não há respostas ou a falta de resposta

De onde vim? Quem sou? Para onde vou? Essas perguntas, subliminarmente ou de modo explícito, permeiam toda literatura de Clarice Lispector. Ainda que escape às definições possíveis, ela pode ser lembrada como alguém que passou a vida à procura da coisa, de algo que, embora invisível e intocável, fosse causa, fonte ou origem de tudo que se manifesta aos nossos olhos e constitui a chamada realidade.

Essa procura se reflete em sua escrita, com que se ocupou até a morte e por meio da qual buscou tocar o impalpável, ou melhor, encontrar as respostas para as principais perguntas existenciais. Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

No romance A hora da estrela, escrito à beira do suspiro final, ela não esconde, já na dedicatória, tratar-se de um livro inacabado, porque lhe falta a resposta. Uma vez que não a encontra, cumpre a promessa e escreve até o fim.

Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando. O espanto, o estranhamento, o mistério e as interrogações diante do absurdo de estar vivo e de morrer foram as grandes inquietações da Clarice menina e mulher. A que nasceu sem saber por que, viveu, amou os outros, criou os filhos, escreveu e partiu não se sabe para onde.

Ela reconhece que a busca por explicações se mostrou infrutífera, inclusive dá vida à personagem que, diante de perguntas feitas ao namorado, ouve dele: Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta? Macabéa é a própria Clarice de olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos, admitindo para si mesma, na iminência de partir, o fato de não ter conseguido desvendar o mistério da existência que tanto a inquietou. Existir não é lógico. Além disso, pode ser totalmente desprovido de sentido.

Quem conta a história de Macabéa é Rodrigo S.M., o qual faz questão de afirmar ser o personagem mais importante dos que integram esse livro de treze títulos, cujo começo diz: Tudo no mundo começou com um sim. E tem por “grand finale”, também, um Sim.

Rodrigo S.M. representa a Clarice escritora, cuja maior importância não é sem razão, pois se não escrevesse os outros personagens sequer existiriam. Antes de adentrar propriamente na vida de Macabéa, reflete sobre a palavra e o ato de escrever. Para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra. E procura falar de modo simples, nu, sem enfeites, tratando de dizer que essa simplicidade foi conseguida à custa de muito trabalho.

Admite que a escrita deu-lhe destino, pois a inseriu numa classe. No entanto, afirma que o faz não por ser intelectual, uma vez que escreve com o corpo. As sensações. E por que escreve? Não sabe responder. Só escrevo o que quero, não sou profissional.

Fazia questão de manter a liberdade e se considerava amadora. Ao tempo em que declarava estar morta quando não escrevia, também dizia que escrever lhe atrapalhava a vida. Mas deixou registrado que seguia esse destino por imposição. De quem? Escrevo por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”. Ofício que realizava de ouvido, isento de mentiras, sem fazer concessões ou rogar passagem. O que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: aguenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.

Com essa mesma dignidade, escreve o último livro no qual retrata a pobre vida de Macabéa, nordestina, órfã, perdida, que sai de Alagoas e vai para o Rio de Janeiro, onde arruma emprego de datilógrafa e mora num quarto com mais quatro moças, situado numa rua tomada pela prostituição. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha o terceiro ano primário.

Macabéa é tola, delicada, incompetente e vaga. Faltava-lhe jeito de se ajeitar. Para viver, pedia licença. Ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também Clarice, por meio do personagem principal Rodrigo S.M., confessa: Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus.

Mais uma vez confessa o que buscou durante a vida “encontrar o mundo e seu Deus”, busca que se mostrou inócua, luta que restou perdida, resposta que não veio, palavra não encontrada, mistério não revelado, motivo de “força maior” por que escrevia.

Quanto à Macabéa, ela era o próprio erro em forma de gente, além de encardida, suja e mal cheirosa. Mesmo sem saber tinha lá os seus encantos. Um dia, sob ameaça de ser demitida pelo chefe, desculpou-se com ele de modo a lhe revelar uma inesperada delicadeza que foi capaz de comovê-lo a adiar o ato. Saiu atordoada e se viu diante do espelho com a cara deformada, o corpo magro e encurvado, tão jovem e enferrujada, tão idiota e infeliz. Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha.

Vivia em meditação, entregue ao vazio de si mesma, acreditava em algo, “em quê?”, não se sabe, mas que lhe enchia de vontade de viver e a conduzia ao estado de graça própria dos santos. No entanto, não pensava em Deus, não o tocava. Ele também não pensava nela. Deus é de quem consegui pegá-lo. Macabéa não o pegava. Obediente, muda, subserviente, não indagava. É assim porque é assim. Melhor aceitar a falta de respostas que levar um baita “não” na cara. Vivia sua pobre vida vazia e murcha e nunca se revoltava ou gritava.

Virgem, seus ovários eram tão secos que ela seria incapaz de propagar-se em outros seres. Menos mal. No mundo há misérias suficientes. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. Macabéa bem que sentia uma coisa debaixo da saia, ah como sentia! Para passar o nervosismo da vontade insatisfeita tomava água com açúcar. Tinha sensualidade e muita lascívia dentro de seu corpo frágil. Quando olhava a foto 3 x 4 do namorado, a excitação subia ao sangue, pulsava-lhe as partes e ela precisava rezar a fim de ficar mais calma.

Atendendo ao apelo mudo de mulher é que foi conduzida ao homem. Olímpico, também nordestino, a convidou para passear. Ela, apesar de tola, sentia, e aceitou de imediato o convite receosa que ele desistisse. Olímpico passou a ser tudo para Macabéa, o outro que lhe conferia existência num mundo em que estava perdidamente sozinha.

Paraibano, foi criado por um padrasto que ensinou-lhe a arte de passar a perna nos outros. Roubava sem culpa e haver matado um homem constituía o segredo que lhe dava força. Queria vencer na vida, virar deputado, ver seu nome estampado nos cartazes, fazer que todos um dia soubessem quem ele era. Mas também tinha lá sua fraqueza. Chorava escondido nos enterros de desconhecidos. A verdade é que Olímpico era um coração solitário pulsando no mundo, o qual se afirmava grotesco, avarento e mesquinho, talvez como forma de mascarar sua precária condição de machozinho frágil.

Ao contrário de Olímpico, a moça achava que não precisava vencer na vida. Só queria mesmo era viver. Mas também alimentava o sonho de ser artista de cinema, o qual confidenciou ao namorado: Adoro as artistas de cinema. Sabe que Marylin era cor-de-rosa? Ele respondeu-lhe: E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema.

Ela não entendia as ofensas do rude Olímpico. Dava muito valor às boas maneiras, mas ele achava que a coisa mais importante da vida era mesmo o dinheiro. Macabéa não lhe causava prejuízo algum. A única cortesia que ele fez durante o namoro foi oferecer-lhe um café, o qual ela pediu para acrescentar um pouco de leite, mas o namorado tratou de avisar que se houvesse acréscimo ao preço ela pagaria a diferença. E quando foram ao zoológico, Macabéa pagou a própria entrada.

Não foi difícil para Olímpico deixar Macabéa e cair nos braços de Glória, que tinha gordura, casa e comida na hora certa, tudo o que podia interessá-lo. Na tentativa de amenizar a traição, Glória não só convidou a colega de trabalho para tomar um lanche em sua casa como também emprestou-lhe dinheiro para consultar uma cartomante.

Macabéa não recusou as bondades de Glória, nascidas do remorso de quem primeiro bate para depois alisar. Por não ter mais nada a perder, aceitou o dinheiro. Desesperada, foi ao encontro daquela que revelaria seu grande Destino.

A cartomante não só descreveu o futuro de Macabéa como a fez conhecer a vida miserável e infeliz que vivia no presente. Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!

Ela se espantou, pois não sabia que tinha vida tão ruim. Gostava de viver, alegrava-se, acreditava em anjos, tomava café frio antes de dormir, ia ao cinema de vez em quando e até se dava o luxo de comprar uma flor quando recebia o salário. Isso era tudo que tinha e conhecia. A vida que lhe agradava por não usufruir nenhuma outra. Mas, se agora descobria-se infeliz, havia a promessa de um belo futuro. Não seria demitida do emprego, teria o namorado de volta, melhor ainda, conheceria um homem que lhe entregaria uma grande quantia em dinheiro e depois se casaria com ela.

Macabéa transformou-se magicamente em outra pessoa. A promessa de felicidade a modificara por dentro. Uma felicidade explosiva que mal cabia dentro do corpo raquítico e fraco. As palavras! Oh! As palavras que contém em si mesmas o poder de alterar as sensações e a própria vida. Macabéa começou a tremelicar toda por causa do lado penoso que há na excessiva felicidade.

Saiu da cartomante ao encontro do seu maravilhoso e feliz Destino. A morte. Sim, a musa lhe alcançou em cheio ao ser atropelada por um Mercedes amarelo. Deitada no chão, seu corpo sangrava, as pessoas a notavam como quem olha para o céu e é ofuscado pelo brilho de uma única estrela.

Com a dignidade de barão, Rodrigo S.M. narra o ato final da personagem que ele tanto ama. Ele é Clarice imprimindo o registro da própria morte, recusando-se a deixar escapar o fim daquela que constitui o sujeito e o objeto de sua Literatura, o cerne de seu interesse – ela mesma. Eu me uso como forma de conhecimento. Eu te conheço até o osso.

Clarice se transmuta em suas personagens para viver todas as sensações possíveis, do nascer ao morrer. Não encontrou o que buscava, não tocou o intocável. O inalcançável fugiu à sua pretensão. E apesar de narrar a morte de Macabéa como se fosse a morte de si própria, intuía que, simbolicamente, não morreria: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.

Não morreu. Permanece viva no legado de sua vasta e inquietante obra, dentre a qual A hora da estrela, último romance. O livro que, para ela, não passa de um silêncio, de uma pergunta.

Pergunta sem resposta.

Sim.

Descoberta

Dei para falar de amor e, no meio da noite, acordar de sonhos onde não só o peito pulsa. Pieguice, pieguice, acuso-me. Fui avisada a não subestimar o deus da flecha, que pode ser muito traiçoeiro. Eu sei, eu sei. Levei a mão à boca como quem se obriga ao silêncio. Fechei os olhos para sentir mais e melhor. Quem sou eu para falar de amor? Uma mulher. Sinto sem pedir permissões e deixo-me levar pelas estradas sinuosas do desconhecido, embora saiba de antemão para onde ele leva. Sei, porque sei. Não há explicações para o querer, ainda assim quero. E porque quero tenho antes de ter. Quem pôs em mim essa certeza mesmo diante da verdade de que tudo pode mudar em instantes? Nem posso falar em confusão de tiros provindos de armas desgovernadas. Eu própria mirei e acertei o alvo. Sozinha. Então descobri que não estava só falando de amor. Eu estava era amando.

Ousar ser

Ainda ontem acordara contente, dava pulos de alegria pela casa, olhava-se no espelho para confirmar o semblante sereno e inebriava-se ao ver os próprios olhos brilhantes. Os pés plantados tão firmes que o chão parecia não conseguir aguentar o peso de tanta felicidade. A qualquer hora, o solo abruptamente se abriria a devorar-lhe com sua soberba grave. Podia, podia o que quisesse, quem quisesse e, sem pedir, possuía todas as coisas. Mas tudo pesava-lhe como chumbo. A alegria é uma ofensa aos outros.

Lá fora a multidão cansada briga, reclama, tenta se apoiar mutuamente, enquanto baixa a cabeça e contrai os ombros. Olhos tão tristes, pedintes, pesarosos, meu Deus. E ela tão vazia de misericórdia a esbanjar plenitude. Ofensiva, cruel, má. A matemática do mundo é desigual. Que culpa tem se o distribuidor de graças achou por bem lhe pesar a mão?

Nada lhe falta, nada pede, nada quer, pois se tudo tem, diriam. O templo não é um lugar em que implora aos céus, mas contempla o inexplicável de ser agraciada por aquilo que sabe. Não se indaga em por quês. Sente que ganhara a eleição sem ao menos render-se à humilhação das disputas.

E a liberdade que conquistou de andar pelas ruas com o corpo e a alma expostos também é afrontosa. As transparências minimamente calculadas para mostrar as partes e provar às outras mulheres que, se elas continuam a ser aviltadas, é porque não aprenderam a grande arte. Essas, que por viverem distraídas, nunca saberão o segredo.

A alegria lhe escapara por não ter com quem partilhar. Se disser em público o que costuma sentir é capaz de espantar os desavisados. Mas não aprendeu a ser triste, não lhe ensinaram chorar de dor, nem lamentar as perdas. Pois que aguente o ônus de sua insuportável felicidade. Que pague, sozinha, o preço de ousar ser.

Amor puro

Ao vê-lo pela primeira vez sentiu o coração aquecido e aquele desejo ardente de amor puro. Não era vertigem, antevia. Alguma coisa naquela voz despertava-lhe anseios adormecidos. Lembrou-se de quando tinha quinze anos, tão próximos na memória, mas já distantes no tempo. As lembranças das primeiras vezes eram as únicas que não restavam de todo esquecidas. Aquele olho no olho, a boca sedenta a lhe dizer “você é como o sol” e, depois, a boca ainda aberta.

Perseguiu-a como quem quer por prêmio um objeto precioso, mesmo que esperasse alguns anos. Teve o que quis. Mais do que imaginou. E teve muito que nem ao menos soube o que fazer com tanto ouro.

Mas agora não era uma menina, embora o sentir em tudo se igualasse. Só sabia que o queria. E longe ele estava e haveria de ficar. Contentava-se com a voz que lhe sorria pelo tom. Amava de longe. Sentia-o com a alma a arder mais que o sol. Pensar no homem algumas horas por dia, antes de dormir, após acordar. Mas o pensamento não lhe obedecia. Ao cair da tarde, ele.

Ah! Como é bom apaixonar-se depois de tanto tempo. A paixão por si mesma, o objeto longe, imune à posse que mata. E a paixão se transformando em amor. E o amor evaporando pela pele, irradiando por meio da distância, atingindo-o.

Destino de mulher

Uma constante na literatura de Clarice Lispector é a presença de personagens mulheres, casadas, donas de casa e mães que, em algum momento de suas vidas, diante de acontecimentos comuns ou corriqueiros, despertam da situação na qual se encontram e se percebem mergulhadas no cuidado e na atenção ao marido e aos filhos, ou mesmo imersas nos afazeres domésticos existentes ou inventados, com a finalidade de lhes ocupar a ponto de não sobrar tempo para pensarem em mais nada, mesmo em si próprias.

Assim acontece com Ana, do conto Amor. Num fim de tarde, sozinha em casa, sem a presença de marido e filhos a supostamente lhe exigirem, nem tarefas domésticas a realizar, uma vez que a casa e os móveis estão brilhantes de tanto limpá-los, decide fazer algo nessa hora considerada perigosa, porque é justamente a hora em que pode entregar-se plenamente a si mesma. Ana foge desse instante arriscado e procura repetidamente e sem pausas com que se entreter.

Cansada, com ar de meia satisfação, vai às compras, as quais carrega num saco de tricô tecido pelas próprias mãos durante as horas em que ninguém precisava dela e nada restava a fazer. Sobe no bonde, coloca-as no colo e, enquanto olha a movimentação das ruas pela janela, surpreende-se ao avistar um cego mastigando chicles.

Ana se perde ao olhar o homem cujo semblante aparenta alternar entre riso e choro, entregue à escuridão de si mesmo durante o insistente movimento repetitivo de mastigar algo que parece não acabar nunca e induz a pensar, não só na eternidade, como na falta de gosto que se sucede após os primeiros poucos minutos de doce degustação.

Seria também a vida de Ana uma eterna repetição sem sabor a que ela cegamente se entregava? Casa, marido, filhos. Ana sente a crise instalada ao pensar no que quis e escolheu, pois ninguém a obrigara. Estava presa ao lar, ao tempo em que o mundo do lado de fora pulsava vivíssimo, com cegos, famintos e leprosos a esperá-la e a precisar dela.

Quando o bonde dá uma arrancada brusca, Ana é jogada para trás e solta um grito que assusta os demais passageiros. As compras caem no chão, os ovos quebram. Sem cascas e subterfúgios, a vida claramente se mostra. Ana passa a ver melhor após ser atingida pela luz a ela lançada por meio do olhar de um homem sem visão .

Desce do bonde atordoada, caminha desorientada pelas ruas até se perceber dentro do Jardim Botânico. Senta-se num banco e ali deixa-se estar. Observa ao redor as plantas com folhas e frutos que nascem, caem sozinhos, apodrecem e servem não só de alimento mas também de adubo para a terra, onde outras vidas nascerão, cairão, apodrecerão. E os bichos de um lado para outro sem ninguém a lhes cuidar, crescendo como seus filhos. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se perceber. Um trabalho que não precisava de suas mãos nem das mãos de ninguém. As coisas naturalmente nasciam, cresciam e morriam. A renovação da vida era constante, contínua, permanente. E a morte não era o que pensávamos.

Ana estava diante da vastidão de um mundo que ignorava. O mundo era tão rico que apodrecia. Independente da atenção e do cuidado demasiado oferecido aos seus, eles nasceriam, cresceriam e morreriam como os seres do Jardim Botânico. A limpeza exagerada da casa, o esforço em mantê-la impecavelmente brilhante para que a família vivesse em ambiente puro e saudável não impediria a natural morte e decomposição do que é perecível.

E por um instante a vida sadia que levara pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.

Ana lembra-se de seus filhos com remorso e sai às pressas do Jardim Botânico. Estar ali por mais tempo seria um perigo. Corria o risco de esquecer o marido, os filhos e seguir sozinha ao chamado do homem que, mesmo cego, andava sem a condução de mãos humanas.

Ao chegar em casa abraça o filho com tanta força que ele corre assustado de seus braços e, ao longe, a examina com o pior olhar que jamais recebera. Ama-o violentamente a ponto de desejar detê-lo em seus braços . Essa mãe o quer acima de qualquer coisa. Assim como ama o marido e tenta, em vão, protegê-lo para que nada de ruim lhe aconteça.

É por amor que Ana se prende ao pequeno e limitado mundo do lar, cuida de tudo e todos até nos momentos em que se torna totalmente dispensável e nada a requisita. Ninguém a obriga seguir o destino de mulher, no entanto ela se agarra a ele sob pena de não saber o que fazer de si mesma, pois teme mais que tudo deixar-se guiar pelas mãos de um cego, o qual não vislumbra destino certo para levá-la.

A falta de destino deixa alguém muito livre, sem saber o que fazer de si. Ana precisa de âncora para onde retornar após as instabilidades. A casa, o marido, os filhos e o peso da culpa estão ali para confirmar o que Clarice intui com sabedoria: o destino de uma mulher é ser mulher.

Guerra dos sexos

Na crônica Amor Imorredouro, Clarice Lispector afirma, sem rodeios, que o maior interesse das mulheres são os homens. Antes que alguma mulher previsível o queira negar dizendo-lhe que não são os homens, mas os filhos, ela adianta:

Isto é diferente. Filhos são, como se diz, a nossa carne e o nosso sangue, e nem se chama de interesse. É outra coisa. É tão outra coisa que qualquer criança é como se fosse nossa carne e nosso sangue.

No entanto, adverte às mulheres que elas não precisam se sentir humilhadas ao admitir a importância dos homens em suas vidas, pois se perguntarmos ao maior técnico do mundo em engenharia eletrônica o que é que mais interessa ao homem, a resposta íntima, imediata e franca, será: a mulher.

Ao dizer isso, sabe que toca num assunto delicado, num ponto nevrálgico e declara: Como o homem nos dói. E como a mulher dói no homem.

Essa dor é sentida com profundidade pela personagem do conto O búfalo, mulher que acaba de ser desprezada pelo homem que ama e, diante disso, é tomada por intensa vontade de odiar, já que o amor ofertado não encontrou correspondência.

Nem mesmo a chegada da primavera com suas flores foi capaz de alterar o estado em que se encontrava, cheia da violência que costuma acompanhar uma fêmea desprezada e rejeitada pelo sujeito de seu amor: um homem cujo crime único era o de não amá-la.

Quantas guerras declaradas entre os sexos movidas pelo desejo de amor, o qual após ser rejeitado, se transforma em ódio, não a um, mas a todos os pertencentes da mesma raça?

A mulher do conto O búfalo adoece quando sente na pele a dor do desprezo. Tudo o que desejava era transferir sua fúria a alguém. Não queria outra vez o amor, porque lhe poderia pesar muito e sentia não ter mais condições de suportar tanto sofrimento.

Dirigiu-se ao zoológico à procura de um bicho para odiar, uma vez que não podia odiar os homens, apenas amá-los apesar de tudo. Odiá-los é tentar esconder a dor de não ser amada por eles. O ódio que sentia era amor às avessas, inconfessável e inadmissível para si mesma.

“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo único crime era o de não amá-la.

Onde estava o seu par no mundo? – perguntava a Deus. E a resposta vinha em forma de grito das outras mulheres que se divertiam com os namorados, enquanto sentava sozinha no banco da roda gigante. Gritos ofensivos para quem estava só, não por opção, mas por não encontrar quem a amasse.

O apelo ao ódio era fuga para não morrer esmagada pelo amor direcionado a quem dele não precisava, nem o queria.

Ninguém a notava ou se interessava por ela, não tinha mais esperança e seus olhos se enchiam de lágrimas que ficavam presas na escuridão do peito doído, dilacerado.

Dentre todos os animais com os quais se deparou, decidiu odiar um búfalo, olhar diretamente em seus olhos e entregar-lhe a violência contida.

Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la.

Quando achou que poderia desferir o ódio mortal que sentia em direção ao bicho percebeu que, na verdade, estava amando-o.

Se não conseguiu a glória de ser vista pelos homens, que pelo menos o búfalo olhasse para o seu olhar ferido, o qual implorava que, ao menos ele, imerso na inconsciência, a amasse.

Quem saberá se o búfalo a amou? Ainda assim, talvez os animais sejam uma triste saída quando não se tem o amor dos homens.

Morrer do coração

O coração dava mostras de que não ia bem. Acelerava diante das emoções mais inesperadas como quando, cheia de vertigem, olhava para o céu e via que um avião sobrevoava. Noites havia em que o silêncio era interrompido pelas batidas fortes no peito cujo barulho incomodava os ouvidos atentos. A boca seca, a cabeça pesada e uma leve dormência nos membros inferiores e nas mãos. Não morreria de outro modo. Intuía que seria arrebatada por algo fulminante que lhe atingiria o centro. Aniquilada pela velocidade descontrolada de seu órgão pulsante. Morrer do coração. Achou das mortes, a mais bonita.

Numa tarde ensolarada de sábado, a notícia. Os desavisados ficaram surpresos, mas se ela estivesse viva, ao saber da própria morte, não se surpreenderia.

Doaram os demais órgãos para funcionarem em outros corpos e dar-lhes mais anos de vida. Só levaria consigo o coração como prova que ninguém além dela ousaria sentir o que sentia.

Esse coração que tantas vezes sangrou de dor de ser era o mesmo que vivia em permanente contemplação diante do que existe. Sem falar nas alegrias íntimas e constantes que lhe tomavam um dia inteiro. Como foi alegre! E o amor! Não aquele amor de mulher para o homem, nem de uma mãe para o filho. O amor em si mesmo, sem sujeitos ou objetos, esquentando-lhe o corpo e inebriando a alma cheia de afetos.

Uma criança a lhe pedir doce, um morador de rua dirigindo-se a ela para solicitar tão pouco. Dá uns trocados, moça. Outro homem implorando-lhe um prato de comida. Punha-se a conversar com o estranho, porque sabia que a fome dele não era só de alimento. Como amava os homens. Quis ser mãe de todos aqueles que se aproximavam para lhe pedir qualquer coisa. Sabia que tinha amor demais dentro de si a ponto de nem ter filhos. Acaso os tivesse voltaria-se inteiramente para eles. Com sua potente força de amar os esmagaria. Essa mesma força que fez o coração cair em desatino e perder o compasso. Amo tanto você, meu filho. Não quero que o sofrimento lhe alcance, nem que a morte aniquile sua existência e, por consequência, a minha.

Não se renderia ao restritivo ofício da maternidade que dá as costas aos demais e cuida apenas dos seus. Daria-se toda aos carentes de amor e pão. Seu ideal era tocar a humanidade, indistintamente. Alimentar não apenas os gerados de suas entranhas.

Aos que se mantiveram em silêncio enquanto viveu, tenham, pelo menos, a dignidade de mantê-lo agora que sabem de sua morte. Não vertam lágrimas nem lhe dirijam palavras vazias inspiradas pelo remorso. Se percorreu a vida firme e imune aos frívolos sentimentos, agora é que não precisa deles. Que ninguém mostre bondade às custas de tal ausência. Morreu do coração. Isso quer dizer muita coisa. Não é preciso que digam mais nada.

Gertrudes pede conselho

Gertrudes pede conselho, um dos contos de Clarice que mais me impressiona e dele me valho principalmente quando, diante de uma dúvida relacionada a algum desconforto íntimo, penso que um conselho poderia cair bem. Acontece que ao terminar de lê-lo, uma força ressurge dentro de mim de tal maneira que me levanto heroica e aliviada, disposta a não pedir mais nada. Se algum desejo de solicitar conselho passou pela cabeça, ele se dilui e evapora diante da dura descoberta de Gertrudes que é, também, a minha revelação.

Gertrudes é uma moça de 17 anos que decide enviar cartas a uma doutora para quem pede ajuda. Tendo em vista tratar-se de profissional encarregada de menores abandonados, cuja função é somada ao fato de escrever para uma revista onde dá conselhos, Gertrudes imagina que pode receber dela algum tipo de amparo. Sentia-se abandonada, no entanto, seu abandono não era como aquele dos menores cuidados pela doutora, os quais foram deixados pelos familiares jogados à própria sorte. Ao contrário deles, Gertrudes tinha pais e vivia confortavelmente com os recursos materiais a ela oferecidos, salvo se não tivesse que dividir o quarto com as irmãs.

Algo a inquietava. Gertrudes passava horas pensando e não se interessava pelas coisas do mundo. Não sabia explicar bem o que sentia. Cogitou suicídio, no entanto desistiu. Sentia-se cheia de liberdade, mas isso não a deixava mais contente (e eu imagino que o ser humano não quer só liberdade, o que ele quer é uma espécie de aprovação). Nesse contexto, demandou auxílio de alguém que supôs ter condições de socorrê-la.

Apelidada com o nome Tuda, o qual disse envergonhada, seus dias eram tomados por uma mistura de sentimentos que iam da agitação à calma, do tédio à contemplação, da tristeza à alegria, da doçura à aspereza, do choro à insuportável felicidade. Tuda tinha um sonho ambicioso: Imaginava um futuro em que, audaciosa e fria, conduziria uma multidão de homens e mulheres, cheios de fé a adorá-la. Depois, pelo meio da noite, deslizava para uma meia inconsciência, onde tudo era bom, a multidão já conduzida, uma ausência de aulas, um quarto só seu, muitos homens a amá-la.

Seu ideal era por demais ousado e a afastava intimamente das pessoas com quem convivia, as quais se preocupavam com milhares de coisas ínfimas e corriqueiras, mas não se importavam em saber o que ela sentia. Enquanto Tuda pensava se entraria para um convento, salvaria os pobres ou trabalharia como enfermeira, suas irmãs devoravam animalmente um bolo sem a menor preocupação com nada. A mediocridade a espreitava. Durante todo o tempo, o banal ocupava a vida daqueles que a cercavam.

Mas, impossível ser grande num ambiente como o seu. Interrompiam-na com as observações mais banais: “Já tomou banho, Tuda? Ou, senão, o olhar das pessoas de casa. Um olhar simples, distraído, completamente alheio ao nobre fogo que ardia dentro dela. Quem poderia persistir, pensava acabrunhada, junto de tanta vulgaridade?

A conselheira a ajudaria. Tuda pôs-se a imaginar esse encontro. Enfim, seria compreendida. Diria à doutora assim que entrasse no escritório: Vim aqui por excesso de audácia.

Mas não foi bem o que aconteceu. Ao deparar-se com a mulher teve vontade de fugir, pois nem mesmo em aparência chegava perto ao que Tuda imaginou. Não tinha olhos fortes, mas vagos. Não mostrava calma, mas mexia inquietamente as mãos.

A doutora falava, falava, desatenta, dispersa. Insinuou que as inquietações de Tuda decorriam da idade, que iam passar, que o mesmo acontecia a todos durante a puberdade. Ela não precisava se preocupar; era só uma fase. Tuda também falava, mas sobre coisas comuns, pois percebeu que a doutora era igual aos outros e que jamais a compreenderia. Nela, não havia nada em especial.

A mulher estava cansada, impaciente, distraída, mergulhada nas próprias questões, envolta nos pensamentos sobre si mesma, sem interesse pelos ínfimos problemas de menina.

Isto vai passar. Você não precisa trabalhar, nem fazer nada de extraordinário. Se quiser, se quiser arranje um namorado.

Como acreditar que essa frase, esse lugar-comum, saíra da boca de quem Tuda pensou que lhe dissesse: Você terá papel muito maior na vida?

Tuda percebeu que era indesejada. A doutora não conseguiu disfarçar a raiva diante da menina burguesa dando-se demasiada importância, a falar sobre coisas insignificantes enquanto outros padeciam de problemas mais sérios. As agruras porque passava pareciam maiores que as de Tuda.

Sua raiva aumentou ainda mais quando notou que, ao pensar dessa forma, contradizia a tese individualista a qual aderira, cuja explicação centrava no seguinte: por mais que saibamos dos problemas maiores enfrentados pelos outros, esse saber não soluciona os nossos. E lembrou-se de que alguém lhe falara sobre a inconsistência das mulheres, a dificuldade que elas têm de manter um pensamento quando ele, de algum modo, não coaduna com os anseios íntimos de identificação. Essas mesmas mulheres cujas teses de apoio mútuo só duram o tempo em que, no meio de tantas iguais, deparam-se com outra de pensamentos e sentimentos próprios que não se dobra e mostra ser mais firme, audaz e muito mais forte. Tuda seria Tudo, menos o que a doutora queria que ela fosse.

A menina sentiu que a doutora não gostava dela. Tuda tinha a desgraça de sempre perceber, presente naqueles que parecem possuir mais sentidos que a maioria. Inútil disfarçar, pois rapidamente apreendeu a atmosfera da doutora. Elas não se comunicavam, os problemas de Tuda não a interessavam. Que viera fazer ali? Era inexistente não apenas aos familiares, insensíveis para notá-la em dimensões maiores, mas também para a doutora que não estava à sua altura e com ela não estabeleceria relação de igual para igual.

Tuda intuiu que deveria andar sozinha e não precisaria mais ser compreendida por ninguém. Desejar a aprovação dos outros é inútil e humilhante. A doutora tentou esboçar algumas palavras de conforto, mas mostrava-se cansada, incomodada com a presença da menina que, a essa hora, percebera o quanto aquela mulher, cujos olhos haviam denunciado a alma, era vulgar.

O que Tuda buscava poderia jamais ser encontrado, mas aquela conselheira não era suficientemente autêntica para revelar essa verdade. A doutora sabia que se pode passar a vida inteira buscando qualquer coisa atrás da neblina, sabia também da perplexidade que traz o conhecimento de si própria e dos outros.

Tuda era perspicaz, viva e inteligente demais para se render a um conselho tão pobre: Você continua estudando, sem se preocupar muito consigo. Queria que a menina se distraísse e se ocupasse com coisas que a fariam desviar de seus sentimentos e inquietações, da busca que poderia ser inalcançável.

Tuda saiu altiva daquele escritório e foi numa sorveteria, onde encontrou meninas que a encararam com inimizade e desprezo. Mas aquelas garotas nada tinham a ver com ela. Que importava a fingida indiferença com que a olhavam? Sabia que as pessoas assim o fazem ainda mais quando percebem a grandeza que habita o outro. Essas meninas nada sabiam da aventura que Tuda acabara de viver e que a fez tocar a própria superioridade frente a alguém que se contentava em dar fúteis conselhos, dos quais Tuda não precisava. Mas apesar da animosidade dessas mulheres, esbarrou-se com um homem que lhe sorriu com dentes brancos.

Jamais seria a Tuda de antes, algo dentro de si havia crescido tanto a ponto de distanciá-la de todos ao seu redor. Não era a única insatisfeita no mundo, o que sentia era mais palpável do que imaginava, existia correspondência para os seus sentimentos, a diferença é que os outros tentavam disfarçar e esconder por medo e vergonha o que ela admitia.

Caminharia sozinha, sem jamais pedir conselho ou ajuda. Reconheceu-se como alguém capaz de atravessar planícies inteiras sem mãos que a conduzissem.

Continuaria a andar de olhos muito abertos, cada vez mais lúcida. Pensou: Antes era daquelas que existem, que se movem, casam, têm filhos simplesmente. E d’agora em diante um dos elementos constantes de sua vida seria Tuda, consciente, vigilante, sempre presente….

Prometeu-se levar uma vida diferente de Amélia, da mãe, do pai e de tantos outros. Passou a andar a passos firmes, orgulhosa com seus olhos dolorosos que viam demais. Só participaria da vida comum das pessoas com partes minúsculas de si mesma. Uma nova Tuda surgiu. A Tuda mulher. Uma mulher! O poder oculto desta palavra. Porque afinal, pensou ela… ela existia! Andaria sempre à margem, só, distante, isolada.

Não procuraria a mãe, nem a doutora, nem a ninguém, pois cada um vive mergulhado na própria vida sem sair inteiramente de si para ajudar quem quer que seja. Tuda diria o que quisesse, faria o que bem entendesse. Nem daqui a vinte anos voltaria a um escritório como aquele.

Caminhava apressada, sozinha, sem apoio, mas com firmeza, feroz de alegria, consciente de que não precisava mais de doutora nem de ninguém para lhe dizer quem é.

O que é a vida?

Em Água Viva, Clarice Lispector não apenas nega-o como livro, posto não ser assim que se escreve, mas adverte sobre a impossibilidade de alguém recontar o que nele está escrito pelo simples fato de não ser algo dotado de enredo: Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não é possível cantá-la sem tê-la decorado. E como decorar uma coisa que não tem história? A autora vai se deixando acontecer livremente na sucessão dos instantes que se fazem um após outro, sem intervalo. É o fluir da vida, o movimento, o dinamismo dos instantes que se seguem, sem pausa.

Viver é sempre é. É. A menor e mais importante palavra da língua portuguesa, porque nela, para a autora, tudo se encerra. A vida não tem passado nem futuro, pois estamos sempre na atualidade. Quando o futuro chegar será um agora que, imediatamente, deixa de ser o que foi. A vida é um instante incontável.

Clarice tinha por ambição o inalcançável: Quero apossar-me do é da coisa. A coisa que é apenas no exato momento em que ocorre, logo em seguida deixa de ser. Acende, apaga. É e não é. É e não é. A energia pulsa, conforme revelou um cientista quântico. Ela desejava atingir o cerne da vida, destituindo-se de todas as camadas sobrepostas, até que ao fim se deparasse com Deus ou Nada.

O instante é fugidio, desliza e escapa entre os dedos. Num sobressalto, ao tentar agarrá-lo, abrimos as mãos e elas permanecem vazias. O presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Quando digo sou, já não sou. O próximo instante dá lugar a outro sou, o qual encerra e acaba em si mesmo, rápido e fugaz para que surja outro, outro, outro…. até o expirar.

Nesse mesmo instante, o que acaba de acontecer deixou de ser. O passado inexiste, por isso a tentativa de criá-lo e recriá-lo no presente, quando o rememoramos ou sobre ele escrevemos. O instante-já passa se eu não o fixar em palavras. Quando o passado era presente, ele nos escapava, de modo que o vivemos sem a paixão da memória, onde tudo toma proporções maiores, como quando Clarice diz que quer alguma coisa tranquila e sem modas, tal qual a lembrança de um monumento alto que parece mais alto porque é lembrança.

A vida é Água Viva com seu fluxo. É fruir o que está sendo. A vida é semente viva. Não existe tempo para o mundo. O tempo não começa, não termina, e só importa a quem se sabe perecível. Só existe para o homem consciente do nascimento e da morte. Enquanto a morte não nos ultima, somos uma incógnita que sabe. Cada instante, se vivido, prolonga a existência, essa coisa que se faz continuamente até que a morte nos conclua.

Por que Clarice lispector

Tudo o que li até o momento sobre vida e obra de Clarice Lispector partiu da tentativa de desvendar e revelar a escritora pelo conjunto de sua obra e do que se sabe sobre ela a partir de pessoas que a conheceram. Muitas vezes, seus livros são lidos e relidos com o intuito de traduzi-la. Esse não é o meu caso. Apesar de Clarice ser uma mulher interessantíssima e de beleza estonteante; apesar de transparente, lúcida, enigmática, inteligente e tantos outros adjetivos; apesar de admirá-la imensamente, nunca a li com o intuito de explicá-la ou compreendê-la.

Ela deixou uma rica e luminosa contribuição ao mundo, e conseguiu, por si mesma, mostrar a que veio. A mim, resta apenas a tarefa deliciosa, prazerosa e encantadora de ler os seus livros, não para trazê-la à tona, mas para compreender e deixar emergir os ecos que suas palavras ressoam em mim.

Clarice nos mostra que a grandeza de uma pessoa não se assenta na ausência de fragilidades, angústias e inseguranças, mas na capacidade de tocá-las e as transformar em pérolas ou em obras de arte.

O artista convive com emoções e sentimentos contrários durante toda a vida. Talvez, se pudesse escolher, optasse apenas pelo sentir mais belo. Mas ser humano não é tão simples assim. Talvez, o maior sofrimento de quem faz arte, parta da consciência de que, lado a lado com o desejo de transcendência, convivem nele violências, incompreensões, dúvidas, medos, tristezas e tantos outros sentimentos que nos levam do sublime ao grotesco em questão de segundos. O artista deseja ser Deus, mas deve contentar-se em ser o que é: homem.

É vão o esforço de entender e desmistificar Clarice. Ela tentou durante toda a existência chegar ao âmago do ser. Pegar na “coisa” de que somos feitos. Mas é preciso conviver com o mistério do qual somos feitos. Nunca saberemos. E se soubéssemos, não faríamos arte. Se Clarice tivesse descoberto a “coisa” não teria escrito sequer um livro. E se eu soubesse do que se trata também não a leria. Nesse caso, comemoro não saber só para ler e reler sua obra.

O primeiro contato com Clarice ocorreu na cidade de Goiânia, em 2004, aos 16 anos de idade, no cursinho pré-vestibular Diretriz, durante uma aula de Literatura, cujo professor se chamava Júnior.

Esse professor costumava ler em voz alta algumas obras literárias e explicar as diversas chaves de leitura e interpretações a respeito do que lia. Uma vez, leu um conto de Clarice Lispector, cuja protagonista era uma empregada de nome Eremita. À medida que explicava, conduzia-me, com fascínio e espanto, pelo labirinto das palavras e dos significados, de modo que, ao final da leitura, eu não saberia repetir nada, mas senti absolutamente tudo.

A afinidade com a literatura de Clarice foi imediata, entrou pela pele e, desde então, nunca mais nos abandonamos.

Creio que fui parar em Goiânia só para conhecê-la, pois morei na cidade apenas por 6 meses, e a única coisa marcante de que me lembro desse período foi o Encontro Amoroso com Clarice.

Tudo o que Clarice escreveu, ao ler, é como se eu tivesse escrito. Por ela, nutro profundo amor, devota admiração e confessada reverência. E se me perguntarem por que Clarice não hesitarei em dizer: Porque Clarice sou eu. Porque eu sou Clarice.