O que dizem alguns de meus leitores homens.

Não sei que tipo de fascínio uma mulher que escreve, e escreve bem, exerce sobre o imaginário dos homens. Temo que alguns leitores estejam confundindo o autor (que sou eu) com a obra (que é também minha) e comecem a atribuir a mim qualidades e defeitos de meus textos como se fossem características de minha própria pessoa.

Não nego possuir qualidades e defeitos. Estes, então, tenho aos montes. Mas, não quero ser confundida por uma questão de respeito.

Quando escrevo estou me revelando, mas não se enganem de supor que eu esteja me desnudando totalmente. Eu só mostro é a pontinha do calcanhar como uma mulher da belle époque, pois minha intimidade é guardada a setenta e sete chaves.

Um de meus leitores me mandou um e-mail dizendo que quer me conhecer porque tenho um jeito de escrever que insinua e provoca e, portanto, imagina que eu seja tão insinuante e provocativa quanto o que escrevo. Ele ainda acrescentou: “Quando você põe uma vírgula sigo sem respirar e quando você põe um ponto final fico à espera… “

À espera de que, meu Deus?

Como fico com uma revelação dessas? Como dizer a ele para não esperar nada de mim? Como afastá-lo de suas ilusões sem parecer deselegante e sem distanciá-lo?

Olha leitor, não pense você que escrevo com ares de sedução como você insinua. Se a intenção fosse mesmo provocar, eu escreveria com as pernas que abrem e não com as mãos que batem. Peço que não confunda as coisas e nem seja metonímico a ponto de se embaraçar sobre quem de fato sou. E, por favor, esquive-se de me fazer acreditar que sou as palavras que digo. Elas dizem muito pouco. Se eu começar a ser reduzida a elas, sou capaz de parar de escrever.

Em outro e-mail, um leitor disse-me: “Ana você deixa um clima de suspensão no ar e eu fico doido pelo seu final, sua conclusão, seu clímax.”

Sinto muito lhe dizer, querido leitor, mas se você tem ficado doido para que eu me conclua, provavelmente você vai parar num hospício. Só tenho controle é no momento do começo. À medida que vou indo, entrando por becos e labirintos, a última coisa que vislumbro é chegar ao fim. Mas, desista de mim não.  Vamos percorrer caminhos desconhecidos. Eu te levarei a lugares que nem sei. “Perder-se também é caminho”, como diz uma amiga. Que tal se perder comigo?

Com relação a uma mensagem que recebi de outro leitor, fiquei realmente em dúvida se era um convite, uma cantada ou uma espécie de devaneio.

Ele comenta que quando conheceu os meus textos começou a ler, um por um, até que chegou na resenha sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, e ficou hipnotizado.

Então, me mandou isso: “Quando é que você virá a São Paulo? Que tal a gente tomar uns drinks enquanto você lê Machado de Assis?”

Vai ver que ele está me confundindo com a própria Capitu.

Caro leitor, o que tenho a lhe dizer daria para um capítulo, mas não vou me delongar. Talvez a única coisa em comum que tenho com Capitolina sejam “seus olhos de ressaca”. Quanto ao mais, não vejo semelhanças.

Como ela foi capaz de se ligar a um homem como Bentinho que só nos legou as impressões equivocadas e cegas que ele mesmo tivera dela? Eu é que não admito definições. Não me reduza, porém, na imagem que você tem da Capitu. Tome seus drinks sozinho, pois sou matéria para mais de um volume literário e você deve ser como os Bentinhos da vida que são incapazes de perceber isso e acham que um drink resolve tudo.

Tenho um leitor que costumava comentar meus textos e deu uma sumida. Dessa vez, eu é que fui até ele: “Você parou de me ler?”

“Você é muito complexa.”

Eu disse: “Sou tão simples quanto a comida que se põe à mesa.”

Ele: “A mesa do Pobre Juan? Do Oliver? Do Gero? Do Taypá?” E começou a elencar os restaurantes mais caros e sofisticados de Brasília.

Acho que entendi o que ele quis dizer. Não se engane, leitor. Eu sou para a mesa de todos esses restaurantes sim, mas também para o “Fogão à lenha”, “Arroz, feijão e bife”, “Marmitinha do Zé”, “Comidinha Caseira”.

Amados leitores, eu sou e escrevo simples, nu e cru. Vocês é que estão complicando as coisas.

Deixe-me apresentar você, de Talitha Pereira.

Há bem pouco tempo tive o primeiro contato com Talitha Pereira, por meio de seus vídeos no youtube, onde ela apresenta histórias dos personagens bíblicos conectando-os ao nosso contexto atual.

Isso demonstra que os problemas enfrentados pelos homens sempre foram os mesmos. Brigas entre membros da família, disputas por poder, ambição desmedida por dinheiro, inveja, orgulho, sentimento de inferioridade, desânimo, tristeza, apatia, falta de coragem, situações incapacitantes em virtude de crenças limitantes e tantas outras questões que o ser humano enfrenta há séculos e séculos, como prova de que todo desenvolvimento econômico, industrial, científico e tecnológico porque passamos não mudou em absolutamente nada a natureza humana.

Continuamos enfrentando situações de medo, angústia, frustrações, desespero e tantas outras fragilidades que nos inibem e condicionam.

Toda a fala de Jesus está centrada em instigar as pessoas a agirem e pensarem por si mesmas e a resgatar o poder interior que existe dentro delas. Ele não diz a alguém que tenha curado: “Eu te curei”. Antes, pergunta: “Quer ser curado?” E declara: “Tua fé te curou”.

A cura emocional, que muitas vezes culmina na cura física, é um ato que depende principalmente da atitude daquele que verdadeiramente deseja essa cura.

Talitha Pereira é pastora da Igreja do Amor, localizada em Recife, e, provavelmente, deve lidar com muitas pessoas que estão adoecidas pelas mais variadas causas físicas e/ou psíquicas. Uma das coisas que pode nos conduzir a um agudo estado patológico é a crise de identidade, que traduz-se na sensação de que nos perdemos de nós mesmos.

Quem é você? Você já se fez essa pergunta? Já se olhou no espelho e se questionou a respeito de quem é? Se ainda não fez isso, é aconselhável que faça.

“Em Deixe-me apresentar você, a mulher leitora reconhecerá sua força e capacidade, bem como será desafiada a mudar de perspectiva em relação a si mesma e a seu mundo mais íntimo rumo ao crescimento pessoal, familiar, profissional e social.” Essa é a proposta da autora.

Agora, deixa eu te falar uma coisa séria. Você não é a sua profissão nem formação. Você não é o que faz. Estou cansada de ouvir pessoas que, ao serem instadas a falar sobre si mesmas, dizem: “Eu sou engenheira”, “Eu sou advogada”, “Eu sou nutricionista”, “Eu sou empresário”. NÃO. Essa é a sua formação ou profissão. Antes de entrar para a escola ou faculdade, você já havia nascido e era um ser. Isso faz com que pessoas que têm uma profissão desvalorizada se sintam inferiores a outras, porque elas pensam que são a atividade que exerce.

 “O grande problema que faz com que nós rejeitemos o presente da identidade é que nós nos definimos de acordo com o que fazemos, não com o que somos.”

Você também não é a filha ou filho de João ou Elvira. Apesar da importância de nossos pais e do significado valioso que eles têm em nossa vida, você não pode se limitar a definir-se como filho.

Você também não pode ser definido como o pai ou a mãe de Lucas ou Maria. Antes de ter seus filhos, você já havia nascido, crescido e experimentado ser. Muito menos pode responder que você é esposa ou esposo de Matias ou Sara. Antes de se casar você também era um ser.

Muitas vezes, as pessoas se perdem de si próprias porque confundem o que são com os papéis que exercem. De todas essas figuras citadas, talvez as de maior relevância sejam as representadas pelos nossos pais, pois sem eles não existiríamos. Daí a influência que os pais exercem sobre nós. Quase tudo que somos ou pensamos ser decorre do que eles foram ou são para nós. Mas isso é assunto para outra hora.

Esse livro é composto por sete capítulos e em cada um deles a autora nos apresenta personagens bíblicos com a finalidade de, por meio deles, nos ajudar a saber quem somos.

O primeiro personagem é Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul.  Mefibosete apresentou-se diante do rei Davi que queria cumprir sua promessa de devolver todas as terras do rei Saul a alguém de sua linhagem. Entretanto, Mefibosete prostrou-se diante de Davi e se definiu de forma inferiorizada, dizendo-se não passar de um cão morto. Apesar de ser neto de um rei, Mefibosete se via apenas como um aleijado indigno.

Portanto, ele se caracterizava referenciando a sua limitação e não pelo ser que era. “Porque ele tinha um problema de identidade! Ainda que soubesse de onde tinha vindo, quem era sua família, ele não conhecia o poder de aceitar a própria identidade.”

A imagem que Mefibosete tinha de si mesmo era a pior possível: “Um cão morto”. Talitha diz: “Sua autoimagem tem o poder de determinar o seu destino!” Se não fosse a bondade de Davi, o neto de Saul jamais teria se sentado à mesa junto ao rei.

Mefibosete “pensava que nunca seria aceito por causa de sua imperfeição”. Ninguém dizia que ele era limitado ou imperfeito. Ele próprio tratava de se convencer disso. Portanto, “a maneira como você se enxerga é essencial para definir o caminho que será trilhado.”

Quantas pessoas se menosprezam? Quantas se dizem incapazes de realizar algumas coisas que querem ou precisam? Quando alguém me diz que não vai fazer algo porque não consegue e porque é incapaz, eu automaticamente concordo, porque ela mesma já se colocou uma barreira. E não serei eu quem irá transpor o que ela disse para si a respeito de si mesma.

Talita fala sobre nós sob a perspectiva do Criador. Ela diz que “Deus nos criou com uma missão: ser nós mesmos!” Veja que coisa espetacular: em nenhum lugar do mundo e em nenhuma outra época existiu ou existirá alguém igual a você. Somos bilhões de pessoas com fisionomia, pensamentos e gostos diferentes. Somos únicos. Aí eu te pergunto: Por que é mesmo que você quer ser como o outro?

“Quando nos ocupamos tentando ser o que todo mundo é, fracassamos em ser nós mesmos.” Portanto, “entenda a sua identidade, a sua direção e o seu chamado de acordo com o que o Senhor lhe diz.”

Vamos aprender com a história de Mefibosete que passou anos de sua vida negando sua identidade. “Tudo na vida dele mudou quando ele entendeu que não devia ser menos do que tinha nascido para ser.”

Nada nem ninguém deve abalar quem somos. Não podemos nos desvalorizar. Se você se vê como menos, como qualquer coisa, como “um cão morto”, como um “zé ninguém”, quem vai dizer o contrário? Sabe quem foi que disse que João era o discípulo preferido de Jesus? Foi ele mesmo. Ele se colocou nessa posição e até hoje acreditamos no que ele disse. Portanto, reveja em que posições você se coloca.

No segundo capítulo nos é apresentada a narrativa sobre Ana e Penina, as duas mulheres de Elcana. Penina tinha filhos e Ana não. Entretanto, o sacrifício que Elcana oferecia em favor de Ana era duas vezes maior do que aquele oferecido para a outra esposa, pois amava Ana, apesar de ela ser estéril. Penina provocava Ana por ela não poder ter filhos e ela chorava por isso. Elcana perguntou: “Por que não come? Por que está triste? Será que eu não sou melhor para você do que dez filhos?”

Apesar do amor do esposo, Ana vivia amargurada e angustiada. Orava ao Senhor para que também concebesse filhos.

Penina também invejava Ana por esta ter despertado maior amor em Elcana. Essas duas mulheres viviam em disputa, ao invés de viver, cada uma, a parte e a dádiva que lhes cabiam.

Olhar o que o outro tem nos impede de reconhecer o que nos foi dado. Ana e Penina estavam preocupadas com aquilo que não tinham, com aquilo que consideravam imperfeito nelas e isso as impedia de viver em plenitude.

A rivalidade e disputa entre mulheres continua a existir. Talita diz: “Não havia nenhum tipo de sororidade. Sororidade é uma palavra que vem do latim soror, traduzida por irmãs. Assim, ter sororidade significa desenvolver irmandade, empatia e união entre as mulheres. É entender a dor e os motivos da outra antes de apontar o dedo. É acreditar que juntas somos melhores, mais fortes, menos fragilizadas, mais capazes.”

Ainda hoje, as mulheres continuam disputando entre si nos mais diversos setores. Coincidentemente, eu estou desenvolvendo um texto sobre a percepção que tenho a respeito da falta de irmandade que existe entre nós mulheres, tanto por constatações do cotidiano quanto por um trecho que li no livro “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, que nos chama atenção para essa realidade.

As mulheres competem entre si. O fato de uma ter o que a outra não tem já é o suficiente para se terem como rivais. Isso provém da comparação, uma praga social. Sabemos que somos diferentes, mas ainda assim nos comparamos.

A autora diz que vivemos ” a ditadura da cópia”. E completa: “Você pode até se inspirar em outras mulheres, mas você não foi chamada para ser ovelha Dolly, não!” A ovelha Dolly foi o primeiro mamífero clonado no mundo, sendo uma cópia perfeita de outra ovelha.

Eu mesma admiro e me inspiro em várias mulheres. Nas grandes escritoras, apresentadoras, entrevistadoras, naquelas que se cuidam, que são bonitas e originais.

Admiro a inteligência da Clarice Lispector e a maneira como escreve, a originalidade da cantora Maria Bethânia, a postura de Marília Gabriela, a beleza de Bruna Lombardi, a força de Lucinha Araújo, a ousadia de Leila Diniz, a irreverência de Dercy Gonçalves, a permanência de Laura Cardoso e Fernanda Montenegro, a elegância de Constanza Pascolato, o humor da pastora Talitha Pereira, dentre inúmeras outras.

Mas em nenhum momento de minha vida eu pensei em ser outra pessoa, em mudar meus traços físicos, em ser outro ser que não eu mesma. Nem consigo me imaginar de outro jeito. Olho no espelho e sinto o que Clarice Lispector disse: “Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna.”

“Quando nos comparamos , além de nos depreciarmos, estamos alimentando a inveja. Inveja é uma escolha.”

A inveja é um dos piores sentimentos que existe. Ela é altamente destrutiva. Autodestrutiva. Uma vez fiz uma autoanálise para saber o que me causa inveja e cheguei a conclusão de que, como Albert Camus, não invejo nada. Não estou aqui dizendo que sou perfeita. Tenho outros defeitos que também são destrutivos e trabalho diuturnamente para combatê-los. Mas não invejo absolutamente nada. Gosto de mim e não há ninguém que eu queira ser além de mim mesma.

“Muitas vezes, você foca tanto no que Deus deu para outra pessoa fazer que se esquece de fazer o que ele chamou você para fazer.”

Se tem uma coisa que admiro são as pessoas que falam bem. Quando eu vou falar para alguém, por exemplo, sobre um livro que li, eu me atrapalho toda. Sei que posso desenvolver a oratória, mas reconheço que não sou tão articulada quando vou me expressar oralmente.

Já quando escrevo, sei que me expresso bem melhor. Entretanto, não fico lastimando que não falo tão bem quanto gostaria. Aproveito que Deus me deu esse dom de escrever, agradeço e escrevo. Já pensou se eu ficasse lamentando: “oh vida, oh céus, oh azar, eu não falo tão bem”.

Assisto os vídeos de oradores e estou aprendendo com eles. Quem sabe um dia eu consiga? “É verdade ou não é?” Prefiro celebrar o que tenho do que ficar chorando pelo que não tenho.

Trabalhe para que você seja o que quer ser. É preciso acreditar que não estamos nesse mundo para brincar de viver. Se quer desenvolver uma habilidade, estude. Se quer emagrecer, faça dieta. Se quer ter um relacionamento maior com Deus, ore mais e leia a Bíblia. Se quer ter um corpo definido como a moça que você inveja no instagram, vá malhar.

Sabe o Tony Melendez? Se não sabe de quem se trata, veja os vídeos dele no youtube, como eu fiz. Ele queria tocar guitarra, mas não tinha os braços. Aprendeu a tocar com os pés. “Para Deus, não existe deficiências.”

A pastora Talita nos conta que via o marido pregar e queria pregar como ele, de forma mansa, lenta e doce. Até que ela percebeu que isso não fazia parte do seu temperamento. Isso caiu como uma luva para mim, porque eu escuto uma colega de trabalho falar baixinho e pausadamente e comecei a pensar que devo falar mais devagar. Sim, até posso tentar. Mas também não é do meu temperamento e acabei chegando à conclusão que não vou falar como ela porque não sou ela. Simples assim!

“Deus nos fez como somos com um propósito.” Conhecem a história de Zaqueu? (Se não conhecem, pesquisem).  Zaqueu era pequenino e por isso subiu numa árvore e chamou a atenção de Jesus. Deve ter um propósito para eu ser pequena também (risos).

“Adote uma perspectiva mais elevada de você. Pare de se fazer de coitada! Pare de se lamentar e ficar dando desculpas. Você não é vítima! Não existem desvantagens quando Deus está do nosso lado, porque tudo coopera para o nosso bem. Eu encorajo você a viver sem se apoiar em desculpas. Olhe para o que você pode fazer, foque nos seus dons. Recuse-se a ter pena de si mesma.”

Outro personagem bíblico apresentado é Davi. Ele era filho de Jessé e o Senhor enviou Samuel para ungi-lo, pois Davi se tornaria rei de Israel. Jessé apresentou sete de seus filhos, ocultando Davi que estava no campo cuidando das ovelhas. Davi era muito jovem e de boa aparência, mas nem mesmo seu pai parecia acreditar nele. Deus acreditava.

 “Não considere a sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.”

Foi Davi quem conseguiu derrotar Golias. Acostumado a matar leões e feras com pedradas, as únicas armas de que dispunha, ele conseguiu também acabar com o gigante. Saul desacreditou que Davi conseguiria e tentou vesti-lo com sua armadura. Davi se recusou, pois estava habituado a matar com pedradas e sem quaisquer vestimentas especiais. Davi não quis usar aquilo que não lhe pertencia e se recusou a vestir o que era de outra pessoa. Confiando em Deus e na sua capacidade, venceu o inimigo.

Essa confiança e crença que Davi teve em si mesmo foi essencial para alcançar seus propósitos.

Gideão também recebeu de Deus um propósito de vida. Mas ele se esquivava sempre que podia. “Ele dava desculpas, se diminuía… ele era seu próprio impedimento para viver os planos de Deus. Ele se achava pequeno demais, incapaz demais, frustrado demais.”

Precisamos vencer a autopiedade e a autodepreciação. Não somos coitadinhos. Podemos trabalhar nossas imperfeições por meio de boas escolhas diárias, pelo autoconhecimento, pela disposição em aprender com aqueles que sabem. Podemos desenvolver novas habilidades, aperfeiçoar as que já temos.

Todos os dias é possível nos desenvolvermos um pouco mais. “Somos um projeto em andamento”. As construções não são feitas da noite para o dia. Deus foi o único a criar tantas coisas em apenas sete dias. Mas ele é perfeito. Nós não somos.

Vocês conhecem pessoas que ao serem elogiadas, recusam o elogio? “Ah são seus olhos.” “Não sou tão bonita como você me vê.” “Não sou tão magra”. “Não sou inteligente como fulana”. Podemos simplesmente ouvir um elogio e respondermos: “Obrigada!”.

Mas a autodepreciação fala mais alto.

“Se você resolver ser feliz só quando ficar parecida com Gisele Bundchen, aí nem no céu você vai ser feliz!”

Temos que parar de ficar mirando na exceção das exceções. Com quantas pessoas você convive que são tão bonitas e magras como Gisele B? Vejo isso na academia. A maioria das pessoas que estão lá suando como eu não são nem um pouco parecidas com aquelas mulheres que vivem para malhar e fazer propaganda de produtos de dieta.

As pessoas que convivem conosco, da família, do trabalho, da faculdade e de outros círculos, não são exemplos próximos à perfeição. Então, por que você está sofrendo por não se parecer com o que há de mais raro?

Vença a autodepreciação e caminhe rumo à autotransformação.

Se não mudarmos o que pensamos a respeito de nós mesmos faremos pouco ou nenhum avanço. “O segredo está na mente. Gideão, a partir daquele momento, tinha pensamentos de vitória, proferia palavras de vitória e agia como um vitorioso! Quando ele trocou seus pensamentos de derrota por pensamentos de acordo com o que Deus dizia sobre ele, tudo mudou! O que você guardar na sua mente tenderá a acontecer na sua vida. Se você continuar a acreditar no que sempre acreditou, continuará a agir como sempre agiu. Se você continuar a agir como sempre agiu, continuará a alcançar o que sempre alcançou. Se você quer ter resultados diferentes em sua vida pessoal ou no trabalho, tudo o que tem que fazer é mudar a sua maneira de pensar!”

Portanto, renove seus pensamentos e passe a acreditar que conseguirá o que deseja e se empenhe para isso.

Paulo tinha por missão pregar o evangelho em Roma. Antes de seguir Jesus, ele perseguia e matava cristãos. Mas ele se transformou. Apagou o seu passado e começou a viver uma vida de compaixão e indulgência pelo próximo.

Ele poderia ter continuado com seu péssimo hábito de perseguir e matar, mas escolheu a mudança. “Nada pode impedir a sua transformação, caso você verdadeiramente decida mudar.”Trata-se de uma decisão concomitante a uma ação.

O apóstolo Paulo nos ensina: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Ele não ficou preso ao seu passado, à sua dor ou aos seus problemas. Não desistiu do seu sonho de pregar o evangelho e seguiu em frente sustentando-se em Jesus.

A mudança passa por um processo. “Quem valoriza o processo desfruta do crescimento.” É preciso ter paciência, coragem e direcionamento. “Como é que se come um elefante? Uma mordida de cada vez.”

Quando rezamos o pai-nosso dizemos: “dá-nos hoje o pão de cada dia”. Não pedimos o pão do mês, do ano… Precisamos subir um degrau de cada vez.

Daniel se destacou pela sua capacidade de supervisão. Ele tinha disciplina para orar três vezes ao dia e tinha o reconhecimento de Deus. Quando alcançou a posição de líder foi invejado e atacado. A maior parte das pessoas que conseguem posição de destaque passou por um processo longo e árduo. Nós enxergamos os prêmios, mas não sabemos quais renúncias e esforços foram feitos para o alcance dos resultados.

É preciso fazer as coisas buscando a excelência, o seu melhor. Muitas vezes, fazemos nossas atividades de forma mais ou menos, de maneira desleixada, com preguiça e má vontade. Trabalhamos com mediocridade. “Deus não abençoa a mediocridade. Deus abençoa a excelência.”

Confesso que me enxerguei nisso. Já me peguei sendo negligente e desleixada em atividades que eu poderia executar de modo muito mais caprichado. “Você não deve se guiar pelos padrões do comodismo desta terra; você deve se guiar pelo padrão de excelência do céu!”

Temos abandonado o espírito de excelência. Esse espírito com que Deus criou tudo que existe.

“Outras pessoas podem até reclamar do trabalho; podem andar por aí malamanhados, desinteressados, pegando o caminho mais fácil. Você será diferente, pois nada disso levará você ao próximo nível.”

“Deus não fez nada que não fosse primoroso, e ele é o nosso exemplo maior.”

Talita propõe: “Vamos acabar com essa geração do “mais ou menos”. Quando chegarmos ao final de nossa corrida, temos de olhar para trás e concluir como Deus concluiu, que TUDO terá ficado TÃO BOM!”

Ela também nos adverte que somos representantes de Deus na terra, assim devemos exercer essa nossa função da melhor maneira possível.

A excelência exige que sejamos disciplinados. “O que separa o sucesso do fracasso não é a falta de potencial; é a falta de disciplina.” E o que é disciplina? Gosto dessa definição: “é fazer o que tem que ser feito ainda quando não estamos com vontade de fazê-lo.”

O crescimento não é automático e você deve ter responsabilidade se quer de fato aprender. “O aprendizado é para a vida toda. Quando paramos de aprender, paramos de crescer.”

Nosso potencial é desenvolvido à medida que praticamos as coisas com disciplina. “Crescendo, aprendendo e nos preparando, as portas se abrirão.”

A última personagem que Talita faz referência é Ester. Orfã, ela foi criada pelo tio e era tão bonita que o rei se encantou e casou com ela. Apesar de ter alcançado essa posição, Ester não se perdeu de sua essência, não esqueceu suas origens. Atendeu ao pedido do tio de interceder para salvar os judeus da perseguição.

Além de bonita, Ester tinha um bom coração. “A beleza do seu coração trouxe formosura ao seu rosto”. A aparência exterior é digna de cuidado, mas precisamos zelar pelo coração. Ester não ignorou a situação de seu povo.

Preservar nossa identidade é essencial para não nos desviarmos do que somos. O autoconhecimento nos auxilia nessa empreitada. O crescimento dói. Não é fácil encarar nossas dores, angústias e medos. Não é fácil lidar com eles, mas é possível e no final nos tornamos melhores.

Busque sua identidade, não se compare, não se desvalorize, nem se menospreze. Clarice Lispector diz que a única coisa imoral que existe é desistir de si mesmo. Não desista do aprendizado, do crescimento e de seu propósito. Não desista de ser você e não queira ser como as outras pessoas. Todas elas já existem. Ponha a mão na massa e trabalhe em sua construção.

E para finalizar, transcrevo mais uma lição da escritora que mais admiro:

“Respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver.”  C.L.

Agora que te apresentei a você, desfrute de sua companhia e se ame como Jesus insinuou que deveríamos amar a nós mesmos, quando disse: “ame o próximo como a si mesmo.”

O poder da autorresponsabilidade, de Paulo Vieira.

Recentemente, fui à casa de um dos meus irmãos fazer uma visita e ele me entregou o livro, desse modo: “Tome aqui pra você ler.” Apesar de estar  envolvida com a leitura de outros, não quis fazer desfeita ao meu irmão, muito menos ao livro. Então, peguei essa maravilha nas mãos e pensei como aquelas mães que, mesmo já tendo dez filhos para criar, ao descobrirem que estão grávidas de mais um, dizem: “onde cabe dez, cabe onze”. Não importa o fato de ter vários livros em espera para leitura, sempre caberá mais um. Assim, tão logo me dispus a ler “O poder da autorresponsabilidade”.

Paulo Vieira diz que a autorresponsabilidade é a chave para grandes transformações em nossa vida. Esse termo nos sugere ser preciso que tomemos as rédeas de nossas vidas e paremos de culpar os outros por aquilo que nos acontece ou deixa de acontecer. Somos nós os responsáveis por navegar o barco que nos conduzirá ao nosso destino.

A autorresponsabilidade está relacionada à inteligência emocional, cujo conceito pode ser entendido como a capacidade de lidar com as nossas emoções. A inteligência emocional tem ocupado lugar de destaque na literatura e nas discussões em geral, tendo em vista a percepção de que ela pode ser mais significativa para a qualidade de vida das pessoas do que a própria inteligência racional.

Sabemos que uma pessoa, por maior que seja o seu conhecimento técnico e sua experiência num determinado assunto, pode vir a enfrentar sérios problemas pessoais, sociais ou profissionais, caso não saiba lidar com as suas emoções.

O autor diz que a inteligência emocional só é conseguida quando o indivíduo é capaz de se responsabilizar pelo seu crescimento e desenvolvimento nas diversas áreas de sua vida, bem como de contribuir para o crescimento de outras pessoas que o cercam. Portanto, a autorresponsabilidade pode ser vista também como uma marca do amadurecimento.

Às vezes é preciso que algo aconteça em nossa vida para percebermos o quanto estamos à deriva de nós mesmos e o quanto nos perdemos de nossos sonhos mais íntimos. A correria do dia a dia, a quantidade de estímulos a que somos submetidos, a dispersão, o envolvimento com coisas infrutíferas e o automatismo em que vivemos nos afasta de nossos desejos genuínos a ponto de não sabermos mais quem somos, para onde estamos indo, o que realmente queremos e por que ainda não conseguimos o que queremos.

O acontecimento que fez Paulo Vieira repensar a sua vida foi um texto que ele leu chamado “A história de Sísifo” e que lhe abriu a percepção para que ele reconhecesse:

“Vi que minha vida era um eterno recomeçar, que, apesar de todo o meu esforço e dedicação, quando eu estava prestes a ter alguma conquista, algo acontecia e tudo ia por terra. Percebi que me preocupava mais com o esforço do que com a conquista. De modo sistemático, eu não terminava o que começava. Constatei que minhas atitudes e ações eram intempestivas e sem planejamento, e isso era o que me prejudicava. Entendi, sobretudo, que eu culpava os outros por todos os meus insucessos e desgostos. Ficou claro para mim que tudo aquilo que eu estava vivendo nos últimos treze anos não eram fracassos, mas sim os resultados das minhas ações e atitudes. Cada resultado negativo era um alerta de Deus para que eu vivesse de maneira diferente, pensasse diferente. Afinal de contas, compreendi com clareza que eu vinha sendo meu maior sabotador.”

A notícia boa é que pensamentos e atitudes podem ser transformados. Assim, podemos mudá-los imediatamente após constatarmos o quanto eles nos são prejudiciais. Isso é possível pelo que se chama de plasticidade neural, que “é a capacidade do cérebro de desenvolver novas conexões sinápticas entre os neurônios a partir da experiência e do comportamento do indivíduo.” Logo, pela mutabilidade cerebral é extremamente possível a apreensão e desenvolvimento de novos comportamentos no lugar daqueles que nos são prejudiciais.

Para mudarmos comportamentos precisamos ter uma noção clara de onde estamos, do que estamos fazendo, de como é nossa rotina, do que nos enfraquece, do que nos contamina e não contribui para o nosso crescimento. É preciso fazer um balanço da nossa situação atual para nos dar clareza e discernimento. Podemos avaliar os campos familiar, profissional, saúde, social, financeiro, emocional, entre outros, com a finalidade de encarar a verdade sobre como está o panorama atual de nossa vida e empenhar mudanças para melhorarmos os pontos mais necessários.

O processo de mudança exigirá sinceridade e verdade. Não dá para esconder debaixo do tapete aquelas coisas que se pudéssemos ocultaríamos até de nós mesmos. Se, por exemplo, você é daquelas pessoas que diz fazer um grande esforço para emagrecer, mas na calada da noite leva biscoitos e chocolates para o quarto e come escondido, você vai ter que admitir para si mesmo que essa atitude tem que ser transformada para que atinja o resultado do emagrecimento. Podemos até tentar enganar os outros, mas nós sabemos muito bem aquilo que fazemos e que nos sabota. Não há como fugir de nós mesmos, pois onde vamos nos levamos com pensamentos, emoções, corpo e tudo o mais que nos compõe.

Essa capacidade de conexão consigo mesmo é o que Paulo Vieira chama de competência pessoal, que pode ter por consequência autoconciência emocional, autoavaliação precisa, autoconfiança, autocontrole emocional, superação, iniciativa, transparência, adaptabilidade e otimismo. Esses fatores são muito importantes para o nosso desenvolvimento e crescimento.

Já a competência social é medida pela maneira positiva e harmônica como nos comunicamos com as pessoas ao nosso redor. Envolve empatia, influência, gerenciamento de conflitos, catalisação de mudanças, entre outras habilidades.

A avaliação dessas competências pode ser um bom indicativo para sabermos por onde começar a implementação de mudanças, pois muitos de nossos pensamentos e comportamentos derivam-se de nossos relacionamentos pessoais e sociais.

Acredito que todos nós estamos aqui para progredir. Paulo Vieira ilustra que o progresso é composto por algumas etapas que são consciência, autorresponsabilidade e visão positiva de futuro.

Só conseguimos mudar o que quer que seja quando adquirimos consciência plena de que algo precisa ser transformado. A consciência é a compreensão, o entendimento. O autor diz que a ela é nossa parte divina, que nos faz perceber e sentir Deus. É por meio da consciência que nos conectamos com o mundo e com nós mesmos. Ele ainda acrescenta que a debilidade emocional de uma pessoa é medida pela dificuldade que ela tem de olhar para si e para o mundo, portanto o primeiro passo para adquirir inteligência emocional é pela aquisição de consciência.

Após a consciência de si e do mundo ao redor, a autorresponsabilidade é a próxima etapa rumo ao progresso. Ela tem a ver com livre-arbítrio e com a certeza de que somos nós os condutores de nossas vidas.

Depois, a visão positiva de futuro para que acreditemos que o porvir será melhor, pois para isso estamos nos empenhando e transformando.

Ainda, sobre a autorresponsabilidade, diz o autor: “Ser autorresponsável é ter a certeza absoluta de que você é o único responsável pela vida que tem levado, logo, é o único que pode mudá-la.” Também: “Os autorresponsáveis agem de maneira ativa, eles vivem em primeira pessoa. São eternos aprendizes.”

Por fim, ele elenca seis leis para a conquista da autorresponsabilidade:

1. Se é para criticar, cale-se.

2. Se é para reclamar, dê sugestão.

3. Se é para buscar culpados, busque solução.

4. Se é para se fazer de vítima, faça-se vencedor.

5. Se é para justificar seus erros, aprenda com eles.

6. Se é para julgar as pessoas, julgue apenas suas atitudes e comportamentos.

Jesus trabalhava muito com as pessoas a questão da autorresponsabilidade. Quando curava alguém, não alarmava o seu poder de filho de Deus. Ele dirigia-se ao doente e dizia: “tua fé te curou”.

Em outra passagem, pergunta: “quer ser curado?” Noutra, pede que encham as talhas de água para transformá-la em vinho. No episódio com a prostituta, induz os apedrejadores a analisarem seus próprios comportamentos, chamando para eles a responsabilidade de julgarem a si próprios.

Portanto, assuma o compromisso de velejar rumo ao seu destino com autorresponsabilidade. É um favor e um benefício que você faz a si mesmo e, por consequência, aos outros.

Mulheres francesas não engordam, de Mireille Guiliano.

Tenho quase certeza de que o segredo das francesas para não engordarem, na verdade, não é segredo para ninguém. Por que será que elas não têm grandes problemas com a balança, salvo algumas exceções? Posso resumir em apenas duas palavras: elas praticam o equilíbrio e a moderação.

Mulheres francesas não engordam foi escrito por Mireille Guiliano, uma francesa que teve oportunidade de fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e ao voltar para a França trouxe junto com ela exatos dez quilos a mais.

Ao chegar de Nova York, seu pai foi buscá-la no porto e não disfarçou a surpresa ao ver a filha: Você está parecendo um saco de batatas – disse-lhe ele. Mireille ficou extremamente envergonhada, no entanto estava ciente de que o pai não dizia uma inverdade.

A magreza na França não tem por finalidade impor qualquer tipo de padrão. As francesas cultivam a magreza por uma questão cultural. Elas não se veem de outro jeito. É como se fosse algo impresso em seus DNAs.

Até certo tempo, a obesidade não fazia parte da cultura francesa, apesar de os franceses serem conhecidos mundialmente pela sua gastronomia. O termo gastronomia provém do grego antigo gastros, que quer dizer estômago e nomia, que quer dizer conhecimento, podendo ser traduzido como “regras do estômago” ou “conhecimento do estômago”.

Atualmente, devido ao processo de globalização, ao consumo de industrializados e ao sedentarismo, o índice de obesidade nesse país tem aumentado, inclusive com o acréscimo no número de realizações de cirurgias bariátricas. Ainda assim, o índice de obesidade da França, em torno de 18 %, em 2018, ainda é baixo se comparado ao dos Estados Unidos, que está em aproximadamente 40%. No Brasil, esse mesmo índice cresceu 67,8% entre 2006 e 2018.

A autora desse livro teve que rever e reaprender alguns comportamentos e atitudes de suas conterrâneas francesas a fim de perder os quilos indesejados que ganhou em Nova York. Sua mãe pediu ajuda a um antigo médico da família, o qual Mireille chama de Dr. Milagre. Com esse auxílio somado à sua força de vontade e ao seu empenho ela conseguiu eliminar peso e readotar o estilo de vida que havia perdido.

Apesar de a função principal dos alimentos estar relacionada à capacidade que eles têm de nos nutrir, sabemos que muitos veem a comida como uma fonte de prazer. O prazer é algo que nos move, mas como toda e qualquer coisa, se gozado de forma desmedida tende a nos prejudicar – e muito.

Uma coisa que as francesas sabem é que o prazer da maior parte das comidas está nos primeiros bocados: raramente repetimos. As coisas de que gostamos não podem virar rotina.

Em outro texto mencionei que o prazer de comer é ilusório e efêmero. Ele só dura o instante em que o alimento está na boca. Só quando está passando pelo primeiro órgão digestivo é que sentimos o sabor. Quando comecei a racionalizar dessa forma, poucas vezes caí em gulodices. Acho um prazer muito pouco benéfico e enganoso para me dar ao luxo de cometer excessos. Um brigadeiro basta! Afinal, o prazer da maior parte dos alimentos está nas primeiras mordidas.

Existem alimentos que podemos considerar “agressores”, como é o caso do brigadeiro que acabo de mencionar. Isso não significa que eles têm que ser banidos de forma radical. Podemos começar reduzindo-os aos poucos. “Agressores” são comidas que temos a tendência de comer compulsivamente, com muito menos prazer do que possamos imaginar.

A limitação desses “agressores” exige a observação do que estamos ingerindo. Muitas vezes comemos de forma automática. Nas festas e comemorações são os lugares onde mais observo isso. Percebo que à medida que os garçons oferecem os quitutes ingerimos tudo que nos é apresentado sem critério e sem qualquer noção de saciedade. Comemos os salgados, o churrasco, bebemos sucos ou/e refrigerantes, os doces, o bolo e tudo que achamos que temos direito, com o atenuante de que “é tudo de graça”.

Mas esse “de graça” às vezes sai caro, porque como dizem “o barato sai caro”, ou “tudo tem seu preço”.

Para as pessoas que, assim como as francesas, não querem engordar, sugiro que, quando forem a algum evento, façam um pequeno lanche em casa para não correrem o risco de ficarem esfomeadas e sair comendo tudo que há pela frente ou até mesmo como uma maneira de evitar comer nas festas. Afinal, não precisamos frequentar os lugares por causa de comida. Como bem disse Karina Peloi, no livro Magra para sempre, você não precisar ir numa festa para comer, você pode ir apenas divar. Pode parecer brincadeira, mas tem sentido.

Precisamos mudar nosso pensamento em relação à comida. O segredo de uma mulher francesa está principalmente na cabeça. Uma coisa é identificar os “agressores”; outra muito diferente é dominá-los. Se todas nós tivéssemos uma força de vontade férrea, não haveria razão para este livro.

Presumo que a maioria de nós sabe quais alimentos são danosos e o que devemos fazer ou deixar de fazer para viver um estilo de vida mais saudável. Sabemos que devemos ter equilíbrio, que devemos mudar muitos de nossos hábitos, mas acabamos adiando a adoção de novos comportamentos e ficamos cada vez mais distantes de alcançar resultados satisfatórios.

O início exigirá concentração e esforço, mas à medida que nos acostumamos a novos hábitos eles passam a fazer parte de nossa rotina.

Mireille sugere a ingestão da maior variedade possível de boa comida, a priorização de ingredientes da estação, a preparação da própria refeição, se possível. Fala sobre a importância do consumo de água, pelo menos oito copos por dia, principalmente ao levantar, como forma de combater a desidratação, e antes de dormir.

Nosso corpo é constituído de aproximadamente 70% de água. Ela compõe 80% do sangue, 70% dos músculos e 85% da massa cinzenta, que é um importante componente do nosso cérebro. A ingestão adequada de água nos mantém hidratados, ajuda na eliminação de toxinas e protege algumas perdas do nosso metabolismo. Os franceses são os segundos maiores bebedores de água gasosa no mundo (depois dos italianos). Já com relação aos americanos, os dados indicam que em média dois terços da população é cronicamente desidratada.

Os franceses encaram o ato de comer como um ritual. Só coma à mesa, sempre sentada. Eles enxergam essa atividade com seriedade, onde deve-se comer devagar e mastigar apropriadamente, sem distrações. Pense apenas no que está comendo, engolindo e saboreando a cada pedaço.

As porções devem ser controladas. Aqueles que estão acostumados a ingerir alimentos em grandes quantidades podem começar a reduzir aos poucos e progressivamente. Comer deve ser uma ato prudente e consciente.

Ney Matogrosso, no auge dos seus setenta e oito anos de idade, continua com um físico magro e esbelto. Ao ser questionado sobre o motivo que o mantém assim, ele responde: Como pouco. Durante toda a minha vida gostei de comer pouco. Gosto de sair da mesa leve. Faço ginástica todos os dias e nunca consumi bebidas alcoólicas. Muitos dizem que Ney come num prato de sobremesa, mas ele dá risada sobre isso e conta que apenas pratica a moderação.

Comer pouco não significa sentir fome: Nunca sinta fome. Tem pessoas que se alimentam muito mal durante o dia e esbanjam durante a noite. Você não deve pular refeições. Alimente seu corpo razoavelmente e no horário, e a máquina corporal terá menos probabilidade de responder com uma fome gritante.

Uma dica dada pela autora é consumir iogurte como forma de amenizar os ataques de forme. Antes de ler esse livro, eu já havia incorporado esse alimento ao menos duas vezes ao dia. Lembrando que deve ser na forma natural e, se possível, desnatado.

Escolher o que é importante para você, este é o segredo da mulher francesa. A escolha de alimentos deve levar em conta a qualidade. O consumo de massa e de produtos açucarados e gordurosos devem ser evitados. Para sempre? É óbvio que não. De vez em quando faz-se necessário gozar do prazer de comer algo de que gostamos muito. Ajustar aos poucos sempre é a chave para chegar ao equilíbrio.

Aumentar o consumo de folhas, frutas e legumes é um modo de auxiliar na perda ou manutenção do peso. Outras duas coisas que auxiliam nesse processo são a prática de atividade física que mais lhe agrade e gozar um sono reparador.

Muitas das substâncias e hormônios que precisamos para manter o funcionamento normal do corpo são produzidos durante o sono. Além do mais, ele é um ótimo aliado da pele.

Outra coisa que as francesas costumam fazer é usar a técnica da compensação. Se elas percebem que exageraram um pouco em alguma refeição, no outro dia elas compensam com redução de alimento ou/e aumento de exercícios. Algumas vezes utilizo essa técnica e assim posso fazer algumas concessões. Quando acrescentar uma indulgência, faça uma redução correspondente para compensar.

A mais importante parceira para a mudança de hábitos é a nossa mente. É ela quem nos auxiliar a encontrar o equilíbrio das coisas. Por isso, geralmente escuto pessoas dizerem: “tenho que mudar minha mente gorda.”

Geralmente, os franceses fazem três refeições por dia. A que eles consideram principal é o almoço. O jantar é a mais reduzida.  Seja qual for a refeição mais importante, almoço ou jantar, tenha em mente que uma delas deve ser sempre mais leve.

Eles não têm o hábito de comer os alimentos de forma misturada como nós brasileiros. Apreciam o sabor de cada um, separadamente, e costumam comer em três pratos, entretanto em pequenas quantidades. Essa escolha decorre da necessidade de sentir os sabores de forma individualizada, notando a presença dos ingredientes, saboreando com cuidado. Manter a mente interessada no que está digerindo é fundamental para comer menos e perder peso.

Três refeições por dia são obrigatórias para ajustar o metabolismo do corpo no ponto certo. Comer bobagens – fato que decorre principalmente de não ter três refeições apropriadas  – é geralmente um expediente errado, que gera confusão para nosso espírito e corpo.

Não sou adepta a essa história de comer de três em três horas como dizem por aí. Costumo fazer, por sugestão do meu nutricionista e por opção minha, quatro refeições diárias: café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar.

Mesmo saindo da refeição mais elaborada, os franceses ficam satisfeitos, nunca empanturrados. Os franceses adoram comer, mas preferem comida de qualidade e natural. Eles costumam gastar muito com alimentação.

Parte de viver como uma francesa, portanto, significa procurar e pagar um pouco mais pela qualidade.

O consumo de gordura recai naquelas consideradas boas como avelãs, nozes e amêndoas. As frutas preferidas são as da estação.

As crianças francesas são ensinadas pelos pais a comerem de maneira saudável desde a mais tenra idade. O açúcar não é incluído na alimentação das crianças por tão cedo. Apenas aos seis anos de idade eles começam a saborear certos tipos de alimentos. É melhor aprender a moderação desde cedo.

Mireille traz algumas receitas da culinária francesa que, além de serem leves, são feitas com ingredientes saborosos, mostrando-nos que não precisamos comer alimentos sem gosto para alcançarmos o corpo que desejamos.

A disposição dos alimentos no prato é muito importante para os franceses. Variedade visual, cores e apresentação são fatores que não podem ser esquecidos no prazer de comer.”

O consumo de café na França ocorre comumente de manhã e após as refeições. Nós não bebemos durante o dia inteiro, como fazem os americanos; isso é um hábito terrível.

O vinho é extremamente apreciado e degustado pelos franceses. Eles costumam beber apenas para acompanhar as refeições e em pouca quantidade, de uma a duas taças. É considerada uma bebida nutritiva, que estimula a mente e, por ser antioxidante, traz benefícios para a saúde do coração. Eles não gostam de bebidas alcoólicas muito fortes.

O vinho cria uma atmosfera de seriedade, convívio, refinamento e luxo, tudo o que é oposto da tendência de comer negligentemente e de maneira desrespeitosa. Eu particularmente acho também que ele insinua romantismo, intelectualidade e mistério. Para o povo francês, o vinho é parte da vida diária. Entretanto, eles o consomem com moderação. Assim como em todas as coisas boas da vida, o equilíbrio é a palavra-chave.

Essa bebida costuma ser apresentada para as crianças pelos próprios pais que a misturam na água e dão aos filhos para provarem.

Além do vinho, os franceses consomem pão e chocolate. Ingerir esses alimentos são para eles uma fonte de prazer. No entanto, o consumo é feito de forma consciente, sem perder de vista a noção de qualidade e quantidade. Existem chocolates mais naturais, com menos teor de açúcar e que mistura doçura, salinidade, acidez e amargor, que são características essenciais de um chocolate de qualidade.

Mesmo com a demonização do pão, pela “polícia do carboidrato”, os franceses não conseguem viver sem ele. O consumo de pães artesanais faz parte da cultura gastronômica francesa. Comer uma ou duas fatias com a refeição é um dos nossos grandes prazeres. Mas o consumo dessa iguaria por eles é moderado.

As francesas praticam exercícios físicos, mas ao contrário das americanas, elas não são muito amantes de academia. Preferem caminhar ao ar livre, andar de bicicleta, realizar atividades que demandam esforço físico, como subir escadas e tarefas domésticas.

Caminhar é uma parte essencial da maneira francesa de viver e a média das mulheres francesas caminha três vezes mais do que a média das americanas.

A vida moderna não nos ajuda muito quando se trata de movimento do corpo. Realizamos tudo de forma automatizada. Com um clique evitamos muitos deslocamentos e, mesmo quando se trata de trajetos curtos, preferimos percorrê-los de automóvel. O elevador é utilizado para subir poucos andares, pois evitamos os mínimos esforços.

Limpar uma casa, lavar as louças, passar as roupas, subir escadas, ir até o supermercado ou padaria a pé são atividades que podem fazer diferença no equilíbrio calórico ao final do dia. Muitas coisas destinadas a tornar a vida mais fácil, do controle remoto aos lençóis que não precisam ser passados a ferro, na realidade apenas nos tornaram mais sedentárias.”

Lembrando que o ganho de peso decorre da desproporção entre as calorias consumidas e as gastas. Isso demonstra a importância dos exercícios físicos para a perda de peso.

A atividade física deve ser praticada de forma concentrada, tendo em vista o equilíbrio e a harmonia, com postura e atenção à respiração.

Fomos longe demais desenvolvendo um estilo de vida menos físico. Muitas vezes, o tempo economizado é gasto falando sobre trabalho e família e lamentando a consequência de nossos erros. Bem verdade isso e podemos citar também como exemplo o gasto despendido à toa com o uso do celular. Costumamos dar mil desculpas para praticar de 50 minutos a 1 hora de exercícios, mas passamos horas e horas diante de uma tela vendo “o nada”.

O segredo é aumentar o gasto de energia diária – sugere a autora. Não economize seus passos; multiplique-os. Pequenas mudanças são sempre mais fáceis do que as grandes, mas elas somam.

As francesas prezam pelo bem-estar geral. Isso inclui o cuidado com a mente, os pensamentos, a respiração, a alimentação, o cultivo de atividades que lhes interessam, o sono reparador, o consumo de água e o gozar de prazeres de maneira equilibrada.

Dormir deve ser algo bem caprichado. Contudo, o tempo de sono é algo que pode variar entre as pessoas. Sabe-se que a falta de sono tem impacto no ganho de peso e aumenta a resistência à insulina  e a liberação de hormônios do estresse. A falta de sono também nos torna desatentos, o que nos encoraja a comer mais, portanto a insônia interfere nos mecanismos mentais.

Cultivar interesses e bons relacionamentos são eficazes quando se trata de obter prazer e, consequentemente, nos impede de buscar satisfação em outras coisas como a comida ou a bebida. O problema é que abusamos quando os consumimos e essa atitude acaba aflorando em nós um sentimento de culpa e impotência.

Alcançar e manter o equilíbrio não são atitudes alcançadas por força da hereditariedade; é algo que cultivamos em nossa maneira de viver.

Quanto mais cedo adquirirmos bons hábitos de bem estar e saúde, mais fácil será mantê-los durante a vida. Os primeiros anos de uma criança são essenciais para a internalização de comportamentos e a formação do paladar. Comer bem é algo que precisa ser ensinado no princípio. Não tente começar cedo demais com sabores intensos. É aconselhável que os pais tenham cuidado com a alimentação dos filhos para que não tenham problemas mais tarde. E é bom lembrar que “as crianças imitam os pais.” Ou seja, não adianta dizer ao filho que doce é prejudicial ao tempo em que saboreia uma lata de leite condensado.

À medida que vamos avançando em idade, os cuidados devem ser redobrados. A quantidade de comida deve ser cada vez mais limitada, pois nem tudo cai bem. A hidratação deve ser aumentada, pois perdemos água e massa muscular. Os exercícios de força devem ser incrementados para que tenhamos mais resistência, pois a densidade óssea tende a diminuir.

A razão de a mulher francesa não engordar não é genética, mas cultural, caso as francesas se sujeitassem como as americanas aos extremos de comer e fazer dieta, o problema na França seria muito pior do que o que atingiu a América.

Fora os casos excepcionais, sabemos que não engordar tem a ver com a adoção de novas atitudes, novos comportamentos, moderação, equilíbrio e autorresponsabilidade. Cada uma de nós é a guardiã do seu próprio equilíbrio e, quando ele escorrega, cada uma tem de estabelecer seu próprio plano de correção baseando-se em preferências pessoais.

As francesas não costumam se utilizar da inércia e isso é o que as separam das americanas quando se trata de não engordar. É preciso agir, dar o primeiro passo, ainda que curto. Movimente-se e comece hoje mesmo a fazer e colocar em prática tudo que foi ensinado nesse livro.

A passividade não vai colocá-la em seu rumo – afirma a autora.

A vida está no movimento, na ação, no comprometimento consigo mesmo e, sobretudo, na mudança. Nunca é tarde para começar a adotar novos e bons hábitos, mas garanto que o quanto antes será melhor.

Meu olhar sobre Bethânia

Ao som, a voz grave e marcante de Bethânia ressoa belas canções que inebriam e faz o espírito viajar. Antes de dar início a mais um cântico, ela declama um poema de José Régio:

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

Os sentimentos do poeta se confundem com as emoções da intérprete e insinuam que Bethânia só percorre os caminhos que seus próprios pés a levam. Ela é singular e sabedora de si.

Maria Bethânia, nome dado pelo seu irmão Caetano, que a chamou assim por causa de uma música de Nelson Gonçalves.

Maria Bethânia, filha de Dona Canô de quem herdou a alegria e a devoção.

Quando menina gostava de escrever. Odiava as aulas do colégio e desistiu de frequentá-las, com a anuência dos pais. No entanto, nunca parou de aprender. Artista que sempre foi – não iria se acostumar às obrigações de estudante. Artista que é – nasceu para a liberdade. Cantar o que quer, interpretar a verdade que sente, ser tudo que nasceu para ser.

Bethânia sabe de sua força interior e de seu magnetismo. Tem personalidade forte, muito evidente em seu tom de voz e em seus gestos soltos, embora firmes. Seu olhar continua sendo o da menina faceira de Santo Amaro. Seus cabelos brancos e armados confirmam a singularidade e a  liberdade de uma mulher que não nasceu para ser ou se comportar como os outros esperam.

Com sua originalidade transbordante, Bethânia parece um pássaro voando no palco, que de vez em quando pousa sossegada e nos inebria com seu canto. Entra com os pés descalços e com o mesmo corpo magro daquela moça de dezessete anos que encantou no Show Opinião. De lá para cá, conseguiu manter a integridade do corpo, da alma e da voz.

De família humilde, o interior da Bahia ainda é a sua principal casa. Alicerçada nos valores repassados por seus pais, Bethânia não se perdeu na fama e continua com a serenidade daqueles que sabem que tanto as críticas como os elogios são perigosos para os que não sabem de si mesmos.

Mas Bethânia sabe. Sabe que nasceu para artista. Sabe o poder que tem dentro de si. Apresenta-se com a postura imponente, autêntica e com a naturalidade de quem não precisa se parecer com ninguém. Ela se basta.

Namoradeira confessa, esbanja a sensualidade que ultrapassa as barreiras do tempo e da idade. Bethânia é a mulher que descobriu ou nasceu sabendo que a sedução é mais um jogo de envolvimento psicológico que físico. Seduz com o olhar, com os movimentos do corpo, com o jogar dos cabelos e com a voz que entra pelo nosso corpo como sangue correndo pelas veias.

Declama os poemas de Fernando Pessoa com uma propriedade que mais parecem ter sido brotados de si própria. Interpreta os textos da Clarice Lispector com a alma de quem os escreveu à própria mão. Em tudo que Bethânia põe sua voz sai como se tivesse sido criado por ela mesma. Ela transforma qualquer coisa de um jeito que caiba exclusivamente dentro de si.

Sua voz quebra todas as redomas e perpassa nossa alma fazendo-nos sonhar com os pés no solo. Bethânia gosta de ficar em casa com seus objetos e lembranças. Sem filhos, dedicou-se à  criação de si mesma. Possessiva com tudo e todos, faz análise como todo ser que é por demais grandioso e transborda.

Bethânia me lembra a força de um mar bravio que nos arremete com suas ondas. Sua presença majestosa no palco nos seduz e enlaça.

Deu vontade de ver mais uma vez Bethânia no palco tão livre como uma ave voando no céu. Vontade de escutá-la como uma virgem só para que sua voz fique inesquecível dentre tantas outras vozes.

Vontade de visitar Santo Amaro, que fez brotar essa artista, dirigir-me à Igreja de Nossa Senhora da Purificação, agradecer a dona Canô e rezar aos pés da Cruz pelo talento de Bethânia.

Não há qualquer coisa que justifique o ato de ser mãe.

A decisão de ser mãe não deve ser justificada em nenhuma hipótese, sob pena de se incorrer nas mais estapafúrdias respostas. Ser mãe deve ser um ato baseado pura e simplesmente na vontade. Uma vontade com que não precisamos dialogar, assim como essa que me faz escrever. Não me indago a respeito do porquê escrevo. Apenas o faço seguindo uma imposição de minha natureza que é tão branda e sem esforço como quando respiro.

O ato de procriar deve vir como uma inspiração, cujo expirar nasça sob a forma de um ser que se pretenda cuidar e amar. Indagar-se a respeito de ser ou não ser mãe é um indício de que não nasceu para sê-lo, mas nem sempre nascemos para ser uma coisa ou outra. Às vezes, aprende-se.

Ainda é grande o número de mulheres que não se questionam diante da tendência natural de conceber filhos. A maioria sente esse desejo e se verga para que se cumpra nelas a vontade de Deus que, quase sempre, se coaduna com a vontade delas próprias. A vontade de Deus quanto a conceber filhos ainda não se manifestou em mim. Provavelmente, Ele não acha que é o meu momento e assim posso seguir caminhando sem contribuir para a humanidade, mas também sem o peso da culpa.

Na verdade, essa história de que você terá filhos com a finalidade de contribuir para a humanidade não faz qualquer sentido. Talvez, a melhor forma seria dizer que terá filhos para fazer parte da humanidade. Nunca saberemos de antemão se nosso filho irá contribuir com alguma coisa ou se será apenas mais um na multidão. Se minha mãe tivesse pensado em me colocar no mundo para que eu fosse um meio de contribuição, provavelmente ela teria se frustrado, pois até agora não beneficiei a ninguém e tudo que faço qualquer outro faria.

Ser mãe para ter quem cuide de nós na velhice é outra coisa que não tem fundamento. Além do mais, demonstra insegurança, medo e, acima de tudo, egoísmo, cujo fim único somos nós mesmos. Ainda, não sabemos se nossos filhos nos sobreviverão e, se sobreviverem, se vão realmente cuidar de nós.

Soube de uma pesquisa que apontou que os idosos são cuidados mais por amigos e outros parentes do que pelos próprios filhos. Alguns, inclusive, preferem colocá-los no asilo ou são obrigados a se eximirem do cuidado aos pais, quer por falta de tempo, dinheiro ou mesmo por necessidade. As causas são variadas. Mersault, personagem do livro O estrangeiro, de Camus, achou por bem colocar a mãe no asilo, pois já não tinham o que conversar um com o outro e porque ele precisava trabalhar e não podia lhe fazer companhia. Ele precisou seguir sua própria vida como todos os filhos precisam… Pelo menos no asilo ela teria companhia.

É pelo motivo de os filhos terem que seguir suas próprias vidas que não podemos tê-los pelo medo de a solidão bater à nossa porta. Não temos o direito de confiná-los a nós para nos proteger da inevitável solidão que acompanha nossa velhice.

Ter filho contra a vontade para satisfazer o desejo do parceiro pode ser temerário. O filho é integralmente da mãe, mas não é integralmente do pai. Tendo em vista o grau de dispensabilidade, a figura paterna passa por três estágios: para a concepção, ele é parcialmente indispensável; para a geração é totalmente dispensável; e para a criação é dispensável, mas muito importante.

No que diz respeito à mãe, ela é indispensável em todos os estágios. Além do mais, a falta materna ou conflitos vivenciados com a mãe podem ocasionar danos psíquicos graves que marcam toda uma vida.

Assim, um pai atuante pode contribuir bastante para a formação de uma criança, mas há inúmeros momentos que só o colo, a proteção e o cuidado da mãe tem o poder de cura.

Pensar em ter filhos para preencher o vazio que existe entre o casal é de uma tremenda irresponsabilidade. Primeiro, porque a criança vai nascer com o peso de tampar um buraco que lhe precedera e que ela nem sabia da existência. Segundo, se existe um vazio entre o casal que faz ambos sofrerem por incompletude, creio que talvez seja hora de pensar numa solução que envolva os dois, únicos responsáveis pelas próprios rumos. Inclusive, pode até ser o caso de uma separação e não de colocar um ser no mundo com uma responsabilidade de reintegrar os pais que não escolheu.

Talvez a ideia de ter filho seja tanto mais acertada quando decorre de um excesso de conexão entre o casal do que de uma falta entre eles.

A justificativa de que, por meio de um filho se tem acesso ao maior amor do mundo, também deve ser rechaçada. Se precisa gerar um filho para exercer o amor em sua totalidade significa que só é capaz de amar muito aquele que foi fruto de si mesma. E não há mérito algum em amar os nossos próprios frutos. É apenas a manifestação de uma das facetas de nosso narciso, que nos acompanha em quase todas as nossas decisões e ações, sob o disfarce de amor pelo outro.

Ainda, sobre o amor de mãe ser o maior sentimento do mundo é preciso dizer que depende. Ele realmente é grande, mas cabe apenas dentro de um ser único. Ele é grande em qualidade, restrito em quantidade. Uma mãe é capaz de voltar contra todos em nome do amor que tem por apenas um ser. Nenhuma mãe pagaria o preço pago por Maria que ofereceu seu filho único pelo amor que Deus tem por toda humanidade.

Conceber para ter a chance de dar ao filho tudo que você quis e não teve ou de ele ser tudo que você quis ser e não foi demonstra que você não separa as vontades do ser que gerou das vontades do ser gerado. Os desejos de seu filho podem não coincidir em nada com os seus. E querer oferecer a ele tudo aquilo que não teve ou transformá-lo em algo que você não conseguiu ser é uma forma de afagar suas próprias carências em detrimento de um ser que nada teve a ver com elas.

O argumento da evolução é fraco e também não se sustenta. Evoluir significa passar por um processo gradual de transformação. Pensamos sempre em evolução como uma forma de nos transformarmos a cada dia numa versão melhor de nós mesmos. Para isso, não precisamos ter filhos. Há várias coisas porque passamos e que podemos observar que nos oferece a possibilidade de nos melhorarmos. Por exemplo, os exercícios de se colocar no lugar do outro e de rever as próprias falhas e fraquezas são de grande valia na busca da evolução. A própria ideia de que tudo é passageiro e de que morremos um dia são fatos que por si sós já nos deveriam ensinar muitas coisas. O amor que você tem a um filho não é maior que o amor que você tem a si próprio, senão Jesus, em sua inteligência suprema, nos teria dito: “Ame ao próximo como ama os seus filhos”. Mas não, ele disse: “Ame ao próximo como a ti mesmo.” Quando você resolve ter um filho é por amor a si mesma, a uma ideia sua, a um desejo seu. É a si que você busca se satisfazer por meio dele.

E se você não evoluir como o esperado depois de ter um filho quem terá falhado, você ou ele?

A ideia de que você vai se perpetuar nos seus descendentes é uma tremenda ilusão. Os seus filhos serão feitos da mesma matéria que você e um dia eles também se vão e tanto você quanto eles cairão no esquecimento. Quem está aqui para rememorar a existência de sua tataravó? Um modo menos efêmero de se eternizar talvez seja pela arte ou ciência. Mas que necessidade é essa de eternidade? A eternidade prometida por Jesus não foi a pertencente a esse mundo. Nesse mundo, tudo é ilusão e corrida atrás do vento, como diz Eclesiastes.

Querer justificar a decisão de ser mãe parece originar de uma necessidade de dar importância superior a esse ato ou mesmo não querer admitir que o fazemos porque somos animais e todos os animais assim o fazem. Parece nascer do fato de os humanos não aceitarem que uma das funções para os quais estamos aqui é reproduzir, caso contrário por que a mulher teria óvulo e o homem esperma? Mas não, temos que justificar. Temos que dar notoriedade e uma importância maior para as nossas ações.

Entendo que não é fácil estar diante do vazio das coisas inexplicáveis. Entendo que é muito mais fácil carregar nossas ações de sentido. Mas nem tudo precisa de um motivo, uma razão ou um porquê. Podemos agir pura e simplesmente porque sentimos vontade e essa vontade as vezes é muito mais forte do que nós. Podemos ter filhos apenas por tê-los e mesmo assim amá-los, sem precisar que o nascimento deles venha marcado pelo peso de uma responsabilidade cuja anuência eles não deram. A justificativa é um modo de tentar fazer com que os outros aceitem nossas razões e, sobretudo, um modo de nós mesmos convivermos com o peso de nossas escolhas.

Quando Deus disse “crescei-vos e multiplicai-vos”, Ele não se justificou. Deu-nos apenas a ordem. Portanto, cabe a nós a escolha da obediência ou arcar com as consequências da desobediência. No entanto, qualquer escolha carrega a possibilidade de vir acompanhada de alegrias e dores, mas nunca de provas ou explicações.

Minha Vida, de A. P. Tchekhov.

Minha vida é uma narrativa em primeira pessoa, cujo personagem principal é Missail, contador de sua própria história.

Demitido de seu nono emprego, para desgosto do pai, um arquiteto municipal, Missail decide dedicar-se a serviços braçais, pois considera que as atividades burocráticas e intelectuais não possuem quaisquer utilidades. Além do mais, nesses empregos passava o dia inteiro sem fazer absolutamente nada e isso o levava a um profundo tédio.

“(…) todos os nove empregos pareciam-se um com o outro como gotas d’águas: eu tinha de ficar sentado, escrevendo, ouvindo observações estúpidas ou grosseiras, à espera da demissão.”

Apesar de tentar se explicar a seu pai, este não admitia que o filho se misturasse à classe baixa e se dedicasse a serviços desprovidos de nobreza. Seria uma vergonha que, inclusive, mataria de desgosto a mãe de Missail, se ela estivesse viva – dizia seu pai. Aos seus olhos, o filho era um “homem tapado”, um “cabeça sem cérebro”. O tipo de trabalho que ele queria exercer revelava um “traço característico de escravos e bárbaros.”

Missail tentava explicar-lhe que tinha vitalidade suficiente para exercer trabalhos mais árduos e úteis. Era vergonhoso e ofensivo que um homem de vinte e cinco anos ficasse o dia todo dentro de um cômodo abafado, sem nada produzir, sob a justificativa de que era dotado de um tal “fogo sagrado”. Era inadmissível que esse “fogo sagrado”, tão valorizado por seu pai, fosse direcionado a escrever letras mortas que em nada alteraria a realidade de alguém.

“(…) eu me julgava muito forte, resistente, capaz de fazer o mais pesado dos trabalhos.”

Nenhuma explicação o convenceria, posto que ele era incapaz de aceitar os argumentos do filho, “estúpido” e “patife”. Nesse dia em que Missail o procurou a fim de ser compreendido de seus motivos, seu pai o bateu com um guarda-chuva. A irmã, Kleópatra, presenciou a surra, mas não manifestou qualquer defesa. Simplesmente, “deu as costas sem dizer nem uma palavra”.

Mesmo sem o consentimento paterno, no entanto, julgando estar agindo de acordo com a consciência, Missail deu início à nova vida de operário, vestindo-se pobremente e fora de moda, gozando de má reputação por não ter um cargo.

Enxergava o pai como um ser medíocre que, embora bradasse sobre a insignificância do homem diante do universo, não agia segundo esse saber e achava-se o melhor dentre todos os homens.

Único arquiteto da cidade, todas as construções feitas pelo pai eram iguais, sem qualquer inovação.

“(…)nos últimos quinze a vinte anos pelo que me lembrava, não se construía um único prédio decente na cidade.”

“(…) todas as casas construídas por meu pai, todas parecidas umas às outras, lembravam-me vagamente a sua cartola, a sua nuca rígida e severa. Com o passar do tempo, na cidade acostumaram-se com a falta de talento de meu pai; ela criou raízes e tornou-se o nosso estilo.”

Na casa do pai de Missail, cada copeque era milimetricamente contado. As despesas eram bastante reduzidas a ponto de eles se alimentarem muito mal para que o dinheiro fosse poupado ao máximo. Kleópatra era a responsável por contabilizar as economias da família, verificar se os empregados não estavam comendo além do permitido, bem como servir chá para o genitor ou para as visitas, por pelo menos cinco vezes ao dia. Essas eram as suas únicas ocupações.

Missail amava a cidade em que vivia, mas não gostava das pessoas com as quais era obrigado a conviver. Achavam-nas tediosas, estranhas e até asquerosas. Elas estavam imersas na mesquinharia, na mentira e no esforço por manter uma espécie de aparência enquanto “viviam do capital acumulado e do salário recebido por funcionários públicos.”

Há uma crítica à diferença gritante entre as classes e à exploração de umas sobre outras. Para Missail, existiam opressores e explorados. Havia uma hipocrisia reinante, uma farsa, uma desonestidade sem precedentes.

“Na cidade inteira eu não conhecia nenhuma pessoa honesta. O meu pai recebia propina e imaginava que lhe davam isso em respeito às suas qualidades morais.”

Quase todos estavam contaminados pela sujeira, com exceção de algumas moças que, em seu julgamento, possuíam alguma pureza moral.

Ele deixou a cidade e foi morar e trabalhar no campo. Chegou a passar fome e compreendeu porque algumas pessoas trabalham apenas por um pedaço de pão. Estava insatisfeito consigo mesmo, faminto e vagava.

Agora, Missail vivia às próprias custas e não dependia do pai. Este cortou qualquer tipo de relacionamento com o filho. Por vezes, a irmã ia visitá-lo, principalmente para encontrar-se com o médico Blagovó, que gostava de conversar com Missail sobre ideologias, e pelo qual Kleópatra acabou se apaixonando. Missail percebeu que as visitações realizadas pela irmã eram direcionadas a ele apenas de modo reflexo. Era o médico que ela realmente desejava encontrar.

Ela chegou a suplicar ao irmão que se corrigisse, mas Missail continuou a agir conforme a própria consciência, sem qualquer pretensão de se emendar de toda e qualquer acusação que recebesse.

Blagovó admirava Missail pela coragem que teve em mudar a vida de forma tão abrupta. Imaginava que essa sua força poderia ser direcionada para algo mais nobre, como a arte ou a ciência. Blavogó era um homem encantado pela ciência e pelo progresso. Já Missail acreditava que o progresso é uma ideia sem contornos definidos. Não se sabe ao certo o limite do desenvolvimento, até onde ele vai e, por ser tão desprovido de margens, talvez não haja nada que justifique as atrocidades e explorações que se faz em nome dele.

Missail tinha por ideal a igualdade dos fortes e fracos, dos ricos e pobres e imaginava que a melhor maneira de nivelar todas as classes seria por meio do trabalho físico. Para Blagovó, esse nivelamento social representaria uma ameça ao progresso.

Numa dessas conversas, eles discutiram a respeito do capitalismo em contraposição ao surgimento de ideias libertárias. Apesar de existir uma maioria que acredita lutar por uma minoria sem privilégios, aquela continua se submetendo a estilos de vida que financia os novos tipos de escravidões, que atualmente se apresentam de formas camufladas.

“Já não açoitamos nossos criados na estrebaria, mas damos à escravidão formas refinadas, no mínimo somos capazes de encontrar a justificativa para ela em cada caso particular.”

Fico imaginando quantas coisas adquirimos e que são custeadas pela escravidão disfarçada de trabalho legal. Nós bem o sabemos e muitas vezes agimos de forma consciente, mas estamos tão famintos pelos produtos oferecidos pelo capitalismo que acabamos nos rendendo a ele com justificativas por demais rasas ou desprovidas de veracidade.

Quando o doutor Blogovó viajou a São Petersburgo para tratar de interesses profissionais, Missail notou que as visitas da irmã se tornaram escassas. Ela voltou a vê-lo apenas quando o médico retornou da viagem. Dessa forma, Kleópatra, sob pretexto de encontrar o irmão, acabava se deparando com quem de fato desejava ter por perto – o amado.

Mesmo exercendo um tipo de trabalho malvisto pelas classes mais abastadas, aqueles que exigem apenas a força física, Missail continuava a ter contato com pessoas pertencentes à nobreza. Passou a frequentar a casa de María Viktoróvna, filha de um engenheiro para o qual ele já havia trabalhado, e quando ia visitá-la se servia das melhores comidas e aproveitava o conforto que lhe era oferecido por essa gente cujos modos ele mesmo criticava.

Trabalhar como pintor passou a entediá-lo. O contato com o doutor Blagovó, único homem que exercia sobre ele alguma influência, fez com que Missail começasse a se interessar por adquirir conhecimentos que fossem capazes de intelectualizar seu trabalho “sem graça”. Apesar de gostar de seu ofício, começou a perceber que as pinturas que realizava destinavam-se a atender facilidades e comodidades daqueles que podiam pagar por ela. Novamente, a classe para a qual ele direcionava as mais ardentes críticas.

A amizade de Blagovó não só fez com que Missail se elevasse moralmente, indagando-se a si próprio a respeito de suas convicções, como também fez com que Kleópatra refletisse sobre o estilo de vida que estava levando junto ao pai.

“Será que não estraguei a minha juventude? Nos melhores anos da minha vida, dava conta apenas de contabilizar as despesas, servir chá, economizar copeques, fazer sala a visitas, e pensava não havia nada no mundo mais elevado do que isso. Eu tenho aspirações de ser humano e querer viver, mas de mim fizeram uma governanta.”

Kleópatra julgava que o pai era o culpado de seus anos perdidos. A educação rigorosa a que ela e o irmão foram submetidos nunca seria esquecida por eles, mesmo deixando a casa do pai na tentativa de seguir suas próprias vidas. Eles sempre estariam ligados a questões passadas, seja por raiva, mágoa, culpa ou pelo desejo de que o pai os aceitassem e entendessem as suas escolhas.

Missail se encantava por María Viktoróvna a cada visita que lhe fazia. Certa vez ela disse-lhe perceber que ele não confiava em si próprio e que não parecia estar satisfeito com as atividades que exercia, pois não ficava à vontade em suas roupas de pintor.

Os dois acabaram se casando e María decidiu morar no campo, numa propriedade pertencente ao pai dela. Missail não gostava de trabalho rural e até pensou em dizer-lhe que se tratava de uma atividade para escravos, mas acabou se lembrando que apenas repetiria os pensamentos e as palavras de seu pai. Preferiu silenciar.

Missail estava completamente apaixonado e passou a viver os sonhos da amada. Seus ideais de justiça e igualdade foram substituídos por pensamentos de amor. Passou a trabalhar no campo ainda que sem qualquer atração pela agricultura, mas como forma de agradar a esposa.

Com o passar do tempo, María começou a se incomodar com o jeito de viver daquela gente do campo, com a falta de civilidade, com a preguiça e grosseria daquelas pessoas que algum dia pensaram em proteger e defender.

A rotina do casal e a falta de novidade minava a possibilidade de novas emoções e a preocupação passou a recair sobre coisas miúdas e mesquinhas do cotidiano, intensificadas com a irritação crescente que María sentia pelos camponeses. Estes eram “animais”. Passou a odiá-los.

Ela tinha pensamentos próprios que não se comunicavam com os do marido. Gostava de leitura e de conversar a respeito de coisas interessantes, bem distantes dos assuntos que agora via-se obrigada a tratar, como a bebedeira dos mujiques preguiçosos. María Viktoróvna, ao falar da embriaguez dos camponeses, se esquecia de que o próprio pai bebia muito e tinha adquirido o espaço onde ela vivia por meio de fraudes descaradas.” Missail se questionava: “Como ela podia esquecer?”

Os esforços pelo aperfeiçoamento pessoal a que María e Missail se dedicavam beneficiavam a si mesmos e não modificavam a vida de quem quer que fosse. Os mujiques continuavam vivendo na ignorância, na sujeira e na bebedeira. Ela disse-lhe: “(…) tudo continua como antes, e você ter arado e semeado ou eu ter gasto dinheiro e lido livros não melhorou em nada a vida de ninguém. Pelo visto trabalhamos apenas para nós próprios.”

María dizia que, se eles realmente quisessem ser úteis para os outros, teriam que atuar sobre a massa, como aqueles que fazem música e conseguem atingir a muitos. A luta pelos outros exige que se saia do comodismo do nosso estreito círculo. Mas quem está verdadeiramente disposto a lutar e se dedicar a um número indefinido de pessoas quando muitas vezes não temos a coragem e disposição para encarar nem mesmo nossas próprias lutas pessoais?

Missail percebeu que a vida conjugal estava prestes a acabar. Sua esposa era muito ativa, rica e talentosa para terminar o resto de seus dias na insignificância. Ela gostava de música, pintura e literatura e logo levantaria voo, deixando-o novamente sozinho.

“(…) eu tinha sido só um boleeiro, que a transportara de um divertimento a outro.”

María partiu… “(…) arrumando o vestido, como uma ave que finalmente fugiu da gaiola e ajeita as asas da liberdade.”

Kleópatra se envolveu com Blagovó, homem casado. Teve o infortúnio de engravidar e a alta sociedade a desprezava. No entanto, sentia-se melhor por estar distante do rigor do pai, por se dedicar à leitura, ao autoconhecimento e não mais perder tempo com atividades mesquinhas que tanto tomaram tempo de sua vida.

“Sofro porque gastei metade da vida de modo tão estúpido, sem ânimo.”

Apesar das tentativas de seguir a vida com independência e de protestar a educação dada pelo pai, o que para ela era mais importante, Kleópatra adoecera muito nos últimos tempos e não resistiu. A criança ficou aos cuidados do tio, que promovia passeios com a sobrinha.

María Viktoróvna mandou-lhe uma carta anunciando que não retornaria e que o casamento deles havia sido um erro.

“(…) dê-me a liberdade, corte mais depressa o laço que ainda perdura e nos une.”

Tanto María quanto Blagovó seguiram seus ideais. Eles permitiram ser tocados pelo arrebatamento da vida. Aquela viajou para a América e o médico dedicou-se à carreira científica. Apenas Missail e Kleópatra ficaram presos a seus passados.

Missail procurou seu pai mais uma vez na expectativa de que ele o compreendesse. Amava-o e lastimava a distância, mas aquele estava irredutível e não se mostrava disposto a uma reconciliação enquanto o filho não mudasse de ideia e comportamento. “O que se planta, se colhe. Você desprezou os meus conselhos e insistiu teimosamente em suas opiniões falsas” – disse-lhe.

“Tudo passa, a vida também passará, quer dizer, não precisamos de nada. Ou precisamos só da consciência e da liberdade, porque o homem é livre, ele não precisa de nada, nada, nada.”

Missail, ao pensar nesse trecho da carta que María Viktoróvna lhe encaminhara, refletiu: “Nada passa.”

Tudo que viveu havia lhe deixado marcas que o tempo e os acontecimentos não foram capazes de apagar. Continuou trabalhando como operário e as pessoas da cidade se acostumaram com a vida que ele levava.

Depois, tornou-se empreiteiro, envelheceu, ficou com ar taciturno, rígido, severo. Raramente sorria. Não visitava o pai, mas carregava-o em seus pensamentos. Missail não foi capaz de esquecer e, por isso, não conseguiu viver verdadeiramente a própria vida.

“Tudo passa” ou “Nada passa” dependerá da disposição que se tem em deixar os acontecimentos passados no lugar onde eles devem estar – no passado. Apenas com a superação das decepções e das dores é possível começar a pensar em ser livre. Caso contrário, nunca conseguiremos quebrar as algemas com que acorrentamos os nossos próprios pés.

Otelo, de Shakespeare.

Iago é um simples alferes que deseja ser promovido à tenente, mas vê sua expectativa frustrada por Otelo, que nomeia Cássio ao posto. Ao saber disso, Iago começa a tramar contra Otelo, por quem nutre um profundo ódio e inveja. Além de não tê-lo beneficiado com o cargo de tenente, Otelo é casado com Desdêmona, mulher pelo qual Iago diz nutrir amor, apesar de casado com Emília.

Rodrigo, cavalheiro veneziano, também diz-se apaixonado por Desdêmona e confessa a Iago que pretende acabar com a própria vida, uma vez que não possui a atenção da amada. Iago pede que ele tenha calma, pois desenvolveu um plano para separá-la de Otelo. Assim, dirigem-se à casa do pai da moça e denunciam Desdêmona, que se casou sem o consentimento paterno. Ao saber, Brabâncio cai em desgosto e vai em direção ao Doge de Veneza com a finalidade de convencê-lo a destituir Otelo das funções que exerce em nome do Estado.

Desdêmona declara na presença do Doge que, ao contrário do que seu pai diz, ela não fora enfeitiçada por Otelo. Apaixonou-se e casou com ele pela sua coragem e desejava acompanhá-lo, sem interferências.

Desse modo, o Doge nada pôde fazer em favor de Brabâncio, pois nada restou provado que maculasse a honra e o caráter do mouro, agora seu legítimo genro.

Otelo e os militares sob seu comando tiveram que se deslocar para o Chipre, com vistas a combater uma iminente invasão dos turcos. Iago ficou encarregado de acompanhar e proteger Desdêmona. Ele sugeriu que Rodrigo o acompanhasse, alertando-o para partir levando nas bolsas todo o dinheiro de que dispunha. Iago tinha a intenção de roubá-lo como fizera com tantos outros “tolos”.

Conhecido por possuir honra, caráter, coragem e bravura notáveis, muitos viam Otelo como um homem sensato, cuja natureza era dotada de nobreza, constância e dedicação. Possuía os atributos dignos de provocar inveja num ser mesquinho como Iago, que passava todo o seu tempo tramando e desejando conquistar o que pertencia aos outros. Odiava o mouro por reconhecer que ele possuía tudo que lhe faltava – as qualidades, a mulher e o cargo.

Como não conseguiu separá-lo de Desdêmona ao executar o seu primeiro plano, começou a pensar numa outra forma de atingi-lo. Sua intenção era provocar ciúmes em Otelo a ponto de levá-lo à inquietude e à loucura. Queria acabar com a paz dele, tomar o seu lugar, enfim, destruí-lo.

Iago agia sorrateiramente como o diabo. Fingia amizade por todos aqueles contra os quais tramava. Insinuava, sugeria, instigava, provocava suas vítimas ao tempo em que as seduzia para armadilhas bem arquitetadas. Colocava uns contra os outros e transitava entre eles como se fosse o mais bem intencionado dos homens.

Os venezianos não precisaram enfrentar os turcos, pois estes foram destruídos em alto-mar pela tempestade. Otelo promoveu um evento comemorativo para apaziguar os habitantes da região e Cássio ficou responsável pela ronda e segurança do local.

Iago viu nessa circunstância um prato cheio para viabilizar um de seus planos contra o tenente. Sugeriu a Cássio que bebesse apenas um copo de vinho. No início, ele relutou dizendo que sua cabeça era fraca e desastrosa para bebida. E, sabendo da fraqueza humana, não queria carregá-la cedendo ao álcool.

“Eu bem gostaria que as cortesias sociais inventassem algum outro costume para a diversão.”

Ah, Cássio! Eu também gostaria, mas passados anos e anos desde que emitiu esse desejo, as coisas só pioraram e a maior diversão das famílias e da sociedade continua sendo regada às mais variadas espécies de bebidas alcoólicas. O álcool continua sendo motivo de desunião, mortes, separações e loucuras. Continua sendo o aperitivo ingerido pelo homem para reavivar a alegria que não possui quando bebe somente água. Continua sendo o fogo para desencadear discursos e provocar conversas que jamais ocorreriam se ao centro não reinasse o principal objeto a que prestam culto.

Cássio acabou se curvando às investidas e excedendo na dose de vinho. Com o tenente mergulhado em estado de embriaguez, Rodrigo fez conforme havia combinado com Iago e, disfarçado, o provocou com gritos e berros para fazê-lo perder a sensatez. Transtornado, Cássio travou um luta e desferiu contra Montano, que havia chegado no meio da confusão.

Consequentemente, Cássio perde a reputação junto a Otelo e este o destitui de seu posto.

“Cássio, tenho por ti enorme afeição, mas nunca mais serás meu oficial.”

O ex-tenente lamenta e faz uma profunda reflexão sobre o álcool: “Oh, e pensar que os homens põem um inimigo em suas bocas para lhes roubar os cérebros. E pensar que, com alegria, prazer, deleite e aplauso, transformamo-nos em bestas. Aprouve ao demônio embriaguez ceder seu lugar ao demônio ira. As imperfeições de um abriram-me o caminho para o outro, tudo para que eu chegasse a verdadeiramente desprezar-me. (…) ser numa hora um homem sensato, dali a pouco um tolo, para mais adiante ser um animal! É muito estranho! Cada copo em excesso é amaldiçoado, e um de seus ingredientes é o próprio diabo.”

Mais uma vez, Iago se prontifica a apoiar Cássio e promete ajudá-lo a retornar ao ofício perdido, como se o ocorrido não fosse uma das coisas que mais tivesse desejado.

A destituição do tenente favorece o próximo passo do plano de Iago: aproximar Cássio de Desdêmona e instigar em Otelo a desconfiança da amada. Iago sugere-lhe que vá procurá-la para pedir-lhe que tente convencer o marido a mudar de ideia e o restitua ao cargo.

Ela o recebe e promete interceder por ele: “(…) alegre-se, Cássio, pois sua advogada prefere morrer a desistir de uma causa.”

Desdêmona dirige-se ao esposo e suplica que se reconcilie com o ex-oficial. Otelo promete pensar no assunto e, antes que se ponha a pensar, Iago se aproxima dele e sugere, insinua, provoca, instiga que há entre sua esposa e Cássio algo além de boas intenções.

Assim, consegue conceber os ciúmes na cabeça de Otelo, único sentimento que foi capaz de fazê-lo perder totalmente a razão. “Um homem com chifres é um monstro, um animal” – disse o mouro.

Iago propõe a Otelo que fique às escondidas enquanto fala com Cássio sobre Desdêmona, a fim de que veja os sorrisinhos dele em relação à sua esposa. Entretanto, Iago o indaga a respeito de Bianca, moça que presta serviços amorosos a Cássio. Mas Otelo não os escuta, apenas observa os gestos e sinais e os têm como prova irrefutável de que Cássio também se delicia com o seu banquete.

Desdêmona começa a sentir a indiferença e a frieza do marido, mas acredita que a causa são os negócios do Estado. Emília, esposa de Iago, a questiona se ele não está invadido pelo ciúme, mas Desdêmona sequer cogita essa hipótese, diante da certeza e consciência da fidelidade que devota ao esposo.

Iago consegue, por meios furtivos, obter um lenço de Desdêmona, presenteado por Otelo, e faz com que o objeto caia nas mãos de Cássio, consubstanciando mais uma prova em desfavor da lealdade daquela. Ele insinua a Otelo: “(…) boba sua esposa! Ela o presenteia com o lenço…”

Otelo já se encontra totalmente possesso e deseja enforcar a mulher, quer matá-la. “Vou cortá-la em pedacinhos… Fazer de mim um corno!” Chega a equipará-la a um demônio e a agride com uma bofetada no rosto, numa flagrante evidência de que o ciúme o transformou num animal raivoso e de chifres, plantados em sua cabeça não por traição de Desdêmona, mas pela invenção sugestiva do endemonIAGO.

A fúria de Otelo põe em suspeita a sua outrora conhecida sensatez. Agora, ele é um homem cujas virtudes foram arranhadas. Já não raciocina nem leva em consideração os apelos daquela que tanto amou. Não acredita em mais nada que não caiba em seus devaneios. Está cego e deixa-se guiar completamente pela maldade daquele que mais o odeia.

Não quer de Desdêmona nenhuma explicação. Quer a sua morte. E com as mesmas mãos que um dia acariciaram a amada, Otelo tira-lhe a vida.

Qualquer revelação sobre a honestidade da esposa não a traria de volta. Emília contou-lhe a verdade e expôs a Otelo toda a trama do marido para destruí-lo. Tarde demais!

Ao perceber a injustiça cometida, Otelo se apunhala, movido talvez pela esperança de encontrar a esposa morta ou quem sabe para fugir do juízo de si mesmo.

O julgamento de Iago ficou a cargo do Estado, no entanto, era por julgar-se a si próprio todos os dias e, saber-se medíocre, que ele sempre quis o que não lhe pertencia. Iago nada teve e nada conseguiu ser, pois sempre olhou para fora.

A depender de como olhamos o outro, nos descuidamos de nós mesmos, e é bem provável que o nosso jardim acabe morrendo sem nunca ter dado sequer uma flor.

A maioria das pessoas que estão nas suas redes sociais odeia tudo o que você posta.

Se a maioria das pessoas que estão em nossas redes sociais odeia tudo o que postamos, qual o motivo de elas estarem ali?

Caso você não se enquadre na categoria de pessoas famosas ou públicas, cujas redes sociais abrangem muitos anônimos, provavelmente as suas são compostas por pessoas mais próximas que envolve os próprios familiares, os familiares de seu esposo (a) ou companheiro (a), seus amigos e os dele (a), colegas de trabalho, escola ou faculdade e demais conhecidos.

Quando as pessoas que estão em nossas redes imaginam que algum dia possam estar frente a frente conosco em alguma oportunidade, quer por situações que obrigam um encontro ou ocasionalmente, essa ideia pode inibi-las no sentido de nos excluir de sua lista de amigos. Outra coisa que também constitui impeditivo para essa atitude drástica é o medo do que vão pensar a respeito ou mesmo o risco que se corre de evidenciar ao próprio excluído que realmente não gostamos dele ou que nos incomodamos com as suas postagens.

Se é alguém que não conhecemos e que deixa de nos agradar automaticamente damos um clique e aquela pessoa deixa de existir junto com os seus conteúdos. Mas se é o nosso cunhado, aquela prima ou tia ou aquele colega de trabalho que senta ao nosso lado, aí a coisa se complica e acabamos por tomar a decisão de que é melhor suportar do que escancarar a antipatia.

Na Era da Pós-Modernidade, a importância de parecer se sobressai quando comparada a de ser. As características da individualidade e do narcisismo são preponderantes. Nunca tivemos um esvaziamento de identidade tão grande, no qual estamos, mais do que em outros tempos, com os olhos voltados para fora em detrimento daquilo que deveríamos fazer para desenvolver em nós o que desejamos e vemos sob poder e domínio do outro.

Em uma de suas palestras, Rossandro Klinjey informa que uma pesquisa alemã indicou que 87% das pessoas integrantes de nossas redes sociais odeia tudo o que postamos. Essas pessoas sentem ódio e tristeza por não viverem na vida real as coisas que aqueles que elas observam vivem nas fotos ou vídeos publicados .

Ele acrescenta que durante trinta segundos, no qual uma pessoa fica exposta ao contato com essas redes, ocorre nela o início de sintomas de depressão e infelicidade, experimentados pelo simples fato de reconhecerem que não leva uma vida tão boa quanto àquelas que são exibidas pelos demais.

Nesse momento é ativado o fantasma da comparação, a qual R. Klinjey reconhece como uma das formas mais infantis de se estar no mundo. Ela é tão danosa que inviabiliza as pessoas de diferentes formas, além do mais faz surgir um dos sentimentos mais maléficos que é a inveja. Esta é tão prejudicial que faz brotar o ressentimento, porque a depender do critério que usamos para nos comparar é bem provável que muitas vezes nos sintamos inferiores. Comparar também é uma forma de anular nossa singularidade, nos diminuir e nos desprover de autoestima.

Karl Lagerfeld diz que “a personalidade começa onde a comparação termina”.

Sigmund Freud, considerado pai da psicanálise, sugeriu que “a única pessoa com a qual você pode se comparar é com você mesmo no passado.”

Sofrer por não sermos como o outro pode nos conduzir a um abismo, pois por mais que nos esforcemos é algo impossível de se conquistar. Ao nos compararmos, nasce a ideia de que alguém é melhor do que nós e passamos a nos caracterizar com adjetivos que minam nossa autoestima, capacidade e nos faz sentir rebaixados.

“Nada é bom ou ruim se não for por comparação”. E assim, Tommas Fuller encerra o pensamento de que só nos definimos por mais ou por menos porque adquirimos e institucionalizamos em nossas vidas essa praga que é a comparação.

Klinjey continua a palestra dizendo que essas pessoas que se comparam “acham que não valem nada e não podem nada e que não são ninguém e que não têm condição alguma”. Esses pensamentos só podem conduzir alguém ao fracasso de nada conseguirem ou nada fazerem, pois aquilo que imaginamos ser tem muita força de se tornar um imperativo em nossas vidas.

É muito mais fácil seguir e curtir as fotos das musas fitness estadunidenses que estão longe de nós do que as fotos na praia de biquíni daquela colega de trabalho que sua a camisa para manter um corpo escultural.

É melhor fingir que não estamos vendo a postagem de um prato de camarão internacional em que um “amigo” se farta, enquanto estamos preparando a marmita diária de arroz com feijão.

Parece que o ato de direcionar um elogio ou aplauso a alguém próximo é como assumir publicamente a própria incapacidade e baixeza.

Curtir ou comentar uma foto do primo ou irmão que está em Paris enquanto se espera o ônibus às 6 da manhã para ir ao trabalho é visto como um reconhecimento de fraqueza e inferioridade.

Klinjey questiona: “Você tem 1.000 amigos na rede e 50 curtiram sua postagem. O que aconteceu com os outros 950 que também visualizaram?” Ele responde: “Ódio mortal de você.”

Outro apontamento que é feito diz respeito ao fato de que a maioria dos que estão ali não publicam nada. O que eles estão fazendo nesse espaço? Sendo expectadores das vidas dos outros. São os observadores de plantão. E, segundo Rossandro, que eu ainda não disse se tratar de psicólogo e doutor em psicanálise, “a infelicidade é provocada mais em quem vê do que em quem posta”.

Quando estivermos tristes diante do que o outro é, tem ou faz, precisamos refletir que tudo isso custou-lhe um preço que talvez não estejamos dispostos a pagar. É preciso escolher aquilo que consideramos importante para nós e ter consciência de que qualquer escolha pressupõe o abandono de outras tantas. Estando seguros a respeito do que queremos não há motivo para nos entristecer ao visualizarmos os gozos alheios.

Se você fica com raiva toda vez que aquela colega de faculdade posta uma foto com a barriga trincada, lembre-se que ela está pagando o preço de não comer aquela barra de chocolate deliciosa que você come na calada da noite quando todos estão dormindo.

Se está indignado porque o primo vai dar uma volta ao mundo, não se esqueça de lembrar que todos os dias ele teve que dizer não a muitas coisas, as quais você nunca disse, apenas para economizar dinheiro e realizar essa viagem.

Antes de invejar alguém que fala inglês fluentemente e rotulá-lo de exibicionista, lembre-se do quanto ele sofreu por passar noites em claro, sentado e estudando, enquanto você estava deitado, dormindo e sonhando.

A fortuna de alguém que faz com que você se entristeça por não possuir pode ter sido conseguida em detrimento de separações, cansaços e perdas.

A inteligência do amigo que você admira e finge não notar para não admitir sua própria ignorância, provavelmente, para ser adquirida, custou ao possuidor muito tempo de solidão, dor nas costas e na alma.

O texto que lê e sente ódio do autor, porque não consegue desenvolver tal qual ele suas próprias ideias e escrever tão bem, deve ter sido desenvolvido depois de muitas horas de estudo e leitura que lhe conferiram esta habilidade, e cujo tempo você deve ter empregado se deleitando em coisas que te pareciam mais prazerosas.

Assim, não há razão para invejar ou odiar. Há motivos para cobiçar. A cobiça pressupõe que nos inspiremos no outro e nos move a descobrir os meios que ele empregou para conseguirmos adquirir as habilidades e os recursos que tem, e tentar nos aproximar ou superar, não movidos por um sentimento de competição, mas porque o que ele é ou faz ou tem nos apetece e queremos proceder da mesma forma. Na cobiça, sabemos que temos condições e lutamos sem precisar desferir nossa ira.

A inveja não. Ela é sempre danosa e incapacitante. O invejoso não consegue ser ou fazer nada do que admira em silêncio no outro e muito menos tem a ombridade de reconhecer as capacidades que, disfarçadamente, reconhece alhures.

Na peça de Shakespeare, Iago se empenha em destruir Otelo, porque enxerga neste inúmeras qualidades que nele próprio faltara. Deseja tudo aquilo que o mouro possui, seu cargo, sua esposa, suas honras e sua coragem. Tomado de inveja, destrói Otelo e se autodestrói, pois se vê perdido quando perde o sujeito que lhe animava.

Todos podemos acender as nossas luzes e iluminar a si mesmo e aos outros. Não devemos aceitar a condição de sombras do protagonismo daqueles que admiramos, nem precisamos nos irar, invejar, prejudicar, odiar ou desferir golpes contra aqueles que se destacam.

Temos que descobrir quais as capacidades, os dons e os talentos que temos e desenvolvê-los ou aprimorá-los, de modo que não nos incomodemos com o brilho do outro a ponto de deixar apagar a chama existente em nós que clama para ser reanimada.

Casar ou não, eis a questão.

O casamento, por muito tempo, foi algo que em nada me seduzira. Por ter sido uma criança muito observadora e atenta, pude ver de perto e de longe muito mais as obrigações, as tristezas e os deveres de uma vida a dois do que as alegrias e as delícias.

Minha mãe dizia: “É filha, casamento é isso aí que você está vendo…”. E eu via uma coisa tão sem graça, tão insípida, tão insossa, que respondia: “Ah, se é isso, só isso, quero casar não.” 

Ela acrescentava: “Casa não, filha. Sua vida é tão boa. Você é independente. Vai casar pra quê?”

A certeza de que eu não casaria me guiou como guia a certeza da morte. Eu olhava ao meu redor, estendia minha visão para além do meu redor e casamento nenhum me animava. Diante dos casais casados, pensava:”Ah, então é isso… Se é isso, isso é muito pouco para mim. Quero não”, repetia.

Vi gente casar por inúmeros motivos: para se livrar de uma mãe carrasca; por interesse; por solidão; por imposição; por tédio; porque estava ficando velho e já estava passando da hora; por estar namorando há muito tempo; por paixão e até por amor, essa invenção que não tem perdão.

Compareci a algumas celebrações de casamento e voltava com a mesma certeza de que aquilo não seria para mim.

Sempre achei as cerimônias matrimoniais muito fantasiosas, repetitivas, enfadonhas e engessadas. As noivas passavam um tempo enorme programando cada detalhe de uma festa que não é nem para ela, nem para o noivo. É para a plateia, para o público. Até o guardanapo para limpar a boca e jogar fora é escolhido a dedo. Esses preparativos, só de ouvir falar, me davam preguiça.

O noivo é um alheio às preparações. A presença dele só é importante no grande dia e o coitado entra assim meio espantado e perdido com tanto glamour que ele nem fazia ideia que seria tamanho. Afinal, esse dia não é dele. É dela: da noiva. E eu nunca entendi porque uma noiva se prepara tanto. A mulher não pode reduzir seu dia ao do seu casamento. Lastimável para mim que faço de todos os dias o meu grande dia e me arrumo e me preparo diariamente como quem vai ao encontro de seu noivo.

Aí é aquele festival de desfile entre as inúmeras madrinhas que parecem disputar o mais bonito vestido, a melhor maquiagem e o penteado mais fashion. Isso quando não há aquela invenção da noiva de exigir que as madrinhas que a representam vistam de rosa e as representantes do noivo vistam de azul, numa prova de que a breguice humana não tem fim.

Depois, soa aquela marcha nupcial  horrível e entra a noiva fantasiada de branco e de princesa para o sapo que a espera ansioso pela hora do beijo em que se presume que ele se tornará um príncipe.

Quase sempre a fala do padre gira em torno das dificuldades de uma vida a dois que não representa nem uma gota do oceano de dificuldades que serão enfrentadas e, assim, os noivos trocam suas alianças e fazem juras de amor e fidelidade até que a morte os separem.

Naquele momento, os convidados já estão doidos para que a cerimônia termine e eles possam comer e beber de graça. O buffet é quase sempre o mesmo e é tão caro que é o responsável pela limitação do quantitativo de convidados. Faz-se aquela fila enorme de desesperados (eu já fui um desses) e só depois de as barrigas estarem cheias é que se dá início à festa.

Há uma pausa para outra breguice que inventaram: a dancinha dos noivos. Milimetricamente ensaiada para arrancar sussurros e gemidos da plateia. Passada essa fase é hora de beber e dançar até o dia raiá. Aliás, nem sempre porque o horário de uso do salão é limitado sob pena de se pagar uma multa altíssima.

À medida que a festa vai chegando ao fim, os noivos e os convidados vão se desfigurando pelo suor e pela bebida. A maquiagem derrete, as escovas e penteados vão se desmanchando, as mulheres vão diminuindo de tamanho com a retirada dos saltos que elas trocam por havaianas, providenciadas previamente pela noiva, e tudo vai tomando cor e forma de realidade.

No outro dia, a comemoração continua com um almoço entre as famílias e os amigos mais chegados. Esse é o momento de comentar quem comeu, quem não comeu, quem reclamou da comida, quem vestiu o que, como estava fulana, beltrano, quem ficou bêbado e todos os demais detalhes do dia anterior. 

É ali que a realidade começa a imperar com mais vigor. Você percebe que agora tem sogra e sogro de verdade e para sempre. Descobre que tem cunhados, tios, primos, sobrinhos e mais uma infinidade de parentes de todos os tipos que você terá que conviver e aturar. Como se não bastassem os seus, você foi em busca de mais.

Chegados da viagem de lua-de-mel (como diz uma amiga, só a lua porque o mel já foi há muito tempo), é hora de enfrentar o dia a dia de um casamento. Cuidar da casa, da comida, da roupa para lavar, das marmitas para levar ao trabalho, das compras de supermercado…

Depois, as programações das viagens de férias, parceladas e compradas com muita antecedência, pois há que se aproveitar antes da chegada dos filhos.

Vem as indelicadezas de ambos, as faltas de sensibilidade e gentileza, as brigas, as crises, as reconciliações e, depois, o tédio. Ah! E vem os chatos que não se cansam de perguntar quando vem o primeiro filho e depois o segundo e… 

… e tem-se filhos ou cachorros. E o tédio é amenizado um pouco porque tem menino para cuidar, fralda para comprar, creche para pagar, escola, faculdade… Os filhos se casam, vem os netos e a vida vai indo com suas muitas ocupações, futilidades e amenidades.

E aquela certeza que eu tinha de que não iria casar se esvaiu, pois, também casei. Submeti ao casamento porque já namorava há um bom tempo, porque fui invadida pelo tédio e pelo amor, essa invenção. Mas, me recusei e me recuso àquela cerimônia fantasiosa que descrevi. Não é por birra nem por falta de dinheiro. Também não tenho inveja nem sou contra os que assim o fazem. Já me diverti um pouco nessas festas. É  por falta de tato mesmo para preparar algo tão grandioso e porque não combina comigo que sou tão pequena e simples. Uma festa dessas é demais para mim. 

Peguei meus panos de bunda, meu namorado pegou os dele, alugamos um apartamento e aqui estamos levando a vidinha de casados, sem registro no papel e sem as orientações de um padre. Pedindo Deus para ir guiando e orientando e perdoando as ofensas e as brigas e para ir prolongando as fases enamoradas de muito meu bem pra cá e muito meu bem pra lá.

Casamento não é bom nem ruim. Não dá para aconselhar case ou não case. É algo muito pessoal, assim como ter filhos, assim como tudo. Tem gente que tem dúvida se casa ou compra uma bicicleta. Eu digo que uma coisa não impede a outra. 

Você pode só casar, só comprar uma bicicleta, casar e comprar uma bicicleta. Você pode fazer o que quiser com a sua vida. A única coisa que você não pode e nem deve fazer é querer convencer o outro a casar ou não com base em sua própria experiência.

Quando eu dizia que não queria casar, não tentava convencer ninguém a fazer o mesmo. E agora que casei, também não o faço. Nada é mais elegante que o respeito de permitir ao outro decidir seus próprios caminhos. Isso vale para tudo. Isso vale para a vida. 

Quanto a ter filhos… Bem. Isso é assunto para outras horas…