Eu passarinho!

Um pensamento ocupou-me durante alguns dias após ler um parágrafo de um texto que eu mesma escrevi. Parece-me que também escrevo para esconder meus segredos, enganar minhas dores e vencê-las a ponto de lhes dizer: vocês não me dominarão. Recuso-me a padecer de meus males. Luto contra todos. Que desaforo render-se a eles!

Escrever me organiza, ainda que o caos arrombe novamente a porta . Enquanto houver vida há de se transformar caos em cosmos, buscar forças sabe-se lá em quê. Cada um é que sabe.

Um livro pode ser a tentativa de se refazer, de eternizar acontecimentos e sensações, mas também o desejo de ultrapassá-los para que algo novo possa surgir na vida e na arte.

“O sentir mais belo” brotou da necessidade de me libertar das prisões cujas correntes eu mesma me impus e, impiedosamente, apertava-as. Dezoito contos, aparentemente desconexos, que, lidos na ordem disposta, formam um todo interligado e único. Um sentimento profundo e subterrâneo percorre o livro, um fio invisível que liga seus componentes à maneira de um colar de pérolas.

As histórias são protagonizadas por uma personagem em diversas fases da vida. Menina, adolescente ou mulher descobre que ser amada não basta. Quer ser adorada, reverenciada, e entende que ao homem, submetido à precariedade de sua condição, não foi dada a possibilidade de um sentimento dessa magnitude. Cai na mesma ambição da poeta Florbela Espanca em que apenas a ideia do amor de um Deus a faz dormir tranquila.

O título carrega o adjetivo “belo”, não no sentido de bonito ou harmônico, mas querendo significar algo verdadeiro, de alguém que, em momento algum, pretende se enganar a respeito do que sente, ainda que seja dor.

A capa do livro não é menos desprovida de sentido. Um esboço de rosto de mulher com sobrancelhas, olho, nariz, boca e queixo. Não há cabeça? É que ela é “um coração batendo no mundo”; coração que morre um pouco a cada dia, porque sente tudo com muita intensidade. Um casal olha o rosto da mulher mergulhada em si própria, mas há quem diga que eles estão a contemplar pássaros no céu azul. O céu que a invade ao fim da narrativa.

Talvez, num primeiro momento, poucos vejam os pássaros. O rosto da mulher é tão mais óbvio e chamativo. As aves, apenas simbólicas, disfarçadas de sobrancelhas e olho, representativas da liberdade a que a personagem se lançará depois de se convencer que nada pode subjugá-la, pois é amada por um Deus.

Ao estar com o livro em mão, meu sobrinho de apenas dois anos, Otto, cujo nome carrega a imponência que percebo em sua postura, nada viu além do oculto. Ao mirar a capa, disse num tom firme como quem profere sentença: “passarinho”. A mãe, sem nada entender e, preferindo perder a cunhada do que a piada, aproveitou para brincar: “Sua tia está igual passarinho mesmo, Otto… livre, leve e solta”.

O episódio restou provado num vídeo em que Otto revela o que poucos veem: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

“Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”. Não, Nicodemos. Não será preciso retornar ao útero materno. Nem seria possível. Veja o que está por trás dessa frase, o oculto que a permeia. Renascer é morrer para as ideias preconcebidas e ver as coisas com o mesmo olhar com que as crianças veem.

Diante da capa de “O sentir mais belo”, se não conseguires ver uma mulher que deseja a liberdade dos passarinhos é porque vos é necessário olhar de novo.

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