Sede de saber

Por dentro, a inquietação. Menina, pequena em corpo, mas possuída pelo desejo grandioso e palpitante de apreender e abocanhar o mundo, tragá-lo de uma só vez. O que ou quem satisfaria minha sede de conhecimento?

Nem Deus!?

Ao meu redor não supunha que alguém pudesse me fazer compreender, dizer-me coisas que fossem mais interessantes que as próprias vidas confinadas e limitadas ao estreito âmbito doméstico, permeado de relações familiares de desavenças veladas, ciúmes disfarçados e caminho certo – o casamento forçado, a maternidade como destino maior para as mulheres; e para os homens, o que viesse.

Mas casar não me ocupava; ter filhos, muito menos. Se essas coisas acontecessem seriam em decorrência do próprio ato de viver, e não como consequência da realização de meus sonhos. Porque, quando sonhava, e como sonhava!, era com coisas que só dependiam de mim mesma para me trazer a plenitude, ainda que fosse por um momento que durasse não mais que um momento.

Talvez os livros fossem a esperança de minha ânsia de expansão, pois, se por fora, via-me delimitada frente ao espelho, por dentro, absolutamente nada me dimensionava. Demais coisas não poderiam ser melhores do que ler. Então lia com um prazer não experienciado sob outras formas; o tempo parecia não existir e o espaço nunca fora uma questão. Qualquer lugar em que esteja, se estou comigo, representa o mundo todo.

Ninguém me dava sugestões ou me impunha sobre o que ler; eu era impelida pela minha própria curiosidade e busca; pelo meu próprio ardor.

A cor da capa, um título ambíguo, certo estilo de escrita insinuante me seduziam de tal modo que não procurava referências a respeito do objeto que segurava. Ia às cegas ao encontro daquilo que me queria ou me escolhera antes de sequer pensar, pois carrego a desconfiança de que são os livros que nos levam até eles e não nós quem os escolhemos.

A emoção me tomava a cada leitura; uma frase alterava a ordem das coisas; uma palavra era suficiente para iluminar o dia ou me conduzir para além de tudo que me era familiar. Sentia o contato com os livros me fazer crescer, aumentar meu tamanho que já presumira não ter marcos.

Um conhecimento me conduzia a outro, tudo me interessava, nada era forte o bastante para me prender; nada me bastava. Queria mais e mais, pois à medida que se conhece agiganta a certeza de que tudo é pouco. Uma vida não é o bastante para o tamanho e a profundidade de minha sede.

A inquietação permanece. Resvalo de um livro a outro, saboreio páginas de assuntos diversos, “bebo água de todo rio”. Ao tempo em que procuro entender sobre a mais ínfima partícula da matéria, aceito me perder nos misteriosos sentimentos humanos.

Se nosso mundo cresce à proporção do que sabemos, quero a amplidão do infinito que não sei. Deixo-me levar ao chamado do que me solicita, não crio barreiras ou resistências diante do novo que me exige. Não pertencendo a nada, estou aberta a tudo.

O desejo de saber o que está para além do que se sabe nutre a minha alma e me salva a vida. Convida-me a vivê-la com a mesma intensidade de quem, pousando em solo inexplorado, começa a dar os primeiros passos.

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