Não ser Deus, de Gianni Vattimo

Trata-se de um daqueles livros que você não conhece o autor, nunca ouviu falar dele, não sabe nem qual é sua origem, salvo pela evidência do nome italiano, mas deixa-se seduzir pelo título: “Não ser Deus”. 

Não é por acaso, acredito. Algum complexo de Deus devo ter. Aliás, sei que tenho. Foi o que me fez parar num divã. A psicóloga foi categórica: “Você tem complexo de herói. Quer controlar tudo.” Se doeu essa verdade? Nem um pouco. Eu mesma traçara previamente meu diagnóstico. Precisava apenas de um profissional que confirmasse.

Entretanto, Gianni Vattimo reconhece sua pequenez, aceita sua finitude, não teme a morte. O Ser é mortal. Para ele, o que resiste ao tempo é apenas a arte. Shakespeare, Da Vinci, Dante Alighieri, Clarice Lispector, Machado de Assis, Victor Hugo, Cervantes, dentre tantos, jamais serão esquecidos, porque suas obras resistem ao tempo.

Aí fiquei pensando naqueles que dizem querer filhos para não serem esquecidos, para deixar um legado. Filhos podem ser a melhor coisa do mundo, como afirmam alguns (apesar de eu não achar que seja a melhor coisa do mundo para minha mãe).  Mas, eles também não resistem ao tempo. Eles não sobreviverão para perpetuarem as existências de seus pais, muito menos suas memórias.

Vattimo não teve filhos. Nunca sentiu desejo de paternidade como também nunca senti desejo de maternidade. Quando penso na possibilidade de ter filho vejo uma chance de me tornar melhor que sou, porque um filho subtrai e muito.  Um filho faria mais por mim que eu por ele, porque me desviaria desse meu eu tão cheio de si. Nem sei se tenho salvação, porque se penso em me tornar melhor por meio de um outro ser, estou pensando, mais uma vez, é em mim. 

Na velhice, Vattimo confessou sua homossexualidade. Confessou porque é livre: “Me sinto livre como nunca me senti antes. Livre para dizer tudo o que penso. Isso sim. E é uma das muitas coisas que não são perdoadas. Nem pelos inimigos nem pelos amigos”. É porque a liberdade ofende, diz Clarice Lispector.

E por falar em velhice, começa o livro com um relato do seu aniversário de 70 anos e com alguns questionamentos: “Envelhecer atenua a dor da vida? Faz-nos menos capazes de sofrer e, portanto, também de amar e sentir paixões? Deixa-nos mais cínicos, mais duros, mais insensíveis? ” Essas perguntas são respondidas ao longo do livro.

Para Vattimo, Deus é uma experiência de liberdade. Ele diz: “Amar a Deus. Bom… Não sei o que dizer, nem o que isso quer dizer. Entendo melhor amar o próximo”.

Sartre diz: “O homem projeta ser Deus e fracassa”. Deus é perfeito e eterno. O autor reconhece sua imperfeição e tem o eterno como um momento de plenitude, não como algo que dura para sempre. Seu mais completo momento de felicidade foi a companhia de um rapaz com quem viveu um romance, que durou apenas um mês.

Paro a leitura nesse ponto. Será que o homem inventou a eternidade por não conseguir se imaginar não sendo algo depois da morte? Para mim, a morte é a aniquilação total da consciência.

Vattimo não crê na imortalidade da alma. Eu também não. Pepe Mujica definiu a morte como o mais profundo silêncio mineral. Apoderei-me dessa expressão e agora ela é minha. 

Se não consigo me encontrar com Deus durante toda minha vida por que hei de encontrá-lo no momento de minha morte? Prefiro ver e sentir Deus todos os dias enquanto vivo. E isso é tudo.

“Queria ser escritor e já me comportava como intelectual” – diz Vattimo. A identificação com quem escreve me acompanha desde sempre. Não creio que uma pessoa se põe a escrever por ordens externas. Vejo como uma necessidade, uma obrigação íntima. Ou escrevo, ou me afogo. Ou escrevo, ou me sufoco. Ou escrevo, ou “me muero”. 

Quando criança, lia e escrevia ao mesmo tempo. Começava histórias que não vislumbravam um fim. Talvez já tivesse em mim o desejo da eternidade. 

Adolescente, escrevia num diário os acontecimentos e sentimentos em relação a eles e enviava muitas cartas de amor ridículas, de que falara Álvaro de Campos. Coitado de quem as recebia. Não tenho mais notícias dele, mas deve ter morrido asfixiado de amor falado. Simplesmente, minhas cartas e eu éramos ridículas.

“Mais do que ser admirado, muito mais do que ser famoso, o que quero é ser amado”. Essa confissão de Vattimo não me toca. Sou mais ligada às pessoas por admiração do que por amor. E prefiro que me admirem do que me amem. Não faço nenhum esforço para ser amada. E já rejeitei as mais diversas formas de amor, porque ele é exigente. “Quem me ama quer que eu seja algo de que ele precisa”. E eu não suporto exigências! Apenas, exijo.

Esse livro é plural, porque fala de diferentes assuntos e experiências vividas pelo autor como italiano, filho, filósofo, professor universitário, político, conferencista, homossexual, escritor, idoso, heideggeriano, amigo, amante, niilista. Evidente que há passagens não muito claras para mim, pois precisaria ter muito mais conhecimento para entendê-lo melhor.  Por exemplo, precisaria compreender o pensamento de Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger. E estou muito longe disso. 

Porém, não julgo uma obra como boa ou ruim tendo como referência a minha ignorância, pois ela é ilimitada. Fico com o que entendo. Aceito o que não compreendo. Conformo que há coisas que meu entendimento não suporta, nem tem condições de entender. Sigo rumo à próxima página.

“Há autores que nunca entenderei ou entenderei apenas de maneira aproximada, e isso não é terrível, e sim bonito”.

Concordo com Vattimo também quando ele diz que “Toda experiência de verdade é uma experiência interpretativa”.

Tenho uma pequena estante de livros na sala e quando a olho  é da seguinte maneira que interpreto: “Olha o tamanho da amostra microscópica de tudo que não sei”. A experiência interpretativa que faço desses livros é no sentido de me confrontar com tudo aquilo que desconheço.

“Um ato de conhecimento é algo que diz respeito tanto a você quanto ao objeto que você interpreta: a pessoa do outro, a obra que você lê. Você muda enquanto interpreta aquela coisa, mas muda também a coisa porque cola-se por cima dela uma nova interpretação”. 

Essa descoberta deu-me uma nova dimensão do significado de arte. Sempre tive consciência da mudança que uma obra é capaz de provocar em mim, mas não havia pensado no quanto posso mudar uma obra. Causou-me espanto o pensamento de que posso tornar Hamlet ainda melhor.

Há, entretanto, um pensamento de Heidegger (citado por Vattimo) que não só entendo como compartilho: “A grande obra de arte por excelência é a Bíblia: e a Bíblia é efetivamente a instituição do Ocidente, teimamos sobre o sexo dos anjos, esganamo-nos por causa da interpretação das Escrituras, o grande clássico é este”.

Trinta anos de catolicismo não conseguiram me fazer ler a Bíblia. Mas, quando li a obra de um ateu, “Pecar e perdoar”, de Leandro Karnal, fiquei inteiramente seduzida por tudo que a Bíblia tem a dizer. Hoje, é o meu livro preferido. Hoje, tenho mais respeito pelos ateus  – mesmo sem adotar a crença deles.

Sou cristã. Cada vez mais sinto que Cristo deve ser o único modelo a seguir, não por medo, mas por consciência de que é o melhor exemplo que já tive notícias.

“Eu, se não fosse Deus” é um dos últimos capítulos do livro em que Vattimo confessa que aos 80 anos continua ocupando-se dos outros e fazendo caridade mais por obrigação que por prazer ou escolha. “Sempre penso que preciso prover, prover a todos. Sou aquele que provê. Mas então sou Deus”. É uma presunção que o acompanha ao longo da vida. “Amanhã eu paro. Paro de me fazer de Deus”.

Para Vattimo “o único verdadeiro pecado é a falta de ouvir o outro, a falta de caridade.” O homem sempre acha uma maneira de criar um Deus que admite apenas as suas falhas. O que Deus permite é o que eu faço. O que o outro faz é pecado.

No último capítulo pergunto a mim mesma: que busco encontrar? E Vattimo responde: “Você procura a liberdade. E é esse o motivo de ser sozinho, pois é difícil ser realmente livre sem ser um pouco só”. 

Essa solidão que gosto e cultivo não é aquela em que não se tem companhia. Isso  sempre quis, tenho e prezo. Quero dormir e acordar todos os dias com alguém do meu lado. 

Solidão para mim é saber que não existe outro eu e ficar confortável com isso. Que nem sempre terei alguém para compartilhar gostos, preferências e pensamentos, porque sou só, no sentido de ser único. Gostar de ser só é gostar de ser-me. Isso é a liberdade. Vattimo sustenta que é livre. Também o sou. Foi a liberdade que me faz escolher esse livro e fazê-lo companhia por algumas horas. 

Todavia, “gostar de ser livre é querer livre também os outros” e, por isso, digo a  você que me lê: tenha a liberdade de eleger ou não esse livro como companhia por horas, dias, meses ou por toda a vida. Seja livre! Até me lembrei de Nelson Rodrigues: “A liberdade é mais importante que pão”. Bem, aí já não sei. Preciso pensar melhor.

O homem mais rico da Babilônia, de George S. Clason.

Comprei o livro “O homem mais rico da Babilônia” para presentear uma amiga, extremamente querida, de nome Sira, que me foi uma fiel companheira desde os tempos de infância. Crescemos juntas. Aliás, ela cresceu. Quanto a mim, nem tanto. 

Sira sempre foi muito dedicada e determinada naquilo que se propunha a fazer. Mas, infelizmente não aprendeu a arte de lidar com o dinheiro. Tão logo cedo começou a ganhá-lo e a gastá-lo desproporcionalmente. Assim, minha amiga se perdeu num extenso mar de dívidas.

Não é que ganhava pouco, reconhecia. Ganhava mais que o suficiente para viver. Haveria de sobrar, e muito, se ela soubesse manusear seus rendimentos.

A última vez em que nos encontramos para tomar um café e bater um papo, notei, com profunda tristeza, que minha amiga se perdera. Achava-se uma mulher livre mesmo não podendo honrar seus credores. 

Eu sabia que Sira tornara-se uma escrava. E eu precisava ajudá-la. Entretanto, não podia lhe emprestar dinheiro. Notei que não adiantaria encher os seus bolsos, pois sem conhecimento, sem sabedoria, qualquer dinheiro que lhe chegasse às mãos escorreria por entre os dedos. Então, tive que pensar em algo que pudesse fazer para auxiliar minha amiga no sentido de despertar sua consciência.

Combinei com ela de nos encontrarmos para presenteá-la com algo que considerava mais valioso que ouro. O nosso encontro ocorreu como acertado. Eu entreguei-lhe o livro O homem mais rico da Babilônia e combinamos de voltar a nos ver assim que ela terminasse a leitura e fosse capaz de me contar tudo o que aprendera.

Passados dez dias, Sira me ligou para que pudéssemos nos ver a fim de que ela me falasse a respeito do que houvera aprendido. Como estava em viagem que duraria cerca de três meses, propus a Sira que fizesse um resumo do livro para que não houvesse o risco de ela esquecer os pormenores nesse tempo em que eu estivesse fora. Ela aceitou a proposta e, quando cheguei de viagem, Sira entregou-me algumas folhas em que estava escrito:

“Minha querida amiga, quando você disse que me presentearia com algo melhor que ouro, confesso que duvidei de suas palavras e, por isso, te peço desculpas. Quero te informar, antes de qualquer coisa, que já estou colocando em prática os ensinamentos apreendidos com esse tesouro dado-me por você. Agradeço o seu carinho e a sua amizade que tanto valem para mim, inclusive mais que todo ouro que nunca fui capaz de guardar. Sem mais delongas, vou te contar sobre o “O homem mais rico da Babilônia”:

Esse livro começa com um homem chamado Bansir, fabricante de carruagem da Babilônia, sentado numa mureta que cercava a sua humilde propriedade pensando em sua pobreza. Envolto em seus pensamentos e em sua tristeza, Bansir começa a escutar o som de uma lira. Era seu melhor amigo que se aproximava. Kobbi era músico e pediu que Bansir lhe emprestasse uma quantia em dinheiro. Mas, Bansir não o tinha e não pôde ajudar o amigo. “Simplesmente admito que minha bolsa está tão vazia quanto a sua” – disse ele.

Os dois puseram-se a dialogar sobre as suas misérias. Ambos trabalhavam tanto e não conseguiam acumular riqueza. Em contraposição, a Babilônia era uma cidade onde havia muita opulência. E eles não sabiam porquê a abundância não os alcançava.

Bansir declarou que gostaria de ser um homem de posses. Não queria mais continuar ano após ano levando uma vida de escravo. Muito trabalho que não o levara a lugar nenhum.

Então, lembraram-se do amigo Arkad, conhecido como o homem mais rico da Babilônia. Além de rico era também um homem generoso. Resolveram procurá-lo e perguntá-lo como conseguira ficar tão rico. Na verdade, queriam buscar o conhecimento necessário junto de quem tinha prosperidade e autoridade para falar do assunto. Reconheceram que precisavam aprender e nada melhor que buscar os conselhos do bom amigo Arkad.

Mas, antes de se dirigir a Arkad, Bansir foi procurar os seus seus amigos de infância que se encontravam na mesma situação de pobreza que ele e Kobbi. Pretendia que seus amigos também aprendessem os ensinamentos do homem mais rico da Babilônia. Bansir era daqueles que pensava nos outros e tinha muitos amigos.

Arkad começou a ensinar aos seus amigos da juventude. Falou sobre a necessidade de poupar pelo menos 1/10 de tudo que se ganha, de refrear os impulsos, de formar o hábito de economizar e, se porventura perderem o que economizaram, continuarem economizando (não entregar os pontos no primeiro fracasso). 

Falou sobre a importância do tempo e do estudo: aprender e saber para praticar. O próprio Arkad, antes de se tornar rico, resolveu investigar como alguém conseguia acumular riqueza para também acumular a sua. Segundo ele, o caminho da riqueza foi encontrado quando decidiu que conservaria consigo uma parte de tudo que ganhasse. Era necessário pagar, primeiramente, a si mesmo antes de pensar em pagar a qualquer pessoa. “Você paga a todo mundo, menos a si mesmo. Idiota, está trabalhando para os outros”, como disse-lhe uma vez Algamish, o emprestador de dinheiro que passou todo seu conhecimento para Arkad.

Após expor os ensinamentos aos amigos, nem todos continuaram seguindo Arkad. Uns não entenderam o que ele disse; outros, queriam que ele repartisse as suas posses; entretanto, alguns viram uma luz e decidiram continuar colhendo os seus conselhos.

Um dia, ao retornar de um confronto, o Rei da Babilônia percebeu a crise financeira que assolava o povo, o que colocava em risco todo o reino, pois é sabido que a prosperidade de uma nação depende da prosperidade financeira dos indivíduos que nela habitam.

Sendo assim, o rei pediu que chamassem Arkad e o propôs que ensinasse a 100 pessoas as soluções para a falta de dinheiro. Essas 100 pessoas ensinariam outras e estas outras até que os habitantes da Babilônia aprendessem a se tornarem prósperos.

Arkad pôs-se a ensinar a cada dia da semana cada uma das sete soluções para a falta de dinheiro:

1) Comece a fazer o seu dinheiro crescer (guarde não menos que 1/10 de tudo que ganha);

2) Controle seus gastos (faça um orçamento detalhado);

3) Multiplique os seus rendimentos (aplique em algo que faça o seu dinheiro render);

4) Proteja seu tesouro contra a perda (consulte aqueles que trabalham e entendem do assunto);

5) Tenha o seu próprio lar;

6) Assegure uma renda para o futuro (lembre-se de que todos ficam velhos);

7) Aumente sua capacidade de ganhar.

Dos ensinamentos expostos ainda pude extrair esses outros:

a) quais despesas são realmente necessárias?

b) não confunda despesas necessárias com desejos (estes são ilimitados, não vá por eles);

c) examine cuidadosamente seu modo habitual de viver;

d) verifique que gastos podem ser reduzidos ou eliminados;

e) encare o crescimento de suas economias como um belo propósito de vida;

f) o propósito de um orçamento é ajudá-lo a juntar dinheiro.

Nessa época, a Babilônia não possuía escolas. Existiam centros de aprendizado, onde se discutiam variados temas. Um desses centros era o Templo do Saber. Arkad era um de seus frequentadores e um dia pôs-se a discutir com outros homens sobre o tema da boa sorte. Cada um deles expunha suas histórias sobre suas perdas e seus ganhos. Até que ponto a sorte é capaz de ajudar alguém? A sorte pode nos auxiliar a nos tornarmos mais ricos? Chegaram à conclusão que, para atrair a boa sorte, é necessário aproveitar as oportunidades. Condenaram a procrastinação que atinge a todos nós. “O inimigo do sucesso é a procrastinação”. Uma vez que adquiriu o conhecimento necessário não há razões para não pô-lo em prática. Essa é a verdadeira sabedoria (teoria + prática). Os homens de ação são os que mais atingem o sucesso, ou melhor, os homens de ação são favorecidos pela deusa da boa sorte.

Quero dizer, amiga, que é preciso esforço, determinação e ação em tudo que quisermos alcançar! (Aprendi também essa lição!)

Preciso te contar que Arkad tinha um filho chamado Nomasir. Quando este alcançou a maioridade, seu pai o chamou para uma conversa séria: “Meu filho, é meu desejo que você herde todos os meus bens. Entretanto, primeiro deve provar que é capaz de administrá-los adequadamente. Por isso, quero que saia pelo mundo e mostre sua competência para ganhar dinheiro e tornar-se um homem respeitado entre nossa gente”.

Na Babilônia, existia o costume de os filhos ricos viverem na casa dos pais na expectativa de herdarem seus bens. Arkad reprovava esse costume. Para ele, era de grande importância que os filhos aprendessem a lidar com o dinheiro, adquirissem sabedoria antes de herdar aquilo que os pais construíam a tanto custo, esforço e trabalho.

Entregou nas mãos do filho um saco de ouro e uma tabuinha de argila com as 5 leis do ouro e combinaram que em dez anos Nomasir voltaria à casa do pai para prestar contas. Enquanto lia esse capítulo do livro torcia muito para que Nomasir não seguisse os passos do filho pródigo que a Bíblia já nos apresentara.

Dez anos se passaram e Nomasir volta à casa do seu pai e este o recebe com uma grandiosa festa. Nomasir narra os acontecimentos e Arkad escuta com atenção todos os detalhes. O filho conta que o ouro contido na bolsa escorreu como água entre os seus dedos. Fizera negócios errados e se viu sem dinheiro até para comer. Só depois de ter gasto tudo é que se lembrou da tabuinha em que estavam inscritas as 5 leis do ouro. 

Quando leu e passou a aplicar os ensinamentos que o pai lhe ensinara, tudo começou a mudar. Arranjara trabalho, estudou, investiu, ouviu os mais sábios, agiu com prudência, consciência e paciência. Ao fim da narrativa, entregou ao pai três sacos de ouro: um equivalia à devolução daquele que o pai lhe dera. Os outros dois para pagar a tabuinha com as 5 leis do ouro. Nomasir aprendeu que os ensinamentos do pai eram muito mais valiosos que quaisquer metais preciosos e que sem sabedoria o ouro pode ser rapidamente perdido.

Então, vamos a essas leis que ensinaram o filho de Arkad e que tanto me ensinaram também:

1. Separe não menos que 1/10 de seus ganhos;

2. Seja prudente e empregue seu dinheiro para que te dê lucros;

3. Seja cauteloso e procure conselhos de homens sábios que sabem manusear o dinheiro;

4. Empregue seu dinheiro em negócios ou propósitos com os quais está familiarizado;

5. Não dê ouvidos a conselhos enganosos de trapaceiros e fraudadores nem confie em sua própria inexperiência.

Atrevo a dizer: “E SEJAMOS SENSATOS”, pois “nossas ações sensatas acompanham-nos através da vida para nos dar prazer e ajudar-nos. Do mesmo modo, nossas ações insensatas nos seguem para nos causar prejuízos e atormentar-nos”.

E, por falar em sensatez, comecei a buscar outras fontes de conhecimento e encontrei algumas medidas que complementam os conselhos que Arkad dera ao filho:

1) conheça seus gastos e suas receitas;

2) reduza seus gastos, desde o de maior valor até o de menor valor;

3) pague as contas até a data de vencimento, para evitar juros;

4) defina meta de valor a ser economizado todo mês (mínimo de 1/10 de seus ganhos);

5) não utilize o cartão de crédito, pois muitas vezes o cartão é seu inimigo, se não souber usá-lo;

6) defina suas prioridades e compre somente se realmente for necessário.

Teve um capítulo do livro que me tocou profundamente e me fez lembrar um dentre tantos erros que cometi. Um homem chamado Rodan recebera do Rei cinquenta moedas de ouro. A irmã de Rodan pediu a ele que emprestasse essas moedas a seu marido para que pudesse investir num negócio. Antes de tomar qualquer atitude, Rodan quis consultar um emprestador de dinheiro, Mathon, para saber que decisão tomar.

Mathon expôs em detalhes os perigos de se emprestar dinheiro para quem não tem a possibilidade de honrar o compromisso de devolvê-lo e o alertou: “Não se deixe enlear por qualquer sentimento de obrigação em confiar seu tesouro a quem quer que seja. Se quiser ajudar sua família e amigo, busque outros meios que não o de arriscar a perda de seu tesouro”. E concluiu: “´´E melhor uma pequena cautela que um grande remorso”.

Passei um bom tempo refletindo sobre quantos empréstimos cheguei a solicitar. Você mesmo, minha amiga, tantas vezes me acudira e, mesmo nos momentos em que não pude honrar-te tal qual combinado, você jamais desistira de mim. Pude compreender toda minha fraqueza e ânsia ao me lembrar que pedia emprestado, ainda que não estivesse suficientemente certa de que saldaria a dívida.

Entendi também que é preciso poupar, pois não podemos ficar sem uma proteção adequada.

Ao longo da leitura fui identificando todos os meus equívocos. Lastimei sim, mas percebi logo que a vida é daqui para frente. Olhar o passado apenas para não repetir os mesmos erros e seguir adiante é mais que necessário.

Apesar de tudo, tenho algo a meu favor e você que me conhece há muito tempo deve concordar comigo. Sou o que se chama de pessoa determinada. A partir do momento em que tomo consciência de algo e decido novos rumos, novos rumos são por mim seguidos. Não responsabilizo Deus pelos meus atos nem pelos infortúnios que eu mesma busquei. Tudo será diferente, pois tenho uma forte determinação e onde há determinação, o caminho pode ser encontrado.

Isso aconteceu com Dabasir, negociante de camêlos da Babilônia. Este homem também teve muita determinação depois de se endividar enormemente. Teve que fugir da Babilônia porque não conseguia honrar suas dívidas e sua mulher voltou para a casa do pai. 

Dabasir tornou-se escravo na Síria, porque um homem endividado é escravo de suas próprias escolhas e inconsequências. Mas, a oportunidade bateu à sua porta e ele conseguiu fugir da Síria com a ajuda de uma boa mulher.

Voltou à Babilônia disposto a pagar cada moeda aos seus credores. Encarou cada um deles, expôs sua real situação e pediu parcelamento e paciência. Dabasir reduziu os gastos o quanto pôde, pagava a si mesmo 1/10 de seus ganhos, provia a família e pagava as dívidas. Até que conseguiu se livrar delas e passou a ser novamente um homem de respeito e de crédito. E, concluiu: “É mais certo acertar as dívidas do que evitá-las”.

A determinação de Debasir alterou o seu caminho e o libertou da escravidão. Ele inscreveu em tabuinhas tudo que aprendera e praticara na sua busca por prosperidade. E eu tenho seguido fielmente tudo o que aprendi com Debasir: vivo com até 70% do que ganho, 20% pago as minhas dívidas e 10% pago a mim mesma. Portanto, minha amiga, meu coração está mais leve, coisa que há muito não experimentava.

Estou na página 131. Faltam poucas para finalizá-lo. Lembro de você e sinto uma gratidão imensa. Confesso que senti uma indignação quando te contei minha situação e você não me ofereceu mais dinheiro e sim este livro. Hoje entendo perfeitamente, pois você me deu a chave da sabedoria quando me presenteou com ele. Você entendeu algo que me escapara: eu precisava era de conhecimento.

Terminei de lê-lo com esperança de “coisas futuras”. Trabalharei incansavelmente em busca de meus objetivos. Darei mais valor ao meu trabalho e farei dele meu amigo. Não podemos prosperar usando de malandragem. É o trabalho que está me ajudando a recuperar-me dos meus grandes problemas. Foi preciso encarar toda a verdade que eu varria para debaixo do tapete e parar de me alimentar de falsas ilusões. Quero me esvaziar de todos os excessos que minavam minha perspectiva de possuir riqueza.

Recomeçarei de maneira humilde como convém à minha verdadeira posição. Muito mais do que joias e roupas finas, o que eu preciso é de juízo.

Aí está tudo que aprendi e te agradeço. Minha vida tomou um novo rumo. Sei que toda gratidão que eu tenho por você não pagará jamais o benefício que o seu presente me trouxe. Ainda assim, receba com amor a minha mais profunda gratidão.

Terminei de ler as palavras de Sira com muita emoção e sensação de dever cumprido. Depois, fui até a estante e peguei o meu exemplar do livro “O homem mais rico da Babilônia” e pus-me a folheá-lo.

Então, resolvi reler o último capítulo “Um esboço histórico da Babilônia”.

A que se deveu a prosperidade dessa cidade? E por que o Brasil não é próspero? Fiz-me essa indagação.

A Babilônia não era cercada de ricos recursos naturais como é o Brasil. Não havia florestas nem minas. A chuva era minguada, o que obrigou os babilônios a construírem imensos canais de irrigação. Na Babilônia, existiam apenas dois recursos naturais: um solo fértil e a água do rio Eufrates. Mas, os babilônios usaram o que tinha à disposição deles e produziram suas próprias riquezas. Eles se preocupavam mais em defender seu espaço e suas riquezas que abandoná-los em busca de novos territórios. Seus governantes eram sábios, espirituosos e justos. “A Babilônia não produziu monarcas pomposos que ansiassem por conquistar o mundo conhecido para que todas as nações pudessem homenagear seu egotismo”.

E, o mais importante, o povo babilônico era culto e educado. Dali saíram os primeiros astrônomos, matemáticos, financistas. Foram os primeiros a terem uma linguagem escrita utilizando as tabuinhas de argila. Desenvolveram muitas artes, como a escultura, a pintura, a tecelagem, a ourivesaria, a manufatura de armas e os implementos agrícolas. Foram os inventores do dinheiro como meio de troca, das notas promissórias e dos títulos de propriedade.

Uma nação é resultado de seu povo.

O Brasil parece ter todos os recursos naturais que a Babilônia não tinha: rios, mares, florestas, minérios, terras férteis, fauna diversificada e tantos outros. Mas, o Brasil não tem um povo culto muito menos educado como era o povo babilônico. O povo brasileiro não parece se interessar pelas artes. O Brasil não possui, como possuía a Babilônia, governantes comprometidos com a defesa do patrimônio do país. Somos diariamente saqueados pelos nossos próprios representantes.

No Brasil, há mais de 60 milhões de endividados. Governos que se fizeram de bonzinhos concederam créditos ilimitados para uma imensa população sem que antes lhes concedessem educação financeira. E, aprendemos, que ouro nas mãos de quem não tem sabedoria é uma fatalidade. Acorda Brasil! Acordem brasileiros! É só por meio da educação e do conhecimento que podemos alcançar a tão sonhada prosperidade.

A Babilônia foi destruída pelo exército de Ciro e hoje não existe mais. O que ela nos deixou como legado foi a sua sabedoria. “Nossa civilização tem grandes dívidas com ela”.

A Babilônia como cidade está morta, mas minha amiga Sira renasceu com essa bela história.

E eu renasci em Sira.

Não existe imposição de padrão de beleza que primeiro não tenha sido imposto por você.

Até hoje não consegui entender muito bem a que se refere esse padrão de beleza imposto pela sociedade que a maioria das mulheres dizem se sentir pressionadas a seguir. 

Parece-me que esse tal padrão nada mais é que aquele a que nós mesmas nos obrigamos, cuja responsabilidade não temos coragem de assumir, uma vez que é muito mais fácil olhar a imagem do espelho e, ao não gostar dela, justificar que estamos sofrendo porque nos obrigam a ser de outro modo. 

Por que digo isso? Porque nunca me vi obrigada a me enquadrar em qualquer tipo de modelo, a menos que eu quisesse agradar um determinado grupo para o qual a aceitação de minha pessoa estivesse condicionada a me transformar em algo que não sou. E como um grupo com esse tipo de exigência não me interessa e não dou-lhe sequer valor, restaria afastado o mínimo esforço para integrá-lo e, consequentemente, não me pressionaria para caber dentro dele. 

Portanto, toda e qualquer transformação que alguém nos sugestione a fazer deve ser previamente submetida à nossa análise e ao nosso consentimento. Até porque nem tudo que nos é apresentado precisa ser rechaçado de pronto. Há certos tipos de coisas que, apesar de serem difíceis, vale a pena a dedicação para nos ajustarmos a elas, desde que seja um íntimo desejo nosso. Assim, tem que valer para nós e não para quem nos propõe.

Se você olha para a sua própria imagem e ela não te atrai, sinto-lhe dizer que, querendo ou não, você terá que conviver com ela para o resto da vida. Para onde quer que vá, ela será sua companheira.

Entretanto, nada nos impede de provocar uma melhora aqui, outra ali, sem carregar o peso de uma culpa por pensar que ao fazermos isso estamos nos agredindo ou rejeitando. É perfeitamente compreensível que alguém se submeta a uma plástica no nariz, desde que não perca de vista que a importância de sua pessoa não reside na realização desse procedimento. Com o nariz afilado ou não a capacidade de sentir os cheiros continua a mesma e é nisso que mora a relevância em tê-lo. São os sentidos que nos dão a dimensão dos seres e das coisas e não a forma mais ou menos estética como as partes do nosso corpo estão dispostas. 

Ocorre que quando afirmamos algo com base no pressuposto de que determinada coisa acontece conosco, costumamos ouvir como resposta que o mundo não gira em torno de nós e, por isso, não podemos ter certeza de algo embasando pura e simplesmente na nossa própria experiência. É um argumento válido, entretanto com ressalvas. Conquanto, partindo da observação de nós mesmos, pela prática do autoconhecimento, é bem provável que consigamos desvendar aqueles que nos são iguais em natureza e desgraça.

E uma das mais evidentes desgraças humanas é a prática da comparação. É ela quem nos faz criar um padrão de beleza na cabeça e culpar os outros para nos imiscuirmos de nossa própria sentença, alegando que é a mídia ou qualquer outro canal que se nos impõe, como se alguém tivesse nos obrigando a qualquer coisa com uma arma apontada para a nossa cabeça. Nós é que carregamos nossa ditadura no bolso, como bem disse Nelson Rodrigues ao criticar os libertários.

Por exemplo, utilizando-me do poder ditatorial que exerço sobre mim mesma é que criei dois padrões de beleza dos quais não abro mão de seguir. O primeiro está relacionado à persecução de uma capacidade de raciocínio e de interpretação que me dê a vaidade de saber-me dotada de inteligência. O segundo refere-se ao aspecto físico e diz respeito a conseguir manter um corpo magro e funcional até a velhice, caso eu seja privilegiada com a conquista dos anos. 

Ninguém me obriga a tais coisas. Elas não são frutos de imposição de quem quer que seja. Trata-se de uma conclusão a qual cheguei tendo em vista o conhecimento a respeito mim mesma e que mostrou-me a importância e relevância dessas questões para eu me sentir melhor.

Claro que não estou imune a receber influências de pessoas que são referências nesses quesitos, mas  elas não me impõem nada e em momento algum desejo ser exatamente igual a elas. Posso admirar e almejar alcançar o mesmo que outros alcançaram, mas sempre com a consciência de que o faço por mim e por livre e espontânea vontade, respeitando a coerência entre aquilo que penso, acredito e coloco em prática. 

Há alguns dias, chamou-me a atenção uma entrevista em que uma mulher denunciava sofrer ataques de gordofobia e lamentava a capacidade de as pessoas a julgarem pela sua figura externa. Ao final, a entrevistadora lhe perguntou se estava satisfeita com o atual corpo, ao que ela respondeu: “Não. Nunca estou.” 

Pareceu-me estar incomodada com os ataques vindos de pessoas totalmente desconhecidas, porque carrega dentro de si o próprio código de beleza inalcançável. Trata-se de uma mulher, ao meu ver, bonita, que sempre trabalhou expondo o corpo, mas que se recusa a admitir o valor que dá à aparência. Não vejo qualquer mal em cultivar um corpo que se considere belo e em reconhecer que se valoriza isso, ainda que para os outros possa parecer uma mera futilidade. O ruim é mentir quanto a isso para que não nos rotule. Não adianta, pois a mentira que contamos para nós mesmos é sempre a mais difícil de lidar e a mais propensa a nos causar problemas de todas as ordens. E um desses problemas é esconder de nós o que em nós nos desagrada ao tempo em que fingimos uma aceitação.

A comparação só é digna se feita em relação a uma mesma pessoa em períodos variados de sua vida. Posso comparar o que fui ao que sou e a partir daí traçar uma linha imaginária que me dê o dimensionamento do quanto evoluí, sob diferentes critérios. 

Há cerca de três anos vivia uma vida de sedentarismo, maus hábitos alimentares que me renderam muitos quilos a mais,  indecisão quanto a publicar ou não minhas ideias. Atualmente, faço exercícios físicos diários, mantenho uma alimentação regrada, escrevo textos e publico. Portanto, comparando-me àquela que fui penso estar vivendo de modo mais satisfatório. Contudo, jamais poderia colocar outra pessoa como parâmetro a fim de medir o meu próprio progresso.

É impossível agradar todo mundo, quer pela nossa aparência, quer pelo modo de pensar ou agir. O que me impressiona é ver como alguns reagem a críticas enunciadas por pessoas as quais ignoram ou que não fazem a menor diferença em suas vidas. Leandro Karnal diz que, diante de uma ofensa, só uma reação é possível: não abraçar a ofensa. Ou a pessoa está falando uma mentira e, por isso, não precisamos nos ofender por se tratar de mentira. Ou a pessoa está falando uma verdade e não devemos nos ofender tendo em vista que é verdade.

Se alguém diz que estamos fora do padrão de beleza e isso nos incomoda é porque está na hora de refletir sobre se é realmente uma imposição do outro ou nossa.

Pois que ninguém me diga como devo ser. E se disser, falará ao vento, pois simplesmente não darei ouvidos, a menos que eu concorde.

O dia em que as mulheres descobrirem o poder de uma verdadeira aceitação de si mesmas, o dia em que elas assumirem que o jeito como estão vivendo não lhes agradam e que é preciso realizar pequenas ou drásticas mudanças para melhorarem suas vidas por disposição da própria vontade, o dia em que se aperceberem em sua totalidade de seres dotados de corpo e alma, pararem de olhar para o lado e de se comparar a outras, começarem a praticar o autoconhecimento e descobrirem que as únicas imposições são aquelas que elas próprias emanam ou se submetem é que vão começar a entender o que significa a liberdade.

Mas que não restem dúvidas. A liberdade exige coragem e uma disposição para viver de forma coerente ao que se pensa, sem precisar bradar aos quatro cantos, mostrar os peitos, praticar heresia, destruir monumentos públicos ou ofender diretamente as autoridades. 

Nunca me autointitulei feminista, primeiro porque tenho horror ao termo. Acho brega a forma como hoje ele é empregado. E, depois, porque não gosto de falatórios vãos e inúteis, mas de viver de tal modo que a minha liberdade seja a prova viva de que faço o que sinto vontade

E, depois, não gosto que falem mal dos homens em sua generalidade, pois quase tudo que aprendi da vida veio até mim pela capacidade de criação que é, a meu ver, preponderantemente masculina. Na qualidade de mulher, estou muito mais preocupada em saber se estou bem maquiada do que em ficar construindo naves, aviões, prédios ou poemas.

Nem os homens, nem a mídia, nem ninguém nos obriga a seguir algum tipo de padrão de beleza, a menos que não esteja sedimentado em nossa mente o que devemos ser a partir da avaliação do nosso próprio julgamento consciente.

A liberdade sexual matou o desejo.

Luiz Felipe Pondé, no livro A filosofia da adúltera, diz que o segredo do mundo encontra-se entre as pernas das mulheres. Apesar de essa declaração soar um tanto hiperbólica, diante de um cenário de extrema liberdade sexual, creio que em outros tempos os homens se esforçavam e muito para revelar esse segredo.

Meu avô presenciou o começo da liberdade da mulher e do sexo e lembro-me de vê-lo assistir a programas de televisão, com mulheres seminuas rebolando diante do zoom das câmeras, e ele bradava em alto tom que não passavam de vagabundas e sem vergonhas.

Acredito que esses adjetivos eram utilizados em sua ignorância não para definir o caráter ou a honra daquelas mulheres, mas como um grito de espanto por estar diante de visões que outrora devem ter custado-lhe muito o acesso.

Quando rapaz, a única oportunidade que tinha de ver mulheres nuas era quando ficava escondido enquanto elas tomavam banho no rio. Portanto, o contato com a nudez representava uma prévia visualização do céu. As mulheres nuas eram as Evas do Paraíso de meu avô.

Entretanto, essa visão era fruto de uma conquista. As mulheres não se lhes apresentavam nuas por vontade consciente e isso fazia com que elas fossem bem mais desejadas do que aquelas que se exibiam em sua frente sem o pudor de serem vistas sob quaisquer ângulos.

Hoje não é preciso ficar escondido atrás de moitas ou portas para ver mulheres sem roupas. Elas se despem por conta própria e a atenção à nudez é a mesma que se dá àquelas carnes dependuradas nos açougues.

Não que eu defenda a ideia de que as mulheres andem de burca. Eu mesma não o faço. A única questão que trago aqui é que a nudez altamente exposta e a oferta demasiada de sexo são fatos que conduzem à mortificação do desejo, pois como dizia meu avô “o que não é visto, é desejado”.

A exposição do corpo de forma gratuita e sem reservas é uma das causas de quebra de atrativo entre duas pessoas. Somos movidos por conquistar aquilo que nos parece inalcançável ou difícil e não damos nenhum valor para as coisas que estão ao alcance de nossas mãos.

A emancipação da mulher deu-lhe maior liberdade de pensar e agir, conquista de direitos, acessos a postos jamais imaginados, mas também lhe rendeu a perda da feminilidade e da atratividade perante os homens. Cada vez mais eles perdem o interesse sexual pelas mulheres.

O desejo é aumentado quando em volta dele ronda o fantasma da proibição. Por isso, as histórias envolvendo amantes sempre foram mais interessantes que aquelas narrativas cujo enredo permeia o cotidiano tedioso de um casal comum. O encontro entre os amantes é marcado por culpa, ideia de pecado e segredo, todos conhecidos como fortes intensificadores do prazer e aliados da vontade.

A liberdade sexual mata o desejo na medida em que a facilidade do sexo, a desnecessidade da conquista e do esforço nos mantém inertes e o sexo só sobrevive no movimento que começa na alma e percorre todo o corpo.

O sexo livre e fácil é um dos assassinos do tesão. Não é à toa que as relações conjugais têm como uma de suas consequências a escassez sexual. O fato de duas pessoas compartilharem o mesmo teto afasta a expectativa do encontro, da surpresa e da novidade. No casamento, um está para o outro de forma previsível e rotineira, evidenciando todas as situações desagradáveis que, ao tempo do namoro, esforçavam para esconder.

Os homens não mais se interessam pelas mulheres, não as olham e muito menos as querem, pois há coisas mais árduas e que demandam muito mais tempo para conquistarem. Hoje, o objeto da caça dos homens está longe de ser uma mulher.

Elas se tornaram desinteressantes para eles e para elas mesmas, pois é a partir da consciência que uma mulher tem de que um homem lhe deseja que ela se sente verdadeiramente uma mulher no sentido primitivo do termo. Sem essa certeza do desejo que provoca no outro, a mulher pode-se dizer assexuada.

Por que fazemos o que fazemos?, de Mário Sérgio Cortella.

Como você se sente quando seu despertador toca bem cedinho na segunda-feira e você sabe que vai ter que levantar e se aprontar para mais uma semana de trabalho? O ato de sair da cama te anima ou te desespera? A depender da resposta que pensou, ela será capaz de demonstrar se está contente ou descontente com a atividade profissional que executa.

Neste livro, Cortella nos fala sobre propósito, cujo significado tem a ver com “aquilo que eu coloco adiante”.

Até um tempo atrás, o trabalho era visto apenas como um modo de sobrevivência, um instrumento por meio do qual obtínhamos uma contraprestação extremamente necessária para nos suprir de coisas que evitassem o nosso perecimento. Trabalhávamos para ganhar dinheiro e sustentar a família e, quanto mais elevada fosse a pecúnia, mais satisfeitos ficávamos. O propósito porque trabalhávamos era para conseguir manter a nossa continuidade. Nessa época, a vida era muito menos complexa e só queríamos sobreviver.

Entretanto, os tempos mudaram. Hoje, estamos bem mais exigentes em nossas necessidades. Não queremos trabalhar apenas para ganhar dinheiro, mas também para gozar de uma certa realização que nos demonstre a nossa importância e o nosso valor.

Realizar tem o sentido de “tonar real”, mostrar a mim mesmo o que sou a partir daquilo que faço – diz Cortella. Estamos em busca dessa realização e, por isso, não queremos mais ocupar um emprego onde fazemos apenas o que nos mandam sem entender o motivo de o estar fazendo. Queremos realizar as atividades de modo consciente e nos recusamos à alienação. Queremos produzir, mas com a compreensão do que e do por que estamos produzindo. Recusamo-nos a ser apenas uma ferramenta para que as coisas aconteçam.

Também valorizamos o reconhecimento. Re-conhecer é a possibilidade que temos de nos conhecer naquilo que fazemos. Para explicar melhor essa ideia, Cortella se utiliza dos ensinamentos de Hegel, filósofo alemão, que diz que nós só nos reconhecemos naquilo que fazemos. “Quando eu faço algo, eu me “re-conheço”, isto é, eu conheço a mim mesmo de novo. Já para Marx, o reconhecimento vem da necessidade intrínseca que nosso espírito tem de se mostrar.

Daí vem a necessidade que alguns sentem de executar atividades que sejam autorais. Essas, são aquelas que, uma vez exteriorizadas, carregam a nossa marca e são capazes de fazer com que nos percebamos nelas. “Eu me vejo fora de mim quando tenho minha obra feita.”

Nem todas as profissões permitem esse reconhecimento, quer na visão hegeliana ou marxista. Isso pode nos levar a um total desânimo ou frustração que impede de continuarmos a exercer nosso trabalho de forma motivada.

A motivação é algo de cunho totalmente interno. As pessoas podem nos estimular e nos fazer enxergar pontos ou situações que não estavam tão visíveis para nós. Mas, a motivação depende de um motivo e este é de caráter totalmente intrínseco. Sem motivação é difícil levar qualquer ideia ou projeto adiante e com entusiamo.

Trabalhar motivado é o melhor dos mundos e para isso é muito importante que se tenha um propósito. Por que fazemos o que fazemos? Sem a resposta a essa pergunta, certamente caímos numa angústia ou vazio por acharmos que estamos perdendo tempo, enquanto poderíamos estar muito mais alegres na companhia de nossos familiares. No entanto, se trabalhamos para ter dinheiro para alimentá-los, vesti-los, dar educação aos filhos, gozar de viagens ou de momentos de lazer com eles, esse pode ser o propósito, ainda que se tratem de questões ligadas ao reino da necessidade e não da liberdade.

Não é muito fácil conciliar esses reinos. E, a depender da atividade que exercemos, fica praticamente impossível atuar com liberdade. Como tento conciliar essa situação, uma vez que meu trabalho me oferece pouquíssima margem para a criatividade? Resolvi abrir um espaço para escrever sobre quaisquer assuntos que povoam a minha cabeça, sem quaisquer restrições que não sejam aquelas de meu próprio filtro. Posso escrever sem que o que escrevo passe pelo crivo de qualquer autoridade e, mais, sem que ninguém se aposse da autoria daquilo que me esforcei para realizar.

Trabalho porque preciso de dinheiro – é o campo da necessidade e, se não fizer isso, pereço. Quando escrevo, atuo com liberdade e aí tudo depende de minhas próprias escolhas. Se quero fazer um texto dizendo que não sou feminista e que acho que a criação é, preponderantemente masculina, como já o fiz, o máximo que pode acontecer é que eu perca seguidores ou leitores, mas isso em  momento algum faz com que eu pereça ou esmoreça. Na verdade, isso me leva a concluir por pensamentos que poderão subsidiar outras de minhas criações como aquela que estou desenvolvendo no sentido de que as pessoas que pregam tolerância são as mais intolerantes que conheço, porque a tolerância tão aclamada se esbarra com muita força contra aqueles que não pensam como elas próprias.

Para ter liberdade de escolha, antes é preciso estar bem alimentado, debaixo de um abrigo e em boas condições de saúde. O que me dá a liberdade de escrever é justamente o fato de ter um emprego que oferece um salário capaz de sanar as minhas necessidades básicas. Sem ele, estaria priorizando a luta contra a fome, a sede, a falta de teto, o frio e a doença. Ou seja, estaria imersa no campo da necessidade, sem vislumbrar a tão sonhada liberdade.

Realizar atividades autorais é muito gratificante. Ao final, todo esforço acaba sendo válido porque nos re-conhecemos naquilo, nos vemos ali. Estar diante de algo que tem a nossa marca é uma forma de não nos perdermos de nós mesmos. É um atestado que nós próprios nos damos de capacidade sensitiva, técnica, perceptiva e de criatividade.

Aquilo que somos se manifesta mais naquilo que fazemos do que na ideia que temos do que somos. Em Mateus é dito “A cada um segundo suas obras”. Esse é o motivo porque também temos filhos. Os pais se reconhecem neles. E há quem abra mão da procriação, porque se reconhece o suficiente em suas criações, como aconteceu com Van Gogh. Tanto a criação quanto a procriação conscientes provém da necessidade de alguém se ver fora de si.

Cortella diz que precisamos reinventar as razões pelas quais fazemos aquilo que fazemos. Ou melhor, o propósito. “Se esse propósito for tão somente ganhar dinheiro, então, não sofra. É para isso. Pronto.” Afinal de contas, não há mal algum trabalhar tão somente por dinheiro, desde que cumpramos com as nossas obrigações. Há outras formas de realização como, por exemplo, desenvolver outras atividades que nos levem a uma maior satisfação. Ou mesmo a ideia de que esse dinheiro pelo qual trabalhamos nos proporcionará ótimos momentos com aqueles que amamos.

Acredito que, mesmo quando não estamos totalmente motivados em nosso trabalho, podemos aprender e tirar muitas lições com as atividades que lidamos e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Além do mais, as empresas costumam oferecer muitos cursos para os empregados aprimorarem seus conhecimentos. Há também a possibilidade de transitar em diversos setores e em cada um deles é possível sair com uma imensa bagagem.

Estou há dez anos numa empresa e já fui lotada em quatro departamentos. Em todos eles consegui tirar muito proveito. Em dois anos de Corregedoria fiz quase quatrocentas horas de curso e analisei inúmeros processos. Essa mesma empresa permitiu que eu fizesse meu estágio da segunda graduação, em condições especiais, e talvez eu não tivesse essa oportunidade em nenhum outro local. E em menos de um ano na área de riscos já estou com mais de cem horas de cursos. Então, tudo isso acresce e engrandece o meu currículo e me prepara para experiências futuras.

“O trabalho ajuda a moldar as  nossas habilidades e competências. As atividades que realizamos contribuem para formar a nossa identidade profissional.”

Muitas coisas contribuem para a desmotivação das pessoas nas empresas. O retorno financeiro não é a principal delas, mas a falta de reconhecimento sim. Não adianta negar. Nós sentimos um gosto imenso ao receber alguma espécie de distinção. Isso mexe com a nossa vaidade e nos faz sentir importantes.

Talvez estejamos apenas de passagem por uma empresa, mas isso não nos exime de vivenciar essa experiência da melhor forma possível. Lembrando que, na vida, também estamos apenas de passagem. E não por isso precisamos viver de forma mais ou menos.

Pode ser que nosso propósito não coincida com as tarefas que realizamos. Talvez seja o momento de procurar uma outra alternativa que nos faça sentir melhores e mais motivados. Se o que fazemos não tem, ao nosso ver,  finalidade alguma, não precisamos ficar presos o resto das nossas vidas nessa situação. Podemos redirecionar e reordenar nossas ações em busca daquilo que realmente queremos.

Mas, nada do que viermos a fazer será recheado apenas com coisas prazerosas. “Não há prazer contínuo.” As coisas acontecem a partir de um esforço nem sempre agradável. Em tudo o que realizamos é preciso ter compromisso. Hoje somos muito hedonistas. Buscamos prazer em tudo. Mas, nem sempre faremos as coisas como e quando queremos. Ainda que eu ache muito prazeroso escrever, há um desgaste nessa atividade que, para mim, é compensado quando vejo o texto finalizado.

Entretanto, preferiria não ter que revisá-lo. Às vezes fico procurando a melhor posição para escrever. Os dedos, as costas, os braços doem… Passo horas pensando e raciocinando em detrimento de outras coisas as quais sacrifico, pois amo escrever. E preciso ler e estudar muito para aprimorar a escrita, porque faz parte de nós a pretensão por degraus cada vez mais elevados. Tudo tem seu custo. “No pain, no gain” (sem dor, sem ganho).

Os bons propósitos são aqueles que nos elevam. Cortella diz que queremos fazer coisas que nos engrandeçam para além do acúmulo de patrimônio ou mera remuneração. Queremos ser admirados. Queremos que nosso filhos se orgulhem de nós. Que eles queiram nos imitar.

Nem sempre estaremos satisfeitos e é bom que não estejamos mesmo. Porque a satisfação nos desumaniza, nos põe inertes e a vida está no movimento, na ação. O dia em que não mais agirmos é o começo de nossa morte.

Tem uma hora que é preciso decidir sob pena de se perder tempo e vida. É preciso optar, priorizar, redirecionar, reorientar nossas escolhas. Não podemos deixar para viver ou fazer algo importante apenas depois da aposentadoria, ou quando nos livrarmos do atual emprego, ou quando as despesas diminuírem.

Se tem vontade de escrever, escreva. Se quer pintar, pinte. Se quer compor, componha… Há pessoas que sempre quiseram escrever um livro e nunca sentaram para esboçar uma linha sequer. Há aqueles que querem falar de forma mais eloquente e jamais procuraram um curso de oratória. Há os que dizem precisar fazer uma dieta, exercícios físicos e todas essas promessas são renovadas anualmente sem que nada tenha sido feito. Não avançam nem mesmo um passo.

O desencanto e o desânimo para com o trabalho não podem constituir justificativas para desleixar em outras áreas. Muito pelo contrário, devemos nos dispor a estar bem para reverter o quadro que nos desagrada. De nada adiantará deixar-se entristecer. Cortella diz que podemos nos dar ao luxo de ficarmos tristes somente por setenta e duas horas. Depois, “é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.” Sabe por quê? Porque o contrário não nos ajudará em nada.

Vai ser preciso esforço, abdicação e renúncia, mas é o preço que pagamos para conseguir qualquer coisa. “Se você quer ir a um lugar diferente, você deve correr pelo menos duas vezes mais rápido que aquilo.” (Lewis Carroll). Entregar-se quando se tem condições para seguir em frente é um ato de covardia. E como bem diz Guimarães Rosa, “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

É preciso ter coragem para seguir em frente, crescer com os tombos da vida, aprender continuamente e encontrar caminhos. Cair faz parte, mas é preciso se reerguer. Cortella declara “Posso ter sido derrubado, mas sei que não fui dominado. Essa consciência me dá coragem.”

Encontrar o nosso propósito no trabalho e na vida nos reorientará e nos dará condições e motivações para caminhar com entusiasmo e alegria. Precisamos saber para onde queremos ir e por quê. Caso contrário, ficaremos perdidos a ver as sombras dos navios inalcançáveis que passaram por esse tempo pelo qual nós também havemos de passar.

Sobre não sentir saudades.

Surgiu-me pensar sobre esse assunto do momento em que percebi a ocorrência semanal, todas às quintas-feiras, de postagens, feitas por usuários de mídias sociais, de fotos ou vídeos com a expressão #tbt, que diz respeito a uma gíria popular com o significado de throwback thursday, cuja tradução pode ser entendida como quinta-feira do regresso. Ela é utilizada para ilustrar fotos registradas no passado que remetem a uma espécie de saudade.

Se os usuários são realmente autênticos em seus sentimentos saudosistas ou se encontram nesse dia apenas a oportunidade de publicar algo sob o argumento de o serem, não cabe a mim o julgamento. Ocorre que, diante de tantas demonstrações de regresso, coube a mim a pergunta: Por que não sinto saudade?

Nenhuma resposta me ocorre. Para melhor entender o significado do termo consultei um dicionário que informou-me se tratar de um sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar ou à ausência de experiências prazerosas já vividas.

Ainda insatisfeita, resolvi ir direto à fonte, ou melhor, à etimologia da palavra. Saudade vem do latim “solitatem“, que traduz-se em solidão. Existem variantes do termo, mas pareceu-me que esse chega mais perto do sentido que lhe damos.

Nos dizeres de Caroline Michaelis “saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade.”


Todas essas definições confirmam que o sentimento de saudade não ocupa o meu ser, quer por temperamento ou por qualquer outra coisa que eu mesma não sei explicar.

Muitas das coisas que vivi e pelas quais passei foram apagadas naturalmente da minha memória que nunca foi das mais acumuladoras. Esqueço facilmente os pormenores. Apenas os momentos de muito prazer ou muita dor foram por ela registrados. E mesmo assim, não tenho plena certeza de que todos nela permanecem vivos. Creio que não.

E não que tenha tido uma vida sofrida ou de muitos gozos. Acredito que transitei pelos extremos algumas vezes, mas sempre vivi no caminho do meio com alegrias e tristezas equilibradas. Encarei os acontecimentos que me sobrevieram de forma natural, sem muito alarde, sem muitas expectativas.

Segui pela vida vivendo um dia após o outro e acreditando que só temos pleno domínio sobre o agora. Isso não significa um desprezo pelo passado ou pelas origens ou pela minha ancestralidade. Tenho um enorme respeito por tudo o que passou, aprendi com os erros e vibrei os acertos, mas não viveria nada outra vez. Não repetiria um momento sequer. Tudo o que passou faz parte de mim e me faz ser quem sou, mas o que sou nunca mais será o que fui.

É essa certeza de uma renovação constante que me exime de desejar vivenciar hoje e repetidamente um acontecimento passado. Tenho plena consciência de que, uma vez dada essa oportunidade, ela não  mais seria acompanhada das emoções que outrora experimentei pelo simples fato de que já não sou mais a mesma.

Imagine que eu sentisse saudade do meu primeiro amor e pretendesse encontrá-lo hoje para reviver sentimentos e momentos passados. Seria impossível, pois nem sou mais a menina provinciana de quinze anos, nem ele é atualmente o homem mais apaixonante do mundo conforme imaginava quando nunca tinha conhecido nenhum outro.

O significado etimológico de saudade referindo-se à solidão também não me toca. A solidão não me deixa saudosa. Entendo a solidão como um estado em que se está em paz com a própria companhia sem desprezar aqueles que nos são caros. Gosto de estar com algumas pessoas, ainda que poucas, e se desejasse ser absolutamente sozinha não teria nem me casado. No entanto, prezo a solidão por achá-la luxuriosa.

Gosto da companhia de pessoas que amo e admiro, adoro estar com elas, mas quando estou sozinha envolvo-me com a minha presença, meus pensamentos, arrumo minhas coisas, organizo a casa, os livros, leio, escrevo, saio para almoçar, tomar um café, vou à academia, faço as unhas, arrumo o cabelo, preparo um chá, um café, assisto palestras, entrevistas, ouço músicas, vou à igreja, medito, enfim, faço tantas coisas que me ocupo toda. Eu me deleito e me alegro com tudo que me ofereço. Nesse momento, não sinto saudade de nada, pois estou totalmente imersa no mundo que criei para os momentos em que me encontro sozinha.

Nessas horas não desejo reviver coisas passadas. Mal tenho tempo de me lembrar delas tão absorvida que fico pelo instante em que me encontro. As viagens que fiz, se boas, o foram naquele tempo. Os amores que tive, se apaixonantes, valeram pelo quanto duraram. As pessoas que passaram pela minha vida, se me causaram contentamento, resta-me a gratidão em tê-las conhecido. Os avós que me deram tanto amor e que partiram deixaram-me a lembrança do quanto fui amada e privilegiada de tê-los tido. Meu pai, com quem tão pouco convivi, deu-me a dádiva da vida pela qual tenho-lhe agradecimento e respeito.

Contudo, o que sinto não é saudade. Às vezes, rememoro situações com eles vividas, mas nada comparado à uma espécie de melancolia. São lembranças alegres e totalmente despretensiosas de repetições. Talvez um outro nome coubesse, mas ainda não descobri qual seria.

Sigo sem desejo de gozar no futuro emoções passadas, simplesmente porque não estou mais lá. Mudei e mudo continuamente. Enfim, transformamos-nos todos os dias e a beleza dos encontros está no ineditismo, tanto dos indivíduos como da nova situação.

Certa vez, combinei de sair com uma antiga amiga, cujos laços de amizade haviam se afrouxado por alguns desentendimentos. Como nossos programas costumavam ser alegres e divertidos, resolvi convidá-la para um almoço, imaginando que fosse possível reviver as mesmas alegrias de outrora. O almoço se deu sem que uma conseguisse encarar a outra e a estranheza tomou conta daquele momento de uma forma constrangedora. Trocamos pouquíssimas palavras e foi o nosso último encontro. Já não éramos mais as mesmas e a amizade havia chegado ao fim. Ou seja, as minhas lembranças boas eram de outros tempos e por mais que tentasse repeti-las seria impossível.

Heráclito diz que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio,  pois na segunda vez o rio já não é mais o mesmo, nem tão pouco o homem.

Acredito que esse pensamento traduz claramente o sentido do que quero dizer quando afirmo não sentir saudade. Não sentir saudade nada tem a ver com a falta de amor pelas pessoas ou com a ausência de reconhecimento pelo passado vivido. Significa uma abertura cheia de espaços para as pessoas e os acontecimentos que hão de vir.

Não sentir saudade está muito mais relacionado com uma espécie de gratidão e uma sensação de ter aproveitado os momentos da melhor maneira possível. Se acredito ter vivido e me deliciado da companhia das pessoas até a última gota no momento em que com elas estive, não há mais porque voltar ao passado desértico.

Eu não sinto saudade. O que sinto é um desejo intenso de viver cada dia mais e melhor na minha própria companhia e daqueles que mais prezo. Sinto é a fome de vida que está presente no hoje. Nem no ontem. Nem no amanhã. Pois a minha consciência grita que a vida é sempre agora.

Um guia para saúde, de Mahatma Ghandhi.

Falar a respeito de saúde pressupõe que antes saibamos o seu conceito, com a finalidade de facilitar o entendimento do assunto tratado no livro. Assim, de maneira bem simplista, podemos considerá-la como a boa disposição física e mental que nos permite gozar de bem-estar. A palavra saúde deriva do latim salutis, que significa salvação e conservação da vida. Nesse livro, Gandhi não nos apresenta maneiras de curar doenças, mas sim, formas e meios de preveni-las. 

Ele não era um profissional da área de medicina, no entanto, passou vinte anos de sua vida observando os comportamentos que levam as pessoas a serem ou não saudáveis. Gandhi é bastante enfático ao afirmar que não podemos ser verdadeiramente felizes se não gozamos de saúde e a verdadeira saúde não pode ser conseguida sem um rígido controle do paladar.

A gula, inclusive, é considerada um dos sete pecados capitais que nos leva ao inferno. Não necessariamente ao inferno de Dante, lugar que só teremos a oportunidade de conhecer após a morte, caso julgados pecadores. As suas consequências podem ser desastrosas, ainda nesse plano terrestre, e uma delas é a possibilidade de adquirirmos doenças que, se não nos inviabilizam totalmente, têm uma enorme capacidade de limitar a nossa vida. 

A tentação da gula parece ser tão forte que o primeiro erro da humanidade se materializou com uma mordida na maçã. Caso Adão e Eva tivessem controlado o desejo pelo fruto teriam evitado todos os demais pecados. Talvez seja por isso que dizem por aí que se conseguimos refrear a boca é muito mais fácil controlar os demais sentidos ou vícios.

Também, encontramos na Bíblia vários trechos nos alertando para praticar a moderação na ingestão de alimentos e bebidas. Hipócrates, considerado pai da medicina, enunciou sua famosa frase: “Que seu alimento seja o seu remédio e que seu remédio seja seu alimento.” Mais uma evidência de que a forma como nos alimentamos pode evitar doenças e, consequentemente, nos auxiliar a preservar a saúde.

Ghandi diz que o único sistema de tratamento consistente é o que tenta remover a causa básica da doença, por meio de uma estrita obediência às leis fundamentais da saúde. Para ele, ter uma alimentação limpa e controlada, respirar ar puro pelas narinas, ingerir água, praticar exercícios físicos são extremamente importantes, assim como evitar os maus pensamentos, pois estes também são indícios de doenças.

Não somos guiados apenas pelo nosso corpo. A mente precisa ser saudável para gozarmos de saúde. Sobre o papel da mente em nossas vidas, ele declara:

“O homem se torna muitas vezes o que ele próprio acredita que é. Se eu insisto em repetir para mim mesmo que eu não posso fazer uma determinada coisa, é possível que eu acabe me tornando realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se tenho a convicção de que posso fazê-la, certamente adquirirei a capacidade de realizá-la, mesmo que não a tenha no começo.”

O poeta inglês José Milton diz que a mente pode fazer um inferno do céu ou um céu do inferno. Atualmente, há evidências científicas de que muitos sintomas e desordens físicas são ocasionadas pelos pensamentos doentios. Ainda, “o cativeiro ou a liberdade do homem depende de seu estado mental.”

Portanto, a doença não provém apenas de nossas ações, mas também de nossos pensamentos. Conhecer as leis fundamentais da saúde possibilita sua prevenção ao invés da remediação. “É melhor prevenir do que remediar.” Além do mais, sabemos os inúmeros efeitos colaterais que os fármacos ocasionam. Assim, é muito mais prudente evitá-los e perseguir uma boa saúde.

“Quando um frasco de remédio entra numa casa, jamais sai, e ainda atrai outros remédios em seu rastro. Vemos inúmeros indivíduos afligidos a vida inteira por uma ou outra doença, apesar de sua patética devoção aos remédios. Hoje se tratam com um determinado médico, amanhã com outro. Passam a vida toda na busca fútil de médicos sucessivos que os curem de vez.”

Se quando pensamos em saúde lembramos dos médicos, deveríamos procurá-los para um aconselhamento de como preservá-la. Entretanto, a medicina está focada em acabar com os sintomas das doenças, não em sua prevenção. Só nos dirigimos a um médico para falar sobre um problema já instalado e nunca para dizer a ele que estamos vendendo saúde e queremos saber tudo o que podemos fazer para permanecermos assim. 

Muitas vezes, os médicos dão diagnósticos baseados na subjetividade de quem enumera os sintomas, sem quaisquer exames que os comprovem. Em Brasília, qualquer mal estar é enquadrado como virose. Acredito que muitos médicos nem costumam perguntar aos pacientes o que eles comeram. Caso perguntassem, saberiam se tratar de uma infecção intestinal. Gandhi diz que, na maioria das vezes, a febre provém de intoxicação alimentar e que a primeira coisa que se deve fazer é suspender a alimentação do paciente e, depois, inserir alimentos mais leves, a exemplo de frutas, vegetais e legumes, bem como água. Também, deve-se orientar a respirar ar puro para que a saúde seja tão logo restabelecida.

Aqui não se está abominando os médicos. Eles são importantes, entretanto nem sempre é necessário recorrer a ajuda de um profissional, mas apenas mudar os hábitos que nos conduzem ao adoecimento.

“(…) tanto quanto possível, reveste tua própria alma de paciência e não perturbes os médicos. Se obrigado a buscar a ajuda de um, certifica-te de que ele seja um bom homem; então, siga estritamente suas orientações, e não busques outro médico, a menos que seja a conselho do primeiro. Mas lembra-te acima de tudo que curar tua doença não está, primordialmente, nas mãos de médico nenhum.”

A saúde completa é muito difícil de ser conseguida, pois ela envolve todo um equilíbrio dos sistemas físico e mental. “O corpo que contém uma mente adoecida só pode ser doente.” Não estamos livres de preocupações, medos, angústias, tristezas prolongadas, ansiedades e pânicos. Todas essas emoções, se desequilibradas, têm uma enorme capacidade de adoecer o corpo. “(…) pensamentos e paixões ruins são diferentes formas de doença.”

A alma e o corpo são interdependentes. Assim, quaisquer manifestações que afetam um, consequentemente afetam o outro. A alma é imaterial e sem forma. O corpo é palpável e feito de osso, pele, carne e sangue. Nosso corpo é composto de cinco elementos – terra, ar, água, fogo e éter.

Ghandi diz que a parte mais importante do corpo é o estômago, pois ele é o órgão responsável por digerir a comida e nos fornecer a nutrição que precisamos para viver. E por falar em estômago, há pesquisas que estão se referindo a ele como o segundo cérebro. Há uma intensa ligação entre o estômago e o sistema nervoso. Alguns distúrbios mentais, como a ansiedade, são intensamente sentidos pelo estômago, culminando em gastrites e até úlceras. Mais uma vez, há evidências de que os transtornos da mente afetam visivelmente o corpo.

O principal agente de manutenção do sangue e da vida é o ar. O oxigênio que inalamos purifica o nosso sangue. Daí surge a importância de se respirar ar puro pelas narinas e não pela boca, pois dentro da cavidade nasal há um filtro que não deixa passar impurezas para dentro do organismo. Não há essa filtragem quando respiramos pelo órgão bucal. O ar é tão importante que não conseguimos ficar nem cinco minutos desprovidos dele.

Na civilização moderna é um tanto complicado respirar esse ar puro ao qual Ghandi nos orienta. Sendo assim, podemos pelo menos fazer o possível para que nossa casa seja bem limpa e arejada. Também, esforçar-nos por fazer uma caminhada em locais abertos, rodeados por vegetação e longe de carros, onde seja possível respirar um pouco o ar livre.

“(…) respirar ar fresco dia sim, dia não. Temos geralmente o hábito pernicioso de nos confinarmos à casa ou ao escritório o dia inteiro, com todas as portas e janelas fechadas. Na medida do possível, devemos permanecer ao ar livre em todos os momentos; ou, ao menos, dormir na varanda, ou ao ar livre. Os que não podem fazer isso deveriam manter portas e janelas do quarto totalmente abertas em todas as horas. O ar é o nosso alimento em todas as vinte e quatro horas.”

Confesso que gostava de ficar em casa com janelas fechadas e, automaticamente, mudei esse hábito depois da leitura desse livro. Agora, mantenho todas as janelas abertas e deixo entrar ar e luz à vontade. Fico imaginando o quanto nosso ambiente de trabalho é prejudicial à nossa saúde. Além de ficarmos confinados, ainda sofremos a incidência direta dos ar condicionados que, embora necessários, não são nada saudáveis. Volta e meia contraio sinusites, rinites e laringites. Sem falar na luz artificial a que somos submetidos durante todo o dia. “(…) o inferno é representado como completamente escuro. Onde a luz não penetrar, o ar jamais será puro.”

“(…) muitos médicos na Europa curam seus pacientes apenas com banhos de ar e de sol. Milhares deles têm sido curados apenas pela exposição ao ar e luz solar. Devemos manter todas as portas e janelas de nossas casas sempre abertas, a fim de permitir a entrada do ar e da luz.”

A água também é indispensável para a nossa existência. Nosso corpo é composto de 70% desse elemento. Devemos ingerir água potável. “(…) se continuarmos bebendo água impura, não devemos nos surpreender do nosso sangue acabar envenenado.”

Além do ar e da água, o corpo precisa de comida para sobreviver. (…) devemos comer apenas para preservar a saúde, não mais que isso.”

Ghandi é incisivo quando se refere à alimentação. Ele diz que devemos comer tão somente para apaziguar a fome. “O homem se considera o animal superior da criação e passa dias cultuando seu próprio estômago, comportando-se pior que os outros animais.”

Para ele, somos todos submissos ao paladar e não consideramos que comer demais seja um pecado. Toda festividade é envolta a massas, doces e gulodices. As pessoas comem sem parar, sem vergonha e acham bonito. “Temos cultivado noções tão falsas sobre a alimentação que não percebemos nossa servidão e bestialidade.”

A bebida também é altamente condenada e Ghandi a considera um veneno que destrói vidas e famílias. “O bebedor abandona sua sanidade e esquece a diferença entre mãe, esposa e filha. A vida se torna um mero fardo para ele. Até homens de juízo se tornam desamparados autômatos quando bebem; mesmo quando não estão de fato bêbados, suas mentes se mostram impotentes para funcionar.”

O tabaco constitui outro produto deplorável e que corrói a saúde das pessoas. Fumar é um dos vícios mais difíceis de serem abandonados e os cigarros estão cada vez mais tóxicos, a fim de fazer com que os usuários tenham dificuldade em deixá-los. As indústrias precisam trabalhar penosamente para fazer com que os fumantes fiquem viciados, pois além de serem obrigadas a estampar os efeitos danosos no rótulo dos produtos, todos sabem que não há benefício algum em consumi-los.

Chá, café e chocolate também são danosos à saúde. “Há uma espécie de veneno em todos eles. A evidência de que essas três bebidas sejam venenosas está no fato de que, após tomá-las uma vez, o indivíduo nunca mais passa sem elas.”

E qual seria a melhor maneira de nos alimentarmos?

Uma delas é a dieta vegetariana. “(…) o homem foi feito para viver de raízes e frutos, e não carne.” É importante ingerirmos mais alimentos crus, pois o processo de cozimento destrói muitos dos nutrientes.

Ghandi diz estar convencido de que a dieta de frutas é a melhor para nós e cita demasiadamente a banana-da-terra, a maçã e o limão como excelentes frutos. O leite e a carne devem ser evitados ao máximo. As leguminosas podem ser consumidas com prudência, mas ele as consideram pesadas. O consumo de vegetais é aconselhável, embora sejam menos nutritivos que as frutas. A farinha branca, o pão vendido nas lojas e o arroz são considerados inúteis. A ingestão de temperos deve ser bastante reduzida, bem como o sal e o açúcar. “É tolo consumir açúcar por si só.”

O azeite de oliva é um bom nutriente, bem como a amêndoa.

“A carne não é o alimento natural para o homem. Ela gera o mesmo tipo de ácido no corpo que as sementes leguminosas. Leva à queda dos dentes e ao reumatismo; produz sentimentos ruins como a raiva, que são também formas de doença.”

Quanto à quantidade de comida, deve-se fazer o menor número de refeições possíveis. É importante comer apenas o necessário, mastigar demoradamente e ingerir os alimentos mais saudáveis. A comida  não deve ser considerada como uma fonte de prazer. Devemos nos esforçar diuturnamente para não sermos glutões.

Outra coisa de extrema importância é a prática de atividade física. “Sem fazer exercícios regularmente ninguém pode ser saudável.” Ghandi diz que a mente fica tão enfraquecida pela falta de exercício quanto o corpo, e uma mente fraca é uma forma de doença. Ele sugere que façamos caminhada: “Caminhar movimenta cada porção do corpo e assegura a circulação do sangue.”

Sugere que vistamos roupas frescas e confortáveis e andemos descalços. E ousa dizer que as relações sexuais devem ser evitadas, pois elas levam a um esgotamento de nossa vitalidade. Para ele, uma mulher, a partir do momento da concepção, não deve manter relações sexuais, como forma de preservar ela própria e a criança. E se der vontade de fazer sexo? É só tomar um banho de água fria.

Coincidentemente, sempre achei que a mulher não deveria fazer sexo durante a gravidez e não me perguntem por quê. A Bíblia deixa claro que Maria e José não se aproximaram intimamente até o momento do nascimento de Jesus.

Ghandi discorre sobre tratamentos de saúde por meio do ar, da água e da terra. Sobre a febre, diz que a maioria é causada por problemas intestinais e a primeira precaução consiste em suspender a alimentação do paciente.

Ele considera como sendo as leis da saúde: “viver ao ar livre, comer alimentos saudáveis e com moderação, fazer exercício, manter sua casa arrumada e limpa, evitar maus hábitos e, em suma, levar uma vida de completa simplicidade e pureza.” E complementa: “(…) sob nenhuma circunstância cedam ao pânico, pois o medo paralisa os nervos e aumenta o perigo da letalidade.”

O autor dedica um capítulo ao tema da maternidade e do parto e diz que a mulher deveria ser levada a perceber que o caráter do filho que nascerá vai depender inteiramente do tipo de vida e de conduta da mãe no período da gestação, o qual ele considera sagrado.

“Nesses nove meses, a mulher deveria se engajar constantemente em boas obras, libertar a mente de todo o medo e preocupação, não dar espaço aos maus pensamentos ou sentimentos, deixar de lado todas as inverdades de sua vida, e não desperdiçar um momento em conversas ou feitos ociosos. O filho que nascer dessa mãe inevitavelmente será nobre e forte.”

E onde fica o marido nessa história? Ele deve evitar discussões com a esposa e deixá-la animada e feliz.

Após o nascimento, deve-se dedicar cuidados especiais à criança. A mãe deve manter uma alimentação saudável, pois tudo o que ela ingere passa para a criança pela amamentação. O bebê deve tomar banho morno e usar pouca roupa ou quase nenhuma. Ele deve ser gradualmente habituado a comer frutas para conservar a pureza do sangue e passar bem longe de açúcar. A depender da comida que dá para o seu filho você está, mesmo que involuntariamente, envenenando o organismo dele.

“O uso de sapatos impede a circulação livre do sangue e o desenvolvimento de pernas e pés fortes e vigorosos. Vestir a criança de seda e rendas, boné, casaco e ornamentos é uma prática bárbara. A tentativa de realçar por esses meios ridículos a beleza dada pela natureza só expõe nossa vaidade e ignorância.”

Entupir o filho de comida e ameaçá-los com punições são hábitos que revelam a falta de educação dos pais. “Se os pais são fracos, seus filhos crescerão fracos e frágeis; se os pais falam clara e nitidamente, os filhos aprenderão a fazê-lo. Se os pais dizem palavrões ou estão viciados em maus hábitos, os filhos os imitarão, desenvolvendo um mau caráter. De fato, não há campo algum da atividade humana no qual os filhos não imitem o exemplo dos pais.”

Eu quem o diga. Vejo-me fazendo as coisas de forma exatamente igual ao que via e vejo minha mãe fazer. Apesar de ter saído da infância, continuo, às vezes inconscientemente, a imitá-la. Até as coisas que nela eu condenava, como colocar a comida no prato para o marido, faço exatamente igual. É impressionante como os filhos reproduzem as ações de seus pais.

“É um solene dever de todos os pais virtuosos modelar seus filhos de um modo nobre. Isso requer que tanto o pai quanto a mãe tenham recebido eles próprios uma sólida educação.”

Toda transformação exige autodisciplina, inclusive no sentido de praticar as leis da saúde. Tê-la é essencial para vivermos bem dispostos e mais felizes. Lembrando que precisamos ter o corpo e a mente sãos, uma vez que eles estão intimamente conectados. “Devemos livrar nossas mentes das más paixões, como raiva e medo, confiar no poder salvador de um vida pura e devota e permanecer tranquilo na fé que estamos sempre nas mãos de Deus, pois o expectro da vida que Ele nos permitiu pode ser diminuído ou excedido.”

Por fim, devemos nos empenhar para sermos senhores do nosso corpo e de nossa alma se queremos gozar da verdadeira felicidade.

Não chame o seu filho pelo nome.

A coisa que mais lhe entristecia e que foi a mim confessada com grande pesar era de que a sua mãe nunca o havia chamado de filho. A falta de convívio com o pai parecia não constituir motivo de lamentação, no entanto, apesar de todos os dias estar na presença materna, esse fato diminuía a importância simplesmente por nunca tê-la ouvido chamá-lo de filho.

Quando foi dada a ele a oportunidade de ser pai, a cada dez palavras que enunciava para se dirigir à sua filha, onze eram “filha”. Inconscientemente, parecia querer compensar o chamamento que a própria mãe lhe negara.

Digo, pois, a mãe sempre será a pessoa mais importante na vida de alguém e tudo o que ela é, diz, sente ou faz terá impacto na vida de seus filhos.

O poeta Fernando Pessoa lamentou profundamente não ter convivido com a mãe, e confessou que, por não ter experimentado o amor materno, nunca conseguiu se sentir amado por mais ninguém. O pintor Van Gogh quase enlouqueceu por sua mãe rejeitá-lo e não reconhecê-lo como artista. E a escritora Clarice Lispector, que fora concebida devido à crença de que, uma vez estando doente, a mulher poderia engravidar e, em consequência, ser curada, queixou ter nascido e fracassado no atendimento da única missão para a qual fora gerada – salvar a mãe.

Ela escreveu:

Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava a mulher de uma doença. Então, fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei a minha mãe. E sinto até hoje essa culpa: fizeram-me para uma missão e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido e vê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo.

A mim, chegam várias histórias, algumas das quais acompanhei de perto, de pessoas que desenvolveram distúrbios de diferentes ordens, como carência excessiva, pânico e depressão, pelo fato de terem se sentido rejeitadas, renegadas ou afastadas do amor, pertencimento ou proteção de uma mãe.

Dra. Filomena Camilo, médica pediatra que também ministra palestras sobre criação e educação de crianças e adolescentes, declarou que a raiz de quase todos os problemas advindos deles parece residir nas relações que estabelecem com os pais, sobretudo com as mães.

Uma mãe com força, firmeza e bravura tem muito mais chance de criar filhos fortes e saudáveis do que uma mãe fragilizada, ansiosa e indecisa. E por incrível que pareça, esses sentimentos já são repassados desde o ventre, onde mãe e filho são apenas um e tudo o que constitui alimento para ela, alimenta também a ele. Até uma certa idade, o filho nem mesmo consegue individualizar-se da mãe. Ele acredita que os dois são um só.

Essa sensação de pertencimento, ainda quando crescidos, acompanha-nos durante a vida. Um filho pertence à mãe e qualquer mácula a essa condição fragiliza um ser de um modo ou de outro.

Para todas as demais pessoas somos aquilo que o nosso nome diz sobre nós. Dão-nos um nome para sermos diferenciados e ele passa a nos caracterizar muito mais pelas coisas que exteriorizamos do que pelo o que somos.

Quando pronuncio meu nome em voz alta não me reconheço nele e nem consigo me encolher para caber naquilo que me é apresentado pelo mundo. Mas quando minha mãe enuncia “Filha”, tenho plena certeza de que pertenço a ela e isso me dá uma sensação de porto para o qual retornar e ancorar todas as vezes em que me fecham as portas, pois o meu primeiro pensamento é de voltar para aquela que, em meio a dor, abriu-me os caminhos.

É estranha para mim a ideia de que minha mãe me chame pelo nome, cujo registro se encontra numa folha de papel destrutível, pois que só a ouço chamar-me de filha durante todo o tempo.

É importante que a mãe pronuncie “Filho” ou “Meu filho” para que ele não se sinta deserdado do exclusivismo de pertencer àquela que o gerou.

Não chamamos as nossas mães pelo nome. Só de pensar em assim proceder soa um tanto estranho. Presumo, pois, que há estranheza no fato de uma mãe chamar por seu filho utilizando-se do mesmo nome que os demais, sem qualquer distinção que o qualifique, individualize ou diferencie.

Dizemos que Deus enviou o seu único filho para nos salvar e não que nos enviou Jesus. Este se apresentou como filho de Deus e estendeu a todos nós essa condição com a evidente intenção de nos dar pertencimento. Da mesma forma, referia-se a Deus como “Meu pai”. E quando nos ensinou a orar, deu início com a expressão “Pai nosso…”.

Tudo isso evidencia a necessidade que temos de pertencer e de ter uma referência. Quando me chamam pelo nome que há registrado num objeto, sinto que tenho a obrigação de representar os papeis que exerço para atender a esse nome que me deram.

No entanto, quando ouço minha mãe chamar-me simplesmente de filha, dispo-me de todas as máscaras e me transformo naquele ser sem adornos que saiu do seu ventre e retorna completamente purificada e nua ao seio daquela que será sempre a grande mãe.

Ney Matogrosso, Vira-lata de raça.

“Quero ser lembrado como uma pessoa que defendeu a liberdade e espero, sinceramente, que enxerguem na minha vida o reflexo dessa liberdade.”

Rumo ao encerramento do livro, Ney Matogrosso também afirma: “Quero ir em paz, na hora que tiver que ir, e no meu epitáfio estará escrito assim: “Viveu livre!”

Talvez a palavra mais mencionada no livro Vira-Lata de Raça seja liberdade. Esse termo define a vida e a obra desse artista grandioso, bem como o seu corpo e o seu espírito.

Ney de Souza Pereira, Ney Matogrosso ou simplesmente Ney. Talvez ele dissesse: “Deem a mim o nome que quiserem. Andrógino, viadinho, bicha, híbrido…”

Nada o limita nem o aprisiona, pois ele não se deixa enquadrar, definir, classificar. Ney é bicho solto, um vira-lata, mas não um vira-lata qualquer. Ele é de raça.

Ney é animal livre. Filho de um militar conservador e “cabeça-dura”, confessa que sempre teve problemas de relacionamento com o pai que o reprimia e o discriminava. Desde a infância, o pai parece ter notado no filho uma sensibilidade malvista nos homens e diante disso insistia em ofendê-lo.

Relembra o episódio em que seu pai o chamou de viadinho, sem que ele, criança, soubesse sequer o significado do termo.

Embora desconhecesse, respondeu como que intuitivamente: “Não sou viado, mas quando for o Brasil inteiro vai saber!”

Seu pai era Antônio Matogrosso Pereira, a maior autoridade que Ney Matogrosso enfrentou em toda a sua vida.

Ney diz ter nascido transgressor graças ao pai que teve. As transgressões primeiras ocorreram  em sua própria casa, onde contestou, desde muito cedo, o seu progenitor.

Quando criança, Ney se encantou pelas artes. Gostava de pintar. Seu pai tratou de avisar: “Não quero filho artista! Filho meu nunca será artista.”

Ele pintava mesmo assim. Quando não tinha material adequado, pintava num papel de pão ou no chão.Todas as limitações eram por ele transpostas, numa atitude de não aceitação à realidade que se impunha.

Quando a relação com o pai ficou insustentável, Ney resolveu sair de casa. Conta que chegou a dormir duas noites nas ruas do Rio de Janeiro por não ter para onde ir.

Depois, entrou para a Aeronáutica e, mais tarde, mudou-se para Brasília, onde trabalhou por um tempo no Hospital de Base.

Foi na Aeronáutica que, pela primeira vez, viu dois homens másculos se abraçando, numa cena em que ele diz ter sentido transbordar amor. Ah, então dois homens podiam? Juntando essa cena com aquela da infância em que, ao se confessar, o padre lhe perguntara se havia feito “saliências” com meninas ou com meninos, ficou claro que dois homens podiam se amar de todas as formas, de corpo e de alma.

No Hospital de Base, trabalhou com lâminas para fazer biópsia e com crianças em estágio terminal de câncer. Foi neste lugar o seu primeiro contato com a morte, a finitude. Espanto! Ney vê um cadáver aberto, fica alguns dias sem conseguir comer nada, assustado, mexido, virado.

As crianças que deixava vivas num dia, no outro já não estavam mais lá. A morte existe. A finitude é real. Mais tarde, Ney conviveria com muitas outras mortes, rápidas, constantes, dolorosas. Mais tarde, perderia muitos de seus amigos e pessoas próximas “tocados” pela AIDS.

Quando Ney se mudou para Brasília, em 1961, a cidade tinha acabado de surgir. Brasília era uma recém-nascida. O salário era três vezes maior que no restante do país. Pagava-se mais para atrair as pessoas. Era preciso povoar o território. Por outro lado, o comércio era escasso. Ney conta que pegava o dinheiro que ganhava e jogava para cima. Para que ganhar mais e não ter onde gastar?

Dinheiro nunca foi a “pegada” dele, nem a sua meta, nem o seu fim.

Ney demonstra um total desprendimento com tudo, menos com sua verdade e liberdade.

Sobre sua passagem por Brasília, considera que foi um dos períodos mais especiais de sua vida, que cresceu como ser humano, passou a ganhar seu próprio dinheiro e ter condições de alugar um quarto num apartamento, a ser independente.

Em Brasília teve consciência de sua sexualidade, liberdade para escolher com quem dividi-la, sem o peso da culpa cristã. Para ele, Brasília é muito especial, inclusive por ser o lugar onde se apresentou pela primeira vez como cantor.

Embora reconheça a importância desse lugar para o seu crescimento enquanto ser, decidiu ir embora. Sua vida não poderia se resumir à burocracia e ao engessamento de um dia a dia dentro de um hospital. Assim, foi em busca de outros caminhos que o levassem ao desenvolvimento de sua arte, pois carregava a certeza de que ocorreria uma transformação positiva em sua vida.

Voltou para o Rio de Janeiro, onde viveu por um tempo como hippie, sem dinheiro e, às vezes, sem comida, mas feliz, produzindo seus artesanatos, de forma livre como sempre foi.

Sobre esse período, fala: “Não tinha dinheiro, mas era muito feliz, sem preocupação, andava apenas com a roupa do corpo. Todos os meus sonhos cabiam dentro de uma bolsa de couro costurada por mim.”

No auge da ditadura militar, Ney surge como vocalista da banda Secos e Molhados. Mesmo tímido, conseguiu colocar para fora toda a sua energia, força e expressão escondidas por detrás de suas pinturas no rosto.

Revela que a arte o salvou de sua agressividade. No palco, ele a colocava para fora. Vomitava. Cantava. Dançava. Insinuava. Agredia sem ser agressivo. Para Ney, a arte salva e deveria fazer parte dos currículos de todas as profissões. “Com a arte presente em nosso cotidiano seríamos seres humanos menos violentos.”

Secos e Molhados não surgiu como uma resposta à ditadura. Não teve por intenção combatê-la. Ainda assim, era um atentado contra a moral e os bons costumes pregados pelos militares, que os chamavam de “grupo de bichas” e “viados comunistas”.

Entretanto, Ney não permitia limites, enquadramentos ou rótulos. “Sempre fui dono do meu nariz. Não estava nem um pouco preocupado com o que estavam pensando de mim, não ia mudar meu comportamento de maneira nenhuma.”

E não mudou mesmo. Ney passou pelo Secos e Molhados e pela ditadura ileso. Quando começou a entrar dinheiro, o grupo se dissolveu. A ditadura deu lugar à redemocratização. Contudo, Ney é e continua.

Comenta sobre o término dos Secos e molhados: “Eu nunca coloquei o dinheiro em primeiro plano na vida, muito pelo contrário, sempre acreditei que a grana era responsável pelo comportamento mesquinho das pessoas.”

Ney é plural. Seus interesses passam por música, teatro, pintura, direção, iluminação e literatura. Gosta de ler, de ficar só, do contato com a natureza, de bichos. Ele não compõe letras, mas tem tesão pela palavra e interpreta desde os antigos aos atuais compositores.

Não é saudosista. Abre espaço para a novidade, para o que está no porvir. Leonino que brilha diz “eu sou”. Permanece jovial com os seus 77 anos. Tem vigor, sensualidade e sexualidade. Cuida do corpo, da mente, do espírito. É atual no auge dos seus 46 anos de carreira.

Ney não se apresenta como cantor, posto que restringe. Ele é artista. É assim que se reconhece. No cantor, cabe a canção. No artista, cabe o mundo.

Os momentos mais difíceis de sua vida foram aqueles nos quais perdeu pessoas muito próximas em decorrência da AIDS. Ney revela que chegou a ir três vezes ao cemitério, numa mesma semana, para enterrar amigos. Dentre eles, um companheiro com quem conviveu alguns anos e Cazuza, uma das grandes paixões de sua vida, o qual descreve: “Parecia um anjo que havia despencado do céu, aquele pivetezinho de praia, um tremendo vagabundo. Lindo. Apaixonante”.

Apesar de se envolver com homens, Ney não quer levantar bandeiras em favor de causas homossexuais. Tem horror a essas limitações. “Gay o caralho. Sou ser humano.” Ele bem sabe que por detrás dessa defesa alucinada dos gays há um mercado que se beneficia do poder de compra deles e os defende mais por questões de ordem lucrativa do que por respeito à dignidade humana.

Ele afirma que a liberdade é possível não pelo grito, mas pelo comportamento. Liberdade não se fala, se vive.

De fato, o tempo parece ser um aliado desse grande artista que só se importa com o presente e só nele vive. Ney diz ter lembranças, mas não saudades. “Se eu me submetesse ao tempo, já seria um homem velho.” A sua vitalidade afasta a velhice. Seu pensamento livre o protege da caretice.

Ney é um homem que tem cravados no corpo e na mente os valores de liberdade, verdade e coerência. Sua filosofia de vida é manter a mente aberta ao novo. Sua energia é direcionada para fazer as coisas que ama, como cantar. Ney possui tônus e vigor de sobra. Para ele, a velhice está na mente. Quer envelhecer com a mesma dignidade com que percorre a vida.

Ele é aquele que Caetano canta: “Esse senhor tão bonito traz algo único, uma serenidade incrível.”

Ney é senhor de si. É senhor de sua verdade e liberdade: “Sou um homem livre, somos seres livres e temos que afirmar isso o tempo todo.”

Ney é um exemplo de ser humano que se destaca, dentre muitas outras coisas, por viver a liberdade mais do que falar sobre ela. Doa a quem doer, transgride, mas com a elegância de quem não precisa usar nem da força nem do grito. Ney é o próprio grito e a própria força. 

“Amo ser assim, amo ser quem sou. Escolhi não ter de conviver com mentiras, mas ter a liberdade de me expressar como desejo. Sinto enorme prazer de não ser hipócrita, e muito menos ser submetido à hipocrisia.”

Assim, Ney apenas é… E, sendo, vai se fazendo e refazendo nesse tempo presente que é tudo o que temos.

A queda, de Albert Camus

Ele se apresenta como Jean-Baptise Clamence, embora não seja esse o seu verdadeiro nome. Clamence era um renomado advogado de Paris, cujo sucesso perpassava sua vida profissional, pessoal e junto às mulheres. Defendia as causas nobres e sempre esteve do lado considerado por ele como sendo o da justiça. Seus clientes eram, em especial, os órfãos e as viúvas.

Num momento de sua vida em que tudo corria muito bem, um acontecimento mudou por completo a sua vida. Era noite e ele estava parado olhando o rio Sena quando começou a escutar um riso vindo sabe-se lá de onde. Um riso persistente e debochado que parecia querer dizer-lhe algo. Quem seria? Olhou por todos os lados e não avistou ninguém. Seria ele rindo de si mesmo? Seria sua própria consciência?

Clamence abandonou Paris e a vida profissional a que se dedicara com tamanha vaidade e partiu para Amsterdã, onde frequentava diariamente um bar que servia de porto para marinheiros, renegado à função de consultor dessa gente que não lhe exigia diploma algum a que desse credibilidade para oferecer seus préstimos jurídicos.

Distante de Paris e da vida que outrora levara, Clamence se autoproclamou juiz-penitente e narrou a sua história numa espécie de confissão em que se acusa ao mesmo tempo em que parece acusar toda a humanidade. Isso fica caracterizado, dentre outras falas, quando, ao admitir sua própria duplicidade enquanto ser, ele dispara: “a criatura é dupla”.

O que deu causa à confissão foi o fato de Clamence ter tomado consciência de que ele e, por consequência, nós todos vivemos duas espécies de vida: a social e a íntima. Uma que está no campo do parecer e a outra do ser.

Para ser aceito, notável, admirado e reconhecido tinha que esconder sua verdadeira face e as suas reais intenções. Tudo aquilo que se dispunha a fazer pelos outros não era senão uma forma de beneficiar a si mesmo . Ao ajudar um cego atravessar a rua, pouco importava que este não o enxergasse, pois havia um público imenso disposto a aplaudir sua boa ação.

Clamence era absolutamente simpático. Sorria em abundância, dava apertos de mão, demonstrava generosidade e simpatia mesmo naquelas situações em que a sua vontade era sair dando socos naqueles que atravessavam o seu caminho sem lhe dar a devida importância, como se ele fosse apenas mais um.

Jamais seria apenas mais um, posto que eleito. Não tinha religião, mas era inaceitável que o seu sucesso em todas as áreas fosse originado apenas do esforço e do mérito. Alguma força superior havia de tê-lo escolhido para ser tão bom e diferente das demais “formigas humanas”.

Gostava das montanhas, dos picos, de viver nas alturas e só sentia à vontade nas situações elevadas. Sua profissão satisfazia essa vocação para viver no alto.

Como advogado, não julgava nem era condenado. Bastava defender o acusado energicamente e com esforço que, mesmo não diminuindo ou eximindo a pena do réu, o seu papel restava cumprido.

“Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, livre de qualquer obrigação, isento tanto de julgamento quanto de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edênica”.

Clamence vivia no Paraíso do Éden, planando entre os deuses, certo de que era o melhor entre os seres e o mais inteligente do mundo. Não tinha amigos, mas cúmplices. Tampouco família. Apenas aliados.

Frequentava enterros, porque enxergava nessa triste circunstância a possibilidade de ser visto e, para tanto, admitiu: “Eu sabia precisamente que a minha presença seria notada e comentada favoravelmente”.

Não perdia as oportunidades de se fazer mostrar e, para isso, qualquer acontecimento seria de grande utilidade. “Vivam, pois, os enterros!”

Vaidoso ao extremo, reconheceu: “Fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me… Só reconhecia em mim superioridades… Nunca me lembrei senão de mim mesmo.”

Fingia tanto que o seu cartão de visita poderia ser assim sintetizado: “Jean-Baptiste Clamence, ator”.

Sua atuação estendia às mulheres – presas fáceis. Tinha porte físico e inteligência suficiente para conquistá-las. Não lhe faltava charme e poder para seduzir. Considerava as mulheres muito melhores que ele e as colocava numa posição tão alta que se utilizava delas apenas para servi-lo. Qual é o maior de todos os seres senão aquele que serve?

Usava de sensualidade para atraí-las. Só não se metia com as mulheres dos amigos. Antes, terminava a amizade e ficava liberado. Amava-as até o o décimo encontro. Depois, cansava-se com facilidade, pois as companhias, por mais brilhantes que fossem, o oprimia profundamente.

Não as amava, nem lhes era fiel, mas fazia com que elas prometessem que ele seria o único de suas vidas. Afinal, depois dele nenhum outro haveria de existir.

“Uma espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro”.

Quando uma mulher o abandonou e fez vir à público seu baixo desempenho varonil, ele a reconquistou facilmente e a subjugou, demonstrando que ela não passava de uma mentirosa, caso contrário não estaria novamente com ele prestando-lhe homenagem pelo prazer que a fazia sentir. Depois, esqueceu dela.

Todas as honras, acredita, deviam se voltar a ele. Assim, confessou:

“Portanto, confesso que não conseguia viver, a não ser com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível deles, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a atender ao meu chamado, a qualquer momento, fadados, enfim, à esterilidade, até o dia em que dignasse e favorecê-los com a minha luz. Em resumo, para viver feliz, era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, uma vez ou outra, a meu bel-prazer”.

Clamence é cônscio do julgamento dos homens, aquele que ocorre todos os dias pelo fato de ser ou deixar de ser alguma coisa. Ou apenas por existir.

“A aparência de sucesso, quando se apresenta de certa maneira, é capaz de irritar um santo”.

Entretanto, conhece e julga a si mesmo e ao fazê-lo estende seu julgamento a todas as demais criaturas.

Ao abandonar o exercício da advocacia em Paris,  transforma-se em juiz-penitente, aquele que se confessa ao mesmo tempo em que acusa. Um juiz que não se revela. Que vive sob o anonimato de um falso nome, num país diverso, e que, talvez, só por isso, tenha tido a coragem de se delatar.

Ele que sempre desprezou os juízes em geral acaba se tornando o mais severo de todos, porque aponta para toda a humanidade. Cabe, pois, a cada um de nós examinar-se a fim de concluir se o julgamento de Clamence é ou não justo.

Clamence narra um episódio em que estava passando por uma ponte e avistou uma mulher sentada e, após caminhar alguns passos, ouviu o barulho de um corpo caindo na água e gritos por socorro. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Afinal, não havia ninguém para vê-lo salvar aquela mulher e, também, a água estava muito fria. Seguiu seu caminho e tomou o cuidado de não abrir os jornais nos próximos dias. Depois disso, a única precaução que tomou foi de não passar por nenhuma ponte no meio da noite.

E quantas vezes dizemos que a água está fria para nos livrarmos de nossas culpas?

Fingia levar a vida a sério, mas reconhece que nunca se preocupou com os assuntos humanos. Admite que só foi verdadeiramente sincero e entusiasta no tempo em que praticava esportes e na tropa, quando representava nas peças, por diversão.

Essa era sua fonte de delícias e nisso não há disfarces, pois “ninguém é hipócrita nos seus prazeres”.

“Ainda agora, as partidas do domingo num estádio superlotado e o teatro, que amei com uma paixão sem igual, são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente”.

Num estádio superlotado, ele é apenas mais um entre tantos e goza do anonimato. E, no teatro, é alguém que não ele mesmo. Por isso, tamanha inocência. O que mostra que ele continua o mesmo. A confissão até pode revelar, mas não implica necessariamente a mudança. Ela não representa em si um esforço para a purificação. Pode-se ter acabado de confessar e, logo após, estender o braço para ajudar um cego a atravessar a rua com intenções escusas.

Toda a sua vida foi uma representação. “Representava o eficiente, o inteligente, o virtuoso, o patriota, o indignado, o indulgente, o solidário, o edificante…” E só quando se sentiu abandonado foi capaz de admitir para si mesmo, não para o público, uma vez que não revelou seu verdadeiro nome, que sua vida não passou de uma farsa.

Por trás das cortinas, se indagava: “Quem sou eu?” E ele mesmo respondia: “Um cidadão-sol quanto ao orgulho, um bode de luxúria, um faraó na cólera, um rei de preguiça”.

Apesar de todo esforço em parecer, Clamence chegou à conclusão de que era em vão o que fazia. Decidiu isolar-se dos homens e refugiar junto às mulheres. “Não será a mulher tudo o que nos resta no paraíso terrestre?”

Também não. Constatou que as mulheres falavam muito de amor; falavam tanto quanto os papagaios. Ocorre que, “depois de ter amado um papagaio, tinha que dormir com uma serpente”.

Então, procurou em outros lugares o amor prometido pelos livros, porém nunca o encontrou. Pudera, também não sabia amar. Passou trinta anos amando a si mesmo e não conseguia perder esse hábito.

Caiu na libertinagem cuja vantagem recaía na desnecessidade de compromisso. Deleitou-se no álcool e com as prostitutas, mas na manhã seguinte sentia na boca o gosto amargo da condição de mortal. Fazia tudo para prolongar a vida, mas sua falsa onipotência se esbarrava no efêmero humano. “Brincamos de ser imortal mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

Sua fraqueza residia em gostar da vida e queria gozá-la sob todas as formas, passando por cima do que e de quem fosse.

Clamence foi perdendo fama e notoriedade, mais por suas provocações de linguagem que por suas libertinagens e orgias noturnas. Afirma ter conhecido o pior dos julgamentos que é o dos homens. Resignado ao tédio tornou-se uma criatura solitária vagando pelas ruas da cidade.

No último capítulo do livro, Clamence nos confessa a respeito de um episódio ocorrido quando se viu prisioneiro num campo de concentração. Como eram vários homens que ali estavam e precisavam lutar por água e comida sentiram necessidade de se organizarem sob a liderança de alguém. Clamence foi o escolhido para ser uma espécie de papa entre os seus, já que o verdadeiro papa se encontrava em seu trono e tão longe da miséria. Conta que roubou água enquanto um daqueles homens agonizava por sentir extrema sede. E justificou seu ato sob o argumento de que ele precisava sobreviver porque em detrimento daquele que morria havia outros que necessitava de sua liderança.

Em Amsterdã passou a viver uma vida simples. Não distribuiu seu dinheiro aos pobres. Deixava todas as portas abertas para que lhe roubassem à vontade, “na esperança de corrigir a injustiça pelo acaso”.

Talvez a maior dificuldade da criatura seja não julgar a si mesma. Talvez o olhar acusatório do outro só nos fere porque pensamos o mesmo a nosso respeito.

Há uma corrente psicológica ou espiritualista, não sei bem ao certo, que diz que ao julgarmos estamos condenando no outro aquilo que existe em nós. Por esse motivo, Clamence “estende a condenação a todos, sem discriminação, para diluí-la desde já”.

Ele não está disposto a absolver ninguém. Nós também não estamos. Somos todos juízes! E simplesmente não há saída, pois sendo estranhas e miseráveis criaturas, pertencemos à mesma raça.