Comece pelo mais difícil, de Brian Tracy

Diariamente, preciso realizar várias tarefas as quais incluem trabalhar oito horas diárias, deixar a casa organizada, preparar o jantar, dar atenção ao marido e à família, malhar, estudar, ler e escrever. Confesso que me sinto muito mal quando percebo que não estou executando tudo como gostaria. Pesa demais na minha consciência. Não tenho quase ninguém para me cobrar nada, entretanto minha própria cobrança vale por mil.

Não sei bem quando concebi a ideia de que tudo tem que estar organizado. Aliás, confesso: começou a ser desenvolvida aos vinte nove anos. Acho até que faz parte dessa tal de crise dos trinta sobre a qual já ouvi falar. Mas o fato é que essas tarefas elencadas são prioridades para mim (repetirei isso no final desse texto).

Certo dia, acordei com aquele sentimento de que algo precisava ser feito ou mudado. Assim, no início de 2016, comecei a organizar alguns setores da minha vida, como alimentação, exercícios físicos e estudos. E é impressionante como, à medida que vamos ajeitando algumas coisas, logo aparece a necessidade quase automática de arrumar outras. É tipo efeito cascata. Consequentemente, quis organizar as finanças, a casa, o trabalho, enfim, a vida.

E onde entra a história do livro Comece pelo mais difícil, de Brian Tracy?

Acontece que eu estava com essa sensação já descrita de que precisava organizar todos os setores de minha vida e resolvi me dirigir à livraria para pensar melhor. Chegando lá aproveitei para comprar um livro que tanto queria (Vira-lata de Raça, de Ney Matogrosso) e aproveitei para dar um passeio por entre as prateleiras e folhear os livros que me chamavam a atenção, quer pela capa, quer pelo título. Quando comecei a verificar o livro Comece pelo mais difícil – 21 ótimas maneiras de superar a preguiça e se tornar altamente eficiente e produtivo, pensei logo: é disso mesmo que preciso. Li alguns trechos, gostei e o levei para casa.

Já no prefácio há um aviso que todos nós temos que manter guardadinho em nossa cabeça: Você NUNCA terá tempo para fazer tudo o que precisa. Entendeu? Sendo assim, será necessário priorizar. Sempre haverá mais tarefas a cumprir do que você é capaz de realizar no tempo disponível. Você só conseguirá assumir o controle de seu tempo e de sua vida se mudar a maneira de pensar, trabalhar e lidar com o fluxo infindável de responsabilidades que surge diariamente. Só conseguirá assumir o controle de suas atividades se parar de fazer determinadas tarefas e começar a investir mais tempo naquelas poucas que de fato vão fazer a diferença em sua vida.

E antes de continuar o texto, preciso alertá-los, meus leitores, no sentido de que minha intenção é apenas ajudá-los a encontrar soluções para os desafios que vocês enfrentam, principalmente quanto à procrastinação, entretanto enfatizo algo bem óbvio: nem eu, nem ninguém poderá agir em seus lugares.

Feita essa ressalva, continuemos… Creio que viver sem objetivos na vida não tem muita graça. Logo, primeiro de tudo – liste seus objetivos. Aquilo que vocês querem conquistar: pode ser um emprego, praticar mais exercícios físicos, fazer uma dieta, poupar, trabalhar mais ou trabalhar menos, ler mais, passar mais tempo com a família, enfim, aquilo que é importante para vocês. Coloquem todos os seus objetivos no papel. Materialize-os. E, após listá-los, escreva quais metas você terá que cumprir para alcançar o objetivo. Vou dar um exemplo:

OBJETIVO: EMAGRECER
Meta 1: seguir uma dieta restritiva;
Meta 2: praticar exercícios físicos;
Meta 3: dormir bem.

Veja que as metas 1, 2 e 3 são os ações a serem desenvolvidas para alcançar seu objetivo de EMAGRECER.

Para atingir seu objetivo é muito importante o uso de uma palavrinha muito bacana e que não precisa ser economizada. Ela se chama NÃO. Não aos doces, não à vontade de ficar mais tempo na cama ao invés de ir malhar, não aos churrascos de finais de semana, não à bebida alcoólica, entre tantas outras coisas que podem atrapalhar o fim almejado.

E não pense que você ficará motivado só em ler o que escrevo. A motivação só vem quando agimos. Não espere ter motivação pensando no que tem que fazer. Apenas, levante-se e faça. A prática é a chave para alcançar o domínio de qualquer habilidade. Sua mente é como um músculo: quanto mais você a utiliza, mais forte ela se torna. Por meio da prática você pode aprender qualquer comportamento e desenvolver quaisquer hábitos desejáveis ou necessários.

Ação se transforma em hábito. Faça e repita o que faz, pois a repetição e a prática são fundamentais para superar a procrastinação (a enrola) e cumprir rapidamente as tarefas mais importantes.

A transformação passa primeiro pela mente (pelo interior). Faça imediatamente o que tem que ser feito, pois se não o fizer o enrolado será você.

Vamos agora aos capítulos do livro:
Capítulo 1 – Defina seu propósito.
Você precisa decidir o que deseja conquistar em cada área de sua vida.
Passo 1 – Determine exatamente o que você quer;
Passo 2 – Escreva o que você deseja alcançar;
Passo 3 – Estabeleça um prazo para seu objetivo; se necessário, divida-o em etapas menores;
Passo 4 – Prepare uma lista de tudo o que você acha que precisará fazer para alcançar seu objetivo;
Passo 5 – Transforme a lista num plano organizado (ponha as atividades em ordem de prioridade);
Passo 6 – Coloque seu plano em ação imediatamente (AGORA, ENTENDEU?) Seja qual for a tarefa, não deixe de realizá-la um dia sequer.
Passo 7 – Todos os dias, faça algo que o aproxime de seu objetivo principal (Siga em frente, sempre!)
Pense em seus objetivos e revise-os diariamente. O autor do livro sugere que listemos 10.

Trace um plano e a cada dia faça alguma coisa que o aproxime dessa meta.

Capítulo 2 – Planeje cada dia.

Estabelecer metas, elaborar planos e dar andamento a eles determina o curso de sua vida.
Cada minuto gasto com planejamento economiza pelo menos 10 minutos de execução.

Quando nos empenhamos para cumprir nossas metas e vemos o progresso, ficamos mais motivados a superar a procrastinação (a enrola/o deixar para amanhã que nunca chega).

Capítulo 3 – Aplique o princípio 80/20

Apenas 20 % de suas tarefas representam 80% do valor de tudo o que você faz. Sabe o que isso significa?

Em uma lista de 10 itens, mesmo que todas as atividades demorem o mesmo tempo para serem realizadas, duas delas valerão muito mais do que as outras oito juntas, e pode acontecer até de um só item da lista valer mais do que os outros nove reunidos.

E lembrem-se: Tudo o que você faz repetidas vezes torna-se um hábito.

Capítulo 4 – Reflita sobre as consequências

Preveja as consequências de suas ações. Analise suas opções e seus comportamentos atuais para se certificar de que estão agindo de acordo com o futuro que deseja.
Como esperar resultados diferentes se estou agindo sempre igual?

Regras básicas:
1. Pensar nos projetos em termos de longo prazo melhora a tomada de decisão no curto prazo.
2. A intenção futura influencia e muitas vezes determina as ações do presente.
3. Nunca haverá tempo suficiente para fazer tudo o que precisa.

Segundo a lei da eficiência forçada: Nunca há tempo para fazer tudo, mas sempre há tempo para fazer o mais importante. Ou seja, é tudo questão de prioridade, conforme disse Goethe: As coisas mais fundamentais nunca devem ficar à mercê das que não fazem diferença. Quantas horas você passa todos os dias navegando nas redes sociais enquanto precisa apenas de quarenta minutinhos para se exercitar diariamente?

Voltemos ao exemplo dado: OBJETIVO: emagrecer. Repito, ficar horas e horas acessando as redes sociais não fará com que você atinja esse objetivo. Então, essa atividade não fará qualquer diferença tendo em vista o fim que almeja.

Basta se engajar, e sua mente dará a partida. Comece, e o trabalho será concluído – Goethe.

Capítulo 5 – Pratique a procrastinação criativa
A procrastinação criativa é aquela em que você deixa para depois tudo que não é importante.

Regra: Livre-se das atividades sem importância para controlar seu tempo e sua vida.

Eu digo não a tudo que não seja absolutamente essencial no momento.

A palavra não é uma das mais poderosas no âmbito do gerenciamento do tempo. Diga-a com clareza, para não haver mal-entendidos, e sempre que necessário. Incorpore-a ao seu vocabulário. Seja delicado, mas firme, para não acabar concordando em fazer algo contra sua vontade.

Quer um doce? NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

Tem mais uma dica maravilhosa: Para fazer algo novo, você precisa terminar ou parar de fazer algo velho. Para uma atividade entrar em sua agenda, é preciso que outra saia.

Capítulo 6 – Use o método ABCDE.
Você cria uma lista de tudo o que precisa fazer ao longo do dia. Em seguida, antes de começar a primeira tarefa, escreve a letra A, B, C, D ou E ao lado de cada lista. Sugestão: faça a lista no dia anterior. Caso se lembre de mais alguma coisa, acrescente à lista.

Comece pela tarefa mais difícil. Engula seu pior sapo nas primeiras horas da manhã. Foi pensando nisso que passei a malhar bem cedinho.

Não se distraia com problemas sem importância enquanto você ainda precisar cumprir uma tarefa fundamental.

Capítulo 7 – Concentre-se nas áreas que geram resultados fundamentais.
Quando você concentra todos os seus recursos físicos e mentais, sua capacidade de resolver problemas se multiplica.

Entretanto, sua concentração deve estar direcionada para áreas importantes. Não gaste tempo com o desnecessário.

Capítulo 8 – Aplique a lei das três tarefas.

Consiste em elencar as três tarefas essenciais sob sua responsabilidade.

Capítulo 9 – Prepare-se minuciosamente.
Qualquer que seja seu nível de capacidade atual, você tem um potencial muito maior do que jamais poderá desenvolver ao longo da vida.

1) Crie um espaço de trabalho confortável.
Quanto mais organizado e limpo você deixar o ambiente, mais fácil será iniciar suas atividades e passar longos períodos concentrado na tarefa com afinco.

Descobri a importância da organização e quero aplicá-la em todos os setores possíveis. Comece organizando sua casa, seu ambiente de trabalho e verá a diferença que isso fará em sua vida.

2) Avance em direção a seus sonhos.

Assim que finalizar a preparação, reúna coragem e dê o primeiro passo.

3) Dê o primeiro passo.

Aja imediatamente! Agora! Já!

Capítulo 10 – Um passo de cada vez.

Para subir uma escada de 50 degraus é necessário passar pelo primeiro. Para correr 10 KM é preciso dar o primeiro passo.
Se você tiver disciplina e der apenas um passo de cada vez, será capaz de realizar as maiores tarefas. O importante é fazer um pouco a cada dia. Seja constante e disciplinado. Gradualmente alcançará seus objetivos.

Para conquistar a independência financeira, por exemplo, é preciso economizar um pouco todo mês. Para ter saúde e entrar em forma, é preciso comer um pouco menos e praticar um pouco mais de exercícios.

Dê o primeiro passo imediatamente! Siga em frente com disciplina e determinação.

Capítulo 11 – Aprimore suas principais habilidades.
Nunca pare de aprender: “O aprendizado contínuo é o requisito básico para o sucesso em qualquer área”. Os únicos limites para sua evolução e sua velocidade de aprendizado são aqueles que você mesmo cria em sua imaginação”.

Capítulo 12 – Identifique suas maiores limitações.
Aprenda a se autoavaliar: O que existe dentro de você que está impedindo seu desenvolvimento? Preguiça, indisposição, desmotivação… Reflita!

Capítulo 13 – Ponha a pressão em si mesmo.

Pare de dar desculpas e de culpar os outros pelo que você deixa de fazer. Se você estiver esperando que alguém te motive, espere sentado. Assuma o controle de sua vida! Cresça!

Capítulo 14 – Motive-se a agir.

Você tem que ser o seu principal agente motivador. Seus motivos é que devem fazer você agir. Pode parecer frase de autoajuda. Que seja! Mas, não deixa de ser verdadeira. Escolha sua postura diante de sua própria vida. Faça o que deve ser feito, querendo ou não. Isso é disciplina. Antes que qualquer atividade seja concretizada, ela passa, em primeiro lugar, pelo pensamento. Portanto, controle seus pensamentos. Você se torna aquilo que pensa. Durma pensando: “amanhã farei tais coisas”. E as faça!

Capítulo 15 – A tecnologia não controla sua vida.

Ou ela controla a sua? Já parou para pensar quantas horas por dia você fica acessando a internet, whatsapp, facebook, instagram, etc e tal? Pois pare e pense! Falando muito sério agora: PARE COM ISSO! VOCÊ ESTÁ DESPERDIÇANDO SEU PRECIOSO TEMPO. Você pode vir a ter qualquer coisa que deseja, mas se desejar tempo de vida não vai conseguir comprar em nenhuma freguesia. Não perca tempo com futilidades, com a vida alheia, com as redes sociais, com programas de TV que idiotizam você. Diga NÃO a tudo isso.

Para você permanecer calmo, lúcido e plenamente eficaz procure se afastar da tecnologia com certa regularidade.

Evite a dependência.
Recupere seu tempo.
Recuse-se a ser um escravo da tecnologia.
Pratique a DESINTOXICAÇÃO DIGITAL.

Capítulo 16 – Você comanda a tecnologia.
Ou é ela quem comanda você?
Assuma o controle de sua comunicação.
Assuma o controle de seu tempo (só aceite tarefas que estão de acordo com as suas prioridades).
Assuma o controle de suas emoções por meio do uso racional da tecnologia.

Capítulo 17 – Direcione sua atenção.

Tudo na vida é o estudo da atenção; sua vida segue para onde sua atenção se volta.

A atenção focada é a chave para o alto desempenho.

Capítulo 18 – Divida a tarefa em etapas.

Uma tarefa lhe parece enorme? Divida-a em tarefas menores, entretanto assuma o compromisso de concluí-las.
Ao concluir uma parte menor da tarefa, você se sente estimulado a fazer o mesmo com a outra parte, depois mais outra, e assim por diante.

Uma vez que você começa a agir, tem a sensação de que está progredindo e de fato realizando a tarefa.

Concentre-se no que está fazendo, na ação. O resultado virá.

Capítulo 19 – Estabeleça horários específicos para realizar tarefas importantes.

Nada dá mais poder à sua vida do que concentrar todas as suas energias em um conjunto limitado de metas.

Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Estabeleça suas prioridades (no papel) e se concentre nelas.

Marque compromissos consigo mesmo e obrigue-se a cumpri-los.

Um dos melhores hábitos para aumento da produtividade é se levantar cedo e trabalhar em casa pela manhã por duas ou três horas.

Uma das principais maneiras de obter um excelente desempenho e ser altamente produtivo é utilizar cada minuto da maneira mais eficiente. (NÃO SEJA ASSASSINO DO SEU TEMPO).

Aproveite os intervalos para trabalhar em tarefas importantes, um pouco de cada vez.

Mantenha-se concentrado naquilo que é de sua responsabilidade.

Capítulo 20 – Desenvolva um senso de urgência.

Não espere; o momento nunca será perfeito. Comece por onde você está agora e utilize as ferramentas ao seu dispor. Você encontrará outras melhores à medida que avançar.

Foque na ação. Pense, planeje e estabeleça prioridades.

Em vez de falar sobre o que vai fazer, você simplesmente age, concentrando-se nos passos que começará a dar de imediato e no que pode fazer agora mesmo para alcançar os resultados desejados

Repita para si mesmo: Faça isso agora! Depois, levante e faça. Crie o hábito de agir rápido.

Capítulo 21 – Uma tarefa por vez.

Esforce-se e concentre-se até a finalização do trabalho. Você conhece alguém que tenta fazer mil coisas ao mesmo tempo e no final das contas não faz nenhuma? Uma tarefa por vez significa que se você tem que lavar o banheiro, a louça e passar a roupa, você não fará todas ao mesmo tempo. Termine de lavar o banheiro. Depois, lave a louça. Depois, passe a roupa. Desenvolva a autodisciplina: a capacidade de se obrigar a fazer o que é preciso no momento necessário, esteja você disposto ou não – Elbert Hubbard.

O sucesso em qualquer área exige muita disciplina, autodomínio e autocontrole. Não controle os outros, o que o outro faz. Reflita sobre o que você anda fazendo e transforme-se. Só sobre si mesmo é que você é capaz de exercer qualquer tipo de poder. Seja disciplinado, perseverante, determinado, persistente. Tenha força de vontade e coragem. O que você deixou de fazer até aqui não importa mais. Você não consegue mudar o passado. Então, não perca seu tempo se concentrando nele ou lamentando. A vida é aqui e agora. Levante e ande! Faça! Ninguém vai fazer por você o que tem que ser feito.

Crie o hábito de resolver a sua maior pendência logo pela manhã.

A minha tarefa mais difícil é malhar. Depois de ler esse livro resolvi que é a primeira coisa que devo fazer.

É isso leitores. Aprendi tanto com esse livro que quero muito que vocês também aprendam. Adquiri os conhecimentos e comecei a aplicá-los. Gosto de chamar a responsabilidade das coisas para mim. Não gosto de culpar terceiros. Não gosto de inventar desculpas, pois eu não me permito enganar. E que adianta enganarmos o outro se no fundo sabemos que não estamos fazendo o que deveríamos? A nossa consciência não escapa de nós mesmos.

“Ah! Eu não como e engordo.”
“Ah! Eu não estudo, porque não tenho tempo.”
“Ah! Eu não faço dieta porque meus amigos gostam de comer guloseimas e eu não resisto.”

Essas desculpas me dão nos nervos. Melhor dizer que essas coisas não são suas prioridades. As minhas prioridades são aquelas que elenquei no início: dar atenção aos que amo, malhar, fazer dieta, ler, escrever, estudar, fazer a janta (para não comer besteira e manter a dieta) e manter a casa em ordem (ambiente limpo e organizado ajuda a manter a cabeça organizada).

Digo NÃO facilmente. Não vou onde não me sinto bem. Não faço coisas que não sinto vontade. Não vou a lugares que não gosto. Não me reúno para falar besteiras. Não sento para fazer fofocas. Não faço questão de agradar. E não tenho tempo a perder. Assim, tenho conseguido fazer o que é importante para mim. Espero que vocês reflitam, parem de perder tempo, digam ao celular quem manda nele e consigam alcançar os seus objetivos.

É caminhando que se faz o caminhar.

É agindo que se consegue conquistar.

Não desperdicem o tempo de vocês (de novo). Não desperdicem o tempo de vocês (repito). Passados trinta anos, vocês desejarão ter começado hoje. Sendo assim, aja e pare de enrolar.

Ah! E, se puderem e quiserem, leiam o livro Comece pelo mais difícil. Marque os trechos importantes. Volte neles sempre que achar necessário. Os livros estão aí para nos dar os melhores conselhos. Cabe a nós refletirmos se vale ou não a pena praticá-los.

A arte de escrever

Schopenhauer é um filósofo alemão do século XIX que dedicou toda a sua vida ao estudo e ao desenvolvimento de seu próprio pensamento. Seu pai o financiou numa viagem pela Europa para que ele adquirisse conhecimentos sobre comércio a fim de dar seguimento aos negócios da família, no entanto o que chamou a atenção do filho durante essas viagens nada tinha a ver com as práticas mercantilistas. Schopenhauer se interessou em observar as mais variadas formas como se apresentava a miséria humana.

Assim, com o apoio de seu pai, passou a mergulhar na Filosofia, buscando entender o mundo e o homem. Aproveitou-se da bondade dele, o qual ofereceu-lhe condição econômica confortável, e se permitiu viver o ócio criativo de que tanto falara, a fim de estudar e produzir importantes obras que legou à humanidade.

O conteúdo de A arte de escrever foi retirado de seu livro intitulado Parerga e Paraliponema, que quer dizer acessórios e remanescentes, e trata-se de uma crítica ao rebuscamento linguístico de que se valia para escrever os eruditos de seu tempo. Para o filósofo, a erudição nada mais é que uma forma de dirigir-se ao público por meio de uma escrita difícil, utilizada tão somente para disfarçar que são maus escritores. Em tudo o que eles escrevem, percebe-se que pretendem parecer que têm algo a dizer, quando não têm nada.

Para Schopenhauer, esse requinte estilístico, cheio de falta de clareza, prolixidade, neologismo e  ininteligibilidade seriam indícios de uma tentativa de dar aparência erudita e profunda a textos sem conteúdo.

Lembro-me que quando estudava o ensino fundamental e também o ensino médio, existia no cronograma apenas uma aula de Filosofia por semana e o que todos nós alunos comentávamos é que não entendíamos nada do que era falado nessas aulas. Dizíamos que os filósofos “viajavam na maionese” e que o nosso professor de Filosofia viajava mais ainda. Odiávamos ter que ficar escutando aquelas coisas incompreensíveis e as achávamos totalmente inúteis, pois realmente não entendíamos nada. Graças a Deus, superei essa rejeição e atualmente compreendo de que trata a Filosofia e tenho elevada estima por esse campo do saber.

Schopenhauer defende uma forma simples e concisa de escrever: (…) deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela.

Ele sustenta que os escritores devem ter consideração para com o leitor e que o autor deve dialogar levando-se em conta o respeito às limitações e ao tempo de quem o lê. O escritor precisa recompensar o leitor que se dedica à sua obra e essa recompensa pode ser em forma de algo cuja leitura seja prazerosa e não complicada ou ininteligível. O leitor espera do escritor um mínimo de lealdade. O escritor precisa tratar os assuntos de modo claro e direto sem, entretanto, perder o seu estilo, a sua originalidade. Um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais difícil.

Schopenhauer critica a quantidade e a variedade de estabelecimentos de ensino e de aprendizado, bem como o grande número de professores e alunos. Para ele, isso poderia dar a falsa impressão de que a espécie humana dá importância à instrução e à verdade. Mas é tudo aparência, pois os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, enquanto os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para tagarelar e ganhar ares de importantes. Ele diz: A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado.

Esse pensamento cai como uma luva para pensarmos nessa Era da Informação, onde as pessoas leem muito pouco, debruçam-se superficialmente sobre tudo e nada sabem com profundidade. E, pior, não admitem a ignorância. Nunca leram sequer um livro e discordam prontamente de Shakespeare, de Schopenhauer, de Goethe e de muitos outros notáveis que passaram parte ou toda a vida debruçados na busca do saber.

Há muitos interessados em novas e breves informações que lhes dão raso entendimento. Hoje, todos emitem juízo sobre tudo sem estar devidamente instruído a respeito de nada e ignoram todo o conhecimento tradicional acumulado ao longo dos séculos. As frases da vez são “eu discordo”, “é tudo convenção social”, “eu acho isso”, “minha opinião é essa”. Com base em que discordam não sei, nem eles sabem. Provavelmente, em suas vastas experiências acumuladas ao longo de alguns minutos de pesquisa. Calemos diante da burrice. Ela existe, mas evidenciá-la é um crime imperdoável.

Schopenhauer defende que alguém, o qual se entrega ao conhecimento, deve ter o saber como meta a fim de se manter a imparcialidade. Para ele, uma obra só alcança a excelência se produzida como um fim em si mesma. Um autor pode até ser premiado por uma obra, ganhar muito dinheiro e ser reconhecido em virtude dela, mas essas coisas são consequências e não devem ser os objetivos de quem resolve criá-la.

Há os que exercem uma ciência ou arte por amor, alegria ou mero deleite e há os que as exercem por dinheiro, como uma boa vaca que lhes fornece leite. Há os que vivem de arte e os que vivem para a arte e entre eles uma distância abismal se impõe. Entretanto, o público tende a dar credibilidade àqueles que “vivem de”, que nada mais são do que os que se garantem por meio da apresentação de diplomas e títulos, os quais nem sempre atesta a capacidade de quem os têm. Muito mais que demonstrar real conhecimento, é necessário provar que se é um especialista para ser condecorado, respeitado e aceito.

Se dissermos para alguém que passamos um período de vinte anos estudando a vida e a obra de Schopenhauer só vão nos eleger para falar a respeito dele se apresentarmos nossa tese de doutorado. Ter vivido para estudar vida e obra do filósofo apenas por amor a esse saber provavelmente não nos renderá muitos créditos, porque só um tolo se dedicaria tanto tempo a algo em troco de nada. Afinal, é mais importante parecer do que ser.


Todos estão pensando em si próprios, procurando reconhecimento e poder para si, sem nenhuma consideração pelo bem comum. Esse egoísmo nos arruina. Aquele que se destaca como pensante e capaz representa um perigo a todos. É assim nas artes, na política e nas empresas. Quem nunca presenciou a situação em que alguém percebe outro mais competente e inteligente e tem medo de perder o lugar que ocupa ao sentir-se ameaçado? Pois bem, a insegurança não torna uma pessoa mais inteligente ou capaz. O que importa é continuar auferindo os lucros por aquilo que não consegue realizar adequadamente, mas confere-lhe aparência de ser bom. Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.


Schopenhauer defende o desenvolvimento do pensamento próprio. Segundo ele, o homem deve pensar com sua própria cabeça, formular pensamentos, refletir sobre o que acontece e não apenas recriar o pensamento do outro por meio de palavras próprias que, muitas vezes, empobrece o texto original. Só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.

Critica os leitores vorazes, sob o argumento de que ler muitos livros faz com que pensemos com a cabeça dos outros. No entanto, não descarta a leitura de bons livros cujos autores realmente entendem do assunto e têm algo a dizer. Para ele, só devemos escrever se, de fato, tivermos algo para dizer, de preferência de modo simples, conciso, direto, distante de toda prolixidade e de exageros estilísticos. Se podemos utilizar palavras ao alcance de todos, por que complicar? Os verdadeiros escritores não estão preocupados em demonstrar conhecimentos excepcionais, apenas em deixar claro o pensamento que eles precisam expor. É na simplicidade que reside a verdade.

Entretanto, nada impede que quem desenvolva o seu pensamento próprio encontre em outros livros opiniões de autores que apenas confirmam e fortalecem seu pensamento. Quem nunca leu um livro e concluiu: “penso exatamente assim”? Nesse caso, os livros são de grande valia, mas não se deve perder de vista que pensar por si mesmo é simplesmente magnífico. Contudo, Schopenhauer faz a seguinte ressalva: (…) mesmo uma grande inteligência não é capaz de pensar por si mesmo a todo momento.

Quem deseja escrever deve fazer isso de modo simples, claro, conciso, sem embaraces, pois quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui valor a seus pensamentos.

Schopenhauer defere grande importância e respeito ao tempo do leitor e o aconselha a largar um livro assim que perceber o quanto ele é ruim ou de difícil entendimento, pois não se deve perder tempo com aquilo que não nos acrescenta coisa alguma. O escritor deve respeitar o leitor e procurar escrever com elegância e clareza. Um estilo descuidado, negligente e ruim demonstra um menosprezo pelo leitor.

O escritor que realmente tem algo a dizer procurará expressar suas ideias e pensamentos da forma mais evidente possível, evitando deixar o leitor no escuro. O filósofo, ainda, aconselha a leitura dos clássicos: Leiam com afinco os antigos , os verdadeiros e autênticos antigos:  o que os modernos dizem sobre eles não significam muito.

Concordo com ele e também vos aconselho a dar aos livros clássicos o valor que eles merecem (expliquei o que é um clássico no texto sobre Hamlet). Atualmente, surgem novidades a todo instante. As livrarias estão abarrotadas de livros, mas é necessário que sejamos seletivos ao escolhermos aqueles que levaremos para casa. Nem tudo o que é novo é bom. E nem tudo o que é antigo é ruim. Às vezes, o que precisamos saber já foi escrito há vários séculos por escritores que dedicaram toda a sua vida a um determinado estudo ou conhecimento. Discordo daqueles que nos aconselham a ler qualquer coisa que nos aparece. Precisamos ser exigentes e não devemos gastar nosso precioso tempo com quem não tem nada de proveitoso a nos dizer.

É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, que se espalham a cada ano em grande quantidade, como moscas. E isso apenas porque foram publicados hoje e sua tinta ainda está fresca. Na verdade, esses produtos deveriam ser abandonados e desprezados já no dia de seu nascimento, como serão após poucos anos, e então para sempre, reduzindo-se a um mero assunto para que se ria dos tempos passados e de suas balelas.

O que é ruim deve ser criticado e descartado. É uma pena que hoje não se possa criticar absolutamente nada e isso dificulta muito para aquele que escreve saber que aquilo que escreve é péssimo e deve ser reformulado ou refeito. A abolição da crítica pode ser negativa quando permite chegar até nós produções sem nenhum valor.

Sendo assim, leitores, tomem cuidado com as novidades e as modinhas que aparecem por aí. Sejam cautelosos e respeitem a si mesmos. Não se deixem enganar por aqueles que só escrevem porque precisam de dinheiro, de uma vaca que lhes produza leite. Escolham os melhores livros, aqueles que lhes ajudarão a enfrentar de forma menos danosa essa existência tantas vezes sofrida.

A companhia de um livro pode ser a coisa mais prazerosa, mas livros chatos são como pessoas chatas. Livrem-se deles!

Não há nenhum conforto maior para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: logo que uma pessoa tem em mãos qualquer um deles, mesmo que seja por meia hora, sente-se imediatamente renovado, aliviado, purificado, elevado e fortalecido; é como se tivesse bebido de uma fonte de água fresca em meio aos rochedos.

Assim também me sinto quando tenho a companhia de um bom livro. Os livros me fortalecem e me renovam. Esses são sentimentos que pouquíssimas pessoas me despertam. Digo que os melhores conselhos e ensinamentos foram aqueles que meus livros me passaram. Tenho amor, respeito e gratidão por eles.

A cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais nos homens.

Infelizmente, não vivemos num país de muitos leitores. A leitura não figura entre as atividades preferidas dos brasileiros. A maioria das pessoas estão interessadas em falar de si mesmas, ainda que sobre assuntos enfadonhos e desinteressantes, ou estão interessadas em falar dos outros, o que é pior ainda. Por isso, quase sempre prefiro me deslocar a lugares recônditos na companhia de um bom livro.

Perguntaram-me se isso não me torna uma pessoa intolerante. Eu repassei a pergunta: Você me acha intolerante? Graças a Deus, a pessoa teve grande misericórdia e disse que não. Sou mesmo intolerante? Sinto-me incapaz de responder, pois somos péssimos julgadores de nós mesmos. Na verdade, penso que não tenho externado muito minhas intolerâncias. Engulo-as a seco.

A maioria dos grandes escritores sofreram na miséria e na pobreza e pouquíssimos foram reconhecidos na época em que escreveram suas grandes obras. Geralmente, a fama, a honra e a riqueza são reservados aos indignos. Na música, isso também é evidente. Enquanto os bons cantores não conseguem espaço para se apresentarem, os desafinados invadiram todos os palcos e, pior, os nossos ouvidos. Também se avulta a existência dos péssimos atores. Os antigos estão sendo demitidos, porque só há espaço para o novo. Não há mais lugar para os antigos em canto nenhum. Os atores de quarenta anos ou mais que restaram interpretam personagens de vinte anos, como se fossem obrigados a serem eternamente jovens. Simplesmente, ridículo. O culto à juventude, às modinhas e à novidade só nos torna cada vez mais infantis e imbecilizados.

Precisamos retornar às tradições e aos clássicos e a dar valor ao que realmente é capaz de provocar algo de interessante e proveitoso em nós. Devemos recusar tudo aquilo que é de péssimo gosto e que nos empobrece como espíritos que somos. Do mesmo modo que o nosso corpo precisa de uma dieta restrita, com alimentos capazes de nutrir nossas células, nosso espírito necessita se esvaziar de todo excesso para se nutrir do que realmente é capaz de nos transformar no melhor que podemos ser.

Uma vez que nada mais há para tratar nesse momento, peço desculpas se, apesar do esforço, não tornei essa exposição tão clara, direta e concisa à semelhança do que Schopenhauer aconselha ou sugere.

Das vantagens de ter um cão

Preciso contar para vocês sobre um episódio que aconteceu nesse domingo. Acordei, li durante as primeiras horas da manhã, fui à academia de ginástica, missa das onze, almocei e, como de costume, parei num lugar para ler um livro e tomar um café.

O livro a que me refiro é A negação da morte, de Ernest Becker, e o trecho em que debruçava-me com toda atenção e interesse é aquele em que o escritor discorre sobre uma das diferenças existentes entre os animais inferiores, não dotados de consciência, e os homens, animais conscientes.

O conhecimento da morte é reflexivo e conceitual, e disto os animais são poupados. Eles vivem e desaparecem com a mesma ausência de reflexão: uns poucos minutos de medo, uns poucos segundos de angústia, e tudo está acabado. Mas levar uma vida inteira com o destino da morte assediando os nossos sonhos e até mesmo os dias mais ensolarados… isto é outra coisa.

Com isso, Ernest Becker diz que os animais irracionais não têm consciência da morte, enquanto nós, humanos, temos e, muitas vezes, a tememos.

Depois de ler esse parágrafo, olhei fixamente para um jardim que tinha à minha frente e coloquei-me a refletir. Pensava que, embora tendo consciência dessa nossa finitude, preferiria mesmo ter nascido humana. Tudo bem que os animais não se sabem finitos, mas também não podem raciocinar e ler um livro tão interessante quanto esse; também, os animais não podem compor músicas, pintar quadros, aprender os passos de uma dança, inventar e criar milhares de coisas que tanto nos inebriam. E o que é mais importante, os animais não podem imaginar a existência de um Deus bondoso, poderoso e misericordioso, o qual é responsável por toda a criação.

Pensando assim, eu me desligara de tudo o que estava ocorrendo ao meu redor. Nesse instante, eram só meus pensamentos e eu. Até que voltei aos poucos da reflexão para a realidade do ambiente ao meu redor.

Escutei ecoar um latido e olhei em volta a fim de ver se existia algum cão perdido ali no local. Não havia cachorro algum. Logo percebi que o latido vinha da mesa ao lado, onde algumas pessoas falavam de seus companheiros ou filhos-cães imitando-os com gestos e latidos.

Sem os fitar, direcionei toda a minha escuta para aquela conversa dos meus vizinhos de mesa.

O meu cachorro late assim au, au,au. Eu pensei: acho que todos os cachorros do mundo latem assim. Nunca ouvi algum latir miau.

O meu é muito educado, não faz pipi em qualquer lugar. Quando ele quer “fazer suas necessidades básicas”, olha para mim com aquele olhar que já conheço, então eu o levo para um local onde ele possa preservar a sua intimidade.

Vocês precisam ver o meu. Não dá moral para ninguém. Quando chega alguém por quem ele não simpatiza, rosna para a pessoa. Ele é muito verdadeiro.

Ah, por isso que você o escolheu né?

Sim. Desde o primeiro dia, quando o vi, senti muita verdade em seus olhos, gestos e latidos.

Nossa, gente! O meu adora passear. E, quando chega domingo, ele acorda e fica na porta do meu quarto esperando que eu levante para levá-lo ao parque.

O meu também adora um passeio, principalmente na rua que fica duas abaixo do nosso apartamento. É que lá tem algumas cadelas e ele gosta muito de paquerar.

Eu, que não sei quase nada sobre o mundo dos cães, fiquei muito interessada em saber o que esses animais “pensam”. Se realmente esses cães faziam tudo o que seus donos diziam, então Ernest Becker estava totalmente enganado quando disse que só os humanos têm consciência.

Quis voltar à leitura do livro. Sem sucesso. Um novo pensamento me consumia. Tentava refletir e chegar a uma resposta sobre o que levam as pessoas a passarem uma tarde toda disputando o título de dono ou pai ou mãe do melhor cão. O mais educado, o que late mais alto, o mais namorador, o mais amigo, o mais forte, o mais valente e tantos outros mais… Tudo de bom e superlativo, porque pareceu-me que os cães não têm defeitos, como nós humanos temos.

Enfim, aparentou-me que a vida dos cães está muito mais interessante e digna de atenção do que a vida dos homens. E o mais engraçado é que, por ouvir muitas vezes as conversas dos que sentam ao meu lado, quando os escuto falar de gente, de humano, dos seus, é muito difícil deparar-me com eles enaltecendo as qualidades de seus pares. Geralmente, é uma fofoca sobre um colega de trabalho, uma reclamação do chefe, um conflito familiar, uma crítica dos que lhes são próximos.

Nunca ouço nessas conversas de bares, restaurantes e cafés, algo do tipo: fulano é bacana demais, beltrano é pau-pra-toda-obra, “sicrana é bonita, inteligente e, ainda, gente boa. Não. Nunca ouço nada desse tipo.

Sei que é mais fácil conviver e amar os cães, porque eles latem sim, mas não nos contestam e nem discordam de nós. Adestrar um cão é muito mais fácil que educar um homem. Ter um cão como filho é uma maravilha, porque os cães só comem, bebem e dormem. Ninguém precisa ensinar a eles que devem possuir caráter e honestidade.  E se mordem, seus pais não precisarão levá-los ao divã, muito menos visitá-los na cadeia. Eles são o que são e todos aceitam.

Os filhos dos homens também comem, bebem e dormem, no entanto, pensam, retrucam, divergem, brigam e não fazem tudo aquilo que seus pais esperam deles.

Os filhos dos homens carregam suas cruzes que obrigam seus pais também a carregarem junto com eles. Já os filhos-cães nem fazem ideia do que seja uma cruz.

Clarice Lispector disse sobre seu cachorro Ulisses: E quando acaricio a cabeça do meu cão, sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.

Creio que nessa frase encontra-se o motivo que nos faz amar tanto os cães e dedicar toda uma tarde falando a respeito deles.

Essa reflexão até me fez mudar de ideia quanto ao que havia pronunciado sobre preferir ser humana, porque ser humana tem lá suas vantagens, como por exemplo, poder ler um livro, pintar um quadro, compor uma música e etc e tal. Já não acredito mais nisso. Acho que o bom mesmo é nascer no corpo de um cão, receber todo o amor que eles recebem, que é o mesmo amor que os humanos tanto aspiram, e morrer em paz sem ter o prévio conhecimento de que a morte existe e sem nunca ter despertado maus sentimentos em alguém, a exemplo de ódio, inveja ou indiferença.

Ah! Também deve ser muito bom nascer num corpo de um cão, porque o que é dado-lhe não tem inscrito a cláusula do retorno, é tudo de graça, sem essa necessidade de troca que nós humanos impomos para tudo, inclusive para amar.

O que estraga nossa doação para com os humanos é que ela não é pura e simples. Ela exige essa tal de reciprocidade que nem sempre estamos dispostos a oferecer.

Como fui parar num divã

Há algum tempo, talvez por considerar-me apta a lidar com os revezes da vida, recebi alta da psicóloga, com quem encontrava-me quinzenalmente. Entretanto, acertamos que, em caso de surgimento de quaisquer eventualidades nas quais eu enfrentasse dificuldades para resolver pelas minhas próprias vias, eu daria um grito pedindo socorro com a finalidade de voltarmos a nos ver.

Quando estava numa roda em que a discussão pairava sobre sessões de terapia, eu dizia com ar superior misturado com fingida despretensão: acredita que minha psicóloga me deu alta? Numa época em que os problemas psíquicos estão em alta, estar de alta é quase melhor que ganhar o Oscar. Então, eu exibia o meu prêmio de modo triunfal.

Acontece que, à semelhança do que dizem alguns, tudo o que é bom dura pouco e, passado um tempo desde a alta, senti necessidade de valer-me, novamente, da ajuda profissional. Assim, liguei para minha psicóloga e implorei por socorro: a coisa tá braba, a coisa tá feia, eu vou estourar. Help! Please!

Eu, que até hoje, só aprendi em inglês a conjugar o verbo to be, consegui balbuciar mais essas duas palavras em língua estrangeira de tão grande que era o meu desespero. Talvez um pedido de socorro em outro dialeto soasse mais dramático e eu seria rapidamente atendida.

Pois não é que deu certo?

Chegando à clínica de psicologia, fui encaminhada para a recepção da sala de emergência. Não poderia esperar nem um minuto sequer, pois era urgente. Urgentíssimo.

Passado algum tempo de espera, chegou a minha vez de ser atendida. A análise começou logo que entrei na sala, pois em vez de sentar na cadeira destinada ao paciente, fui logo em direção à poltrona da psicóloga, como se inconscientemente eu imaginasse que fosse ela a necessitada.

 Não Ana. Vá para o seu lugar.

Ah é verdade, disse-lhe eu com ar de desentendida. De imediato, acrescentei: Então, vou logo dizendo que tenho mania de, ao entrar num consultório médico, dirigir-me à cadeira do doutor. Como você explica isso?

Você e suas inversões de papéis – disse ela.

Entendi muito bem do que se tratava, afinal não era a primeira vez que eu me colocava numa posição onde não deveria estar. Também tinha outra explicação. É que acho os outros sempre mais necessitados que eu. Quem sabe os médicos não estavam bem de saúde? Quem sabe se a psicóloga não estava precisando desabafar? Quem sabe eu não poderia ajudá-los? Aquele velho complexo de herói que nós duas já havíamos identificado em outras sessões e que me persegue desde criança. Sempre quis salvar os outros antes de salvar a mim mesma. Ou seria complexo de Deus? Não duvido que seja. No entanto, quem estava precisando de ajuda era euzinha

Aceitei o lugar que me cabia e sentei na poltrona a mim destinada.

O que está acontecendo Ana?

Olha, eu vim aqui porque não estou sabendo lidar com fulana de tal… e contei toda a história…

Mas, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, continuei: Só que no caminho para cá, eu acho que descobri o porquê da minha falta de tato diante dessa situação. Acho que já tenho a resposta. Está relacionado ao meu complexo de herói. Eu achei que poderia salvar fulana, fiz o que pude, mas fulana não reage. Acontece que a não reação dela me veio como um fracasso. Algo que tentei e não consegui. Isso mexe com meu ego, porque ao tentar salvá-la e não conseguir, sinto-me impotente. Então, o problema não é ela. O problema sou eu.

A psicóloga concordou com minha autoanálise e completou: Ana, coloque na sua cabeça que você não vai salvar fulana nem ninguém. Nesse mundo, a gente precisa tentar salvar a si próprio e olhe lá se conseguiremos. Mãe não salva filho; filho não salva pai; mulher não salva marido; irmão não salva outro irmão, etc e tal. Você entendeu?

Sim. Eu havia entendido isso há muito tempo, afinal de contas, quando cheguei à sessão já fizera todo o estudo e análise do caso, a qual levou-me a concluir que não posso salvar quem quer que seja.

Quando uma pessoa está se afundando, o desespero dela e o instinto de sobrevivência são tão grandes, que se alguém estender as mãos para puxá-la é capaz de ir junto e se afundar também. Assim somos nós quando queremos resgatar quem já negou a si próprio a salvação.

Conversamos sobre mais algumas coisas, demos risadas e eu saí da clínica sem o peso da cruz dos outros nas costas, mais leve, menos encurvada. Cada um carrega a própria cruz. Por que insistimos em levar também a do outro? Ao carregar a minha, eu me mantenho ereta, firme e adiante, porque sei muito bem identificar e combater as causas dos meus desalentos. Sei também que há vazio e angústia em todos nós, provenientes da nossa condição humana de criaturas impotentes, diante dos infortúnios e da finitude da vida. Quanto a esse vazio, não há terapia, muito menos ter a pia cheia de prato sujo para lavar que dê jeito. Ele nos seguirá até o fim. Ou aceitamos e lidamos com isso, ou a dor poderá ser ainda maior.

Encerrada essa única sessão de terapia, o qual digo agora com humildade, pois nunca se sabe, continuo de alta. O trato com a psicóloga foi o mesmo. Se eu sentir necessidade, pedirei socorro de novo e de novo e de novo…Já lhe falei que acho um desaforo comigo mesma carecer de psicóloga durante muito tempo. Eu quero caminhar com as minhas próprias pernas e, só de vez em quando, pedir apoio. Não me dou ao luxo de sustentação emocional perpétua. Afora isso, o dinheiro não tem a característica de ser desdobrável e eu quero economizar para comer comida gostosa todo dia e pagar o meu café diário. Senão, não sobra. Tenho minhas prioridades. E também tenho um corpo que exige prazeres e outras especialidades médicas.

Mas agora, confessarei-lhes uma coisa. Eu tenho mesmo é vontade de ser amiga dessa minha psicóloga e poder convidá-la para vir tomar um vinho em minha casa, dar risadas e falar sobre coisas de mulheres e de homens. Porque eu, por mais que não seja muito dada a chamegos com mulher, até que gosto muito dela.

Pensando melhor, acho que isso não daria certo. Uma amizade entre nós nos aproximaria a ponto de eu não ter condições de saber quando ela estiver me analisando. Além do mais, o dia em que eu precisar de socorro terei que pagá-la na condição de psicóloga e eu não posso admitir que uma amiga cobre para me dar conselhos, muito menos receber conselhos de uma amiga psicóloga sem pagá-la, por pura questão de justiça.

Sendo assim, ou a psicóloga, ou a amiga. Nem sempre é possível ter tudo. Mas como sei dos altos e baixos da vida, opto pelo que já está garantido. Eu quero é ter acesso imediato à profissional que conhece um pouco de mim e das minhas queixas e está disposta a me receber de braços abertos mesmo quando quero sentar em sua poltrona e tomar o seu lugar.

E se ela não tiver condições de explicar-me, talvez Freud explica.

Sobre o que não vemos

Abrir os olhos a cada manhã e deparar com o mundo tal qual ele se nos apresenta parece ser o maior de todos os milagres. A vida por si só é o mais incrível dos espantos e, ainda que tentemos de todas as formas explicar o seu mistério, ele é incompreensível, de modo que nada mais resta a não ser admirá-lo.

Ao acordar, após uma noite imersa no mais profundo sono e inconsciência, algo de belo, insondável e enigmático se revela diariamente diante de nós. E, se temos condições de contemplá-lo, isso se deve tão somente aos nossos sentidos, por meio dos quais quase tudo nos é revelado. Disso resulta que são eles os verdadeiros responsáveis por fazerem com que as coisas sejam por nós conhecidas.

Homem e mulher, macho e fêmea, possui cada qual um órgão que se encaixa naturalmente um no outro. Duas células invisíveis a olho nu se encontram e se fundem dando origem a um ser que, durante os meses seguintes, tem todos os seus órgãos formados à revelia de quem o carrega. O que se passa dentro do ventre independe de qualquer ato do ser que concebe. Tudo é criado, moldado e finalizado sem a sua intervenção ou aquiescência. E nasce-se com olhos que enxergam, com boca sedenta para sugar o alimento que o sustentará pelos próximos dias, com voz que emite o choro antes mesmo do apontar das lágrimas e pulmões que purifica o sopro da vida. Braços, mãos, pernas, coração, cérebro e tantos outros, cada qual com a sua função, mas que juntos dá unidade e completude ao corpo.

O que faz crescer e manter todas as coisas vivas e em funcionamento é invisível a todos os nossos sentidos. No entanto, se não podemos enxergar, escutar e tocar essa força que mantém tudo vivo e em movimento, sabemos que ela existe a despeito de não se mostrar. Portanto, há evidências, embora incompreensíveis e intocáveis, que nos leva a crer numa invisibilidade a qual sustenta e dá forma a tudo que nos cerca. Isso, por si mesmo, constitui uma espécie de milagre dos mais improváveis, pelo menos para o entendimento humano notadamente limitado para conceber a existência de todas as coisas.

A consciência humana não cria um ser no sentido de sua constituição ou formação. Na verdade, o ato de pensar em nada influencia o processo de gerar. Semelhante ao homem, os animais também se reproduzem sem que para isso precisem direcionar pensamentos para formar cada parte do ser que encontra-se em processo de geração dentro de si. A semente que é jogada na terra e faz nascer, crescer e frutificar a árvore também constitui-se mais uma dessas situações inexplicáveis movidas por uma espécie de propulsão inconcebível, caso os resultados não nos fossem visivelmente exibidos.

Perceber e raciocinar sobre tudo o que os nossos sentidos são capazes de captar talvez estejam entre as mais sublimes de todas as coisas. Sem as faculdades de percepção e raciocínio, por mais interessante que fosse o mundo, ele seria desprovido de quaisquer significações. Estaríamos ante um mundo morto, tendo em vista que nós é que lhe damos vida, importância e sentido.

Que o mundo não precisa de nós para existir, isso parece um tanto quanto óbvio, mas é verdade também que sem a nossa existência, por mais belo que ele fosse, não haveria quem o vislumbrasse de tal forma. A maneira como fomos feitos, providos de inúmeras capacidades decorrentes do corpo, o qual é animado por uma espécie de alma que tem condições de significar o mundo no qual ela vive, talvez crie em nós a presunção de que somos o centro do universo, uma vez que não temos notícias de seres que habitam o mundo e deixam suas marcas impressas tanto quanto nós.

Se é verdade que o mundo existiria mesmo sem nós, os humanos, é certo que nossa presença lhe dá relevância, sem a qual ele seria indiferente. Talvez, pensando nisso, Clarice Lispector emitiu a frase: Em vez de dizer “o meu mundo”, digo audaciosa: o mundo precisa de mim. Porque se eu não existir, cessa em mim o Universo.

Em decorrência dessa compreensão, parece-me ser os sentidos, que representam os meios pelos quais concebemos o mundo, grandes milagres de que dispomos ao nosso bel-prazer, salvo nos casos excepcionais em que um ou alguns deles faltam. No entanto, já tive notícias de que quando um sentido é prejudicado, outro se apresenta com mais desenvoltura numa espécie de compensação de desacertos. Beethoven não deixou de compor com a perda progressiva da audição. Provavelmente, diante dessa situação, sua sensibilidade para captar os estímulos tenha aumentado, e ele buscou dentro do seu próprio íntimo as notas de suas composições.

Ocorre que as coisas com as quais já nascemos ou as habilidades que aprendemos em tenra idade são por nós despercebidas de tal modo que não nos atentamos para a sua importância e até mesmo para a sua utilidade. Elas nos pertencem a tanto tempo que nem pensamos o quanto nossa vida mudaria ou seria limitada pela sua perda. Talvez, pensando nisso, Peter Stalybrass, num dos textos que compõe o livro O casaco de Marx, disserta sobre a importância do caminhar.

Aprendemos a andar nos primeiros anos de vida. Durante todo o tempo, essa ação é realizada por nós tão repetida e corriqueiramente que não imaginamos o quão cerceados ficaríamos caso não pudéssemos mais dispor dessa atividade milagrosa. Digo, pois, milagre, porque ao pensarmos bem parece improvável que os pés sejam capazes de sustentar o peso do nosso corpo, sem que para isso precisemos nos socorrer a alguém como fazemos quando crianças ou idosos, momento em que muitas vezes nos apoiamos em outrem ou nos valemos do uso de muletas.

Todo o funcionamento do nosso corpo e por que não de todos os seres e de todas as coisas que existem aparenta imbuir-se de algo que, por ser inexplicável, sempre esteve além de nossa compreensão e entendimento. Assusta-me e ao mesmo tempo inebria-me o processo de criação e manutenção, ainda que temporária, de tudo o que nos cerca. Os olhos que enxergam aquilo que é visível, a possibilidade de ouvir e falar, o olfato que nos anuncia o cheiro de todas as coisas, de modo a nos permitir até mesmo diferenciar o que devemos ou não provar. E as mãos e os braços que acariciam e constroem afetos e castelos e igrejas e palácios. Tudo indica que há uma perfeita conexão a nos guiar e nos impulsiona a criar como supostamente o ser ou poder que nos cria, transforma e recria.

Viver é poder estar diante de todas as coisas e usufruí-las. O principal nos foi dado. Essa gratuidade revela que o essencial não provém de práticas mercantilistas as quais poderiam nos privar, e muito, em termos de nossa constituição básica. Cabe, pois, exercer, da melhor maneira possível, o domínio desse ser por meio do seu uso, gozo e disposição, tal qual uma propriedade que nos é concedida para nos pertencer por um certo período, e sobre a qual direcionamos o mais cuidadoso e atencioso emprego.

O mistério do caminhar abordado por Peter Stalybrass é só mais um dentre os inúmeros acontecimentos milagrosos que nos pairam, no entanto estamos tão rodeados por eles, devido às suas naturezas natural e intrínseca, que acabamos por não percebê-los ou dar-lhes a devida deferência.

Creio que não aproveitamos como poderíamos essas graças que nos são concedidas sabe-se lá Deus por quem. E se não afirmo que elas provêm desse mesmo Deus que sugiro é para não lhes tirar o direito de imaginar de acordo com a própria fé ou falta dela, apenas em respeito ao comando que mais prezo para a minha vida e a dos outros que é a liberdade de pensar.

Cada uma com seus pelos e apelos

Mulheres mostram pelos nas axilas em ensaio em prol da beleza natural.

Esse é o título de uma notícia que acabo de ler na revista Marie Claire. Ao abrir a matéria, aparece uma morena, uma negra, uma loira e uma ruiva com os braços levantados exibindo suas axilas cabeludas. Há fotos de mulheres de todas as cores, afinal, em nome da igualdade, nenhuma pode ficar de fora.

Já pensou se tivesse apenas uma mulher branca? O perigo de ataques advindos das categorias não favorecidas seria muito grande. Então, melhor arrumar uma modelo de cada cor e calar logo a boca de todo mundo antes que comecem a reclamar que só às brancas foi dado o direito de ter sovacos peludos.

Quatro modelos lindas e magras que deixaram seus pelos crescerem para uma sessão de fotos. Quem sabe se movidas por uma proposta financeiramente atraente?  De graça é que não foi. Se não ganharam dinheiro, pelo menos alguns minutos de fama estão garantidos.

Passado o momento do ensaio fotográfico, é bem provável que a cera depilatória já esteja pegando fogo para arrancar cada moita daquela. Tudo em prol da beleza natural que só dura o tempo de tirar as fotografias. Se isso é beleza natural, deixa eu cá toda artificial.

Quem é que compra essa ideia? Eu sou mulher e digo desde já a outras mulheres que nem precisam fazer dessa luta anti pelos a minha luta. Eu tenho mais o que fazer e coisas muito mais importantes para me preocupar. É cada uma que me aparece que parece até que são dez.

Já consigo até imaginar o que aconteceria se essa moda pegasse (porque não vai pegar), provavelmente apareceriam os produtos de alisamento, de fazer cachos, de reparar as pontas duplas, os prendedores de pelos, os shampoos e condicionadores próprios para a região axilar e quem sabe as máscaras para uma hidratação profunda?

É o que vivo dizendo: eu morro e não vejo tudo. E por falar em ter o que fazer, peço licença a vocês, meus amados leitores, pois estou atrasadíssima para a minha sessão de desmatamento geral.

Até a próxima!

Piedade pra essa gente careta e covarde!

Blues da piedade é uma composição de Cazuza, lançada em 1988, no disco Ideologia. Trata-se de uma das melhores músicas dele, que, na minha visão, sempre foi melhor poeta que intérprete.

Tenho um certo fascínio pela lucidez de seu raciocínio e sentimentos e também pela forma como apreendeu a atmosfera da hipocrisia que reinava a seu tempo. Por incrível que pareça, a mesma hipocrisia que reina aqui e agora.

A canção Blues da piedade inicia com uma batida que quer ser pesada e é gostosa e envolvente como que preparando o ouvinte para uma reflexão profunda.

Procure a música e escute a batida. Só a batida! Escute quantas vezes quiser… Eu disse só a batida… Agora, deixe-se embalar por ela… Antes que a voz de Cazuza apareça na canção, pause.

Continue… Continue lendo esse texto…

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
.

Esses não são os miseráveis à espécie de Jean Valjean, personagem de Victor Hugo, que, movido pela fome da família, rouba um pão e é duramente condenado.

Cazuza menciona os miseráveis de espírito. Aqueles que vagam pelo mundo derrotados, remoendo seus fracassos, sucumbindo a eles, lamentando problemas ínfimos, reclamando ao tempo em que se resigna e aceita a mediocridade de viver.

Cazuza fala sobre aqueles que nascem com cara de abortadas, vivos de corpos, mortos de alma. Indiferentes para com a vida de cada dia.

Aqueles que acordam e nada fazem para aliviar suas dores, pelo contrário, aumentam as suas e as do mundo.

Ele se manifesta contra as pessoas de alma bem pequena que se prendem à miudeza das coisas e dos fatos e sempre ampliam o que não merece atenção. E contra àquelas que não enxergam a riqueza ao alcance das mãos por sempre desejar o que não lhes pertencem e, por isso, invejam, ferem, causam danos e matam.

Piedade, Senhor piedade!

Piedade aos que dizem ver a luz, mas não iluminam suas minicertezas e se acham os donos da razão e do mundo. E não escutam ninguém, e brigam, e ofendem, e ferem, e excluem.

Piedade aos que não suportam ser contrariados, contestados e não dialogam, mas atacam. Piedade aos que só aceitam os pensamentos dos outros quando coincidem com os seus próprios pensamentos. E não evoluem, não crescem, não andam…

Piedade aos que vivem contando dinheiro e se apegam à matéria tendo-a por eterna, enquanto o espírito carece, fenecem morre ou empobrece. Aos que não mudam quando é lua cheia.

Pra quem não sabe amar
Fica esperando alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Piedade aos que procuram um amor e não lutam nem fazem nada para mantê-lo, deixando-o escapar por falta de zelo, cuidado e preguiça, os quais reclamam não ter encontrado alguém que coubesse em seus sonhos, esquecendo-se que do outro lado há alguém que sonha e também espera ser amado e compreendido.

Piedade pra essa gente covarde!

Piedade para os caretas, os moralistas, os falsos moralistas! Aos que lutam por seus próprios interesses sob alegação de um bem maior e, por isso, se acham tão nobres e mais dignos.

Aos que fingem defender causas e são indiferentes com os necessitados que se encontram ao seu lado. Aos que se dizem pacíficos; bondosos; piedosos. Tende piedade!!!

Piedade dos que estão no mundo confusos. Piedade dos que perderam a viagem sem nada ter aproveitado!

Agora, todos podem apertar o play de seus dispositivos para ouvir, sentir o Blues da piedade e cantá-la em coro ou em forma de oração:

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade!
Pra essa gente careta e covarde!

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Cantemos juntos, afinal, somos iguais em desgraça e em tudo o mais!

Piedade para essa gente indecente, hipócrita e prepotente!

Piedade para todos nós!

Primeiro, o homem; depois, a Literatura

Ao ser questionada sobre se tivesse que escolher entre a Literatura e a maternidade, Clarice Lispector respondeu, quase sem pensar, que nascera para ser mãe. Sou muito maternal – disse ela.

Como não tenho a experiência de possuir filho, essa mesma pergunta não me poderia ser feita. Mas, quem sabe essa: Caso tivesse que escolher entre a Literatura e o homem que ama qual seria a sua opção?

Sem pensar, eu diria: O homem que amo.

Nem se espantem, queridos leitores, com a minha escolha, pois é mais que sincera. Nela, medito todos os dias. Primeiro, ele. Depois, ela. Aqui em casa, por minha própria deliberação, funciona desse jeito e tem dado muito certo.

Fome de ler e escrever, eu tenho. Mas, de amor, essa fome é ainda mais voraz. Os livros são muito importantes para o aprendizado e a compreensão da vida e das coisas, mas o amor acalenta, acolhe, perdoa e esquenta.

Nunca me esqueci de uma frase de Marilyn Monroe, símbolo sexual do séc. XX, que, a despeito de seu sucesso, nunca se sentiu bem amada e proferiu: O sucesso é bom, mas ele não te aquece numa noite fria.

E não aquece mesmo. Ainda que tenhamos milhões de dólares para comprar os cobertores mais quentes.

Há uma espécie de frio que sentimos e só um amor é capaz de eliminá-lo com o seu calor. É como esse frio que faz agora lá fora e eu sinto um vento gélido no corpo, toda tranquila, pois há um homem me olhando enquanto escrevo, a três passos de mim.

Sou capaz de parar o texto aqui mesmo a qualquer sinal de um chamado seu.

E enquanto ele não chama, escrevo.

Não sei se mais alguém precisa desse tipo de cobertor a que me refiro. Eu faço muita questão. E não nego, nem tenho qualquer pudor em admitir que esse homem ocupa, depois de Deus, o mais elevado patamar na minha pirâmide de prioridade e satisfação pessoal.

Ele, o homem. Esse que continua a me fitar com o mais primitivo dos olhares.

Então, ele diz: Estou com fome. Subitamente,  levanto-me, em total abandono ao que estou fazendo no momento, e vou preparar algo para alimentá-lo.

Estando ele satisfeito, volto a sentar no meu canto.

Passado algum tempo, esse mesmo homem sugere que um café cairia bem. Dirijo-me à cozinha e volto para ele sorridente com uma xícara nas mãos, contendo o café forte e quente, tal qual ele gosta.

Tomamos o café em meio a poucas trocas de palavras e nos dirigimos novamente aos nossos afazeres.

Quase sempre, estou imersa em alguma leitura, escrevendo algum texto, estudando, ouvindo música, assistindo palestras e entrevistas, rezando ou mesmo envolvida com pequenos trabalhos domésticos.

Ele, quieto em seus estudos ou assistindo algum programa de TV.

Assim, deixo-o descansar, sem quaisquer reclamações ou exigências.

Às vezes, transito pela casa e lanço um olhar furtivo sem que ele o perceba. Cá dentro, a alegria de pertencer-lhe e de saber que não há frio a enfrentar.

Suspendo qualquer leitura para atendê-lo. Por mais interessante que seja a história de um livro, nada é mais importante que o seu chamar.

Arrumo os objetos dele, dobro suas roupas, limpo os seus sapatos e organizo o seu cantinho de estar… Tudo isso me lembra que ele permanece ali numa presença silente e prazerosa feita à minha medida.

Você só quer saber dos livros – ele diz e sorri.

Só quero saber de você – respondo satisfeita e continuo a ler.

Depois de algum tempo, ele anuncia: Está na hora de dormir.

Sigo em direção ao quarto e me enfio debaixo das cobertas. Com uma mão, seguro um livro; com a outra, dirijo-lhe as mais suaves carícias até que ele pegue no sono.

Ao admirá-lo em seu sono profundo, não me restam dúvidas…

Dou-lhe um beijo e faço orações em sua intenção. Enquanto ele dorme, continuo a ler ou a escrever até que o sono me vença.

Um só é o meu pensamento enquanto durmo: Primeiro, o homem. Depois, a Literatura. E, ao acordar no outro dia, como que para confirmar meus sonhos, é ele o primeiro a surgir em minha frente.

Junho colorido (ou Combate à homofobia)

Diante da diversidade e da multiplicidade de tudo o que existe ao nosso redor, não restam dúvidas que é evidente conceber entre nós muito mais diferenças do que igualdades. A despeito de sermos seres humanos constituídos dos mesmos materiais e substâncias corpóreas, o que de certo modo nos iguala, cada pessoa possui inúmeras características que as diferenciam.

No entanto, apesar da flagrante verdade a qual consiste em saber que somos essencialmente distintos, ainda é difícil para muitos aceitar as diferenças sem atos que evidenciem um total desprezo e desrespeito pelo outro. Temos dificuldade quase doentia em aceitar aqueles que são, pensam e se comportam contrariamente ao que somos, pensamos e nos comportamos. Para tantos, é quase uma afronta que o outro não corresponda às suas pretensões egoísticas de identificação com o próprio eu. Disso resulta não apenas danos e prejuízos, mas consequências irreparáveis e inaceitáveis como violência e mortes. E nós não podemos ficar silentes na plateia ou a aplaudir atitudes bárbaras como se tivéssemos nos conformado com as mais variadas formas de crueldades. É preciso se indignar e, se necessário, bradar ao saber ou presenciar qualquer forma de opressão, tirania e desconsideração direcionados ao próximo.

O Brasil é um país que, embora marcado por diversidades de todas as ordens, a exemplo da geográfica, regional, racial e cultural, ainda conta com uma população carregada de preconceitos e avessa às diferenças. Isso se mostra em várias situações. Temos dificuldades em aceitar os demais quer pela cor, condição social, pensamento e até por questões puramente íntimas como a sexualidade. É lamentável constatar que alguém é vítima de ataques e afrontas apenas pelo fato de se relacionar intimamente com pessoas do mesmo sexo, no entanto isso se tornou tão comum que deveria nos causar não apenas vergonha, mas sobretudo revolta.

Hoje, a homofobia é tipificada penalmente, mas não se mostrou bastante para diminuir ou intimidar a prática do crime. Sou daquelas que, embora saiba a importância de se punir condutas inadequadas, prefere combater as suas causas, o que, por ser mais difícil e complexo, acaba não recebendo atenção nem das autoridades nem daqueles que pretendem resolver tudo e qualquer coisa na base da incriminação ou da letra morta de uma lei. O problema é que, ao criminalizar uma conduta, a punição age apenas sobre as suas consequências, e isso não impede que pessoas sofram violência e sejam assassinadas. No mais, não há que se falar em justiça post mortem, pois ela não é capaz de devolver uma vida que fora ceifada por motivo tão fútil e torpe. Na verdade, é inconcebível que a sexualidade seja um motivo para atentar contra alguém, quer física, quer verbalmente.

O preconceito contra homossexuais deve ser combatido com veemência, a começar dentro da própria família. Muitos pais são os primeiros a negarem os seus filhos e a rejeitá-los. Mesmo sabendo que a família é um lugar típico de muitos conflitos, não podemos negar que ela é a nossa sustentação e base. Quando somos por ela acolhidos e respeitados, nos sentimos mais fortes e prontos para enfrentar as contendas externas. No entanto, se não recebemos o seu apoio, um sentimento de rejeição e perdição nos fragiliza a ponto de realmente acharmos que há algo de errado conosco. Não há nada de errado em ser homossexual. Isso não nos torna menos humanos ou capazes, muito menos nos inferioriza.

Ao presenciar qualquer piadinha ou comentário depreciativo contra homossexuais, devemos nos prontificar a combater imediatamente, demonstrando ao que agiu de forma desrespeitosa toda a nossa reprovação e o nosso repúdio diante de sua atitude. Não nos convém fazer como muitos que caem em risadinhas sem graças. Não devemos aceitar esse tipo de comportamento, sob pena de conivência. Uma das maneiras de coibir a continuidade de condutas inconvenientes é demonstrar visivelmente ao ofensor a nossa reprovação ao seu comportamento mesquinho.

Quando presencio situações desrespeitosas, lanço tão logo um olhar de desdém e censura, de modo a inibir semelhantes ações posteriores. E se for preciso, reprimo verbalmente como já o fiz tantas vezes. Assim, a pessoa não mais se sente à vontade para exteriorizar seus tolos preconceitos. E também é um modo de fazê-lo rever a extensão de sua ignorância.

Viver num país politicamente democrático, onde a liberdade de expressão se configura dentre seus princípios, não nos dá o direito de usá-la sob pretexto para sermos ofensivos ou atentarmos contra a dignidade dos demais, sejam eles quem forem. O respeito é a base de qualquer relação e devemos prezar por ele. Não nos é dado o direito de ofender o outro. E ainda que nossas crenças religiosas não admitam certos comportamentos, quem as devem seguir são aqueles que por elas optaram, não os demais os quais são livres para escolherem suas próprias crenças e procedimentos.

Além da violência nas suas mais diversas formas e do homicídio, sabe-se que uma parcela de idosos homossexuais tem maior propensão a ficarem deprimidos e também ao suicídio. Além de muitos não terem filhos, há o agravante do desprezo por parte da família e de amigos. Assim, eles se veem obrigados a enfrentarem não só as limitações da idade como também a solidão imposta.

O escritor italiano Gianni Vattimo, em seu livro Não ser Deus, confessa que aos 70 anos resolveu falar sobre a sua homossexualidade e não foi perdoado nem pelos inimigos nem pelos amigos. Houve quem lhe questionasse porquê tal revelação tardia, a qual poderia ser mantida em segredo e levada ao túmulo.

É absurda a ideia de que alguém tenha que se esconder para satisfazer as expectativas ou anseios dos outros. Ser e se mostrar tal como se é refere-se a uma questão de dignidade. E impedir que alguém se manifeste a fim de não sermos ofendidos, sabe-se lá por qual motivo, mostra-nos muito mais a nossa própria fragilidade que, nesse caso, é digna de ser tratada. Há que se dar muita atenção àqueles que se sentem ultrajados diante da sexualidade alheia. É um caso que talvez Freud explique.

No mais, vamos aproveitar o que vos falo para refletir, combater e cortar pela raiz toda forma de preconceito. Junho foi o mês escolhido para simbolizar as cores do arco-íris, como forma de combater a aversão contra as mais diversas manifestações da sexualidade. Não podemos admitir a propagação da violência e da crueldade de maneira alguma. Somos todos responsáveis pelas coisas que fazemos e também por aquelas que deixamos de fazer. E não se enganem achando que devem ficar omissos diante da barbárie, pois as nossas omissões podem ter consequências tão mais desastrosas do que podemos supor ou imaginar.

Depois que se é feliz o que acontece?

Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? Essa é uma indagação feita pela escritora Clarice Lispector que gira em torno daquilo que a maioria das pessoas diz perseguir durante a vida – a tal felicidade. Essa ideia de perseguição da felicidade, inclusive, pode nos remeter a algo que parece inalcançável. Se pensarmos bem, nós a buscamos todos os dias de nossas vidas como se ela jamais se mostrasse rendida.

Por mais que falemos sobre esse assunto, ele não se esgota por vários motivos. E um deles diz respeito à avaliação subjetiva feita por cada pessoa quanto às formas e os meios de alcançá-la. Também, o que faz a felicidade de alguém não necessariamente é capaz de fazer o outro feliz.

Tenho minhas desconfianças com relação a esse termo e lembro-me que, desde muito cedo, percebi que ele, visto como algo infindo, não caberia nessa vida finita, mista de alegrias e desgostos, paz e tribulações, altos e baixos, surpresas e decepções.

Durante a vida usufruímos de momentos intensos, quer jubilosos, quer dolorosos, e muitos deles parecem carregar em si mesmos a eternidade. Acredito muito mais na possibilidade de gozarmos com todo fervor de instantes alegres que se nos apresentam, os quais considero agradáveis e prazerosos justamente pelo fato de serem passageiros, do que ficar a desejar que eles não acabem, apegados à ilusão que faz crer ser possível a permanência de qualquer estado.

Se o que realmente buscamos durante as nossas vidas é a tal felicidade, cabe a pergunta inicial: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? Se alcançamos o que desejamos, o que mais desejar? Há quem diga que a interrupção da vida se dá com a morte dos desejos. Isso na cultura ocidental, pois o Oriente prega justamente o contrário, ou seja, é o desejo que nos escraviza e, portanto, acarreta a nossa morte. Seria então esse desejo incessante por felicidade o motivo da nossa falta de paz ou de um certo tipo de morte?

Muitos acreditam que a felicidade virá quando se conseguir coisas, um determinado emprego ou quando se realizar uma certa viagem. Outros acreditam que ela chegará com o namoro, o casamento, o nascimento dos filhos, a compra do carro ou da casa desejada. E por que não com o aumento do saldo da conta bancária?

No entanto, basta olhar ao redor para perceber que muitas pessoas, as quais possuem suas aspirações materiais satisfeitas, permanecem buscando por completude e felicidade, o que leva-me a crer que ela é quase impossível de ser conquistada tanto quanto às belas damas que, por terem sido inalcançáveis, eram tão mais cobiçadas.

Caso alguém me pergunte se sou feliz, digo-lhe que a minha resposta não conseguiria alcançar a imensidão significativa que essa palavra evoca. Prefiro dizer que estou quase sempre alegre. Tenho inata disposição para a alegria e o riso. E quando um desconforto anuncia certa tristeza, muitas vezes origina-se do próprio ato de existir, mas logo no instante seguinte um ardor toma conta e incendeia meu peito. Também noto que uma certa melancolia ronda-me algumas vezes devido à influências hormonais inerentes à natureza da mulher que, tal qual uma lua, é obrigada a lidar mensalmente com suas diversas fases e com os incômodos daí decorrentes.

Ser e estar. Ser feliz. Estar feliz. Tenho a impressão que a felicidade talvez seria mais fácil de ser entendida e experimentada caso pertencesse ao campo do estar e não do ser. Assim, ela não se enquadraria como um atributo da essência, mas tão somente um estado, o qual por si mesmo sugere algo mutável. Talvez, a pergunta não deveria ser – você é feliz? Mas, você está feliz? Desse modo, eu sempre teria uma resposta convincente tanto para mim quanto para os outros.

Uma permanente felicidade, que me leva a pensar em saciedade e satisfação, não me seduz. Eu ficaria suspensa no ar como à espera. De que? À espera. E agora? Tenho a ligeira impressão de que a felicidade contínua e duradoura me paralisaria de um tanto que eu não saberia o que fazer. Creio que ficaria meio abobalhada. Inclusive, já experimentei essa sensação.

Certa vez, recebi a visita do meu irmão mais novo e durante os dias em que esteve comigo fiquei tão absurdamente feliz que nem mesmo consegui escrever. Mas, um dia antes de seu retorno, já movida pela certeza e tristeza do distanciamento, escrevi um texto, o qual ele leu e fez questão de dizer que achou dos melhores. Foi aquela dorzinha que me conduziu a criar. Eu vos afianço: não desejo dores neutralizantes, mas aceito sem reclamar aquelas que me empurram um bocadinho e insistem que eu aja imediatamente, movida pela afã de amenizar os meus enfados. Desse modo, entendo a afirmação de Pondé quando diz que uma cultura de felicidade pode apenas gerar pessoas banais e medíocres.

Isso me lembra também uma frase utilizada por Rubem Alves para intitular um de seus livros: Ostra feliz não faz pérolas. Ele inicia a obra contando uma história de certas ostras que eram notoriamente felizes, porque de dentro delas saía uma delicada melodia. Essas ostras felizes zombavam de uma ostra solitária, aparentemente depressiva. Todas essas ostras foram capturadas por um pescador que serviu-se delas para preparar uma sopa. Quando ele e sua mulher estavam saboreando a prato, o pescador sentiu um objeto duro bater em seus dentes e percebeu que dentro de uma ostra havia uma pérola. A jóia fora produzida pelo molusco sofredor. Então, Rubem Alves diz: Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola, uma linda pérola. Isso é verdade para as ostras e para as pessoas.

A ostra transformara o seu sofrimento em beleza. Assim, o autor conclui: A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Para alguns, a felicidade nada tem a ver com a satisfação material. O filósofo Arthur Schopenhauer diz que ela depende muito mais do que temos em nossas cabeças do que em nossos bolsos. Já Érico Veríssimo nos induz a pensar que a felicidade é a certeza de que nossa vida não está passando inutilmente.

Mário Quintana poetisa: Quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz – em vão, por toda a parte, os óculos procura tendo-os na ponta do nariz. O poeta instiga que a felicidade está diante de nós e onde menos se espera.

O pensamento de Nietzsche enuncia que a felicidade é frágil e volátil, pois só é possível senti-la em certos momentos. Na verdade, se pudéssemos vivenciá-la de forma ininterrupta, ela perderia o valor, uma vez que só percebemos que somos felizes por comparação.

Clarice Lispector escreveu um livro chamado Felicidade Clandestina, título que sugere ser a felicidade não apenas dotada de certa fragilidade e volatilidade, citadas por Nietzsche, mas também algo que, por parecer imoral ou ilegal, só pode realizar-se de forma oculta ou às escondidas. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Eu já pressentia – disse ela.

Talvez a ideia de felicidade exista como algo contínuo e permanente apenas para não perdermos a esperança e o gosto pela vida. No final das contas, todos a querem e a perseguem como se fosse algo concreto e materialmente atingível. A busca pela felicidade nos move em todos os sentidos e, mesmo que jamais a toquemos com as nossas mãos, a mera promessa de que um dia a alcançaremos basta-nos para que acreditemos que ela está logo ali à nossa espera.