Hamlet, de Willian Shakespeare.

Claro que eu já tinha ouvido falar de Shakespeare pelo seu tão famoso Romeu e Julieta. Mas Hamlet me era desconhecido até o momento em que assisti a uma palestra no programa Café Filosófico, na TV Cultura, em que o professor e historiador Leandro Karnal falava de suas impressões sobre o livro, bem como da influência que a peça (Hamlet é uma peça) tem em sua vida.

Depois disso, fui tomada por uma curiosidade que me fez ler Hamlet o mais depressa possível. Acho que foi o primeiro clássico da literatura inglesa que li.

E o que é um clássico? Livro clássico é uma obra atemporal que tem a capacidade de te dizer algo sobre o momento em que se vive independentemente da época em que se vive. Ele pode ter sido escrito há séculos, mas as impressões que causam são sempre muito atuais.

O livro clássico é aquele que teria tocado nossos tataravós e, provavelmente, tocará nossos tataranetos. Ele teve, tem e sempre terá algo a dizer. Ele funde num só tempo o presente, o passado e o futuro.

Pois bem, dito isso, vamos a história em si.

Hamlet-pai é o rei da Dinamarca e acaba morrendo mesmo a despeito de ser um Rei. Hamlet-filho depara-se com o possível fantasma do pai pedindo-o que vingue sua morte, o qual ele alega que fora tramada pelo seu irmão Cláudio, com a única finalidade deste herdar o poder.

Entretanto, Cláudio não só herda o poder como também “herda” a mulher do irmão, Gertrudes (mãe de Hamlet). Disse o fantasma: “Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi, ao mesmo tempo, a coroa, a rainha e a vida.”

Esses acontecimentos (morte do pai e casamento da mãe com o tio) causam uma reviravolta no âmago de Hamlet e ele passa a viver para uma única finalidade, ao qual é fiel até o fim, vingar a morte do pai.

Hamlet sofre profundamente. É um melancólico que não faz questão de fingir felicidade a quem quer que seja. Ele está diante de uma verdade dura, de uma perda dolorosa, de um ato de traição. E, como se não bastasse, é obrigado a conviver com a união de sua mãe ao tio quase antes do enterro do pai. Hamlet observa a mãe: “Oh, olha só o ar fagueiro da senhora minha mãe. E meu pai morreu não tem nem duas horas”.

Hamlet perde o pai, perde a confiança na mãe, no tio, nos “amigos”,Rosencrantz e Guildenstern, que tentam subvertê-lo para atender às ordens do rei Cláudio. Hamlet não tem a mais ninguém, salvo ele próprio, e conta apenas com a ajuda de seu único amigo, Horácio.

Aos olhos de todos, Hamlet está enlouquecido, pois só sendo louco para dizer as coisas que diz. A loucura provém de seu amor por Ofélia? É o que todos se põem a acreditar como se não houvesse algo “mais podre no reino da Dinamarca”.

Todos fingem, porém Hamlet é fiel ao pai e a si mesmo e “quem é fiel a si mesmo nunca será falso com ninguém”, disse Polônio ao aconselhar o filho Laertes.

Hamlet declara que poderia ser feliz numa casca de noz como quem diz que é a sua consciência o seu guia. E essa consciência o guia até o fim de seus dias.

A sensação que tenho ao ler e reler esse livro é a de que estou diante de uma lucidez capaz de evidenciar muito além do que um ser é capaz de enxergar.

Diante de Hamlet tenho uma consciência brutal que não me faz nem mais nem menos feliz, mas me mantém distante da mediocridade, do fingimento e da falsidade. “Ó Deus, ó Deus! Como são enfadonhas, azedas ou rançosas todas as práticas do mundo! Ó tédio, ó nojo!”

Não posso dizer mais nada. Sigo o conselho hamletiano que sugere que eu tenha os olhos abertos e a língua imóvel. “O resto é silêncio.”

Água Viva, de Clarice Lispector

Tenho uma grande admiração por Clarice Lispector desde os tempos de menina. Posso dizer que é a minha escritora preferida.

E essa preferência nada tem a ver com um conhecimento profundo que eu tenha sobre Literatura.

Sinto Clarice. Sinto suas palavras em minhas entranhas e chego a pensar que ela estava muito certa quando disse: “O leitor é o escritor”. Sim. Eu sou Clarice. E digo isso com a sua própria permissão, inscrita no livro A descoberta do mundo.

Adquiri Água Viva,  primeiro pela beleza da edição, e depois porque ainda não o havia lido. Ocorre que acabei deixando-o como enfeite numa mini biblioteca que mantenho em casa.

Até que um dia, ao ler “Só as mães são felizes”, de Lucinha Araújo, notei quando esta mencionou que seu filho Cazuza era um profundo admirador de Clarice e, mais tarde, numa entrevista com o próprio cantor, ele declarou que “Água Viva” era um de seus livros prediletos.

Assim, minha curiosidade sobre o livro foi atiçada e resolvi tirá-lo da estante.

Água Viva não se configura numa história linear. São fragmentos escritos de uma pessoa que ama ao ser amado. Parece uma carta ao mesmo tempo em que não se parece com gênero algum. São palavras soltas – às vezes de um entendimento cristalino; outras, intraduzíveis. Parecem falas desordenadas que vão se ordenando à medida em que toca o mais íntimo de quem lê.

E a leitura flui como um rio que deságua não sei onde. Vai se sentindo, achando significados próprios dentro do ambiente caótico do escritor que é também o do leitor.

É um livro que fala de Deus, do feio, da solidão, da desorganização, do medo, do instante-já, da loucura, do amor, da liberdade, dos dias da semana, das flores, dos bichos, da morte, da vida.

É denso!

“Ninguém me prende mais”.

“Amor demais prejudica os trabalhos”.

“Vivo à beira”.

“Eu que detesto o domingo por ser oco”.

“Queria tanto morrer de saúde como quem explode”.

Clarice me prende é pelos pés. E eu tento correr à galope como um cavalo. Mas, quem me prende de fato? Provavelmente, eu mesma. Sim, Clarice. Eu sou você e você sou eu! O que você escreve continua. ” Estou enfeitiçada”. Continue…