Um guia para saúde, de Mahatma Ghandhi.

Falar a respeito de saúde pressupõe que antes saibamos o seu conceito, com a finalidade de facilitar o entendimento do assunto tratado no livro. Assim, de maneira bem simplista, podemos considerá-la como a boa disposição física e mental que nos permite gozar de bem-estar. A palavra saúde deriva do latim salutis, que significa salvação e conservação da vida. Nesse livro, Gandhi não nos apresenta maneiras de curar doenças, mas sim, formas e meios de preveni-las. 

Ele não era um profissional da área de medicina, no entanto, passou vinte anos de sua vida observando os comportamentos que levam as pessoas a serem ou não saudáveis. Gandhi é bastante enfático ao afirmar que não podemos ser verdadeiramente felizes se não gozamos de saúde e a verdadeira saúde não pode ser conseguida sem um rígido controle do paladar.

A gula, inclusive, é considerada um dos sete pecados capitais que nos leva ao inferno. Não necessariamente ao inferno de Dante, lugar que só teremos a oportunidade de conhecer após a morte, caso julgados pecadores. As suas consequências podem ser desastrosas, ainda nesse plano terrestre, e uma delas é a possibilidade de adquirirmos doenças que, se não nos inviabilizam totalmente, têm uma enorme capacidade de limitar a nossa vida. 

A tentação da gula parece ser tão forte que o primeiro erro da humanidade se materializou com uma mordida na maçã. Caso Adão e Eva tivessem controlado o desejo pelo fruto teriam evitado todos os demais pecados. Talvez seja por isso que dizem por aí que se conseguimos refrear a boca é muito mais fácil controlar os demais sentidos ou vícios.

Também, encontramos na Bíblia vários trechos nos alertando para praticar a moderação na ingestão de alimentos e bebidas. Hipócrates, considerado pai da medicina, enunciou sua famosa frase: “Que seu alimento seja o seu remédio e que seu remédio seja seu alimento.” Mais uma evidência de que a forma como nos alimentamos pode evitar doenças e, consequentemente, nos auxiliar a preservar a saúde.

Ghandi diz que o único sistema de tratamento consistente é o que tenta remover a causa básica da doença, por meio de uma estrita obediência às leis fundamentais da saúde. Para ele, ter uma alimentação limpa e controlada, respirar ar puro pelas narinas, ingerir água, praticar exercícios físicos são extremamente importantes, assim como evitar os maus pensamentos, pois estes também são indícios de doenças.

Não somos guiados apenas pelo nosso corpo. A mente precisa ser saudável para gozarmos de saúde. Sobre o papel da mente em nossas vidas, ele declara:

“O homem se torna muitas vezes o que ele próprio acredita que é. Se eu insisto em repetir para mim mesmo que eu não posso fazer uma determinada coisa, é possível que eu acabe me tornando realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se tenho a convicção de que posso fazê-la, certamente adquirirei a capacidade de realizá-la, mesmo que não a tenha no começo.”

O poeta inglês José Milton diz que a mente pode fazer um inferno do céu ou um céu do inferno. Atualmente, há evidências científicas de que muitos sintomas e desordens físicas são ocasionadas pelos pensamentos doentios. Ainda, “o cativeiro ou a liberdade do homem depende de seu estado mental.”

Portanto, a doença não provém apenas de nossas ações, mas também de nossos pensamentos. Conhecer as leis fundamentais da saúde possibilita sua prevenção ao invés da remediação. “É melhor prevenir do que remediar.” Além do mais, sabemos os inúmeros efeitos colaterais que os fármacos ocasionam. Assim, é muito mais prudente evitá-los e perseguir uma boa saúde.

“Quando um frasco de remédio entra numa casa, jamais sai, e ainda atrai outros remédios em seu rastro. Vemos inúmeros indivíduos afligidos a vida inteira por uma ou outra doença, apesar de sua patética devoção aos remédios. Hoje se tratam com um determinado médico, amanhã com outro. Passam a vida toda na busca fútil de médicos sucessivos que os curem de vez.”

Se quando pensamos em saúde lembramos dos médicos, deveríamos procurá-los para um aconselhamento de como preservá-la. Entretanto, a medicina está focada em acabar com os sintomas das doenças, não em sua prevenção. Só nos dirigimos a um médico para falar sobre um problema já instalado e nunca para dizer a ele que estamos vendendo saúde e queremos saber tudo o que podemos fazer para permanecermos assim. 

Muitas vezes, os médicos dão diagnósticos baseados na subjetividade de quem enumera os sintomas, sem quaisquer exames que os comprovem. Em Brasília, qualquer mal estar é enquadrado como virose. Acredito que muitos médicos nem costumam perguntar aos pacientes o que eles comeram. Caso perguntassem, saberiam se tratar de uma infecção intestinal. Gandhi diz que, na maioria das vezes, a febre provém de intoxicação alimentar e que a primeira coisa que se deve fazer é suspender a alimentação do paciente e, depois, inserir alimentos mais leves, a exemplo de frutas, vegetais e legumes, bem como água. Também, deve-se orientar a respirar ar puro para que a saúde seja tão logo restabelecida.

Aqui não se está abominando os médicos. Eles são importantes, entretanto nem sempre é necessário recorrer a ajuda de um profissional, mas apenas mudar os hábitos que nos conduzem ao adoecimento.

“(…) tanto quanto possível, reveste tua própria alma de paciência e não perturbes os médicos. Se obrigado a buscar a ajuda de um, certifica-te de que ele seja um bom homem; então, siga estritamente suas orientações, e não busques outro médico, a menos que seja a conselho do primeiro. Mas lembra-te acima de tudo que curar tua doença não está, primordialmente, nas mãos de médico nenhum.”

A saúde completa é muito difícil de ser conseguida, pois ela envolve todo um equilíbrio dos sistemas físico e mental. “O corpo que contém uma mente adoecida só pode ser doente.” Não estamos livres de preocupações, medos, angústias, tristezas prolongadas, ansiedades e pânicos. Todas essas emoções, se desequilibradas, têm uma enorme capacidade de adoecer o corpo. “(…) pensamentos e paixões ruins são diferentes formas de doença.”

A alma e o corpo são interdependentes. Assim, quaisquer manifestações que afetam um, consequentemente afetam o outro. A alma é imaterial e sem forma. O corpo é palpável e feito de osso, pele, carne e sangue. Nosso corpo é composto de cinco elementos – terra, ar, água, fogo e éter.

Ghandi diz que a parte mais importante do corpo é o estômago, pois ele é o órgão responsável por digerir a comida e nos fornecer a nutrição que precisamos para viver. E por falar em estômago, há pesquisas que estão se referindo a ele como o segundo cérebro. Há uma intensa ligação entre o estômago e o sistema nervoso. Alguns distúrbios mentais, como a ansiedade, são intensamente sentidos pelo estômago, culminando em gastrites e até úlceras. Mais uma vez, há evidências de que os transtornos da mente afetam visivelmente o corpo.

O principal agente de manutenção do sangue e da vida é o ar. O oxigênio que inalamos purifica o nosso sangue. Daí surge a importância de se respirar ar puro pelas narinas e não pela boca, pois dentro da cavidade nasal há um filtro que não deixa passar impurezas para dentro do organismo. Não há essa filtragem quando respiramos pelo órgão bucal. O ar é tão importante que não conseguimos ficar nem cinco minutos desprovidos dele.

Na civilização moderna é um tanto complicado respirar esse ar puro ao qual Ghandi nos orienta. Sendo assim, podemos pelo menos fazer o possível para que nossa casa seja bem limpa e arejada. Também, esforçar-nos por fazer uma caminhada em locais abertos, rodeados por vegetação e longe de carros, onde seja possível respirar um pouco o ar livre.

“(…) respirar ar fresco dia sim, dia não. Temos geralmente o hábito pernicioso de nos confinarmos à casa ou ao escritório o dia inteiro, com todas as portas e janelas fechadas. Na medida do possível, devemos permanecer ao ar livre em todos os momentos; ou, ao menos, dormir na varanda, ou ao ar livre. Os que não podem fazer isso deveriam manter portas e janelas do quarto totalmente abertas em todas as horas. O ar é o nosso alimento em todas as vinte e quatro horas.”

Confesso que gostava de ficar em casa com janelas fechadas e, automaticamente, mudei esse hábito depois da leitura desse livro. Agora, mantenho todas as janelas abertas e deixo entrar ar e luz à vontade. Fico imaginando o quanto nosso ambiente de trabalho é prejudicial à nossa saúde. Além de ficarmos confinados, ainda sofremos a incidência direta dos ar condicionados que, embora necessários, não são nada saudáveis. Volta e meia contraio sinusites, rinites e laringites. Sem falar na luz artificial a que somos submetidos durante todo o dia. “(…) o inferno é representado como completamente escuro. Onde a luz não penetrar, o ar jamais será puro.”

“(…) muitos médicos na Europa curam seus pacientes apenas com banhos de ar e de sol. Milhares deles têm sido curados apenas pela exposição ao ar e luz solar. Devemos manter todas as portas e janelas de nossas casas sempre abertas, a fim de permitir a entrada do ar e da luz.”

A água também é indispensável para a nossa existência. Nosso corpo é composto de 70% desse elemento. Devemos ingerir água potável. “(…) se continuarmos bebendo água impura, não devemos nos surpreender do nosso sangue acabar envenenado.”

Além do ar e da água, o corpo precisa de comida para sobreviver. (…) devemos comer apenas para preservar a saúde, não mais que isso.”

Ghandi é incisivo quando se refere à alimentação. Ele diz que devemos comer tão somente para apaziguar a fome. “O homem se considera o animal superior da criação e passa dias cultuando seu próprio estômago, comportando-se pior que os outros animais.”

Para ele, somos todos submissos ao paladar e não consideramos que comer demais seja um pecado. Toda festividade é envolta a massas, doces e gulodices. As pessoas comem sem parar, sem vergonha e acham bonito. “Temos cultivado noções tão falsas sobre a alimentação que não percebemos nossa servidão e bestialidade.”

A bebida também é altamente condenada e Ghandi a considera um veneno que destrói vidas e famílias. “O bebedor abandona sua sanidade e esquece a diferença entre mãe, esposa e filha. A vida se torna um mero fardo para ele. Até homens de juízo se tornam desamparados autômatos quando bebem; mesmo quando não estão de fato bêbados, suas mentes se mostram impotentes para funcionar.”

O tabaco constitui outro produto deplorável e que corrói a saúde das pessoas. Fumar é um dos vícios mais difíceis de serem abandonados e os cigarros estão cada vez mais tóxicos, a fim de fazer com que os usuários tenham dificuldade em deixá-los. As indústrias precisam trabalhar penosamente para fazer com que os fumantes fiquem viciados, pois além de serem obrigadas a estampar os efeitos danosos no rótulo dos produtos, todos sabem que não há benefício algum em consumi-los.

Chá, café e chocolate também são danosos à saúde. “Há uma espécie de veneno em todos eles. A evidência de que essas três bebidas sejam venenosas está no fato de que, após tomá-las uma vez, o indivíduo nunca mais passa sem elas.”

E qual seria a melhor maneira de nos alimentarmos?

Uma delas é a dieta vegetariana. “(…) o homem foi feito para viver de raízes e frutos, e não carne.” É importante ingerirmos mais alimentos crus, pois o processo de cozimento destrói muitos dos nutrientes.

Ghandi diz estar convencido de que a dieta de frutas é a melhor para nós e cita demasiadamente a banana-da-terra, a maçã e o limão como excelentes frutos. O leite e a carne devem ser evitados ao máximo. As leguminosas podem ser consumidas com prudência, mas ele as consideram pesadas. O consumo de vegetais é aconselhável, embora sejam menos nutritivos que as frutas. A farinha branca, o pão vendido nas lojas e o arroz são considerados inúteis. A ingestão de temperos deve ser bastante reduzida, bem como o sal e o açúcar. “É tolo consumir açúcar por si só.”

O azeite de oliva é um bom nutriente, bem como a amêndoa.

“A carne não é o alimento natural para o homem. Ela gera o mesmo tipo de ácido no corpo que as sementes leguminosas. Leva à queda dos dentes e ao reumatismo; produz sentimentos ruins como a raiva, que são também formas de doença.”

Quanto à quantidade de comida, deve-se fazer o menor número de refeições possíveis. É importante comer apenas o necessário, mastigar demoradamente e ingerir os alimentos mais saudáveis. A comida  não deve ser considerada como uma fonte de prazer. Devemos nos esforçar diuturnamente para não sermos glutões.

Outra coisa de extrema importância é a prática de atividade física. “Sem fazer exercícios regularmente ninguém pode ser saudável.” Ghandi diz que a mente fica tão enfraquecida pela falta de exercício quanto o corpo, e uma mente fraca é uma forma de doença. Ele sugere que façamos caminhada: “Caminhar movimenta cada porção do corpo e assegura a circulação do sangue.”

Sugere que vistamos roupas frescas e confortáveis e andemos descalços. E ousa dizer que as relações sexuais devem ser evitadas, pois elas levam a um esgotamento de nossa vitalidade. Para ele, uma mulher, a partir do momento da concepção, não deve manter relações sexuais, como forma de preservar ela própria e a criança. E se der vontade de fazer sexo? É só tomar um banho de água fria.

Coincidentemente, sempre achei que a mulher não deveria fazer sexo durante a gravidez e não me perguntem por quê. A Bíblia deixa claro que Maria e José não se aproximaram intimamente até o momento do nascimento de Jesus.

Ghandi discorre sobre tratamentos de saúde por meio do ar, da água e da terra. Sobre a febre, diz que a maioria é causada por problemas intestinais e a primeira precaução consiste em suspender a alimentação do paciente.

Ele considera como sendo as leis da saúde: “viver ao ar livre, comer alimentos saudáveis e com moderação, fazer exercício, manter sua casa arrumada e limpa, evitar maus hábitos e, em suma, levar uma vida de completa simplicidade e pureza.” E complementa: “(…) sob nenhuma circunstância cedam ao pânico, pois o medo paralisa os nervos e aumenta o perigo da letalidade.”

O autor dedica um capítulo ao tema da maternidade e do parto e diz que a mulher deveria ser levada a perceber que o caráter do filho que nascerá vai depender inteiramente do tipo de vida e de conduta da mãe no período da gestação, o qual ele considera sagrado.

“Nesses nove meses, a mulher deveria se engajar constantemente em boas obras, libertar a mente de todo o medo e preocupação, não dar espaço aos maus pensamentos ou sentimentos, deixar de lado todas as inverdades de sua vida, e não desperdiçar um momento em conversas ou feitos ociosos. O filho que nascer dessa mãe inevitavelmente será nobre e forte.”

E onde fica o marido nessa história? Ele deve evitar discussões com a esposa e deixá-la animada e feliz.

Após o nascimento, deve-se dedicar cuidados especiais à criança. A mãe deve manter uma alimentação saudável, pois tudo o que ela ingere passa para a criança pela amamentação. O bebê deve tomar banho morno e usar pouca roupa ou quase nenhuma. Ele deve ser gradualmente habituado a comer frutas para conservar a pureza do sangue e passar bem longe de açúcar. A depender da comida que dá para o seu filho você está, mesmo que involuntariamente, envenenando o organismo dele.

“O uso de sapatos impede a circulação livre do sangue e o desenvolvimento de pernas e pés fortes e vigorosos. Vestir a criança de seda e rendas, boné, casaco e ornamentos é uma prática bárbara. A tentativa de realçar por esses meios ridículos a beleza dada pela natureza só expõe nossa vaidade e ignorância.”

Entupir o filho de comida e ameaçá-los com punições são hábitos que revelam a falta de educação dos pais. “Se os pais são fracos, seus filhos crescerão fracos e frágeis; se os pais falam clara e nitidamente, os filhos aprenderão a fazê-lo. Se os pais dizem palavrões ou estão viciados em maus hábitos, os filhos os imitarão, desenvolvendo um mau caráter. De fato, não há campo algum da atividade humana no qual os filhos não imitem o exemplo dos pais.”

Eu quem o diga. Vejo-me fazendo as coisas de forma exatamente igual ao que via e vejo minha mãe fazer. Apesar de ter saído da infância, continuo, às vezes inconscientemente, a imitá-la. Até as coisas que nela eu condenava, como colocar a comida no prato para o marido, faço exatamente igual. É impressionante como os filhos reproduzem as ações de seus pais.

“É um solene dever de todos os pais virtuosos modelar seus filhos de um modo nobre. Isso requer que tanto o pai quanto a mãe tenham recebido eles próprios uma sólida educação.”

Toda transformação exige autodisciplina, inclusive no sentido de praticar as leis da saúde. Tê-la é essencial para vivermos bem dispostos e mais felizes. Lembrando que precisamos ter o corpo e a mente sãos, uma vez que eles estão intimamente conectados. “Devemos livrar nossas mentes das más paixões, como raiva e medo, confiar no poder salvador de um vida pura e devota e permanecer tranquilo na fé que estamos sempre nas mãos de Deus, pois o expectro da vida que Ele nos permitiu pode ser diminuído ou excedido.”

Por fim, devemos nos empenhar para sermos senhores do nosso corpo e de nossa alma se queremos gozar da verdadeira felicidade.

Não chame o seu filho pelo nome.

A coisa que mais lhe entristecia e que foi a mim confessada com grande pesar era de que a sua mãe nunca o havia chamado de filho. A falta de convívio com o pai parecia não constituir motivo de lamentação, no entanto, apesar de todos os dias estar na presença materna, esse fato diminuía a importância simplesmente por nunca tê-la ouvido chamá-lo de filho.

Quando foi dada a ele a oportunidade de ser pai, a cada dez palavras que enunciava para se dirigir à sua filha, onze eram “filha”. Inconscientemente, parecia querer compensar o chamamento que a própria mãe lhe negara.

Digo, pois, a mãe sempre será a pessoa mais importante na vida de alguém e tudo o que ela é, diz, sente ou faz terá impacto na vida de seus filhos.

O poeta Fernando Pessoa lamentou profundamente não ter convivido com a mãe, e confessou que, por não ter experimentado o amor materno, nunca conseguiu se sentir amado por mais ninguém. O pintor Van Gogh quase enlouqueceu por sua mãe rejeitá-lo e não reconhecê-lo como artista. E a escritora Clarice Lispector, que fora concebida devido à crença de que, uma vez estando doente, a mulher poderia engravidar e, em consequência, ser curada, queixou ter nascido e fracassado no atendimento da única missão para a qual fora gerada – salvar a mãe.

Ela escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava a mulher de uma doença. Então, fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei a minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido e vê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo.

A mim, chegam várias histórias, algumas das quais acompanhei de perto, de pessoas que desenvolveram distúrbios de diferentes ordens, como carência excessiva, pânico e depressão, pelo fato de terem se sentido rejeitadas, renegadas ou afastadas do amor, pertencimento ou proteção de uma mãe.

Dra. Filomena Camilo, médica pediatra que também ministra palestras sobre criação e educação de crianças e adolescentes, declarou que a raiz de quase todos os problemas advindos deles parece residir nas relações que estabelecem com os pais, sobretudo com as mães.

Uma mãe com força, firmeza e bravura tem muito mais chance de criar filhos fortes e saudáveis do que uma mãe fragilizada, ansiosa e indecisa. E por incrível que pareça, esses sentimentos já são repassados desde o ventre, onde mãe e filho são apenas um e tudo o que constitui alimento para ela, alimenta também a ele. Até uma certa idade, o filho nem mesmo consegue individualizar-se da mãe. Ele acredita que os dois são um só.

Essa sensação de pertencimento, ainda quando crescidos, acompanha-nos durante a vida. Um filho pertence à mãe e qualquer mácula a essa condição fragiliza um ser de um modo ou de outro.

Para todas as demais pessoas somos aquilo que o nosso nome diz sobre nós. Dão-nos um nome para sermos diferenciados e ele passa a nos caracterizar muito mais pelas coisas que exteriorizamos do que pelo o que somos.

Quando pronuncio meu nome em voz alta não me reconheço nele e nem consigo me encolher para caber naquilo que me é apresentado pelo mundo. Mas quando minha mãe enuncia “Filha”, tenho plena certeza de que pertenço a ela e isso me dá uma sensação de porto para o qual retornar e ancorar todas as vezes em que me fecham as portas, pois o meu primeiro pensamento é de voltar para aquela que, em meio a dor, abriu-me os caminhos.

É estranha para mim a ideia de que minha mãe me chame pelo nome, cujo registro se encontra numa folha de papel destrutível, pois que só a ouço chamar-me de filha durante todo o tempo.

É importante que a mãe pronuncie “Filho” ou “Meu filho” para que ele não se sinta deserdado do exclusivismo de pertencer àquela que o gerou.

Não chamamos as nossas mães pelo nome. Só de pensar em assim proceder soa um tanto estranho. Presumo, pois, que há estranheza no fato de uma mãe chamar por seu filho utilizando-se do mesmo nome que os demais, sem qualquer distinção que o qualifique, individualize ou diferencie.

Dizemos que Deus enviou o seu único filho para nos salvar e não que nos enviou Jesus. Este se apresentou como filho de Deus e estendeu a todos nós essa condição com a evidente intenção de nos dar pertencimento. Da mesma forma, referia-se a Deus como “Meu pai”. E quando nos ensinou a orar, deu início com a expressão “Pai nosso…”.

Tudo isso evidencia a necessidade que temos de pertencer e de ter uma referência. Quando me chamam pelo nome que há registrado num objeto, sinto que tenho a obrigação de representar os papeis que exerço para atender a esse nome que me deram.

No entanto, quando ouço minha mãe chamar-me simplesmente de filha, dispo-me de todas as máscaras e me transformo naquele ser sem adornos que saiu do seu ventre e retorna completamente purificada e nua ao seio daquela que será sempre a grande mãe.

Ney Matogrosso, Vira-lata de raça.

“Quero ser lembrado como uma pessoa que defendeu a liberdade e espero, sinceramente, que enxerguem na minha vida o reflexo dessa liberdade.”

Rumo ao encerramento do livro, Ney Matogrosso também afirma: “Quero ir em paz, na hora que tiver que ir, e no meu epitáfio estará escrito assim: “Viveu livre!”

Talvez a palavra mais mencionada no livro Vira-Lata de Raça seja liberdade. Esse termo define a vida e a obra desse artista grandioso, bem como o seu corpo e o seu espírito.

Ney de Souza Pereira, Ney Matogrosso ou simplesmente Ney. Talvez ele dissesse: “Deem a mim o nome que quiserem. Andrógino, viadinho, bicha, híbrido…”

Nada o limita nem o aprisiona, pois ele não se deixa enquadrar, definir, classificar. Ney é bicho solto, um vira-lata, mas não um vira-lata qualquer. Ele é de raça.

Ney é animal livre. Filho de um militar conservador e “cabeça-dura”, confessa que sempre teve problemas de relacionamento com o pai que o reprimia e o discriminava. Desde a infância, o pai parece ter notado no filho uma sensibilidade malvista nos homens e diante disso insistia em ofendê-lo.

Relembra o episódio em que seu pai o chamou de viadinho, sem que ele, criança, soubesse sequer o significado do termo.

Embora desconhecesse, respondeu como que intuitivamente: “Não sou viado, mas quando for o Brasil inteiro vai saber!”

Seu pai era Antônio Matogrosso Pereira, a maior autoridade que Ney Matogrosso enfrentou em toda a sua vida.

Ney diz ter nascido transgressor graças ao pai que teve. As transgressões primeiras ocorreram  em sua própria casa, onde contestou, desde muito cedo, o seu progenitor.

Quando criança, Ney se encantou pelas artes. Gostava de pintar. Seu pai tratou de avisar: “Não quero filho artista! Filho meu nunca será artista.”

Ele pintava mesmo assim. Quando não tinha material adequado, pintava num papel de pão ou no chão.Todas as limitações eram por ele transpostas, numa atitude de não aceitação à realidade que se impunha.

Quando a relação com o pai ficou insustentável, Ney resolveu sair de casa. Conta que chegou a dormir duas noites nas ruas do Rio de Janeiro por não ter para onde ir.

Depois, entrou para a Aeronáutica e, mais tarde, mudou-se para Brasília, onde trabalhou por um tempo no Hospital de Base.

Foi na Aeronáutica que, pela primeira vez, viu dois homens másculos se abraçando, numa cena em que ele diz ter sentido transbordar amor. Ah, então dois homens podiam? Juntando essa cena com aquela da infância em que, ao se confessar, o padre lhe perguntara se havia feito “saliências” com meninas ou com meninos, ficou claro que dois homens podiam se amar de todas as formas, de corpo e de alma.

No Hospital de Base, trabalhou com lâminas para fazer biópsia e com crianças em estágio terminal de câncer. Foi neste lugar o seu primeiro contato com a morte, a finitude. Espanto! Ney vê um cadáver aberto, fica alguns dias sem conseguir comer nada, assustado, mexido, virado.

As crianças que deixava vivas num dia, no outro já não estavam mais lá. A morte existe. A finitude é real. Mais tarde, Ney conviveria com muitas outras mortes, rápidas, constantes, dolorosas. Mais tarde, perderia muitos de seus amigos e pessoas próximas “tocados” pela AIDS.

Quando Ney se mudou para Brasília, em 1961, a cidade tinha acabado de surgir. Brasília era uma recém-nascida. O salário era três vezes maior que no restante do país. Pagava-se mais para atrair as pessoas. Era preciso povoar o território. Por outro lado, o comércio era escasso. Ney conta que pegava o dinheiro que ganhava e jogava para cima. Para que ganhar mais e não ter onde gastar?

Dinheiro nunca foi a “pegada” dele, nem a sua meta, nem o seu fim.

Ney demonstra um total desprendimento com tudo, menos com sua verdade e liberdade.

Sobre sua passagem por Brasília, considera que foi um dos períodos mais especiais de sua vida, que cresceu como ser humano, passou a ganhar seu próprio dinheiro e ter condições de alugar um quarto num apartamento, a ser independente.

Em Brasília teve consciência de sua sexualidade, liberdade para escolher com quem dividi-la, sem o peso da culpa cristã. Para ele, Brasília é muito especial, inclusive por ser o lugar onde se apresentou pela primeira vez como cantor.

Embora reconheça a importância desse lugar para o seu crescimento enquanto ser, decidiu ir embora. Sua vida não poderia se resumir à burocracia e ao engessamento de um dia a dia dentro de um hospital. Assim, foi em busca de outros caminhos que o levassem ao desenvolvimento de sua arte, pois carregava a certeza de que ocorreria uma transformação positiva em sua vida.

Voltou para o Rio de Janeiro, onde viveu por um tempo como hippie, sem dinheiro e, às vezes, sem comida, mas feliz, produzindo seus artesanatos, de forma livre como sempre foi.

Sobre esse período, fala: “Não tinha dinheiro, mas era muito feliz, sem preocupação, andava apenas com a roupa do corpo. Todos os meus sonhos cabiam dentro de uma bolsa de couro costurada por mim.”

No auge da ditadura militar, Ney surge como vocalista da banda Secos e Molhados. Mesmo tímido, conseguiu colocar para fora toda a sua energia, força e expressão escondidas por detrás de suas pinturas no rosto.

Revela que a arte o salvou de sua agressividade. No palco, ele a colocava para fora. Vomitava. Cantava. Dançava. Insinuava. Agredia sem ser agressivo. Para Ney, a arte salva e deveria fazer parte dos currículos de todas as profissões. “Com a arte presente em nosso cotidiano seríamos seres humanos menos violentos.”

Secos e Molhados não surgiu como uma resposta à ditadura. Não teve por intenção combatê-la. Ainda assim, era um atentado contra a moral e os bons costumes pregados pelos militares, que os chamavam de “grupo de bichas” e “viados comunistas”.

Entretanto, Ney não permitia limites, enquadramentos ou rótulos. “Sempre fui dono do meu nariz. Não estava nem um pouco preocupado com o que estavam pensando de mim, não ia mudar meu comportamento de maneira nenhuma.”

E não mudou mesmo. Ney passou pelo Secos e Molhados e pela ditadura ileso. Quando começou a entrar dinheiro, o grupo se dissolveu. A ditadura deu lugar à redemocratização. Contudo, Ney é e continua.

Comenta sobre o término dos Secos e molhados: “Eu nunca coloquei o dinheiro em primeiro plano na vida, muito pelo contrário, sempre acreditei que a grana era responsável pelo comportamento mesquinho das pessoas.”

Ney é plural. Seus interesses passam por música, teatro, pintura, direção, iluminação e literatura. Gosta de ler, de ficar só, do contato com a natureza, de bichos. Ele não compõe letras, mas tem tesão pela palavra e interpreta desde os antigos aos atuais compositores.

Não é saudosista. Abre espaço para a novidade, para o que está no porvir. Leonino que brilha diz “eu sou”. Permanece jovial com os seus 77 anos. Tem vigor, sensualidade e sexualidade. Cuida do corpo, da mente, do espírito. É atual no auge dos seus 46 anos de carreira.

Ney não se apresenta como cantor, posto que restringe. Ele é artista. É assim que se reconhece. No cantor, cabe a canção. No artista, cabe o mundo.

Os momentos mais difíceis de sua vida foram aqueles nos quais perdeu pessoas muito próximas em decorrência da AIDS. Ney revela que chegou a ir três vezes ao cemitério, numa mesma semana, para enterrar amigos. Dentre eles, um companheiro com quem conviveu alguns anos e Cazuza, uma das grandes paixões de sua vida, o qual descreve: “Parecia um anjo que havia despencado do céu, aquele pivetezinho de praia, um tremendo vagabundo. Lindo. Apaixonante”.

Apesar de se envolver com homens, Ney não quer levantar bandeiras em favor de causas homossexuais. Tem horror a essas limitações. “Gay o caralho. Sou ser humano.” Ele bem sabe que por detrás dessa defesa alucinada dos gays há um mercado que se beneficia do poder de compra deles e os defende mais por questões de ordem lucrativa do que por respeito à dignidade humana.

Ele afirma que a liberdade é possível não pelo grito, mas pelo comportamento. Liberdade não se fala, se vive.

De fato, o tempo parece ser um aliado desse grande artista que só se importa com o presente e só nele vive. Ney diz ter lembranças, mas não saudades. “Se eu me submetesse ao tempo, já seria um homem velho.” A sua vitalidade afasta a velhice. Seu pensamento livre o protege da caretice.

Ney é um homem que tem cravados no corpo e na mente os valores de liberdade, verdade e coerência. Sua filosofia de vida é manter a mente aberta ao novo. Sua energia é direcionada para fazer as coisas que ama, como cantar. Ney possui tônus e vigor de sobra. Para ele, a velhice está na mente. Quer envelhecer com a mesma dignidade com que percorre a vida.

Ele é aquele que Caetano canta: “Esse senhor tão bonito traz algo único, uma serenidade incrível.”

Ney é senhor de si. É senhor de sua verdade e liberdade: “Sou um homem livre, somos seres livres e temos que afirmar isso o tempo todo.”

Ney é um exemplo de ser humano que se destaca, dentre muitas outras coisas, por viver a liberdade mais do que falar sobre ela. Doa a quem doer, transgride, mas com a elegância de quem não precisa usar nem da força nem do grito. Ney é o próprio grito e a própria força. 

“Amo ser assim, amo ser quem sou. Escolhi não ter de conviver com mentiras, mas ter a liberdade de me expressar como desejo. Sinto enorme prazer de não ser hipócrita, e muito menos ser submetido à hipocrisia.”

Assim, Ney apenas é… E, sendo, vai se fazendo e refazendo nesse tempo presente que é tudo o que temos.

A queda, de Albert Camus

Ele se apresenta como Jean-Baptise Clamence, embora não seja esse o seu verdadeiro nome. Clamence era um renomado advogado de Paris, cujo sucesso perpassava sua vida profissional, pessoal e junto às mulheres. Defendia as causas nobres e sempre esteve do lado considerado por ele como sendo o da justiça. Seus clientes eram, em especial, os órfãos e as viúvas.

Num momento de sua vida em que tudo corria muito bem, um acontecimento mudou por completo a sua vida. Era noite e ele estava parado olhando o rio Sena quando começou a escutar um riso vindo sabe-se lá de onde. Um riso persistente e debochado que parecia querer dizer-lhe algo. Quem seria? Olhou por todos os lados e não avistou ninguém. Seria ele rindo de si mesmo? Seria sua própria consciência?

Clamence abandonou Paris e a vida profissional a que se dedicara com tamanha vaidade e partiu para Amsterdã, onde frequentava diariamente um bar que servia de porto para marinheiros, renegado à função de consultor dessa gente que não lhe exigia diploma algum a que desse credibilidade para oferecer seus préstimos jurídicos.

Distante de Paris e da vida que outrora levara, Clamence se autoproclamou juiz-penitente e narrou a sua história numa espécie de confissão em que se acusa ao mesmo tempo em que parece acusar toda a humanidade. Isso fica caracterizado, dentre outras falas, quando, ao admitir sua própria duplicidade enquanto ser, ele dispara: “a criatura é dupla”.

O que deu causa à confissão foi o fato de Clamence ter tomado consciência de que ele e, por consequência, nós todos vivemos duas espécies de vida: a social e a íntima. Uma que está no campo do parecer e a outra do ser.

Para ser aceito, notável, admirado e reconhecido tinha que esconder sua verdadeira face e as suas reais intenções. Tudo aquilo que se dispunha a fazer pelos outros não era senão uma forma de beneficiar a si mesmo . Ao ajudar um cego atravessar a rua, pouco importava que este não o enxergasse, pois havia um público imenso disposto a aplaudir sua boa ação.

Clamence era absolutamente simpático. Sorria em abundância, dava apertos de mão, demonstrava generosidade e simpatia mesmo naquelas situações em que a sua vontade era sair dando socos naqueles que atravessavam o seu caminho sem lhe dar a devida importância, como se ele fosse apenas mais um.

Jamais seria apenas mais um, posto que eleito. Não tinha religião, mas era inaceitável que o seu sucesso em todas as áreas fosse originado apenas do esforço e do mérito. Alguma força superior havia de tê-lo escolhido para ser tão bom e diferente das demais “formigas humanas”.

Gostava das montanhas, dos picos, de viver nas alturas e só sentia à vontade nas situações elevadas. Sua profissão satisfazia essa vocação para viver no alto.

Como advogado, não julgava nem era condenado. Bastava defender o acusado energicamente e com esforço que, mesmo não diminuindo ou eximindo a pena do réu, o seu papel restava cumprido.

“Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, livre de qualquer obrigação, isento tanto de julgamento quanto de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edênica”.

Clamence vivia no Paraíso do Éden, planando entre os deuses, certo de que era o melhor entre os seres e o mais inteligente do mundo. Não tinha amigos, mas cúmplices. Tampouco família. Apenas aliados.

Frequentava enterros, porque enxergava nessa triste circunstância a possibilidade de ser visto e, para tanto, admitiu: “Eu sabia precisamente que a minha presença seria notada e comentada favoravelmente”.

Não perdia as oportunidades de se fazer mostrar e, para isso, qualquer acontecimento seria de grande utilidade. “Vivam, pois, os enterros!”

Vaidoso ao extremo, reconheceu: “Fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me… Só reconhecia em mim superioridades… Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Fingia tanto que o seu cartão de visita poderia ser assim sintetizado: “Jean-Baptiste Clamence, ator”.

Sua atuação estendia às mulheres – presas fáceis. Tinha porte físico e inteligência suficiente para conquistá-las. Não lhe faltava charme e poder para seduzir. Considerava as mulheres muito melhores que ele e as colocava numa posição tão alta que se utilizava delas apenas para servi-lo. Qual é o maior de todos os seres senão aquele que serve?

Usava de sensualidade para atraí-las. Só não se metia com as mulheres dos amigos. Antes, terminava a amizade e ficava liberado. Amava-as até o o décimo encontro. Depois, cansava-se com facilidade, pois as companhias, por mais brilhantes que fossem, o oprimia profundamente.

Não as amava, nem lhes era fiel, mas fazia com que elas prometessem que ele seria o único de suas vidas. Afinal, depois dele nenhum outro haveria de existir.

“Uma espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro”.

Quando uma mulher o abandonou e fez vir à público seu baixo desempenho varonil, ele a reconquistou facilmente e a subjugou, demonstrando que ela não passava de uma mentirosa, caso contrário não estaria novamente com ele prestando-lhe homenagem pelo prazer que a fazia sentir. Depois, esqueceu dela.

Todas as honras, acredita, deviam se voltar a ele. Assim, confessou:

“Portanto, confesso que não conseguia viver, a não ser com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível deles, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a atender ao meu chamado, a qualquer momento, fadados, enfim, à esterilidade, até o dia em que dignasse e favorecê-los com a minha luz. Em resumo, para viver feliz, era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, uma vez ou outra, a meu bel-prazer”.

Clamence é cônscio do julgamento dos homens, aquele que ocorre todos os dias pelo fato de ser ou deixar de ser alguma coisa. Ou apenas por existir.

“A aparência de sucesso, quando se apresenta de certa maneira, é capaz de irritar um santo”.

Entretanto, conhece e julga a si mesmo e ao fazê-lo estende seu julgamento a todas as demais criaturas.

Ao abandonar o exercício da advocacia em Paris,  transforma-se em juiz-penitente, aquele que se confessa ao mesmo tempo em que acusa. Um juiz que não se revela. Que vive sob o anonimato de um falso nome, num país diverso, e que, talvez, só por isso, tenha tido a coragem de se delatar.

Ele que sempre desprezou os juízes em geral acaba se tornando o mais severo de todos, porque aponta para toda a humanidade. Cabe, pois, a cada um de nós examinar-se a fim de concluir se o julgamento de Clamence é ou não justo.

Clamence narra um episódio em que estava passando por uma ponte e avistou uma mulher sentada e, após caminhar alguns passos, ouviu o barulho de um corpo caindo na água e gritos por socorro. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Afinal, não havia ninguém para vê-lo salvar aquela mulher e, também, a água estava muito fria. Seguiu seu caminho e tomou o cuidado de não abrir os jornais nos próximos dias. Depois disso, a única precaução que tomou foi de não passar por nenhuma ponte no meio da noite.

E quantas vezes dizemos que a água está fria para nos livrarmos de nossas culpas?

Fingia levar a vida a sério, mas reconhece que nunca se preocupou com os assuntos humanos. Admite que só foi verdadeiramente sincero e entusiasta no tempo em que praticava esportes e na tropa, quando representava nas peças, por diversão.

Essa era sua fonte de delícias e nisso não há disfarces, pois “ninguém é hipócrita nos seus prazeres”.

“Ainda agora, as partidas do domingo num estádio superlotado e o teatro, que amei com uma paixão sem igual, são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente”.

Num estádio superlotado, ele é apenas mais um entre tantos e goza do anonimato. E, no teatro, é alguém que não ele mesmo. Por isso, tamanha inocência. O que mostra que ele continua o mesmo. A confissão até pode revelar, mas não implica necessariamente a mudança. Ela não representa em si um esforço para a purificação. Pode-se ter acabado de confessar e, logo após, estender o braço para ajudar um cego a atravessar a rua com intenções escusas.

Toda a sua vida foi uma representação. “Representava o eficiente, o inteligente, o virtuoso, o patriota, o indignado, o indulgente, o solidário, o edificante…” E só quando se sentiu abandonado foi capaz de admitir para si mesmo, não para o público, uma vez que não revelou seu verdadeiro nome, que sua vida não passou de uma farsa.

Por trás das cortinas, se indagava: “Quem sou eu?” E ele mesmo respondia: “Um cidadão-sol quanto ao orgulho, um bode de luxúria, um faraó na cólera, um rei de preguiça”.

Apesar de todo esforço em parecer, Clamence chegou à conclusão de que era em vão o que fazia. Decidiu isolar-se dos homens e refugiar junto às mulheres. “Não será a mulher tudo o que nos resta no paraíso terrestre?”

Também não. Constatou que as mulheres falavam muito de amor; falavam tanto quanto os papagaios. Ocorre que, “depois de ter amado um papagaio, tinha que dormir com uma serpente”.

Então, procurou em outros lugares o amor prometido pelos livros, porém nunca o encontrou. Pudera, também não sabia amar. Passou trinta anos amando a si mesmo e não conseguia perder esse hábito.

Caiu na libertinagem cuja vantagem recaía na desnecessidade de compromisso. Deleitou-se no álcool e com as prostitutas, mas na manhã seguinte sentia na boca o gosto amargo da condição de mortal. Fazia tudo para prolongar a vida, mas sua falsa onipotência se esbarrava no efêmero humano. “Brincamos de ser imortal mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

Sua fraqueza residia em gostar da vida e queria gozá-la sob todas as formas, passando por cima do que e de quem fosse.

Clamence foi perdendo fama e notoriedade, mais por suas provocações de linguagem que por suas libertinagens e orgias noturnas. Afirma ter conhecido o pior dos julgamentos que é o dos homens. Resignado ao tédio tornou-se uma criatura solitária vagando pelas ruas da cidade.

No último capítulo do livro, Clamence nos confessa a respeito de um episódio ocorrido quando se viu prisioneiro num campo de concentração. Como eram vários homens que ali estavam e precisavam lutar por água e comida sentiram necessidade de se organizarem sob a liderança de alguém. Clamence foi o escolhido para ser uma espécie de papa entre os seus, já que o verdadeiro papa se encontrava em seu trono e tão longe da miséria. Conta que roubou água enquanto um daqueles homens agonizava por sentir extrema sede. E justificou seu ato sob o argumento de que ele precisava sobreviver porque em detrimento daquele que morria havia outros que necessitava de sua liderança.

Em Amsterdã passou a viver uma vida simples. Não distribuiu seu dinheiro aos pobres. Deixava todas as portas abertas para que lhe roubassem à vontade, “na esperança de corrigir a injustiça pelo acaso”.

Talvez a maior dificuldade da criatura seja não julgar a si mesma. Talvez o olhar acusatório do outro só nos fere porque pensamos o mesmo a nosso respeito.

Há uma corrente psicológica ou espiritualista, não sei bem ao certo, que diz que ao julgarmos estamos condenando no outro aquilo que existe em nós. Por esse motivo, Clamence “estende a condenação a todos, sem discriminação, para diluí-la desde já”.

Ele não está disposto a absolver ninguém. Nós também não estamos. Somos todos juízes! E simplesmente não há saída, pois sendo estranhas e miseráveis criaturas, pertencemos à mesma raça.

Ninguém fala sobre o preconceito que sofrem as bonitas e gostosas.

Eis o começo desse texto com uma frase que uma bela mulher me disse aos prantos: “Todo mundo fala sobre as mazelas do preconceito contra raças, estrangeiros, homossexuais e mulheres em geral, mas ninguém menciona ou faz alarde com o preconceito que sofrem as mulheres por serem bonitas e gostosas”.

Sei muito bem que é tacitamente proibido adjetivar uma mulher de gostosa, tendo em vista o risco que se corre de estar atribuindo a ela características que podem ser confundidas com aquilo que se come. Ninguém come ninguém (e ponto)

Nem mesmo quando Cazuza cantou que “somos canibais de nós mesmos” ele quis dizer que comemos uns aos outros em seu sentido mais real. Tudo não passa de metáforas. Portanto, o sentido que darei à mulher gostosa nesse texto e contexto é aquele que se aproxima de algo que é bom e prazeroso de ser saboreado. Não com o paladar, mas tão somente com os olhos.

Alguém pode bradar que é ingenuidade de minha parte pensar assim e afirmar que não conheço a cabeça dos homens. Conheço-a muito bem, entretanto não posso controlar o que pensam, assim como eles também não se controlam e não sabem lidar com a chegada triunfal de uma mulher bonita e que, por isso, de imediato, chama a atenção do pequeno e grande público.

Outros se sentiriam no direito de dizer que não há como precisar quem haveria de ser ou não considerada uma mulher bonita, uma vez que o conceito de beleza é muito relativo. Tenta-se relativizar inúmeras coisas para que todos sejam incluídos dentro de um conceito onde não cabe a inclusão de todos. É como dizer, segundo a teoria da relativização, que, apesar de medir 1.49 cm de altura, eu possa ser considerada uma mulher grande, pois ao subir no mais alto patamar de uma escada alcançaria elevadas alturas. Tudo isso para incluir-me na categoria das grandezas a que não pertenço.

Eu poderia elencar vários nomes de mulheres que seriam quase unanimidade naquilo que se chama bonita e gostosa, entretanto não sou tão inocente a ponto de citar pessoas numa época em que o mais despretensioso dos pensamentos vira objeto de resposta e processo, mesmo constituindo uma apologia ao elogio.

Também não citarei o nome da mulher bonita e gostosa que hoje veio me pedir abraço e consolo pelos indícios de injúrias que diz sofrer simplesmente por apresentar atributos tão cobiçados e invejados. E para o delírio de muitas, ela ainda consegue ser bem-humorada, sorridente e alto-astral, o que a meu ver, contribui significativamente para ser por demais atraente. Tem outra coisa que realça muito mais o que ela é – o perfume – grande arma de uma mulher sabedora das intensidades das fragrâncias capazes de conduzir primitivos e experientes a flagrantes e inesquecíveis sensações.

O seu relacionamento com os homens pode ser considerado agradável e estável. Sempre dera-se melhor com eles. Com relação às mulheres não dá para dizer o mesmo. Os olhares delas a fuzilam, ainda que uma minoria, provavelmente dentro daquele grupo das que se sentem tão bonitas quanto ela – beleza é mais uma questão de sentir e não mentir para si sobre o que se sente – ainda que uma minoria (repito) não sinta incômodos  sobre o fato de ela ser quem é.

Parece ser inadmissível que uma mulher bonita e gostosa consiga progressão na carreira por seus próprios méritos. Que dentro de um corpo voluptuoso e com curvas habite um cérebro pensante e capaz de racionalizar atividades criativas, técnicas, gerenciais e administrativas. Que uma mulher que cuide do corpo e se preocupa com o aspecto físico de sua aparência seja intelectual e competente. Bem, aí já é demais para aquelas que se sentem feias e desprovidas de sorte.

Luís Felipe Pondé afirmou que as mulheres feias detestam as bonitas, porque estas lembram àquelas que elas deram azar na vida. Ele ainda diz: “a acusação de que toda mulher bonita seja burra é a esperança das feias, sua pequena vingança contra a beleza que não têm. Não é apenas o homem inseguro que teme a inteligência numa mulher bonita, as feias também temem. Elas, as feias, fica à noite ou pelos cantos do escritório, tramando sobre como jogar sobre a bela e inteligente colega a suspeita de que a inteligência reconhecida no trabalho se deve à cama.”

As mulheres, mesmo muitas daquelas que dizem lutar em defesa de todas as demais mulheres, torcem o nariz para as de sua espécie quando esta rouba a cena. Muitas vezes, porque notam que seus próprios maridos não resistem aos encantos da bonita e gostosa e são capazes de oferecerem lugar para esta enquanto a própria esposa rosna inquieta por estar há mais de uma hora em pé aguardando preferência.

A mulher bonita e gostosa que se destaca na faculdade é porque tem caso com o professor. A que consegue ascensão na empresa é porque deu alguma coisa em troca para o chefe. A que conseguiu enriquecer é porque fingia trabalhar enquanto fazia programa. E se ela se casa e consegue manter a beleza e a sensualidade é porque precisa atrair e agradar seus amantes.

Sempre tive uma tendência a ficar do lado das belas, já que as feias são maioria e há muitos que abraçaram sua causa, ainda que não acredite nela. As bonitas e gostosas são minoria e por isso me compadeço e substabeleço-me como defensora dativa dessa classe tão desprezada.

Provavelmente, elas devem reconhecer isso em mim a quilômetros de distância, pois que me param para exporem as suas dores. Sabem que as entendo. Ou se não sabem, sentem.

Pois a bonita e gostosa que pediu a mim apenas os ouvidos para desabafar e um abraço para acalentar está sofrendo por ter sido agraciada pela deusa da beleza. Que as feias reivindiquem suas quotas de graça a essa mesma divindade ou exijam isso de si mesmas. As bonitas e gostosas são inimputáveis e não PUTÁveis como as feias e os homens desprovidos de chances hão de supor.

Neguem o quanto quiserem, mas a beleza move todos os mundos, inclusive balançou o mundo poético

de Vinícius de Moraes, que escreveu : “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

Um prefácio como nenhum outro.

O prefácio é um texto prévio de apresentação, geralmente sucinto, escrito pelo autor ou por outrem, colocado no início do livro, e tem por finalidade explicar o conteúdo, o objetivo ou a pessoa do escritor.

O livro O avesso e o direito, de Albert Camus, lançado pela Editora Record, contém um dos prefácios mais lindos, cujo texto foi escrito pelo próprio autor e é dotado de uma autenticidade das mais comoventes.

A obra foi escrita quando ele estava com vinte e dois anos de idade e publicada na Argélia, em tiragem bastante reduzida. Camus recusava-se à reimpressão de mais exemplares por considerar que o livro não foi escrito de maneira muito habilidosa. Sua crítica nunca esteve relacionada ao conteúdo, e sim à forma. Tanto é que ele  não renega nada do que escreveu.

Camus foi convencido a reimprimi-lo somente após seus leitores o informarem a respeito da dificuldade em encontrar um exemplar de O avesso e o direito, bem como sobre o preço alto que os livreiros cobravam em decorrência da raridade da edição. Para que todos os interessados tivessem acesso fácil à obra, ele venceu a resistência e decidiu por republicá-la.

O avesso e o direito é a fonte de onde jorrou tudo o que Camus produziu posteriormente. Ele diz “Cada artista conserva dentro de si uma fonte única, que alimenta durante a vida o que ele é e o que diz. (…) sei que minha fonte está em O avesso e o direito.”

Camus cresceu na Argélia, no período em que esse país estava sob domínio francês. Seu pai era um operário de vinha e sua mãe analfabeta. Apesar de ter vivido muito tempo na pobreza, nunca considerou essa condição como uma desgraça. Diz que até suas revoltas foram iluminadas por ela. Revoltas essas destinadas para que todos conseguissem elevar suas vidas apesar das circunstâncias em que viviam.

Ainda que o mundo não possa ser mudado, é possível mudar a vida. Assim, Camus mudou a própria vida ao se tornar artista e talvez a arte o tenha permitido ver beleza em meio às dificuldades decorrentes de sua condição social e por que não do próprio clima cortante da África? O sol escaldante queima, arde e castiga, no entanto ilumina a todos gratuitamente. 

“Eu vivia na adversidade, mas, também, numa espécie de gozo. Sentia em mim forças infinitas: bastava, apenas, encontrar seu ponto de aplicação.” Essas forças foram canalizadas para a escrita, uma das mais primorosas a que tive acesso. Camus escreve de um modo tão peculiar, coerente e expõe o seu pensamento com tanta desenvoltura e inteligência que, ao lê-lo pela primeira vez, tive vontade de me recolher dentro do meu amadorismo e nunca mais escrever uma linha sequer. 

Os maiores problemas enfrentados pelos africanos, diz ele, decorrem menos das condições de natureza, tempo e clima e mais do preconceito e da burrice. A África foi e continua sendo um continente de exploração e de domínio estrangeiro e seu povo sofrido, sempre visto como animais, sujeitos a variados tipos de escravidão. Com uma população composta por mais de 80% de negros, nunca foi difícil enquadrar o seu povo como pertencente à raça inferior.

A pobreza não foi motivo para Camus desenvolver qualquer tipo de inveja. Segundo ele, a imunidade a esse sentimento, o qual considera o câncer das sociedades e da doutrina, deveu-se à educação recebida no seio familiar, onde quase tudo faltava, mas quase nada invejavam.  Ele diz “a pobreza não pressupõe, obrigatoriamente, a inveja.”

“Só pelo seu silêncio, sua reserva, seu orgulho natural e sóbrio, esta família, que não sabia nem mesmo ler, deu-me, então, minhas mais elevadas lições, que perduram até hoje. E, depois, eu estava ocupado demais em sentir para sonhar com outra coisa.”

Diz-se um privilegiado por não saber possuir qualquer tipo de coisa ou bens, uma vez que a posse é um dos meios pelos quais nos privamos da liberdade. “Sou avarento com essa liberdade que desaparece assim que começa o excesso de bens. O maior dos luxos nunca deixou de coincidir, no meu caso, com um certo despojamento. Gosto da casa nua dos árabes ou dos espanhóis.”

“Não invejo nada” – repete. Nem fama, nem dinheiro, nem prêmios, nem glórias.  Muito provavelmente, a proteção à inveja seja proveniente do orgulho e da vaidade a que todo artista está sujeito.

Também não se considera um ressentido, mesmo quando esteve doente. ” (…) conheci o medo e o desânimo, nunca a amargura.”

Camus afirma que suas paixões de homem nunca foram contra e os seres que amou sempre foram maiores e melhores que ele. Era esse amor o responsável por movê-lo em sua profissão, uma vez que a releitura de seus textos nunca lhe deu sequer uma alegria e se diz surpreso do sucesso obtido com alguns de seus livros. 

O contentamento não estava no resultado de seu trabalho, mas no ato da concepção. Assim, afirma:

“O escritor tem, naturalmente, alegrias para as quais vive e que são suficientes para contentá-lo. Mas, para mim eu as encontro no instante da concepção, no instante em que o assunto se revela, em que se delineia a articulação da obra diante da sensibilidade subitamente clarividente, nesses momentos deliciosos em que a imaginação se confunde totalmente com a inteligência.”

Camus era indiferente para com a maioria dos interesses humanos, inclusive ignorava os elogios e as  homenagens. Isso talvez se devesse ao orgulho, que era reconhecidamente uma de suas fraquezas. 

Admitia sentir as alegrias da vaidade como todo artista. “O ofício de escritor, particularmente na sociedade francesa, é, em grande parte, um ofício de vaidade. Eu o digo, aliás, sem desprezo, apenas com pesar. Nesse ponto, sou parecido com os outros; quem pode dizer-se despido dessa ridícula fraqueza?”

Por reconhecer em si mesmo as próprias fraquezas é que conseguiu descrever tão bem as que são inerentes à condição humana e toda a sua obra transita por entre esses sentimentos e emoções que nos ocupam a alma.

Camus era arrebatado pela vida. Tinha desespero e apetite desordenado para viver. Mergulhou numa intensa produção literária, finalizada apenas quando de sua morte, aos quarenta e sete anos, em decorrência de um acidente de carro. 

Para ele “só vivemos verdadeiramente algumas horas de nossa vida”. E essas horas devem ser ocupadas com a beleza do que é visto e palpável e não com abstrações divagatórias de um mundo que jamais nos dará a razão de sua existência. Por que viemos e para onde iremos não importa. Podemos estar diante de um absurdo jamais decifrável, mas a vida se nos apresenta todos os dias com um belo sol que brilha para todos indistintamente e nos trás a oportunidade de vida, sem busca de maiores explicações.

Consciente de que o homem é muito mais movido pela paixão que razão não conseguiu corrigir sua natureza pela moral, ainda que tenha tentado. “O homem me parece, às vezes, uma injustiça em movimento: penso em mim.” 

Camus partia da análise de si mesmo e assim atingia os sentimentos e as emoções do outro. E, por não se afirmar justo, não podia conceber o atributo da justiça aos seus iguais.

Reconhece ter percorrido um longo caminho desde a edição de O avesso e o direito, mas não considera ter progredido tanto. Às vezes, quando pensamos progredir, na verdade, recuamos. 

Declara caminhar com “a mesma leve embriaguez”, passando pelos dias sem esperar nada do amanhã, sem possuir, sem invejar… É o amor pelos seus, pela escrita e pela arte que o move.

Assume sua anarquia profunda e diz ser dotado de desordens, instintos violentos, obscuridades na alma – sentimentos direcionados em favor da edificação de sua arte. 

Sabe-se imperfeito e ao buscar o equilíbrio entre o que é e o que diz, pretende construir a obra de seus sonhos. 

Sua alma clamou por ser artista desde os tempos em que era um pobre menino argelino queimando ao sol. O artista queima para dar luz a si e aos outros. Ele se posiciona em seu próprio centro e precisa manter essa posição mesmo que arda em brasas. A vida de Camus foi incendiada pela beleza da arte e, apesar do sofrimento de um espírito em chamas, declara que sofreria muito mais se sua alma não ardesse.

Esse ardor deve ser homenageado por nós leitores, pois dele nasce toda a produção de Camus, a que temos o prazer de contemplar e permitir também à nossa alma se incendiar por sua instigante e inquietante arte.

Esaú e Jacó, de Machado de Assis.

Esaú e Jacó é o livro de Machado de Assis que conta a história de dois irmãos gêmeos chamados Pedro e Paulo. Machado pretendeu, ao fornecer esse título ao livro, de início, dar pistas ao leitor de como seria a relação entre os irmãos, personagens centrais da obra.

Antes de discorrer sobre os irmãos machadianos, falarei dos irmãos bíblicos, Esaú e Jacó, cuja narrativa está registrada no livro de Gênesis.

Rebeca, esposa de Isaac, cujo pai era Abraão, não podia ter filhos devido à esterilidade. Isaac suplicou ao Senhor para que sua mulher concebesse filho. 

Deus o atendeu e Rebeca engravidou de gêmeos. Eles se chocavam desde o ventre, então Rebeca dirigiu uma consulta ao Senhor, que lhe respondeu: “Duas nações trazes no ventre, dois povos se dividirão em tuas entranhas. Um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais novo”.

Esaú nasceu primeiro que Jacó. Este era pacífico e o preferido da mãe. Aquele, hábil caçador e rude, o protegido do pai. A primogenitura dava direito ao filho de receber a benção paterna. Entretanto, num dia em que Esaú estava com muita fome, ele vendeu a primogenitura a Jacó em troca de comida. Mais que fome de benção, naquele momento Esaú tinha fome de alimento.

Isaac adoece e pede ao filho Esaú que vá atrás de caça para que possa alimentar-se antes de lhe dar a benção. Rebeca escuta a conversa de Isaac e Esaú e, em seguida, pede ao filho Jacó para que mate dois cabritos do rebanho e o auxilia a se passar por Esaú para que receba a benção no lugar do irmão. 

Ao retornar e saber do ocorrido, Esaú odiou Jacó e prometeu matá-lo assim que o pai morresse. Para saber o resto da história, leiam a Bíblia.

Já os gêmeos Pedro e Paulo nasceram de Natividade. Mulher casada com Santos e sempre preocupada com o futuro dos filhos. Tão preocupada que, logo cedo, tratou de consultar uma vidente sobre como seria o futuro dos descendentes. 

Foi informada de que seriam “grandes homens”. E só de pensar nisso Natividade se alegrara, pois grandes homens também são obras de grandes mães.

Natividade percebera uma rivalidade entre os irmãos desde a mais tenra idade. Parece que, como Esaú e Jacó, a desavença começou já no ventre.

Um estudou Direito, o outro medicina. Um em São Paulo, o outro no Rio de Janeiro. 

Uma vez se desentenderam por conta da compra de um quadro. Outra, por posições políticas divergentes. Um era liberal. O outro conservador. Um defendia a Monarquia. O outro, a República.

Unidos pelo mesmo útero, tiveram que conviver por nove meses no mesmo e pequeno espaço. Não tinham escolha. Após, separados pelas diferenças, se não físicas, de ideias, andavam por caminhos opostos sempre que podiam. 

Natividade tentava em vão uni-los. O amor da mãe lhes era comum. Ao contrário de Rebeca que preferia Jacó a Esaú, Natividade demonstrava igual amor aos filhos. Se preferência havia, guardou-a para si por toda a vida. 

Primeiro, unidos pela mesma mãe e, depois, uma mesma mulher por quem os dois se apaixonaram. Os gêmeos se encantaram simultaneamente por Flora, que se encantara de uma só vez pelos dois. O que faltava num ela via no outro. Mais um motivo de disputa, de desavença e desunião entre Esaú e Jacó. Aliás, entre Pedro e Paulo.

Chegaram a concordar em esperar que a moça escolhesse um dos dois. E o perdedor teria que aceitar o resultado. Entretanto, Flora não se decidia. Sofria, entrava em devaneios e até adoecera, mas escolher entre os dois não conseguia. Talvez um terceiro livraria-os e livraria a ela mesma. Mas, terceiro não haveria de existir, pois Flora só mirava em duas direções. 

Se toda opção pressupõe uma renúncia, Flora preferiu a morte a escolher por um. Para ela, melhor pouco que nada não se aplicava. Ou os dois, igualmente grandes, ou a sepultura. Nesse impasse, acabou morrendo. 

No enterro de Flora, os irmãos deram-se as mãos e prometeram se unir. Não durou mais que um mês a promessa. Ao visitarem mais tarde o túmulo da amada, cada qual a sua hora e sem falar um para o outro, acendeu-se um pouco da ira antiga. Ainda que morta, Flora os separava.

Pedro abriu um consultório, Paulo uma banca de advocacia. Porém, a política os chamara, para felicidade da mãe. Ambos foram eleitos deputados. Eleitos para um fazer oposição ao outro. Agora é que não faltariam ocasiões e matérias para divergirem. Mal se podiam ver e ouvir mutuamente.

Como observou o conselheiro Aires, um representava o espírito da conservação, o outro da inquietação.

Natividade adoece e, antes da morte, segura com a mão direita na mão de um filho e com a esquerda na mão do outro. Suplica pela união deles. Ela já havia comentado com Aires que Pedro e Paulo amavam-se nela. Utilizou-se desse amor para fazê-los prometer a concórdia.

Enquanto a perda da mãe estava recente em seus corações, os irmãos conseguiram alguns poucos instantes de paz. Mas, como o tempo é um dragão que devora inclusive as nossas mais dolorosas lembranças, à medida que os dias se passavam e a morte da mãe ia ficando cada vez mais longínqua, os desentendimentos aumentavam.

Uma vez, dentre as muitas conversas que manteve com Aires, Natividade chegou a sugerir que as desavenças entre os filhos tinham como causa a paixão política acesa em ambos. Aires retrucou: “A senhora cuida que a política os desune; francamente, não. A política é um incidente, como a moça Flora foi outro…”

E as reticências indicavam incidentes mais. Teve até quem sugeriu que, agora, era a disputa pela herança da mãe que os fazia brigar. Aires nem se deu ao trabalho de dizer que não era a herança e, refletiu: “Eles são os mesmos, desde o útero”.

Não bastou para os gêmeos desejarem a mesma mulher. Agora, queriam, ambos, a Presidência da República. E, assim como Flora não pudera se dividir para se dar aos dois, a República, monocrática, só admitiria um Presidente. Pedro ou Paulo? Quem há de saber? Talvez só o tempo nos diga.

O Rei Lear, de Shakespeare.

Cheguei a esse livro, como a Hamlet, por meio de uma palestra do historiador Leandro Karnal. O Rei Lear não me surpreendeu mais que Hamlet, apenas deixou-me no mesmo estado de lúcida embriaguez.

Lear, rei da Bretanha, resolveu dividir o reino em três partes, sob alegação de velhice e proximidade de sua morte. Segundo acreditava, essa divisão diminuiria o peso dos anos, livraria-o de todos os encargos, negócios e tarefas, de modo que era preciso confiar o reino à forças mais jovens.

Visto que tinha três filhas, Goneril, Regana e Cordélia, o Rei dirigiu-se a elas: Digam-me, minhas filhas – já que pretendo abdicar de toda autoridade, posses de terras e funções do estado, qual das três poderei afirmar que me tem mais amor, para que minha maior recompensa recaia onde se encontra maior mérito natural.

Queria o Rei que as filhas falassem de seus sentimentos por ele. Mais que de demonstrações por meio de atos, o majestoso desejava palavras, palavras, palavras…

Ao que tudo indicava, os seus muitos anos de vida e de convivência com as descendentes não foram suficientes para observar, em atitudes, a que mais o amava e destinava-lhe maior atenção. Para o Rei, o conceito de amor parecia consistir em ouvir uma sinfonia melodiosa e enganosa, a tal ponto que exigiu de cada filha a confirmação de seus sentimentos por meio da mais convincente oratória.

Goneril, a mais velha, afirmou amá-lo mais do que pudesse exprimir quaisquer discursos. Regana poupou o esforço em tecer diferente afirmação e declarou amá-lo tanto quanto Goneril.

Terminadas as falas das duas primeiras declarantes, chegou a hora de Cordélia enunciar o seu amor. Ela disse: Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.

O Rei pediu para Cordélia melhorar a resposta, sob pena de ter sua herança prejudicada.No entanto, Cordélia insistiu em falar pouco, ao que o pai reagiu: Tão jovem e tão dura?

Cordélia: Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.

Diante da sinceridade e franqueza da filha, o Rei Lear decidiu retirar-lhe o dote. Ao vê-la desprovida de herança, o Duque de Borgonha desistiu de se casar com ela, deixando-a livre para que o rei da França a tomasse como esposa por reconhecê-la muito mais valiosa se comparada a um simples dote.

Ao se despedir do pai, Cordélia pediu-lhe perdão por não possuir a arte pérfida e oleosa de falar sem sentir, pois o que sentia fazia sem precisar abrir a boca. O Rei Lear excomungou-lhe: Melhor que não tivesses nascido do que me seres tão desagradável.

Desde as primeiras páginas do livro, associei-me a Cordélia por esta ser sábia, sincera e falar pouco. Sei que o preço a ser pago por dizer certas verdades pode ser a própria vida. Ainda assim, repudio a mentira, a arte da bajulação e da enganação.

Não demorou muito para que Goneril e Regana armassem contra o pai após concretizada a partilha do reino. Com o poder nas mãos, não havia mais motivos para palavras de amor, quanto mais atitudes de consideração.

Goneril falou sobre o pai: É um velho inútil que pretende ainda exercer os poderes que já não lhe pertencem. Por mim, os velhos caducos voltam à infância, merecem repreensões e não carinho quando se vê que erram o caminho.

O Rei Lear começou a se desesperar com os desmandos das duas filhas e desabafou: Mais doloroso do que o dente de uma cobra é ter um filho ingrato.

Era tarde demais para se arrepender. Ao se aconselhar com o Bobo da côrte, este lhe dirigiu essas palavras: Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.

No meu entender, é justamente o Bobo que faz as melhores reflexões no livro. De que serve a velhice se não para nos trazer pelo menos a sabedoria da experiência dos anos? De que serve a passagem do tempo se não para fazer com que reflitamos antes de agir impensadamente? E, mais uma vez, o Bobo, que de bobo não tinha nada, disparou: Não havia nenhum juízo nessa coroa careca ou não teria doado tua coroa de ouro. Repartiste teu juízo à esquerda e à direita e acabaste ficando sem nada no centro.

A sinceridade do Bobo fez-me lembrar a de Cordélia, a que o Rei não estava acostumado, pois o posto que ocupou durante a vida deve ter-lhe rendido muitas lisonjas falsas e, provavelmente, a verdade não lhe era sequer sussurrada.

O Rei havia se voltado contra a filha mais nova por ter sido verdadeira com ele, mas que faria contra a franqueza do Bobo uma vez que nada mais lhe restava –  nem poder, nem coroa, nem reino?

Agora és apenas um zero à esquerda. Valho mais do que tu; pelo menos sou um Bobo – tu não és coisa nenhuma.

Nesse trecho do livro, desejei ser Boba tantas vezes quantas se fizessem necessárias para falar a mim mesma as verdades que ninguém ousa dizer, por amor, ódio ou indiferença.

O que se passa no decorrer da história, bem como seu final, não será por mim revelado. É preciso ler o livro e tirar as próprias conclusões.

Entretanto, fica o aprendizado do que pode nos ocorrer por excesso de confiança,  de sinceridade, por determos o poder, por sermos velhos sem sermos sábios ou jovens destemidos.

Esse livro trata de relações familiares e de poder, onde existem a traição, a infidelidade, a deslealdade, o desamor, o interesse, a inveja, o orgulho, a maldade e tantos outros sentimentos que nos fere e machuca.

Mas ele também conta a história de uma filha leal e que, como Hamlet, morre em defesa e por amor ao pai. Esse livro nos apresenta o personagem Kent, amigo do Rei até as últimas consequências.Traz um personagem que não sabe mentir num mundo de tanta enganação e que tem de se passar por bobo para poder ser franco.

Ao final da leitura, refleti: caso o Rei Lear tivesse ficado sábio antes de envelhecer não teria sofrido tanto e perdido tudo, inclusive as filhas. Se o Rei tivesse entendido o amor das filhas por meio de ações para com ele não teria acreditado em palavras vazias.

Creio no amor como um verbo e não como um substantivo. O verbo pressupõe uma ação. É na ação que mora o amor. (Até lembrei da fala de Jesus: Eu sou o verbo, como que dizendo “Ajam! Não apenas falem de mim, mas ajam como eu lhes ensinei”.)

Concluo com uma frase de Kent às irmãs Goneril e Regana: Que as vossas ações confirmem os belos discursos – que as palavras de amor gerem atos de amor.

As palavras proferidas pelas duas irmãs não geraram atos de amor para com o pai. Goneril e Regana não ouviram o conselho de Kent. Mas diante da experiência e reflexão sobre esse livro,  atrevo-me humildemente a me passar por Boba e vos aconselhar: Façamos com que as nossas palavras não sejam vãs. Na dúvida entre falar e agir, aja!

O Livro de Eclesiastes (ou O poder político e seus riscos)

Eclesiastes é um dos livros bíblicos que particularmente mais gosto, cuja leitura me recorro frequentemente.

Tenho consciência da necessidade de nos lembrarmos algumas vezes, senão muitas, de que tudo é ilusão e corrida atrás do vento.

Tudo é vaidade. E vaidade tem o significado de vazio (do latim, vanitas). Consciente estou de que toda a minha vaidade se fundamenta no nada.

Explicada a etimologia do termo vaidade, quero abrir um parêntese para pedir que se apeguem ao significado das palavras e, principalmente, às suas origens, pois isso tem muito a nos dizer. Quem sabe num outro texto eu possa explicar isso melhor. Dito isso, avante!

Há muitas passagens desse livro sobre as quais poderia me delongar, mas quero falar tão somente dos versículos que tratam do poder político e de seus riscos.

Diz Eclesiastes: Mais vale um jovem pobre, porém sábio, do que um rei velho, mas insensato e que não aceita mais conselhos. O jovem foi tirado da prisão e tornou-se rei, embora tivesse nascido pobre durante o reinado do outro. Mas observei que todos os vivos, os que caminham debaixo do sol, ficam do lado do jovem, que vem ocupar o lugar do outro. Há sempre numerosa multidão de povo para quem se põe a liderá-la. Entretanto, a geração seguinte já não estará contente com ele. Na verdade, também isso é ilusão e corrida atrás do vento.

O poder é, portanto, uma grande ilusão. Quem hoje apoia um determinado governo, amanhã poderá persegui-lo e voltar-se contra ele. Basta o mínimo de desencanto, sendo assim convém não se iludir.

Esse trecho bíblico me lembra o filme intitulado O Amante da Rainha (baseado em fatos reais). A história se passa no Reino da Dinamarca.

O Rei Cristiano VII, mentalmente doente, resolve selecionar, dentre tantos, um médico para acompanhá-lo em suas andanças.

Escolhe Johann Struensee. Este, além de inspirar a confiança do rei, desperta o amor da rainha, Carolina Matilde da Grã-Bretanha, totalmente infeliz em seu casamento. Johann e Carolina tornam-se amantes.

O Rei Cristiano VII, alheio à traição, promove Johann a ministro de seu governo e, depois, regente do reino da Dinamarca.

Johann é um liberal progressista e acaba por convencer o rei acerca da necessidade de promover reformas sociais. O povo, que até então estava submetido a uma situação de extrema miséria, passa a gozar de alguns direitos e vai ao delírio. Por consequência, Johann, que subira ao posto de amante da rainha, passa também ao de amado pelo povo.

A concessão de tantos direitos outrora negados aumenta os gastos do Estado. Alguém tem que pagar a conta. É hora de aumentar os impostos. O povo novamente vai ao delírio. Mexer no bolso, órgão vital do cidadão, é chamá-lo para a guerra (ou para as manifestações) – não sem razão. E assim fizeram.

Sem querer contar todo o filme para que aqueles que se interessarem não percam a vontade de assisti-lo, limito-me a dizer que, após os aumentos dos impostos, o povo que amava Johann foi o mesmo que passou a odiá-lo.

A profecia de Eclesiastes se cumprira e a multidão não estava mais contente com Johann nem com o Reino da Dinamarca. A euforia com esse governante não passou de ilusão.

E o que dizer do ex-presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva? Amado e odiado pelo povo. Aclamado e preso pelo mesmo fervor popular.

E o atual presidente que, após vencer as eleições, deixou de ser um deputado isolado no Parlamento para se transformar num mito, rodeado de bajuladores do poder?

Se pudesse aconselhá-lo, diria-lhe: leia e reflita sobre os ensinamentos de Eclesiastes e não se deixe enganar, pois tudo não passa de ilusão.

E o que dizer a você que me lê? Não digo, mas imploro: recorra frequentemente ao livro de Eclesiastes. Leia-o, reflita e, sobretudo, não se esqueça nunca: TUDO É ILUSÃO E CORRIDA ATRÁS DO VENTO!

Competição entre mães.

Enquanto a manicure cuidava de minhas unhas, meus ouvidos estavam atentos para a conversa daquelas cinco mulheres que não paravam de falar um minuto sequer. Percebi, de imediato, que o assunto girava em torno de seus filhos. Todas eram mães. 

Uma das profissionais do salão, inclusive, voltara ao trabalho para onde também levava sua bebê de apenas um mês. Provavelmente, a necessidade a obrigara proceder de tal forma.

Quando a nenê resmungava ou chorava passava de mãos em mãos das colegas que ajudavam a mãe enquanto esta cuidava das unhas das clientes. Entre um serviço e outro, amamentava e, sem descanso, voltava às atividades. 

Num dos instantes em que a criança começou a chorar, uma cliente compreensiva disse à mãe: Se precisar parar um pouco para ver sua filha, fique à vontade. Ela respondeu: Está em boas mãos. Eram as mãos de uma colega que acabava de descer as escadas com a menina no colo para trocar-lhe a frauda. Essa mesma mãe tinha mais dois filhos adolescentes que moravam com o pai.

Uma das que integravam a roda das mulheres disse ter quatro filhos, outra três, outra dois e outra um. Uma delas me perguntou: E você tem quantos?

Nenhum – respondi para zerar a conta.

Logo depois, essas mulheres começaram a disputar qual delas era a melhor mãe, por meio da exposição dos comportamentos de seus filhos e descrição de seus feitos desde o nascimento até o presente momento.

Tratavam-se de crianças tão perfeitas, inteligentes e prodigiosas que, se Maria, mãe de Jesus, estivesse participando da conversa, ficaria em dúvida se realmente fora o seu filho o enviado por Deus para salvar a humanidade.

Assim também costuma acontecer quando algumas famílias se reúnem. As conversas entre as mães costumam girar em torno de seus filhos. E a competição se mostra tão acirrada para provar qual é a melhor das crias que fico encabulada a ponto de imaginar por que, em meio a tantos Cristos, não estamos no melhor dos mundos nem a humanidade ainda foi salva.