincava, estudava, vigiava as galinhas do quintal vizinho, inventava estórias, mas… e agora? O incessante movimento dos ponteiros do relógio, o silêncio que se impunha enquanto, sozinha, esperava que algo acontecesse, embora soubesse que nada acontece a quem espera.

Conta ao pai uma narrativa que acaba de inventar. Para Joana não é difícil fazer poesias, é só ir dizendo. Dizer, pois não age conforme sente, mas da maneira que diz. As palavras constituíam a matéria-prima para criar o próprio mundo e uma realidade que poderia ser bem diferente daquela sentida pela criança supostamente frágil e desprotegida. A menina órfã de mãe, essa mulher que, de tão esquisita, o pai não gostaria que Joana herdasse qualquer traço de personalidade. Nem mesmo que se parecesse com ele. Queria que a filha seguisse caminho diverso.

O que vai ser de Joana? Tão magrinha e precoce – pensa o pai. Não tenho nada o que fazer. Impaciente, ele responde: Bata com a cabeça na parede. A menina chora. Passava horas pensando, pensando. Joana tinha projetos de ser herói. Não sonhava com felicidade. Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? A professora ficou chocada com a pergunta. Ser feliz é para conseguir o quê? Como entender uma criança que, com altivez e orgulho, dizia-lhe que não gostava de se divertir? Infante, já possuía o esnobismo daqueles que caminham contrariamente à multidão.

Agora estava verdadeiramente sozinha no mundo. O pai morreu sem aviso prévio, o que lhe conduziu à casa de alguém que nada tinha a ver com ela, porque Joana nada tinha a ver com ninguém. Talvez você não encontre mais ninguém que sinta com você, como… disse-lhe o professor o qual a menina amava.

A mulher não se sentia bem com a presença da sobrinha na casa. Joana parecia saber o que eles pensavam. Calada, observava, analisava, mantinha distância dessas pessoas que apenas brincavam de viver, afogadas em afazeres diários e rotineiros, enclausuradas num ambiente onde nem o vento nem o sol possuíam licença para entrar. Joana não só penetrava as paredes, mas também o íntimo dos que ali habitavam. Vivia como se não precisasse de nenhum deles, de nada, bastavam-lhe as ideias, os pensamentos, a extensão do seu ser infiltrando em todos, espalhando-se pelo mundo.

Mas se estou dizendo que posso tudo… Joana respondeu ao ser flagrada roubando um livro. Aquilo de que a tia necessitava para se ver livre da menina de uma vez. Antes que encontrasse um jeito de anunciar para onde a mandaria, Joana sabia. Quando é que eu vou para o internato? Atônita, olhou para o marido. Ele permaneceu mudo enquanto devorava o alimento com violência.

Mesmo do professor, em quem confiava, viu obrigada a se despedir. O homem que não lhe dava respostas para as perguntas que fazia, por não sabê-las, que a aconselhava aprender encontrar tudo o que existe dentro dela e sugeria-lhe que lembrasse de firmar o próprio valor. Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Ele, o qual não só falava sobre prazer, mas o despertava na menina que, embora não estivesse inteiramente pronta, estremecia de gozos ao se aproximar do mestre.

Nunca sofra por não ter opiniões em relação a vários assuntos. Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la.

Joana compreendia as palavras e tudo o que elas continham, assim como compreendia esse homem que mudava totalmente de semblante e comportamento diante da esposa. A menina o amava. A culpa era dele por ter-se inclinado demais para Joana, por ter procurado, sim, procurado – não fuja, não fuja, – , pensando que seria impunemente, sua promessa de juventude, aquele talo frágil e ardente.

Ao notar a brusca mudança diante da mulher, ao perceber que ele recuava, Joana lhe deu as costas. Tivera dele o que precisava. Sabia que, talvez, ninguém mais lhe revelasse coisas como as que o professor ousava dizer. Vive-se e morre-se. Todos se esqueciam disso e só sabiam brincar.

Ela estava pronta para existir no agora. Diante da verdade óbvia e inescapável da morte ocuparia-se com a vida que pulsa a cada instante. Casar, ter filhos, trabalhar, contar dinheiro… Tudo isso era muito pouco. Não faria como os outros, não brincaria de viver. Jamais esqueceria que em pleno dia se morre. Só mais tarde encontraria novamente o professor, a quem se dirigiu para dar o último adeus antes de se casar com Otávio. Queria ver aquele que tanto lhe ensinara, olhar em seus olhos, dizer-lhe. Mas após sofrer o abandono da mulher, encontrava-se mais velho, gordo, doente, sem paciência para ouvir qualquer pessoa, inclusive Joana.

No orfanato, seu corpo de menina desabrochava. Joana sentia-se bem viva enquanto as outras meninas permaneciam imóveis, dormindo. As sensações a invadiam e tomavam o seu ser por inteiro. Entregava-se ao prazer de pertencer a si mesma, por meio de quem poderia sentir os outros e o mundo. Livre. Mas Joana queria mais. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por que casara? E com um homem tão previsível e pouco ardente.

Otávio caiu facilmente nos braços de Joana, a quem considerava forte e fria. Queria estar ao lado de alguém que não lhe condenasse os erros e não lhe imputasse culpa por fraquezas ou desatinos seus. Joana dava-lhe a impressão de que ele poderia pecar tranquilamente, sem o crivo dos julgamentos. Com ela, seria livre. Desfez o namoro com Lídia, tão dependente, passiva, frágil, inerte. Tão diferente da feroz, selvagem e destemida Joana.

No entanto, manteve-a como amante. Lídia lhe daria um filho, pois fora o único homem que conheceu durante a vida; para ela, Otávio representava o mundo e conferia-lhe existência. Tudo o que mais desejava era tê-lo de volta e formar uma pequena família.

Ao visitá-la, Otávio percebeu que Lídia se distanciara dele desde que carregava outro ser. Havia alguém crescendo no seu interior e isso deixava-a presunçosa de tal modo a desprezar outras mulheres. Apenas Joana seria capaz de desbancá-la do pedestal ao esfregar a verdade de que em todos os ventres de mulheres podem nascer filhos. Assim, não havia motivo para se dar tanta importância. Até os animais… Ela mesma poderia, se quisesse, mas não desejava ligar-se para sempre a alguém, mesmo um homem, quanto mais a Otávio que, aos seus olhos, não era nada estimulante.

Joana foi ao encontro de Lídia disposta a ceder-lhe o homem. Eu lhe darei Otávio, não agora, porém quando eu quiser. Se ela representava a víbora de quem não se sabia o que esperar, Lídia oferecia certeza e quietude. Ao seu lado, Otávio poderia descansar de pensamentos intranquilos, pois jamais o surpreenderia.

Ao sair dali, Joana caiu nos braços do amante. Um homem que sempre a seguia e agora, diante dela, vendo-a cansada, oferecia-lhe um lugar para repouso. Quem era? Pouco importava. Não queria saber de suas origens nem do seu passado. E mesmo sem questionar-lhe o nome entregava-se a ele como uma nova possibilidade de amar. Ainda que por instantes fugidios os quais no outro dia restariam esquecidos. Joana sentia-o penetrá-la e deixou-o. Não podia fugir dessa mulher que apenas com um olhar acendia dentro dele todas as capacidades. Você promete demais… Todas as possibilidades que você oferece às pessoas, dentro delas próprias, com um olhar… não sei. Palavras que ouviu de Otávio, outrora fatalmente atraído por ela.

Mas sabia que abandonaria esses homens. Impossível manter a liberdade ligando-se às pessoas. Nenhum deles teria mais o seu tempo. Iria sozinha, sem medo, pois se o seu destino era a grande morte, evitaria morrer diariamente dando-se aos outros. Sozinha no navio em direção a um não-lugar. Alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Sozinha a procurar algo maior que a liberdade. O inominável centro de quem tem dentro de si a própria constelação.

AMOR

“Ninguém me ama, ninguém me ama”, repetia baixinho enquanto escorregava inteiramente o corpo por debaixo das cobertas. “Ainda estou acordada. Acende a luz.” A mulher sorria; fazia-lhe as vontades até que o sono viesse atirá-la no escuro da inconsciência. No outro dia, desperta, sentia a mais amada dentre todas e a confiança lhe invadia como a certeza de um dom.

Caminhava altiva, crente que possuía grandeza para tocar o alto. Parecia acreditar que era destinada à salvação dos outros, que poderia dizer palavra ou frase capaz de transformar mendigo em abundante, prostituta em imaculada, criminoso em santo, doente em pessoa cheia de saúde. Imaginava que se desse muito aos outros seria irremediavelmente amada. Adorada por aqueles que diante dela se ajoelhariam com promessas de se tornarem cada vez mais sãos.

Porque entregue a ideal tão alto mantinha-se cada vez mais sozinha, isolada. Ao seu redor não lhe havia correspondência. As demais entregavam-se à banalidade cotidiana, deixavam-se conduzir facilmente por outras, incapazes de formular algo novo ou manifestar sobre coisas que não fossem as do momento. Quando tentava enveredar por caminhos pouco percorridos recebia em troca a indiferença de olhares vagos e sem brilho, como se ao ouvi-la sentissem o perigo de vir à tona verdades que preferiam manter abafadas, jamais reveladas para não perturbarem a vigília.

Compreendia cada expressão e por meio delas percebia que a ninguém é dado o poder de mentir ou disfarçar. Calava-se. No mais fundo de si brotava a certeza de que jamais se faria amada, pois relutava conceder.

Mas para continuar precisava de força e era da força de um amor que lhe pedisse, oh não!, lhe implorasse para manter-se como é. Quem se aproximaria sem garras que ferissem sua sensibilidade já arranhada ? Quem ousaria aceitá-la límpida e transparente em seu estado mais puro? Bruto?

Inventou que era amada por um Deus grande, mais tão grande que, de tanto amor, se refez toda. E quando vinha o pensamento “ninguém me ama, ninguém me ama” não mais surgia aquela que com um toque iluminava o quarto. Então clamava pelo sublime, pela fonte de amor incomensurável. Acreditava no milagre de que uma luz azul se acendia toda dentro dela. “O céu em mim”. Sentindo-se amada, adormecia.