A empregada chamada Ana.

Enquanto eu cortava o bacon para colocar no feijão, o desejo mais real e que me veio com toda a força foi aquele de ter uma empregada.

É sábado e eu acordei na madrugada para ler e escrever, depois voltei a dormir mais um pouco e quando acordei novamente quis me dedicar à leitura e escrever meus textos.

Só que os deveres domésticos se impunham. E eles não podiam ser adiados, porque uma das coisas que preciso para desenvolver meu trabalho, digamos “intelectual”, é que o ambiente esteja limpo e organizado.

Espere um pouco, leitores, tenho que parar de escrever só uns minutinhos para olhar as panelas no fogo. Já eu volto…

Voltei.

Então, como estava dizendo, entreguei-me ao ofício de deixar a casa em perfeito estado de conservação e produção. Isso tomou um bom tempo da manhã e da tarde.

Terminada a limpeza e a organização, comecei a preparar o almoço e, simultaneamente, a pensar em como, tendo uma empregada, sobraria mais tempo para eu me dedicar a ler e escrever.

Durante a semana, meu esposo chega do trabalho a noite e com fome.  Preciso me revesar entre a sala, onde escrevo e a cozinha onde cozinho e lavo. Ele tem fome e precisa comer. Também eu, tenho fome e preciso comer, ler e escrever.

Faço tudo sem preguiça ou reclamação. Zanzando para lá e para cá, entre a sala e a cozinha, preparo a janta, sento e leio, lavo a louça, sento e escrevo e vou fazendo assim.

Quando está tudo pronto eu o sirvo à mesa, feliz em tê-la cheia de papéis, livros e comida, mas também em tê-lo para sentar e me fazer companhia.

Ele come, por vezes elogia o meu tempero que é só dele, e olha para mim com aquele olhar satisfeito de quem está com a barriga cheia. Eu retribuo com um olhar de quem cumpriu um de meus deveres de mulher.

Assim, nossos dias vão se passando nessa rotina que nos faz casados, unidos pelo amor e pelas nossas necessidades.

Ocorre que hoje é sábado, o dia que para Clarice Lispector e para mim é “a rosa da semana” e eu gostaria de me entregar inteiramente a esse dia, lendo e escrevendo, por todo tempo, sem cessar.

E por isso, repito, o sonho de ter essa empregada que já é por mim tão amada e desejada.

E como seria a empregada dos meus sonhos?

Bem, ela também se chamaria Ana, para evitar que, tendo outro nome, sua presença me pesasse muito. Tendo o mesmo nome que eu, pareceria que eu continuaria sendo a única dentro de casa.

Ana não precisaria ser bonita para não chamar muito a atenção do meu esposo. Também, não precisaria ser tão inteligente para que ele não passasse a admirá-la mais que a mim. Entretanto, gostaria que ela entendesse um pouco de Literatura para que pudesse, ao final de seus trabalhos, sentar à mesa e tomar um café comigo, falar um pouco sobre os livros e as novidades literárias.

Ela só trabalharia aos sábados, chegaria bem cedinho, deixaria toda a casa limpa e organizada, sem me incomodar. Ah, ela teria que falar bem pouco, porque não gosto de muito falatório. É coisa minha. Acostumei a viver no silêncio e gosto dele. O silêncio para mim é conditio sine qua non para bem viver. Por isso, escolhi um marido silencioso e discreto, que tem na presença a simplicidade incapaz de incomodar.

Que mais?

Ana teria que saber cozinhar para deixar a comida do sábado e do dia seguinte toda pronta. Contudo, o tempero dela não poderia ser daqueles bons, pois chegada a semana em que eu voltaria a cozinhar, não suportaria meu esposo desejando e com saudade do tempero da outra Ana que não é eu. Ah! Isso não.

Ela não precisaria nem me amar, mas não poderia nutrir por mim ódio, desses que as empregadas costumam nutrir por suas patroas. É que eu não posso, sabendo, uma vez que perceberia no primeiro dia, dividir um espaço com quem me odeia.

Eu daria para ela uma boa grana e falaria aos seus ouvidos apenas coisas agradáveis que nos faz ver quão importantes somos. Ana seria muito importante para mim. Faria ela se sentir o melhor dos seres, mostrando que as atividades palpáveis e visíveis que ela desempenha são mais nobres que essas minhas, dentre às quais ler e escrever que, às vezes, não dá em nada e não me leva a lugar nenhum.

Ana seria muito respeitada e protegida. Ninguém ousaria tocar nela para dizer desaforos ou para chateá-la. Nem a mim, eu admitiria tamanho descompasso. Ana seria venerada e tratada como rainha, desde que não ousasse tomar o meu lugar.

Depois do nosso café das 15, nos despediríamos como grandes amigas e eu aguardaria a volta de Ana nos próximos sábados. Eu amaria Ana. Amor distante é amor que dura.

Ao acordar, percebo que já é finalzinho da tarde de sábado. Eu havia dormido no tapete da sala com um livro nas mãos. Ainda com um pouco de sono, escuto a voz do meu esposo lá do quarto: “está na hora de preparar o café”.

Eu olho em volta, meio sonolenta e respondo alto: “Peça a Ana”.

Ele fala mais alto: “E eu estou pedindo a quem?”

Ah, meu Deus, tudo não passou de um sonho. Não há outra Ana. Ana sou eu.

Levanto e, cambaleante, me recomponho. Vou para a cozinha e preparo o café, pensativa.

Depois dessa, só me resta servir.

Aparecida apareceu para mim.

Não sei se vocês se lembram de um relato que fiz a respeito de um sonho em que nele eu tinha uma empregada cujo nome era Ana. Ela realmente era a empregada dos meus sonhos, principalmente porque só frequentava a minha casa aos sábados e falava muito pouco.

Sempre desejei ter em casa alguém que pudesse organizá-la. Mas esse desejo esbarra em algumas questões como a necessidade que tenho de ficar só e em silêncio. Meu marido questionou se isso significa não gostar da presença dele ao que respondi que ele é discreto e silente, incapaz de incomodar. Esse é um dos motivos de eu tê-lo escolhido e amado.

Uma vez fui passar uns dias na casa de um amigo e de tão exausta da viagem encostei-me numa bancada de cimento e acabei dormindo. Acordei com uma senhora colocando um travesseiro sob a minha cabeça para que eu pudesse repousar melhor. Tratava-se de Dona Nalva. Uma senhora aparentemente simpática que cuidava da casa, da comida e do meu amigo com tamanho zelo e dedicação. Cuidou também de mim pelo tempo que permaneci por lá. Quando fui embora, quis levá-la comigo num flagrante desejo de tomar do meu amigo o que lhe pertencia.

Mais tarde ele me contou que estava enfrentando um litígio na justiça com Dona Nalva, pois ela exigiu dele o pagamento de direitos trabalhistas que acreditava possuir e ele lhe negara. Jamais imaginei que isso poderia ocorrer tamanha devoção ela parecia ter por ele. Mas como diz Clarice Lispector, “às vezes a devoção que recebemos das empregadas é cheia de um ódio mortal”. No fundo, elas se sentem exploradas.

Voltando ao que já disse, sempre desejei ter uma espécie de Dona Nalva em casa, desde que o desfecho dessa relação não me levasse aos tribunais como levou o meu amigo. 

A grande questão porque eu nunca pude dar concretude a esse sonho é que não teria condições de pagar a quantia exata que julgo merecer aquela que cuidaria diariamente da minha casa . Creio que ela deveria receber por seus trabalhos, no mínimo, três vezes mais do que eu mesma recebo pelo meu. E não podendo cumprir com isso por uma questão de insuficiência financeira, eu me sentiria exploradora e culpada. Sendo assim, opto por eu mesma manter minha casa organizada e viver de consciência limpa.

Ocorre que as atividades diárias têm ocupado muito do meu tempo e, embora eu me esforce para ser uma boa dona de casa, as coisas não têm ficado do jeito que eu gostaria. Até voltei a sonhar com a empregada Ana e mais uma vez percebi que Ana não passa de mim mesma. Sou eu essa empregada que tanto sonho e que, no entanto, ultimamente não tem se saído tão bem em seus afazeres domésticos.

As atividades de leitura e escrita são muitas vezes prioridades para mim. Além do mais, preciso dar atenção ao marido que, apesar de não me exigir nada, fica muito satisfeito com as gentilezas que lhe ofereço. Ora aqui, ora ali, senão todos os dias, pergunto-lhe o que deseja comer e nem sempre a comida desejada está pronta tal qual eu sempre estou. E como o fato de manter um amor ao meu lado é mais importante que escrever ou ler um livro, acabo fazendo essas concessões. Talvez fosse suficiente eu provar o meu amor apenas dizendo-lhe um “eu te amo”, mas é que tenho a necessidade íntima de sempre fazer algo por aqueles que prezo, nem que seja um prato à mesa. Só assim sinto que estou de fato amando. Amor para mim representa um fazer. É por isso que não paro. Por amor a mim ou aos outros é que estou sempre agindo. Ainda que, admito, aja mais por mim, tendo em vista que até o amor aos outros é um disfarce do amor próprio.

Então como estava dizendo não tenho sido uma excelente dona de casa. Uma bagunça cá, uma poeira acolá e apesar de tentar manter a ordem as coisas foram se acumulando.

Pensei que era a hora de contratar alguém para fazer uma faxina. Uma empregada fixa está fora de cogitação pelos motivos que apontei e mais um: não quero que meu marido ache que eu esteja delegando todo o serviço de nossa casa a uma estranha. Ele precisa sentir que a casa tem o meu toque. Não admito que ele sinta cheiro de casa limpa apenas quando outra invade nosso lar. Posso até delegar uma coisa ou outra, mas o controle tem que continuar em minhas mãos. Comida também não admito que outra faça, pois tempero ele há de provar a vida toda apenas do meu.

No dia em que estava decidindo pela faxineira resolvi parar um pouco e ler algumas crônicas da Clarice Lispector. Numa dessas, ela conta que tinha uma empregada chamada Aninha, mas que todas as vezes em que ia dirigir-se a ela chamava-a de Aparecida. Não entendendo o porquê disso, a própria Aninha tentou explicar: “é porque eu apareci”.

Logo fui tomada por um desejo de que Aparecida aparecesse para mim. Até adquiri uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que me aparece todos os dias e estou satisfeita com ela aqui em casa. Mas nada impede que uma outra espécie de Aparecida também me apareça e me ajude com os serviços do lar.

Ao fechar o livro, resolvi ligar para uma amiga e perguntar se ela tinha alguma pessoa a indicar para fazer a faxina, pois eu precisava disso urgentemente. Ela disse: “Tenho sim. O nome dela é Aparecida.”

Nossa Senhora Aparecida havia me escutado? E tão rápido? Coincidências ou não aceitei a indicação imediatamente e tratei com Aparecida dela vir até minha casa.

No dia marcado eu estava a sua espera. Como ela se atrasara tive que sair para trabalhar e meu esposo ficou encarregado de recebê-la. Antes de sair de casa, eu disse a ele para comprar as coisas que Aparecida ordenasse e dar um jeito de providenciar o almoço dela. Ele fez tudo como combinado e declarou que havia acrescentado algo para ela beber. Não que eu me importe com uma ou outra regalia, mas quis saber dele porque quando vai comprar algo para mim não faz qualquer acréscimo além daquilo que peço. Coisas de mulher. Ele nada respondeu.

Quando voltei para casa no fim da tarde, Aparecida ainda estava realizando seus trabalhos. Apesar do nome, ela me pareceu uma pessoa discreta e silenciosa. Só falava quando perguntada.

Creio que apesar de não ter esse nome, sou bem mais amostrada, o que significa que seria justo eu também me chamar Aparecida. Até mais do que ela. E só reivindico isso porque acredito que é meu de fato e de direito.

Como uma espécie de milagre, Aparecida deixou a casa impecável. A danada é boa no que faz. Eu disse a ela que a diferença entre o seu trabalho e o meu é que o dela é visível. Ela quis me acalmar: “às vezes a casa é tão cheia de coisa que eu termino uma faxina e é como se não tivesse feito nada”. Não creio que assim seja e talvez ela só tenha tentado me alegrar.

Mas eu estava bem alegre com aquela aparição de quando cheguei em casa e vi que tudo mudara. Além de limpar cada canto, lavar janelas e colocar em ordem as coisas contidas nos armários, Aparecida lavou toda a roupa, organizou os guarda-roupas, limpou e arrumou cada um dos meus sapatos que não são poucos. Nunca vi tamanho zelo.

Ao anunciar que havia terminado, fui levar Aparecida até o ponto de ônibus e conversamos mais um pouco. Ela me contou que veio do Nordeste e eu disse que também. Ambas mulheres, aparecidas e nordestinas. Ambas tão iguais.

Aparecida disse que gostou muito da decoração da minha sala e que minha casa é muito boa de trabalhar porque não tem bagunça. Fiquei satisfeita porque como diz Clarice: “Casa é muito reveladora”. Quem sabe não tenha revelado algo sobre mim que a faça voltar.

O fato é que gostei tanto do serviço que combinei com Aparecida de me aparecer a cada quinze dias e ela concordou. Quando desceu do carro para pegar a condução nos despedimos e eu implorei: “Por favor, vê se não desaparece.”

Assim, voltei para casa pensando na próxima aparição e quando abri a porta lá estava Nossa Senhora Aparecida me esperando na sala limpa e cheirosa.

A origem do amor pelos livros.

Algumas pessoas, senão muitas, me perguntam em que momento da minha vida passei a gostar de ler. Respondo que não me lembro o instante exato, mas quando rememoro ao tempo de minha  infância consigo visualizar a criança que fui, quase desde o berço, apaixonada pela leitura.

Comecei a ler e a escrever com quatro anos de idade. Nessa época, já gostava muito dos cadernos e dos livros. Lembro que a brincadeira mais fascinante para mim era aquela que intitulávamos “escolinha”. Acho que com uns sete anos eu tinha quadro, giz e alguns cadernos nos quais copiava tarefas para que os primos treinassem a escrita.

Era com certo profissionalismo e maestria que exercia o papel de professora que amava ensinar. Está certo que praticamente obrigava as crianças a brincarem comigo, pois elas preferiam se divertir com outras coisas. Então, acabava que essa brincadeira tinha tempo exato e curto para durar. Ainda assim, aproveitava o tempo exíguo e não perdia a oportunidade que os meus figurantes de alunos me davam.

Percebendo a dificuldade em tê-los ali na condição de aprendizes, propunha a eles que fizéssemos o revezamento das brincadeiras e, caso não aceitassem brincar do que eu gostava, também não participaria das diversões deles. Desse modo, acabavam se rendendo aos meus argumentos, ainda que de maneira um tanto forçada.

Uma das coisas que percebia, ainda quando criança, era a vantagem que o saber me proporcionava em relação aos adultos. Ser admirada pelos pais, professores, familiares e, também, pelos colegas não deixava de representar uma espécie de atenção que me direcionavam e sobre a qual eu deleitava.

À época diziam se tratar de uma menina esperta e inteligente que aprendia tudo com uma rapidez impressionante. Minha mãe voltava das reuniões escolares muito satisfeita por receber elogios a respeito da filha que, indiretamente, se constituíam também em elogios à mãe que a criara. No entanto, as notas altas que angariava, segundo minha mãe, não passavam de uma obrigação, tendo em vista que estudar era a minha principal atividade não-lúdica e uma das únicas exigências maternais. Minha mãe cobrava muito pouco de  mim. Ainda que eu diga que ela me exigia notas, na verdade eu era a primeira a me obrigar a apresentar bons resultados. E ela dizia de boca cheia e em alto e bom tom que nunca na vida precisara me mandar estudar. “Minha filha não me dá trabalho.” Ainda escuto essa frase com grande peso e responsabilidade em meus ouvidos e, principalmente, em minhas ações.

Figurei por muito tempo como a primeira da turma em notas e em comportamento. Desde muito cedo percebi que a forma de se portar no mundo faz toda a diferença na maneira como as pessoas enxergam outra. Sendo assim, prezava pelo bom comportamento para que não dissessem “tira boas notas, mas…”. Não suporto o “mas” como forma de maximizar a parte ruim em detrimento daquilo que se vê como bom em alguém. Todas as vezes que escuto esse “mas” vindo de qualquer parte já sei a intenção oculta e obscura de quem a emite. Acreditem, o “mas” é quase sempre destruidor.

Sem quase nenhum esforço conseguia um lugar de destaque na escola. Acredito que salvava-me o fato de sempre ter tido muita facilidade em escrever. Às vezes nem sabia ao certo a resposta exata de uma questão de prova, mas ia dizendo coisas de forma intuitiva de modo que ganhava nota por uma perspicácia que me era nata.

Para os demais, eu era dotada de certa inteligência, mas no fundo sabia que era pura percepção e intuição que tinha – não só para as atividades escolares, mas para captar o movimento das pessoas e da vida.

Aprender algo novo sempre me foi motivo de muito êxtase. Ficava atenta aos ensinamentos repassados pelos outros, entretanto era movida por uma curiosidade que me fazia buscar sozinha pelas assuntos que não eram ensinados na escola. Então, por conta própria fui atrás dos livros.

Havia uma biblioteca que ficava de frente para minha casa e adorava estar ali entre os livros. Tinha duas ou três amigas de quem gostava bastante, mas passava pouco tempo com elas. Ocorre que há um limite de convívio no qual as pessoas não se cansam umas das outras. Elas às vezes me cansavam, apesar do sentimento que nos ligava, e pensava que eu também podia cansá-las.

Com os livros era diferente. Eu não me saturava deles e eles sempre me ensinavam alguma coisa. Eu sentia que me acrescentavam algo. Sentia que com eles me tornava um pouco mais rica.

Os livros me expunham a outros mundos e a novas dimensões. Eles dialogavam comigo sem quaisquer imposições. Cabia a mim refletir sobre o que estavam me dizendo. Comecei a perceber que talvez ninguém me apresentasse nunca ao que eles me diziam e tudo ali ao alcance de minhas mãos e sob meu próprio controle. Eu podia escolher aqueles de que mais gostasse e cujo assunto me interessasse. Era um mundo maravilhoso no qual eu podia entrar e sair no momento que bem entendesse.

Ficar só era uma necessidade para poder ler todos os livros de que dispunha. Brinquei muito com as outras crianças e com os meus primos. Gostava também das bonecas, mas nunca conseguia verdadeiramente me sentir mãe delas. Preferia o papel de amante dos livros.

Andava com eles para cima e para baixo da casa da minha mãe para a casa da minha avó. Aí me enfiava num quarto e passava horas e horas devorando-os e imaginando as cenas, os personagens e os lugares descritos. Eu viajava para todos os lados sem sair do lugar. Saía do pequeno aposento apenas para beber água ou pedir minha avó que fizesse algo porque estava com fome. Ela dizia sorrindo: “você vai virar Tamirim de tanto ler”.

Tamirim, segundo ela, era um homem que ficara louco por estudar demais. Eu sorria e dizia que isso não aconteceria. Hoje, entendo que talvez esse personagem descrito pela minha avó tenha ficado conhecido como louco de pura lucidez a que fora submetido com a leitura de seus exemplares.

Quase todo entendimento é confundido com insanidade. Dom Quixote nos deu muitas lições apesar de vislumbrar outra coisa em meros moinhos de vento, uma das evidências utilizadas para apontar sua loucura. E Hamlet, no auge de sua lucidez, quando percebera toda a podridão do reino da Dinamarca, a hipocrisia e a traição que ocorrera dentro de sua própria família, fora taxado de louco.

Os livros têm a função de nos tornar mais atentos, observadores, reflexivos e críticos. Assim me tornei e gostava dessa sensação de estar captando não apenas o mundo a mim apresentado por eles, mas também aquele ao meu redor.

Ler muito me levava de forma automática a escrever. Não sei bem precisar, mas acredito que com uns dez anos já esboçava alguns fragmentos de textos. Lembro que cheguei a tentar escrever uma novela que não tinha fim. Depois me cansei da história, rasguei e joguei fora. Também, contava com um diário onde escrevia sobre o que me acontecia durante o dia. Mais tarde, escrevi muitas cartas para aquele que eu achava que seria o primeiro e o único amor da minha vida. Eu me enganara como todo ser que se apaixona. Futuramente, outros amores me arrancariam mais cartas.

Meu domínio sempre foi pelo uso da palavra, mais escrita que falada. Ao falar sou um pouco tímida e me confundo algumas vezes, pois a emissão do som é mais lenta que meu raciocínio. Todavia, ao escrever tenho coragem, ousadia e me articulo melhor. Também acho mais fácil e simples escrever porque vou colocando as ideias no papel sem interrupções e posso organizá-las de forma mais convincente. Uma leitora disse que tenho elegância ao escrever. Alguns leitores me perguntam como consigo escrever de maneira envolvente. Simplesmente respondo que é o meu modo e só. Nem tudo pode ser explicado.

Antes dos quinze anos de idade já tinha lido Jorge Amado, Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac e, pasmem, Lolita, de Vladimir Nabokov. Li “O crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz; “O guarani”, de José de Alencar e tantos outros clássicos. Eu os escolhia aleatoriamente, às vezes pelo título ou depois de ter lido algumas páginas.

Ninguém nunca me obrigou a escolher um ou outro. Não havia censura. Minha mãe nunca me questionara a respeito do que lia. Nasci livre para escolher meus livros e meu destino. Assim permaneço.

Apenas aos dezesseis anos tive contato com um texto de Clarice Lispector. Um professor de cursinho que ministrava Literatura leu em sala um conto dessa escritora e nos mostrou as diversas interpretações que se podia ter a respeito do que lera e fiquei fascinada. Pensei em como alguém poderia escrever algo com significados tão múltiplos, surpreendentes e de forma tão bonita. Desde então, Clarice nunca mais saiu da minha vida e continua sendo minha escritora preferida. Mergulhei em sua vida, em sua obra e foi por meio de seus textos que consegui entender muito mais a respeito de mim mesma.

Continuo lendo compulsivamente. Ler é minha salvação. Escrever é… missão? Escrevo porque sou obrigada a me esvaziar e quem sabe encher os outros. Quando termino um texto tenho a sensação de que nunca mais voltarei a escrever. Literalmente, fico Oca da Silva. Só que a percepção dos sentidos me expõe novamente à vida e de novo eu absorvo os fatos que me são revelados. É um ciclo que me traz vazio e completude.

De tanto me perguntarem como e em que momento passei a gostar de leitura veio-me à tona um fato que pode ter contribuído e muito para o desenvolvimento desse gosto.

Uma vez que meus pais se separaram quando eu ainda era muito criança, não consigo me lembrar de momentos em que tenha, na infância, convivido com meu pai. Entretanto, algumas pessoas me diziam que ele era muito inteligente, falava bem e gostava muito dos livros. Acredito que de alguma maneira quis ter uma marca dele em minha vida. Esses créditos não posso dar à minha mãe, pois ela mesma dizia que não gostava de estudar e que tinha preguiça de ler.

Pois agora, forçando minhas lembranças, chego a essa conclusão que me fora por um tempo oculta e eis que de súbito é-me revelada de maneira tão clara e evidente. O amor que desenvolvi pelos livros foi um jeito que encontrei de carregar uma parte do meu pai comigo. A parte que considerei melhor e me fez admirá-lo. Quis mantê-la sempre ao meu alcance de tal forma que ela continua viva, forte e pulsante dentro de mim.

Lisístrata, A greve do sexo ou O poder político das mulheres exercido pelo fechamento de suas pernas.

A guerra se alastra pela Grécia. As mulheres não mais suportam a partida e o distanciamento de seus maridos. Estão cansadas de ficarem sozinhas à espera de um retorno incerto e improvável. Estão fatigadas de parirem filhos, criá-los e, mais tarde, terem que entregá-los, à força, aos desmandos de um Estado que os remetem a conflitos armados, cujas causas são impalpáveis e os motivos fúteis e vãos.

Elas pretendem estancar os sofrimentos impostos pela hostilidade das disputas, apesar de continuarem a viver com aqueles decorrentes de suas próprias condições de mulheres.

A ateniense Lisístrata convoca as demais mulheres gregas para um encontro a fim de tratar sobre um assunto sério e de interesse geral. À hora marcada, apenas Cleonice aparece. Desesperada com o pouco caso das outras de sua classe, Lisístrata murmura: ” (…) me envergonho de ser mulher. Sou obrigada a dar razão aos homens quando nos tratam como objetos, boas apenas para os prazeres do leito. No momento em que foram convocadas para uma decisão definitiva na vida do país, preferem ficar na cama em vez de atender aos interesses da comunidade.”

Passado algum tempo, gregas de diferentes estados começam a surgir e quando todas estão presentes, Lisístrata anuncia a sua preocupação com a guerra e se pronuncia sobre um plano que concebeu para findá-la e instaurar a paz. As mulheres precisam salvar o país.

A curiosidade permeia suas cabeças. “Como é que nós mulheres vamos derrotar os homens?” No entanto, Lisístrata tem plena convicção de que se todas seguirem o que ela diz, os homens largarão suas espadas e voltarão mansinhos para casa.

O seu plano consiste em que as mulheres se abstenham “daquela pequena parte do homem que mais o classifica como tal”. A proposta é que as gregas, sem exceção, façam greve de sexo.

Eu não resisto. Que a guerra continue” – diz uma.

“Peça-me para atravessar uma fogueira com os pés nus, mas não nos prive da melhor coisa da vida” – diz outra.

Nunca ouvi falar de tortura semelhante” – profere mais uma.

Entretanto, Lisístrata consegue convencê-las. Logo, passam a analisar os riscos de tal medida. Seus maridos podem abandoná-las, porém aquela adverte que “o risco de qualquer batalha é perder a batalha”. Eles podem pegá-las à força. Neste caso, é necessário que fiquem em “posição fetal”. Ainda, podem bater nelas. Apenas nessa circunstância extrema é permitido que cedam, contudo não devem se mexer nem colaborar, mas permanecer inertes até que eles se cansem e desistam. “Eles têm pouco prazer quando sentem que não correspondemos.”

Ao final, fazem o juramento regado a goles de vinho e partem para executar o combinado.

As gregas conseguem tomar e ocupar a Acrópole, considerada templo dos deuses e em cujo local se guarda o tesouro. Os homens velhos que ali restaram não admitem de forma alguma serem dominados por mulheres e dirigem-se-lhes com tochas de fogo para as queimarem. Proferem todo tipo de xingamento e ofensa contra elas, que em momento algum se curvam para tais impropérios. Pelo contrário, reagem com vigor, coragem e ousadia. E, por fim, apagam os fogos de suas tochas.

Os velhos ficam inconformados: “E nós, heróis de um passado tão recente, vamos deixar essas mulheres peçonhentas, inimigas dos deuses e dos trágicos, conseguirem o que não conseguiram inimigos tão potentes?”

Entretanto, elas estão dispostas a salvar o país e os homens que nele habitam, mesmo que não queiram. Estão empenhadas em proteger o patrimônio do povo para que não seja vilipendiado no sustento de uma insensata guerra. O bom senso está com as mulheres e elas, mais do que nunca, decidem usá-lo. Não pretendem calar e ficar de braços cruzados diante da destruição a que os homens submetem e são submetidos. Elas tomam consciência de suas importâncias e da necessidade de atuarem em assuntos políticos, os quais ficavam adstritos aos homens que se sentiam superiores e fortes apenas por possuírem um membro que enrijece.

Pois se eles pensam que, por serem munidos de um “pau endurecido“, devem se sobrepor, as mulheres decidiram por fechar as pernas e mostrar-lhes que, sem elas, as armas masculinas, por mais potentes que sejam, não têm quaisquer utilidades ou resultados.

Engana-se quem supõe que esse seja o maior e o mais importante ato político das mulheres. Entretanto, naquele momento, era o único de que dispunham e podiam se utilizar. A abstinência foi a forma de luta desarmada e pacífica encontrada pelas mulheres para combater os excessos devastadores de uma guerra. Não é à toa que minha avó dizia: “Os homens têm que armar, as mulheres já nascem armadas.” E quando elas descobrem o poder de suas armas recônditas não há guerra no mundo que perdure.

Se os homens lembravam-se delas apenas nos momentos em que sentiam vontade de desembainhar e penetrar suas espadas cortantes, elas iriam mostrar-lhes que seus paus sozinhos não fazem nenhuma canoa e os obrigariam a pronunciar um tratado de paz.

Mas as mulheres também são de carne, osso e desejo. Estavam doidas para se deitarem e gozarem com seus homens. Isso seria o fim do plano traçado por Lisístrata. Ela suplicou-lhes que segurassem mais um pouco suas volúpias e não colocassem a perder os esforços até então empregados. Afinal, estavam no mesmo barco e era preciso que não largassem seus remos.

Cinésias dirigiu-se à Acrópole à procura da esposa Mirrina, que havia abandonado o lar. Suplicava o seu retorno imediato, pois que estava sofrendo de dor e ardor. Quanto mais o desprezava, mais desejo sentia por ela, o qual se manifestava visivelmente com seu membro apontado para o alto.

Diante das recusas de suas mulheres, os homens começaram a padecer de um sintoma comum. A Grécia foi tomada por uma “ereção universal”, cuja resolução somente seria possível caso concordassem em pôr fim à guerra. O embaixador bradou: “Devemos assinar a paz de qualquer forma, com condições, sem condições, mas já. Olhem nossa condição!”

Diante de mulheres resolutas, sensatas e decididas,o homens gregos acharam por bem firmar um tratado para o restabelecimento da ordem e da paz.

Caladas e desarmadas, mas com ações firmes, direcionadas e conscientes, as mulheres se impuseram ao poder de seus homens e do Estado.

De repente, alguém esteja certo quando diz que “o segredo do mundo se encontra entre as pernas das mulheres”.

O problema é que essas pernas têm permanecido abertas demais. Quem sabe seja a hora de fechá-las para pôr fim a algumas guerras que atingem-nas?

Talvez elas tenham que, tal como as gregas, falar menos e agir mais ou quem sabe lutar de boca fechada e pernas cruzadas para que o grande segredo não seja revelado.

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Brás Cubas é o principal personagem dessa história que por ele mesmo é contada. Porém, algo inusitado caracteriza esse narrador. Ele está morto. Trata-se de um defunto autor. É uma “obra de finado”, escrita “com a pena da galhofa e a tinta da monotonia”. Daí o tom irônico, debochado e, por vezes, uniforme com que a história se desenrola.

Por referir-se a um homem que, morto, conta a sua vida, há um notório desprendimento das regras, da moral e dos bons costumes. Brás Cubas não se esforça por esconder absolutamente nada, mesmo os seus sentimentos mais vis e mesquinhos; seus amores; suas invejas; seus fracassos; suas dores; seus caprichos; seus interesses; suas traições… Tudo é demonstrado sem pudor, medo ou censura. Nada precisa ser encoberto com qualquer manto, afinal, expõe suas memórias póstumas. Não é preciso mentir nem enganar a si mesmo, nem aos outros, pois a morte representa descer à imobilidade física e moral.

A história começa a ser contada não pelo nascimento do personagem, mas pela sua morte.

Morreu!

Aos 64 anos, rijos e prósperos, solteiro e com um bom patrimônio, encontrava-se dentro de um féretro em direção ao túmulo, acompanhado por onze amigos, sob uma chuvinha miúda, triste e constante que deu àquele dia o tom da melancolia.

À beira da cova, um dos presentes proferiu esse discurso:

“Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado”.

Se Brás Cubas não gozou reconhecimento e notoriedade enquanto vivo, deleitou-se em elogios depois de morto.

Conta que morreu de pneumonia. Logo mais, admite que a causa verdadeira fora menos a pneumonia e mais uma ideia grandiosa e útil a que se fixou durante toda a sua vida.

Essa ideia consistia em inventar um medicamento sublime destinado a aliviar a melancolia, o estado de morbidez e a tristeza da humanidade.

Confessa, entretanto, que por detrás do ânimo de salvar a humanidade, escondia o desejo de ver seu  nome estampado em jornais e imprensa em geral. Sua ideia era movida mais pela vaidade de receber uma medalha virada para si e para o público do que pela ajuda aos outros.

“Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem?”

A bandeira pública  levantada por Brás Cubas era descobrir um remédio que levasse aos homens a cura da melancolia; a particular, mais importante que aquela outra, era ser notado e reconhecido. Essa era a sua ideia fixa que o faria louco ou forte. Essa era a sua tão sonhada invenção, a que o fez adoecer e morrer.

À porta da alcova, caiu-se em delírio e teve um encontro com Pandora, a que carrega uma caixa com todos os males. Ansiava por mais vida neste instante em que o esperava a voluptuosidade do nada. De seu devaneio, via os séculos passados desfilarem à sua frente, desde a glória até a miséria.

“(…) e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo como farrapo.”

E tudo isso se repete de geração a geração até que o homem, alheio à própria miséria, imerso em sua falsa glória, percebe-se a um pé da cova, onde, digerido por Pandora, tudo se finda e há só o silêncio.

A vida não seria tão somente uma ilusão, onde o homem entra nu e desarmado e vai armando-se, vestindo-se, construindo palácios, criando ciência e arte e, diante da necessidade da vida e da melancolia do desamparo, põe-se a descer ao ventre da Terra e a subir à esfera das nuvens e a fazer-se orador, filósofo e mecânico?

Foi preciso cair em delírio para ver que a sua vida seguia o curso de todas as demais vidas por entre os séculos, num devaneio que beira à sandice dos que sabem que, diante desse tudo, não lhes restará mais nada.

Entretanto, antes de morrer, Brás Cubas precisou inaugurar o espetáculo da vida. Nasceu e já foi desde logo o herói da casa. O genitor orgulhou-se do filho inteligente e bonito que nascera tal qual o próprio pai.

“Os olhos babavam de orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.”

Brás cresceu como crescem as magnólias e os gatos. Enfim, como todo ser que nasce, vive e morre. Crescer é parte da natureza. Não há grande coisa nisso. Também não houve no crescimento dele.

Matreiro e inquieto, diz ter merecido a alcunha de “menino diabo”, um dos mais malignos do seu tempo, arguto, indiscreto, traquinas, voluntarioso, indócil, opiniático e egoísta.

Aos olhos do pai, admirável. “Às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade; em particular dava-me beijos.”

Sabia que seu pai o adorava a ponto de lhe dar o sol se assim pudesse. Quanto à mãe, considerava uma criatura fraca, de pouco cérebro, casada, bonita, modesta, abastada, cujo Deus era o marido.

Aos dezessete anos dera o primeiro beijo numa moça cujo nome era Marcela, descrita por ele mesmo como boa moça, lépida, sem escrúpulos, luxuosa, impaciente, esbelta, amiga do dinheiro e dos rapazes. Marcela possuía alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras.

Muito fora o esforço para sustentar o amor dessa mulher:

“Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplicá-lo, inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e a induzi a desviar alguma coisa, que me dava às escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso último; entrei a sacar sobre a herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia resgatar um dia com usura”.

Antes que Marcela lhe roubasse a alma, seu pai o colocou à força num navio rumo à Europa para estudar.

Apesar de ter sido um acadêmico superficial, tumultuário e petulante, bacharelou-se em Direito e carregou seu diploma cheio de orgulho.

Distante, foi capaz de esquecer a moça por quem perdera a consciência que restou recuperada tempos depois, ao admitir: “…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”.

Anos depois a encontraria sem o brilho da juventude, velha e dona de uma ourivesaria herdada por um homem com quem se relacionara.

Seu retorno ao Rio de Janeiro deu-se em virtude dos poucos dias de vida que restavam a sua mãe. Havia oito a nove anos que não a via. Era a primeira vez que presenciava a morte de alguém.

“Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro, incongruente, insano…”

Esse acontecimento trouxe-lhe tristeza e ele decidiu ficar por um tempo sozinho numa propriedade do campo. “A morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas, das afeições, da família…”

“Ao cabo de sete dias, estava farto da solidão.”

Seu pai dirigiu-se até ele oferecendo-lhe dois projetos: um lugar de deputado e um casamento.

Virgília era o nome da moça. “Um anjo sem asas”, filha do conselheiro Dutra, uma figura de grande influência política que faria com que Brás chegasse mais rápido ao cargo de deputado.

Sob o mínimo sinal do filho de não aceitar a disputa ao cargo, seu pai bradou:

“Ah! Brejeiro! Não te deixes ficar aí inútil, obscuro, e triste; não gastei dinheiro, cuidados, empenhos para não te ver brilhar, como deves, e te convém, e a todos (…). Olha, estou com sessenta anos, mas se fosse necessário começar a vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás; foge do que é ínfimo. Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.”

Ocorre que Virgília escolheu outro para marido. De carreira mais promissora, Lobo Neves a conquistou, sob a promessa de torná-la Marquesa.

Quatro meses após o desencanto de não ver o filho nem deputado nem casado, o pai de Brás Cubas morre acabrunhado e triste. “A tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia.”

Restou-lhe o despeito, charutos, murros e leituras truncadas. “Mas, eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo.”

A herança deixada pelo pai foi motivo de conflito com a irmã Sabina e o cunhado Cotrim que acusaram Brás de querer ficar até com a roupa do corpo deles. A dificuldade de um dos lados ceder levou ao distanciamento dos irmãos e Brás conta que passou a maior parte do tempo sozinho, entre a ambição e o desânimo.

Passado um tempo, Brás e Virgília se reencontram e vivem o que fora interrompido no passado. Talvez de forma mais intensa pelo perigo que corriam na condição de amantes.

Sem conseguirem disfarçar aos outros o que lhes ocorria, logo foram objeto de suspeita pública. Inclusive do próprio marido de Virgília.

“O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. Virgília era um belo erro, e é tão fácil confessar um belo erro.”

Havia até uma certa vaidade em que outros soubessem do seu caso amoroso e ele nem fazia sequer questão de disfarçá-lo. Talvez como prova de que tivesse conseguido algo que lhe fora negado no passado. Virgília era-lhe um prêmio arrancado dos braços de outro que outrora a arrancara dos seus.

Virgília não lhe parecia querer deixar o marido. Brás chegou a propor uma fuga, ao que ela negou sob o argumento de que não poderia deixar o filho, fruto de seu casamento. O filho que Brás odiava.

Brás a considerava menos escrupulosa que o marido. Ela rendia a Lobo Neves cortesias, atenções e muitos afagos, numa flagrante ação lisonjeira que faz o adulado se render aos pés de uma mulher.

Virgília surge grávida e faz nascer em Brás uma suspeita paternal. Anima-lhe essa ideia. Ao contrário de Virgília que vê a gravidez como uma limitação aos hábitos de sua vida elegante.

Antes que ele pudesse pensar em um futuro para seu suposto filho, Virgília sofre um aborto e o prenúncio da paternidade morre na fase embrionária.

Movida pela transferência de posto do marido para outro estado, Virgília se despede de Brás, que confessa:

“Senti alguma coisa que não era dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade…”

Brás aproveitou uma espécie de aparente viuvez que lhe deu a partida de Virgília e pôs-se a meditar sobre o Humanitismo de seu amigo Quincas Borba – principalmente a respeito da inveja.

“(…) a inveja não é senão uma admiração que luta, e, sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à felicidade.”

A inveja o perseguira por toda a vida. Não fora a inveja o maior impulso para a sua aventura com Virgília? Confessara: “Concluí que talvez não a amasse deveras”.

Desejou o aplauso, a multidão. Só conseguiu chegar a deputado. Mas, ambicionava ser ministro, título que estava prestes a ser dado ao seu antigo sócio, Lobo Neves e que encheu Brás de irritação e inveja.

Porém, antes de receber tal título, Lobo Neves sucumbe à morte para imensa glória de Brás Cubas. Sim. Ele confessa ter sentido tranquilidade, alívio e prazer com a morte daquele que, vivo, teria lhe tomado seu desejado posto de ministro, depois de ter se casado com sua prometida Virgília.

Tudo que fizera e sentira não causava-lhe nenhum remorso.

Sua fase mais brilhante foi aquela em que se dedicou a apoios sociais, a conselho do amigo Quincas Borba.

A finalidade secundária desse trabalho era levar alegria à alma dos doentes e dos pobres. Causa tão grande que lhe dava excelente ideia de si mesmo.

Brás Cubas morreria sem ter alcançado nada do que desejara. Morto, pôde nos confessar:

“Não alcancei celebridade do emplasto. Não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. (…) ao lado dessas faltas, coube-me a fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto (…)

Também, não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Toda sua vida fora exposta nesse livro num tom espontâneo e sem amarras que só a morte pode dar a alguém. A franqueza é, segundo ele, a primeira virtude do defunto.

Talvez, só a consciência da morte traga à tona aquilo que não se ousa dizer enquanto se vive, sob o temor do olhar da opinião, do contraste dos interesses, da luta das cobiças que nos obrigam a calar, a disfarçar, a não estender ao mundo as revelações que fazemos quando estamos a sós com a nossa consciência.

“Mas, na morte, a possibilidade do desabafo, da liberdade, de sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desenfeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser. Porque já não há vizinhos, nem amigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia.

O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte.”

A medalha que Brás Cubas não logrou em vida foi conquistada após sua morte, quando pôde nos legar esse livro no qual se entrega sem farsas e sem máscaras.

Só a morte é libertadora. Tudo o mais é tentativa de liberdade.

A desonestidade é o que nos une.

O último livro escrito por Clarice Lispector foi “A hora da estrela”, no qual ela narra a história de uma nordestina pobre, que vivia feito bicho, cujo nome é Macabea. Nessa obra, parece que ela quis dar o último grito. E realmente o foi, pois a escritora morreu logo em seguida, assim como a protagonista da narrativa.

Clarice denuncia a miséria do Nordeste com a propriedade de quem viveu por algum tempo em Maceió e Recife. Nesses lugares, provavelmente ela tenha se deparado com muitos olhares vagos e perdidos pela fome e pelo desamparo.

“Se você é um homem que tem mais dinheiro do que aqueles que passam fome de algum  modo você é desonesto.”

Essa frase ficou entalada na garganta, porque denuncia a minha própria desonestidade. E não adianta se fingir de sonso e dizer que não entendeu. É bem isso que você sabe e não quer admitir. Você e eu somos desonestos travestidos de santos. Belos santos do pau oco.

Não somos em nada diferentes daqueles políticos que acusamos por sempre quererem beneficiar a si próprios. Quanto mais temos, mais desejamos.  E queremos para darmos a nós mesmos, aos nossos pais, aos nossos filhos e aos chegados. Nunca desejamos mais com a finalidade de fazer aquilo que Jesus propôs a quem quis segui-lo: “Vende tudo o que tens e dá aos pobres”. Eu te seguirei Jesus, mas preciso carregar minhas tralhas nas costas. Sua proposta me seduz, entretanto não estou preparado para me desnudar.

Nós só damos esmolas para nos redimir. Eu mesma fiz a promessa de dar comida a quem quer que me peça. Mas sabem por onde ando? Por uma das áreas mais nobres de Brasília, onde quase não deixam pedintes e mendigos transitarem. Duvido muito que eu tivesse a coragem de fazer um pacto dessa magnitude se andasse pelos subúrbios ou favelas. Só querendo se passar por boazinha – a desonesta.

Sei que tem milhões andando por aí sem alimento, sem roupas, sem agasalhos e sem nada . E eu com isso? Tenho comida, cem roupas, cem sapatos, cem bolsas… Tenho tudo, meu Deus! E quanto mais tenho, pobre que sou quero mais. E quando não tenho mais o que querer, invento. Ontem mesmo inventei que precisava de mais um abajur e outras capas de almofadas.

A gente troca a TV, a geladeira, compra o último modelo iphone (com i minúsculo de inutilidade), viaja três ou mais vezes durante o ano e já programa as próximas viagens e a gente come nos melhores restaurantes, toma café expresso todos os dias nas cafeterias mais caras e decide ter filhos para colocá-los nas melhores creches e escolas porque não temos tempo para eles já que trabalhamos para ganhar dinheiro e a gente troca de carro e troca de apartamento e coloca os filhos para estudarem medicina para ter altos salários porque é preciso ter uma profissão que renda muito para poder gastar e ter tudo o que é necessário. E o que é tão necessário assim? “Somos simples animais” e de tão simples imersos nessa complexidade que criamos acabamos por nos perder. Perdi o fôlego, mas não posso colocar nenhuma vírgula que prejudique o tom.

Ou então a gente vira funcionário público e senta a bunda o dia todo na cadeira tomando cafezinho e esperando o dia passar para ao final do expediente produzir papel que não muda a realidade de ninguém. E aí você se sente um baita fracassado e desconta sua ira nos colegas que estão tão cheios de tudo quanto você. Mas o salário é bom e dá para comprar mais e mais objetos parcelados a perder de vista. Mas não fica pensando que é só isso que eles fazem quando decidem servir ao público com o dinheiro pago pelo governo. Aliás, pago por nós mesmos, porque o governo não dá nada a ninguém, apenas tira. Os funcionários públicos são muito bonzinhos. Eles dão muitas esmolas para aquelas creches chatas que ligam o dia inteiro pedindo contribuições. Não sei onde elas arrumam nossos números. Que saco! Mas eu sou boazinha e acabo vencida pela insistência, contudo não posso contribuir com muito, pois tenho inúmeras contas a pagar e filhos a criar.

Não há mérito em ajudar os seus. Não há mérito em amar seus filhos. Não há mérito no amor que tenho pela minha mãe ou meus irmãos. Não há mérito em dar esmolas.

E por falar em esmolas,  hoje fui abordada no sinal de trânsito por um homem que me pediu uns trocados. Disse que mora na rua e que não tem família. Eu dei as moedinhas que tinha, sob o argumento de que não contava com dinheiro e que só ando com o cartão. Também me lembrei que não podia gastar muito, pois estou programando aquela viagem à Europa que me renderá muitas fotos e likes nas redes. Ele ficou feliz com o pouco que dei de tão rico que é.

Como já falei, quase não me deparo com aqueles que verdadeiramente precisam de algo. Nós que só nos deslocamos de carro e nos bairros afastados da periferia não vemos o homem nu. Nós só vemos os outros carros, os pedestres, os ciclistas e motociclistas. Já repararam como damos nomes diferentes para designar aqueles que são como nós? Apenas homens? A gente é tão idêntico, mas tentamos nos distinguir por diferentes nomes porque não suportamos admitir nossa igualdade e miséria similares.

Perguntam-me: “o que você é?”. E eu respondo de peito cheio e alma vazia: “sou ADVOGADA”. Advogada, uma ova! Sou um pobre ser que se recusa em aceitar a própria pobreza que é grande e inalcançável e para isso se enche de títulos insignificantes. Não há diferença alguma entre o verdadeiro rei e o rei do teatro. Os dois se transfiguram e representam. E tudo o que você faz com essas intitulações que dá a si mesmo não passa de representação.

A desonestidade é o que nos guia e une. Saber disso faz com que eu direcione acusações, inclusive, a mim mesma. Saber disso me mantém em constante observação e silêncio, embora esteja cansada da mudez. Quero é gritar já que “há o direito ao grito”. Nunca se sabe quando se está gritando pela última vez.

Eu me delato e subjugo-me à minha condição, entretanto, em essência, isso não me torna nem um pouco melhor que os demais desonestos.

As sete leis espirituais do sucesso, de Deepak Chopra.

As sete leis espirituais do sucesso é um livro de ensinamentos práticos que tem por proposta nos auxiliar a experimentar e concretizar o sucesso em todos os nossos feitos. O termo sucesso não se trata apenas de conquistas materiais e financeiras como muitos hão de supor. “Sucesso inclui saúde, energia, entusiasmo pela vida, relacionamentos compensadores, liberdade criativa, estabilidade física, bem-estar e paz de espírito.” E mais, para o autor “o sucesso é a jornada, não o destino.”

O número sete que compõe o título do livro é simbolicamente atribuído à perfeição. Um dos exemplos que demonstram esse entendimento é aquele no qual é sabido que Deus criou tudo o que existe em apenas sete dias. Esse número denota completude e é considerado “o símbolo da totalidade do Universo”.

Ao elencar sete leis que contribuirão para realizarmos enquanto SERES, Deepak Chopra o faz referenciando às leis espirituais. Partiu, portanto, do pressuposto de que somos espíritos habitantes de um corpo material. De nada adianta ter muito dinheiro e um corpo ordenado se espiritualmente estamos transtornados. Precisamos equilibrar os componentes espírito, mente e corpo que juntos formam-nos enquanto humanos.

Entretanto, a fonte de criação é o espírito. Qualquer coisa que podemos ver exteriorizada foi antes concebida pelo espírito, que é o berço criativo. Por exemplo, esse texto que vocês leem é a materialização daquilo que por mim foi pensado internamente.

A potencialidade pura é a primeira lei espiritual apresentada. Ela diz que nossa essência é espiritual e que o espírito é o campo de todas as possibilidades e da criatividade. Para entrar em contato com o espírito ou nosso interior é preciso recolher e silenciar. Essa prática facilitará a descoberta e o conhecimento de si mesmo, que é onde reside a capacidade de realização dos sonhos.

Num mundo barulhento como o atual, em que somos bombardeados de informações infiltradas vindo de todos os lados é muito difícil adquirir a tranquilidade necessária para praticar o autoconhecimento. Assim, caso deseje conhecer o seu íntimo será indispensável limitar as informações que lhes chegam e a que tipo de coisas será exposto.

Quando descobrimos o nosso verdadeiro eu com toda a sua potencialidade e também com suas limitações fica muito mais fácil exercer o autopoder. Não existe qualquer poder externo que não seja uma ficção. Assim como é ficção a ideia de que podemos controlar qualquer coisa que esteja fora de nós. Muito pelo contrário, “quando você busca exercer o poder e o controle sobre as pessoas, está desperdiçando energia.” Entender essa realidade nos torna mais voltados para dentro de nós, espaço sobre o qual podemos ter a posse, o domínio e o poder.

O autor diz: “Se experimentamos o poder do Eu, não há medo, não há compulsão para o controle, não há esforço para obter aprovação ou para conseguir poder externo.”

A experimentação do Eu pode ser conseguida por meio do silêncio, da meditação e do não-julgamento. Só na quietude é possível exercer a imaginação e a criatividade. Portanto, estar permanentemente em ambientes caóticos impede não somente o alcance do seu Eu, como também prejudica ou impossibilita a criação.

A lei da doação é a segunda evidenciada por Deepak Chopra. Ela significa que tudo no Universo se relaciona por meio de troca, ou seja, dar e receber. Imagino que tenham ouvido falar de uma história a respeito de dois cachorros, um alegre e outro mal-humorado, que entram num ambiente onde há espelhos por todos os lados e apresentam reações completamente diferentes.

O cachorro mal-humorado, ao entrar no local, vê nos espelhos vários cães raivosos e diz que o lugar é ruim porque todos são infelizes e mal-humorados. Já o cachorrinho alegre entra no mesmo local espelhado, visualiza vários outros cães tão felizes como ele e ali decide ficar por considerar aquele ambiente agradável. O que isso quer dizer? Que as coisas nos são refletidas com base naquilo que emitimos. Pense bem: com que cara você se olha no espelho todos os dias?

A lei do carma estabelece que todas as nossas ações culminam em consequências e que nada fica impune, para o bem ou para o mal. Portanto, ao fazermos escolhas temos que ter plena consciência dos possíveis resultados. “Seu futuro é resultado das escolhas que você faz a todo momento em sua vida.”

O que falamos, o que comemos, as emoções que sentimos, os afetos ou desafetos que oferecemos e todas as ações conscientes ou inconscientes provocam consequências benéficas ou desastrosas. Pablo Neruda disse: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.”

No que concerne à lei do mínimo esforço temos que ela representa o agir com harmonia e tranquilidade. Uma das coisas que mais tem prejudicado a maioria de nós é a ansiedade e o imediatismo. A agonia de viver e de fazer milhares de coisas de forma assoberbada tira de nós a capacidade de vivenciar de forma amena o processo necessário para o alcance do que desejamos. Para vivermos em harmonia e sob obediência ao mínimo esforço é necessário entender que devemos aceitar as coisas, as pessoas e as circunstâncias como elas são. Há um enorme dispêndio de força e vitalidade quando resistimos à realidade do que simplesmente é. “O que você resiste, persiste.”

Também é de extrema importância se responsabilizar pelos acontecimentos ou pela maneira como se sente em relação a eles. Não culpar os outros nem se fazer de vítima. Muito menos ficar culpando a si mesmo. É primordial que reconheça algo que fez e que não foi bem acertado, mas isso é um indicativo da necessidade de mudança e não algo para sua autocondenação. Ficar se culpando só vai te paralisar e onde não há movimento, não há desenvolvimento.

A harmonia também pode ser conseguida pela indefensibilidade, que significa se desarmar e não buscar provar aos outros o seu ponto de vista, cujo resultado pode ser apenas o peso do desgaste. Sem falar que isso mina a vitalidade de qualquer um. Abstenha-se da necessidade de ter razão.

A quinta lei é a da intenção e do desejo. O desejo pode ser entendido como algo que idealizamos e queremos realizado ou concretizado. Entretanto, os verdadeiros desejos são aqueles que brotam do mais profundo Eu. Por isso, a necessidade do autoconhecimento.

Partindo do pressuposto de que o desejo representa uma intenção futura é importante entender que o seu alcance exigirá uma atenção no presente. O desejo pode ser entendido como o fim ou resultado, contudo existe a necessidade de ações presentes para se chegar à intenção pretendida.

Por exemplo, vou prestar OAB e a minha intenção é ser aprovada no exame. Entretanto, para chegar a esse resultado tenho que reservar algumas horas do meu dia, a fim de estudar a matéria com toda a atenção necessária (presente). Caso fique pensando apenas no resultado (futuro incerto) é bem provável que isso prejudique a minha atenção nos estudos. O desejo precisa ser sereno. Com esforço e tentativas, provavelmente o resultado virá.

Já a lei do distanciamento informa que “para se conseguir qualquer coisa na natureza é preciso desistir do apego a ela”. Importante abandonar o apego aos resultados. Chopra diz que o apego está baseado no medo e na insegurança, além do mais gera ansiedade.

É preciso lidar com as incertezas uma vez que não sabemos de fato o que vai ou não acontecer. O autor supõe a renúncia ao apego pelo que por nós é conhecido. Ele afirma que na incerteza podemos evoluir. A nossa zona de conforto nos leva à estagnação, desordem ou ruína, e onde não há evolução, não há crescimento.

Ele ainda afirma que a incerteza é um terreno fértil para a criatividade e a liberdade.

A última lei espiritual do sucesso é a do darma ou do propósito de vida. Segundo essa disposição, estamos aqui para cumprir um propósito de vida, por meio do exercício de um talento que é só nosso. “Há uma coisa que você pode fazer e de um jeito melhor do que qualquer outra pessoa sobre a terra. Quando você está fazendo essa coisa, perde a noção do tempo. E quando está expressando esse talento único – muita gente tem mais de um  –  você penetra na consciência atemporal.”

Para descobrir nosso propósito podemos nos perguntar: “Como posso ajudar? Como posso ajudar a todos com quem tenho contato?”

A descoberta de nosso talento depende do conhecimento que temos a respeito de nós mesmos. O uso do talento é uma forma de contribuir com a humanidade. É um modo de servir.

Outra pergunta que pode ser feita a fim de descobrir o seu talento é: “se não tivesse a necessidade de me preocupar com dinheiro e tivesse todo o tempo do mundo, o que eu faria?”

Portanto, essas são as sete leis espirituais do sucesso referenciadas por Deepak Chopra. Espero que todos se empenhem nessa busca importantíssima que é a do conhecimento do Eu. Penso que essa é a chave para fluência da vida em todos os sentidos.

O autoconhecimento te permite entender que você não é superior a ninguém, mas também não é inferior. Permite que desenvolva seus talentos e trabalhe as suas limitações. Permite entender e sentir a amplitude do SER sem adjetivações ou ditos rótulos. Ser é a extensão do divino espiritual que há em nós. Assim, busque ser e permita que os outros também sejam.

De como fiquei grávida.

À exceção da inseminação artificial, parece-me que só há uma maneira de engravidar e esta se dá por meio do sexo. Ocorre que surgi grávida de seis meses sem antes ter gozado de tal procedimento. Não que eu seja desprovida de gozos, inclusive maiores que aqueles que se possa ter a dois, mas é que apareci do nada com uma barriga enorme, cujo tamanho e diferença era notada apenas por mim.

Ao encontrar-me com pessoas conhecidas ficava esperando que falassem sobre o ser que estava dentro do meu ventre, mas todos me olhavam e reagiam como se nada tivesse acontecendo. Pensava que era impossível que não percebessem o quanto minha barriga estava avantajada. Para quebrar o silêncio, eu dizia: “Estou grávida de seis meses.”

A reação das pessoas era de espanto. Como assim? Aos olhos delas tudo em mim permanecia como antes. Nada havia mudado e, provavelmente, eu teria criado uma gravidez psicológica.

Sozinha, pensava no motivo que me havia feito engravidar e questionava-me: “Mas por que? Eu sempre disse que não queria.” E as respostas não vinham. Assim, grávida de um filho cujo pai não existia nem no sonho, decidi por esperar pelos nove meses para ter a criança, posto que o aborto sequer seria cogitado.

Ocorre que antes de chegar aos nove meses, acordei assustada e ao olhar para minha barriga vi que ela estava do mesmo tamanho que do dia anterior. As pessoas que encontrei no sonho estavam bem mais acordadas e enxergando uma verdade que eu relutava aceitar. Não havia gravidez alguma.

Levantei e contei ao meu esposo que havia sonhado grávida de seis meses e que só eu conseguia perceber que minha barriga crescera. Ele apenas perguntou: “E era um menino ou menina?” Eu respondi: “Não sei. Nada me foi revelado.” Logo acrescentei: “Meu filho nem tinha pai, meu bem.” E concluí: “Acho que eu estava grávida de mim mesma.”

Em seguida, relatei para minha mãe que, no sonho, eu havia engravidado de mim mesma. Ela, que deve ter pensado “essa minha filha inventa cada coisa”, sorriu e disse: “Essa foi boa.”

Ao consultar o significado de sonhar grávida, movida por uma superstição que me acompanha desde o berço, descubro que pode estar relacionado a uma excitação em torno de um projeto criativo. Desse modo, a coisa se revelou com mais clareza para mim.

Na noite do sonho, havia participado de um evento que me deixou muito excitada em torno da ideia de lançar o meu primeiro livro. Nesse momento, concebi a ideia de como seria a obra e a semente foi germinada. Esse projeto, por ser meu e crescer dentro de mim, era invisível aos olhos dos outros. Por isso, ninguém notar o tamanho que ele ocupa dentro do meu ser nem enxergar a vultosidade do meu ventre. Daí esse filho não ter pai, posto que inseminado, fertilizado e gerado apenas por mim.

Falei sobre o sonho, às gargalhadas, para uma colega de trabalho, que disse: “Essa preciso contar à minha irmã.”

A irmã, ao ouvir a narrativa de que eu havia engravidado de mim mesma, concluiu: “Mas nem Maria, mãe de Jesus, conseguiu isso, de que modo Ana conseguiu?”

Realmente, Maria, para conceber um filho, foi agraciada por Deus que, vendo nela humildade e santidade, interveio fazendo descer-lhe o Espírito Santo.

Mas, mesmo não sendo um poço de humildade, nem uma santa, muito menos cheia de graça tal qual Maria, Ele me presenteou com um dom que, ao ser exercitado, faz com que eu própria conceba e dê à luz todos os dias.

Inutilidade

A página em branco é um universo de possibilidades. Ainda não sei o que vou escrever, no entanto escrevo. A falta do que dizer e fazer me impõe um silêncio profundo. E é no silêncio que analiso fatos e observo pessoas. Olho nos olhos delas e descubro que nada fica oculto a quem não tem medo de enxergar, ainda que haja um esforço por não deixar transparecer. Também não posso me esconder de mim.

Está quente e seco lá fora. Cá dentro chove e inunda. Não é uma espécie de desilusão. É esgotamento de forças. Não reajo.

A inutilidade é uma das piores sensações que existem. É como se eu passasse todo o meu dia dando comida para quem está de barriga cheia e não tivesse a coragem de doar aos que realmente sentem fome, porque esses exigiriam muito mais de mim.

A inutilidade é como dar ouro a quem te pede um copo d’água ou um pedaço de pão.

A inutilidade faz roubar tempo e vida. Passa-se por esta e se sai dela como roupa amarrotada. Nada se dá. Mas o que pode ser oferecido? O que posso dar aos outros que não seja desintegrando partes de mim mesma?

Venha a nós o vosso reino! De tanto rezar assim não tenho ido até vós. Fico à espera. Só sei receber? O mundo não me deve nada, contudo eu devo um pedido público de desculpas ao povo que respira e transpira para que não me falte todo mês o tão esperado ordenado. Estou às suas ordens em meio a essa ANArquia.

Dercy de cabo a rabo

“Tenho que dizer no meu livro a verdade que sinto no coração.” Essa frase sintetiza muito bem o que Dercy Gonçalves procurou nos revelar nessa obra – sua autenticidade.

É preciso reconhecer que dizer a verdade exige sobretudo uma espécie de coragem, uma vez que a hipocrisia foi e continua sendo uma das mais evidentes patologias sociais.

Muitos dos comportamentos que acusamos quando praticados pelo outro são também realizados por nós, entretanto às escondidas. Isso retira a tipicidade da conduta por aparente inexistência do fato e de sua autoria. No entanto, a nossa culpabilidade não escapa à própria consciência, uma vez que esta não sobrevive de aparências.

O termo puta foi uma das expressões mais utilizadas para caracterizar Dercy Gonçalves, mesmo quando ela não passava de uma menina em Madalena, cujo sonho era ser artista. Nem sabia se tratar de um termo pejorativo. Era ignorante de tudo. Também não tinha noção do que isso significava, mas quando lhe disseram que ser artista era o mesmo que ser puta, intuitivamente respondeu: “Então vou ser uma grande puta”. Só mais tarde entendeu do que se tratava. E bem mais tarde ainda é que descobriu que existia o sexo. Simplesmente, Dercy era uma puta virgem.

Quando resolveu publicar a sua biografia contava com oitenta e sete anos e precisou da ajuda de alguém, pois não sabia ler nem escrever. Maria Adelaide Amaral se dispôs a auxiliá-la e transcrever as memórias de Dercy, que sobre sua própria idade dispara:

“(…) não sou velha. Velho é quem está caduco, velhas são as pessoas que não têm mais o que fazer, que ficam encostadas, incomodando. Mas uma mulher como eu, que ainda trabalha, briga e raciocina… estou uma beleza, estou uma beleza. Eu me acho linda da cabeça aos pés, e quem não achar que se dane.”

Dercy partiu com cento e um anos de idade e trabalhou incansavelmente até a morte. Recusava-se a aposentar, a ficar parada e impedida de ser abraçada e de sentir o calor daqueles que lhe prestigiavam. “O carinho do público foi o único que tive em minha vida. O seu riso e o seu aplauso são as únicas coisas capazes de saciar minha fome e me confortar.”

Batizada com o nome de Dolores, ela ultrapassou suas dores e seguiu em frente. Apesar dos problemas familiares enfrentados com o pai que, semelhante a um animal feroz, batia nela constantemente e com a ausência de uma mãe que, fugindo da humilhação de ser traída, abandonou as filhas, Dercy não se deu por vencida.

Ela assume ter carências decorrentes desse contexto familiar e revela que também desenvolveu inseguranças, ciúmes, possessividade e depressão. Dercy não nega seus defeitos e falhas, muito menos joga a sujeira para debaixo do tapete. Ela não se esforça para esconder absolutamente nada.

A fim de amenizar seus conflitos interiores rendeu-se à psicanálise e diz: “Todo mundo precisa de análise, porque ninguém tem a cabeça no lugar. A psicanálise me ajudou a me entender melhor, a entender meu pai e aceitar minha vida, porque o que está feito está feito, uma hora a gente tem que aceitar. Não dava pra ficar me lamentando e acusando quem me sacaneou, porque aquelas pessoas também tinham seus problemas e, no fim das contas, acabei me saindo melhor do que essa gente que me prejudicou.”

Entretanto, a análise, apesar de útil, não resolveu todas as suas carências de menina pobre e mal amada. Dercy diz que durante toda a vida tentou compensar o que não teve. Desenvolveu cleptomania (roubava objetos mesmo quando tinha dinheiro em sua bolsa para comprar o que quisesse) e também a compulsão por compras. “Vou comprando o que gosto, o que quero e, principalmente, o que não preciso.”

Também, não se tornou menos possessiva com a análise e assumiu que esse era um caso para Nossa Senhora Aparecida e não para Freud.

Apesar de muitos a acusarem de falar palavrão, ela faz sua réplica: “Palavrão não é o que você diz, é o que você faz: se você rouba, é ladrão; se você mata, é assassino; se você trai, é um sacana; se você é eleito pelo povo e só defende os seus interesses, é um filho da puta.”

Dercy gostava de ser diferente e exótica. Reconhece ser uma mulher brava, um pouco sem educação, mas séria e que gosta das coisas certas. Acreditava em poucas coisas, duvidava de muitas, tinha poucos amigos.

Diz que nunca amou nem foi amada verdadeiramente. Aproveitou-se dos homens e eles se aproveitaram dela. Amava uma conquista e considerava o sexo secundário, sem graça, com os mesmos movimentos e resultados. Talvez o sexo com amor fosse mais interessante, reflete.

O sucesso para ela é uma mentira, algo efêmero. “Pra mim, quem faz sucesso até hoje é Jesus Cristo. Ele não tinha mídia, não tinha nada, e mais de metade do mundo o respeita.”

Dercy foi embora de Madalena aos dezessete anos com uma companhia de teatro que estava passando uma temporada na cidade. Não se indagava se estava certa ou errada. “Ser o que sou. Errada, certa, não importa. Eu não queria saber se era boa para os outros, o que queria era ser boa para mim.”

Seu desejo consistia em seguir a própria vida, sair daquela cidade onde era maltratada e ignorada, lutar pelo seu sonho que, a princípio, era só cantar. Assim, partiu livre e feliz. “Eu fui à vida na ignorância.”

Mesmo ignorante, Dercy diz ter sido movida durante toda a sua vida por uma intuição incomum. Era curiosa, seu aprendizado era fruto da vivência e das pessoas com quem se relacionou de várias formas. Considera-se uma mulher inteligente e esperta.

Com os pés fora de Madalena, encontrou o céu. “Ninguém me batia, ninguém me contrariava, ninguém me censurava, eu estava dentro de uma jaula de um só animal. Não havia outros bichos para me atacar. Ninguém me olhava de cima, ninguém era melhor que o outro, todo mundo era igual.”

Dercy se envolveu com um integrante da companhia do teatro e teve contato pela primeira vez com o sexo. Em seus dizeres, foi horrível. “Nunca pensei que aquela merda pudesse crescer tanto.” Ela diz que parecia estar enfiando um facão dentro dela. Meteu o pé no parceiro e, ensanguentada, acabaram parando numa delegacia. A puta se desvirginara de um modo cômico e trágico.

Depois de oito abortos, teve sua primeira e única filha. Só não abortou novamente porque o pai da menina a impediu. Aceitou a gravidez contrariada. Dercy não queria ser mãe, queria apenas trabalhar no teatro.

Sobre os abortos, declara não se arrepender de tê-los feito e que não há governo ou instituição religiosa capazes de dizer o que ela deve ou não fazer. “Na minha xereca ninguém manda”. Para ela, cada um tem o direito de viver como quer.

Apesar de não ter desejado ser mãe, Dercy amou e protegeu a filha tanto quanto pôde. Diz que o amor pela filha se revelou com força no momento da amamentação. Criou a menina de modo que ela não precisasse enfrentar as humilhações e as rejeições porque a mãe passara. Queria que ela se casasse com um homem “de bem” e foi o que aconteceu. O marido de Decimar foi um dos homens em quem Dercy mais confiou. Sua filha lhe deu dois netos. Ao contrário da mãe, Decimar era muito educada, alegre, bem relacionada e amada.

“Eu gostava tanto da minha filha que a escondia do mundo. Ela não seria como eu, não ia passar pelo que eu tinha passado.”

Dercy tinha em si a alma de artista e, apesar da ignorância de menina pobre de Madalena, nada a impediu de trabalhar no palco:

“O que me mandavam fazer, eu fazia; o resto funcionava na base da intuição, porque a maior parte das coisas que eu fazia no palco era puramente intuitiva. Essa foi a grande vantagem que tive na vida: uma percepção fora do comum a respeito das coisas. Não tinha estudo, não lia quase nada, mas alguma coisa dentro de mim me alertava, chamava a minha atenção, me ensinava, me obrigava a perceber, me dizia o que tinha e o que não tinha que fazer.”

Descobriu que podia fazer rir, que o público a achava engraçada e começou a acreditar que realmente tinha comicidade.

Representava em qualquer lugar e de qualquer maneira, afinal o show tinha que continuar. “Não podia escolher, porque tinha uma filha para criar.”

Sempre valorizou e respeitou o público. “O público era a coisa mais importante do espetáculo.”

Passou fome, ficou sem tomar banho por alguns dias, “comeu o pão que o diabo amassou”, mas o amor pelo trabalho e a consideração pelos que a aclamavam conseguiram lhe dá firmeza. “Queria continuar mantendo o meu pessoal, queria ver o nome de Dercy Gonçalves cintilando nos luminosos e, para isso, precisava seguir meu caminho, apesar das dificuldades.”

Envolveu-se com alguns homens, mas jamais pensou em abrir mão da carreira por qualquer um deles. Conta que, embora o sexo fosse algo secundário, encontrou um homem que a levou à loucura. Um baita de um mulherengo do qual ela sentia muito ciúme e se humilhava.

Entretanto, um homem que lhe propôs vida calma e pacata não lhe seduziu. “Ingenuamente, ele achava que podia me seduzir acenando com paz, sossego, tranquilidade e vida doméstica. Não era aquele tipo de vida que eu estava procurando. Nunca fui muito de vida tranquila e tinha me acostumado a guerrear, a brigar sempre pelas coisas, gostava da minha vida como ela se encaminhara. Só não sabia se era eu ou o destino que havia determinado assim.”

No palco, Dercy não gostava do papéis apagados em que ela fosse preterida e não se destacasse. E sempre conseguia roubar a cena com o seu jeito irreverente. Desaforo ela não engolia. Era brava e a “porra” comia se alguém quisesse passar por cima dela.

Para ela, o artista tem que saber se comunicar acima de qualquer outra coisa. Ele só se mantém pelo seu valor e talento.

Conhecida por ser indirigível, qualquer texto que lhe chegasse às mãos era alterado por ela em cena. Dava o seu próprio toque, improvisava como queria. Escreveram sobre ela: “Uma artista muito imprevisível, não consegue obedecer ao autor completamente, cria em cima, inventa.” E ela mesma admite: “Não tenho muita paciência pra fica repetindo o que o autor escreveu, palavra por palavra.”

Ninguém conseguia enquadrá-la e ela se justificava sob o argumento de que era uma estrela.

Dercy foi extremamente censurada, tanto pelos críticos, quanto por colegas de teatro e da televisão. Durante a ditadura era vigiada em todos os palcos. Não podia falar nem o seu clássico “puta que pariu”. Apesar de não representar qualquer perigo para o sistema não escapou à perseguição dos “milicos”, que chegaram à conclusão que se tratava apenas de uma mulher malcriada

“Tudo o que eu fazia era criticado, motivo de ostracismo, me condenaram, me botaram no limbo. Hoje sou exemplo de cultura.”

O que muitos consideravam defeito era para Dercy apenas uma questão de estilo e vitalidade. Excessiva? Exagerada? Que é que tem nisso? Era apenas a sua forma de expressar.

No palco, não tinha medo, era valente, audaciosa, livre, o que talvez tenha lhe rendido tanta censura a ponto de proibir-lhe até mexer as mãos por considerá-las pornográficas.

Dercy se casou com um jornalista de nome Danilo. Com o passar do tempo, ele começou a traí-la com mulheres mais jovens e chamá-la de velha. Essa ofensa lhe doía e a magoava tanto que ela começou a recorrer às cirurgias plásticas para parecer mais jovem. Apesar de o casamento andar de mal a pior tinha dificuldade em abandonar o companheiro. Além do mais, o status de casada era interessante, porque impunha a qualidade de mulher de respeito que ela tanto precisava.

Não traía, mas também não admitia traição. Era mulher de um homem só . Achava que trair daria um trabalho danado e ela acabaria confundindo nomes e se entregando.

“Comecei a preparar a saída de Danilo da minha vida. Não foi fácil. Nunca é fácil, mesmo quando a gente despreza o homem que vive ao nosso lado.”

“Além de desprezo, comecei a sentir nojo. Mas por que continuava com ele? Por comodidade? Por que ele cuidava de todos os meus negócios, as contas a pagar e as contas a receber, os contratos, os acertos com o dono do teatro? Pra que precisava de um marido que me lesava?”

A lesão que Danilo provocou em Dercy foi tanto de caráter emocional quanto financeiro, pois descobriu que ele desviava o dinheiro dela para bancar a diversão com outras mulheres.

A separação mexeu com ela. Estava infeliz, fumava muito, olhava-se no espelho e já não gostava mais do que via. Teve depressão. Foi neste cenário que resolveu se submeter à psicanálise durante nove anos. Trocou de analista por três vezes e se apaixonou por um deles.

“Se não tivesse sido uma criança ferida, se não tivesse levado tanta porrada da vida, seria mais calma, mais equilibrada. Mas talvez não fosse Dercy Gonçalves.”

Além do palco, divertia-se no jogo. Gostava de frequentar cassinos. Ganhou e perdeu dinheiro. Gostava de grana. “Meu gosto por jogo tem muito a ver com meu gosto por dinheiro. Gosto porque nasci pobre. Preciso de dinheiro porque me dá segurança; quando tenho, me sinto tranquila e sem ele fico insegura, muito aflita.”

A carência demasiada de criança pobre de recursos e de afetos fez com que Dercy desenvolvesse não só uma ambição pelo dinheiro, mas também uma possessividade doentia. Diz que tinha ciúmes até do travesseiro. “Quero tudo pra mim, mesmo o que não quero mais.”

Quando Dercy foi trabalhar na televisão, seu programa batia recordes de audiência. Entretanto, apesar dos resultados que dava para a emissora foi demitida sem qualquer explicação. Acredita que tenha sido por causa da perseguição do governo militar.

Assim, saiu do Brasil e tentou carreira no exterior, mas não gostaram de sua arte. Dercy só se sentia compreendida pelo público brasileiro. Tudo o que ela tentou fazer fora de sua pátria foi um fracasso. Em Portugal foi quase expulsa por causa de seus palavrões.

Dercy critica duramente os políticos. Esses são os que, para ela, proclamam os maiores palavrões contra o povo. Prometem e não cumprem no maior descaramento. E esse negócio de fazer alianças é, na sua visão, uma putaria. A putaria dos políticos foi a maior de todas que ela conheceu.

Não tinha religião. Acreditava em Deus, Jesus, em forças do bem e do mal. ” Deus pra mim é tudo. A natureza, a Lua, os astros, o universo, eu. É isso mesmo. Deus está dentro de mim. Não vejo Deus como as religiões pregam, e praticar uma religião, com todo respeito, sempre foi um atraso de vida. Não gosto de intermediários. Quando tenho assuntos a tratar com Deus, não preciso de padre, pastor, rabino nem coisas do gênero. Vou direto ao Diretor-Geral.”

Afirma não saber mentir, não ser falsa nem fingida.  “Nunca escondi o que foi a minha vida pra ninguém nem tenho rabo preso.”

Tudo aquilo que conseguiu foi proveniente de seus próprios meios: “Fui conseguindo tudo à minha custa, sozinha, sem esforço, sem ansiedade, sem angústia, sem aflição de chegar a ponto nenhum.”

Dercy não imaginou que a sua vida desse uma história tão linda. Numa entrevista feita para o programa Roda Viva, declara que o livro foi uma das coisas que mais a surpreendeu de tão bonita e verdadeiro que ficou a história nele contada.

Não culpa sua família por nada, pelo contrário, compreende. “Minha família era um conjunto de gente aflita, de gente sofrida, onde cada um incomodava o outro. No fundo, porém, todo mundo queria se encontrar, como aconteceu muito mais tarde.”

“Sou uma pessoa espetacular.”

“Sou uma estrela.”

“Sempre fui mais eu.”

“Sou agressiva, não nego.”

“Sou brava, sou forte, sou guerreira.”

“Não digo que sou santa…”

“Não tenho medo de ninguém.”

“Sou de um temperamento que não sabe guardar inconveniências.”

“Não me deslumbro com qualquer brilho.”

“Não sou de chorar, não sou de gastar lágrimas à toa.”

“Sou forte. Estou viva porque não deixei de sonhar. E sonho com muita convicção, deixando o sonho me tomar.”

“Nunca admiti nem admito que terceiros venham dar palpite em minha vida.”

“Não vem pra cima de mim me dizer o que é certo ou errado e o que tenho que fazer. A minha estrada quem comanda sou eu.”

“Aprendi também com o porteiro, o lixeiro, a puta, porque a gente sempre aprende com as pessoas.”

“A mim ninguém consegue imitar.”

Dercy tinha total consciência de sua originalidade e importância. A frase que permeia todo o livro é “Eu sou”. Consciente de si, de sua grandeza, nada nem ninguém conseguiu tirá-la de cena. Dercy nasceu para o palco e viveu para estar nele. A força dessa mulher guerreira era incomum. Sua independência admirável. Ninguém a dominava. Ninguém a paralisava. Ninguém, além dela mesma, deu direcionamento à sua própria vida. Tinha livre-arbítrio, dado por Deus, disse.

Tudo o que fazia era por si mesma. “As coisas que fiz e faço, faço por mim, pensando em minha saúde, em meu trabalho, no respeito por mim mesma. Não é porque tenho uma filha, dois netos e uma bisneta. Mas porque acredito que cada um deve se respeitar, deve se amar. Ninguém tem obrigação de gostar da gente, a não ser a gente mesma.”

Dercy tentou enganar a morte de todas as maneiras. Não queria morrer. Tinha tesão pela vida e pavor da morte. Depois dos oitenta anos descobriu que tinha um câncer e conseguiu passar uma rasteira nele. Sua garra é admirável. Entretanto, aos cento e um anos seu corpo cedeu espaço a uma pneumonia.

Hoje, com toda a sede de vida que moveu sua trajetória, Dercy deve estar brilhando e fazendo graça nos palcos da eternidade. A menina de Madalena subiu aos céus e virou uma grande estrela.