Meu destino

Talvez seja muito cedo para esboçar algumas linhas sobre algo que passou recentemente a ser objeto de meu interesse. Refiro-me à Psicanálise, procedimento investigativo de processos mentais derivados do inconsciente, método de tratamento de neuroses e área de conhecimento científico, que foi concebida pelo neurologista Sigmund Freud em decorrência de sua prática clínica com pacientes acometidas pela histeria.

Pode ser pretensão de minha parte enveredar, neste momento, por um assunto que demanda estudo abrangente e profundo, mas ousada que sou, quero arriscar.

Certa vez, um amigo me afirmou que a literatura antecipa possíveis avanços da ciência e de outros ramos do conhecimento. No momento, não compreendi muito bem, mas a informação ficou armazenada em algum lugar dentro de mim.

Sempre tive curiosidade bastante aguçada, sede faustiana pelo conhecimento e ímpeto ardoroso por descobertas. Desde criança, os livros me despertam, os acontecimentos cotidianos demandam minha atenção e as conversas das pessoas me interessam. Fui e sou atenta a tudo. Uma menina viva e disposta a penetrar nas profundezas das coisas.

É provável que a literatura de Clarice Lispector tenha me seduzido desde o primeiro contato por se dispor a cercar e a rondar o escondido da existência, aquilo que não vemos, mas nem por isso deixa de ser real. O invisível, o oculto, a entrelinha, o enigma, o que não é dito no dito. Tudo funciona como isca para capturar os sequiosos de mistério. Há algo na vida que escapa a todos os conceitos e saberes. Algo que ri de nossa razão insuficiente, que brinca e zomba de nós quando pensamos ter o controle.

Antes de adentrar precisamente na Psicanálise, aventurei-me nas Neurociências, que se dispõe ao estudo do funcionamento do cérebro, suas funções cognitivas como memória, atenção, aprendizagem; as emoções, os sentimentos e os comportamentos humanos.

As Neurociências se aprimoraram com o desenvolvimento da tecnologia, em especial a partir dos exames de neuroimagens, que possibilitaram verificar, em tempo real, quais regiões do cérebro são ativadas em determinados estados experienciados por uma pessoa, como medo, raiva, alegria, tristeza, entre outros.

Além do mais, procurou afastar o dualismo corpo-alma, principalmente ao constatar que a lesão de determinadas áreas cerebrais afetam e comprometem certas funções corporais, cognitivas e sensoriais. Assim, parte da premissa de que é o corpo quem produz a consciência. Portanto, Descartes estaria redondamente enganado ao supor que seríamos uma espécie de máquina animada por uma alma. Para as Neurociências, a máquina é animada por si mesma, por seus próprios processos neurais.

Ocorre que, saber qual região do cérebro é ativada quando, por exemplo, estamos com medo, não explica de onde vem a consciência do medo. Não se pode afirmar em que lugar do cérebro ela mora ou o que a produz. Os cientistas não descobriram a origem da consciência que nos faz saber onde estamos e o que se passa dentro e ao redor de nós. Eis o que escapa às Neurociências. E eu não posso deixar de lembrar Shakespeare: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar vossa vã filosofia.”

E como se não bastasse a procura inócua, movida por um implacável desejo de busca, deságuo no mar da subjetividade de um saber que sobrevive mais de perguntas que de respostas, e que mergulha num universo de incertezas, onde o resultado de dois mais dois dependerá do sujeito que “fizer a conta”.

A Psicanálise está submetida às flutuações da subjetividade. E a subjetividade foge às certezas, além de suprimir todos os espaços em que se pretenda instalar verdades.

Cada sujeito é único, irrepetível, individual, física e psiquicamente. Sua constituição envolve questões genéticas, ambientais, fisiológicas, orgânicas, espirituais, culturais e tantas outras que até soa ingênuo a tentativa de aplicar a mesma fórmula indistintamente para todos, ou mesmo dois.

A Psicanálise surgiu da tentativa de compreender algo que escapava à ciência, no momento em que os médicos se quedaram mudos e impotentes diante de um território em que seus conhecimentos eram por demais insuficientes para entender e dominar certas manifestações. Como explicar a incidência de doenças nervosas em pessoas cujo aparelho físico estava em condições perfeitas de operação? E como explicar que pessoas conseguiam minimizar e eliminar os efeitos dos sintomas da histeria ao dar vazão ou voz, por meio da fala, aos episódios e eventos traumáticos vivenciados?

Freud percebeu a importância da escuta para a cura das pacientes, não uma escuta qualquer, mas aquela que se dá com o corpo todo, livre de restrições, interrupções, censuras e julgamentos. Assim, as regras básicas para que determinado método seja considerado psicanalítico é o que ele denominou de “associação livre”, aplicável ao paciente; e “atenção flutuante”, ao psicanalista.

O analisando iniciará o tratamento com a plena liberdade de começar sua fala por onde preferir, aleatoriamente, sem qualquer sugestão do analista, que deve escutar tudo sem se prender ou priorizar um fato ou outro. O psicanalista deve partir do pressuposto de que o paciente sabe muito mais a respeito de si próprio do que aquele para quem ele fala. É preciso deixar que o inconsciente emerja com toda a sua força; é necessário permitir que a cobra rastejante das cavernas submersas percorra a superfície para que seja capturada, ainda que ela novamente fuja ou escape, pois morrer, ela nunca morre.

Não pude deixar de pensar que se a escuta atenta e livre de interrupções e julgamentos é uma das chaves para que o paciente se sinta um pouco aliviado, nós somos péssimos “psicanalistas” uns dos outros. Raras vezes conseguimos escutar verdadeiramente alguém sem intromissões, quebras ou ensaios de respostas, ao tempo em que o outro fala, baseadas no juízo que fazemos de como o falante deveria agir e que parte tão somente de como pensamos que agiríamos, pois nem sempre há proximidade entre o que conjecturamos e praticamos.

A falácia mais descabida que conheço, tão descabida que está na boca de todo mundo, é a tal da empatia. Impossível se colocar no lugar de outro sujeito. Trata-se de um exercício impraticável que foi elevado a princípio máximo, ocupante do topo das paradas, justamente pelo seu caráter inalcançável. Para, hipoteticamente, nos colocarmos no lugar de alguém teríamos que vestir suas roupagens antes mesmo do início de seu tempo. Empreender um esforço hercúleo de tentar imaginar suas condições desde antes do nascimento até o momento do desejado exercício da empatia. É simples lidar com o irresolúvel. Basta respeitar o fato de o outro ser outro. Só ele pode dar respostas a si mesmo, talvez a única grande coisa que podemos fazer é ajudá-lo a enveredar por seus territórios.

Freud sugere que o analista diga ao paciente: “Antes que eu possa lhe dizer algo, tenho que saber muita coisa sobre você; conte-me o que sabe a respeito de si próprio.”

Ou seja, para afirmarmos algo sobre uma pessoa seria necessário, como dizia minha avó, comer um saco de sal com ela. Claro que estou sendo hiperbólica, mas devemos admitir que tudo que não fazemos é conhecer um pouco da história de vida de alguém para emitirmos nossas opiniões a seu respeito. Ninguém escuta ninguém. As pessoas são canceladas e excluídas por um única opinião, uma imagem, um acontecimento isolado, uma ideia divergente e outras ocorrências ínfimas a que nos apegamos e nos damos o direito de julgar o todo, eliminando-as ou atirando nelas a indiferença, a fixidez e a crueza de que somos destinatários e algozes.

Cá estou mergulhada no universo psicanalítico a que fui conduzida pela insaciável sede de que sou feita da cabeça aos pés e que tão bem sintetizou a poeta mineira Adélia Prado: “Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota”.

Rendo-me à busca de algo que está além e aquém de mim com o ardor de uma criança a descobrir o mundo. Meu destino é a procura incessante, permanente, infinita. Não necessito de âncora que, a pretexto de me oferecer segurança, ousa me prender como fazem aqueles cuja fome voraz encarcera os que dizem amar.

Meu destino é não ter destino. É querer saber tudo, mesmo sabendo que absolutamente tudo nos estreita e nos escapa.

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