Atrás do véu

“Fulana se perdeu”. Essa expressão não era usada para indicar que alguém errara o caminho ou se enfiara no denso escuro de uma floresta, muito menos indicava aquela que não sabia qual rumo tomar.

Numa roda de conversa, principalmente em que a presença das mulheres da família se fazia em maior número, era comum, ao se referir a alguma moça que deixara de ser virgem, apontá-la como uma pessoa perdida.

“Não serve para casar.”

“Ninguém a quer para coisa séria”.

“Os homens só se aproveitam dela.”

“Ela não se valoriza.”

Frases desse tipo costumavam ser proferidas contra aquelas que se entregavam sexualmente sem que, antes, precisassem da assinatura de um contrato, da chancela de testemunhas ou das bençãos de uma autoridade religiosa. Nem mesmo a proibição dos pais pesava tanto ou mais que o desejo de ceder ao desejo que pulsa naquilo que vive.

Estranhava que alguém precisasse se guardar, se anestesiar e se privar dos prazeres que o corpo estava apto a sentir, em nome de um outro que já surgiria contemplado com o prêmio da exclusividade, como se a mais alta conquista frente a uma mulher fosse o orgulho de dizer: “Só eu toquei e adentrei neste corpo. Ele me pertence. É só meu.”

Dona Justina mal deixava que as filhas namorassem. Logo as obrigava ao casamento para que também “não se perdessem” e dessem o que falar na pequena cidade onde tudo se sabe. A vaidade de andar por entre as ruas em que era conhecida como a mulher que casara todas as filhas se intensificava à medida que essas uniões perduravam sabe-se lá em que condições. E o tempo passava. E os netos nasciam.

Conta-se que tia Julieta se recusou fortemente a casar vestida de noiva. Não revelava o motivo da negativa, embora muitos o imaginassem e, a mãe, dona Justina, desconfiasse. Acreditava-se que aquela que fingisse virgindade seria publicamente desmascarada, pois a queda do véu aconteceria assim que adentrasse no recinto, como prova de flagrante “impureza”. Todos continuavam a fingir que seu filho João nascera de sete meses. E Julieta permanece a mais séria e conservadora entre as irmãs.

Um dia após as núpcias de uma prima, enquanto os demais se preocupavam com o que havia para comer e beber, me pus a olhar para a recém-casada: cabeça levemente inclinada, semblante triste, olhar perdido e vago. O mais perfeito retrato da insatisfação. Então, poupara-se tanto para “aquilo”?

Henriqueta foi quem não imitou o rigor da mãe Justina e dizia para as filhas: “Virgindade não tem valor. Se tivesse, o pai de vocês não teria me trocado por uma putz!”

Filha de Henriqueta, não herdei um código de conduta puritano que me infundisse culpa. Mesmo meu pai não atirou pedras em Madalena, antes a tomou por segunda esposa. Não cresci sob o tormento do proibido ou do “não me toque”.

Em matéria de sexo, nunca pequei por morder uma maçã. Não fui expulsa do Éden. O Paraíso continua sendo o meu mar de amar.

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