A construção do ser em Clarice

Em “Água Viva”, Clarice diz: “Criar de si próprio um ser é grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se.”

Toda a obra de Clarice concentra-se na busca do ser, em atingir o “é da coisa” que consiste numa espécie de núcleo ou cerne que há em nós e que nos dá o animus de vida. Assim, na tentativa de se aproximar de nosso centro vivo, básico, primitivo e originário, Clarice busca a construção do ser que, na sua Literatura, passa primeiro por uma desconstrução para que seja reconstruído. A construção dá-se num movimento de fora para dentro, até chegar ao “caroço”, “semente viva” e, para tanto, é necessário o despojamento total do eu construído.

Desse modo é que seus personagens se veem diante de acontecimentos cotidianos e rotineiros que os fazem pensar o tipo de vida que levam, muitas vezes, provocando o desmoronamento de tudo aquilo que até então constituía o alicerce sobre o qual se ancoraram por anos.

Entretanto, nem sempre, estes personagens possuem a coragem ou as condições de tentarem vida nova, pois tal atitude demandaria uma mudança profunda em crenças e ações, a ponto de passarem a ser uns desconhecidos tanto para eles mesmos como para os outros. Assim é que, mesmo ao perceberem a mentira na qual se instalaram, porém sem forças ou disposição a fim de lutarem contra as várias pernas falsamente criadas, os personagens retornam às suas vidas e tentam esquecer o que viram para não passarem pela reconstrução.

Em “A cidade sitiada”, Lucrécia mora com a mãe no subúrbio de S. Geraldo. As duas, apesar de habitarem o mesmo espaço, mal se falam e, mesmo quando a mãe, viúva, tenta enveredar por intimidades sobre si mesma, Lucrécia sempre encontra um jeito de fugir das conversas. Vai para a sala de visitas que nunca recebe visitas e fica a observar os objetos, quase a se comunicar com eles como se ela própria fosse apenas um objeto a ser olhado. Flerta alguns moços, mas se casa com Mateus, homem bem mais velho, e que representa a possibilidade de ir embora de S. Geraldo, além de lhe oferecer o conforto e a comodidade econômica que ambiciona. S. Geraldo está em pleno desenvolvimento e progresso com suas indústrias, lixos e esgotos, a cidade está em construção e seus habitantes também vão se formando, não assentados na busca do ser, mas do ter e do fazer que dão toda uma aparência de evolução do homem.

O tema da construção do ser é retomado em seu quarto romance “A maçã no escuro”, cujo protagonista é Martin, engenheiro, não por acaso, que foge de São Paulo, crente de que cometera um crime contra a esposa com quem tem um filho. Sozinho, começa a experimentar a falta de sentido da vida, mas pelo menos diante da possibilidade de se ver “livre do incômodo de ser compreendido.” No silêncio que se faz no seu interior começa a sentir a própria presença e a libertar-se para ser ele mesmo. “Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio”.

Martin é um homem que quer ser herói, reconstruir o mundo, mas percebe que há enorme pretensão no seu desejo, pois antes é preciso começar por si próprio. Para tanto, ele comete um crime, que representa a destruição do homem anterior, e entrega-se à fuga, ao silêncio e ao vazio, longe da prévia ordem e de todos que pertenciam à antiga vida. Martin percebe que ao homem só é possível ser herói de si mesmo. Herói de sua própria reconstrução.

A paixão segundo G.H. é todo voltado para a despersonalização e desconstrução da personagem, preconceituosa e mesquinha, cuja aparência de ser se apoia na posição social, nos bens que possui, numa “profissão” que exerce de forma amadora e na ideia que os outros fazem a respeito dela. G.H. só percebe a mentira em que vive quando se contrasta com o vazio e a claridade do quarto da empregada que ela pretendia limpar por imaginar imundo. Seu “eu” é demolido ao constatar que de pouco se precisa para ser e viver. “A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mais eu quisera mais”.

No entanto, Clarice revela o despojamento total do ser por intermédio de Macabéa, personagem de seu último romance “A hora da estrela”. Sozinha no mundo, pobre, tão desprovida de linguagem que é quase muda, Macabéa representa a nudez final. Ela é apenas a “semente viva”, seu viver resume quase no respirar. Macabéa é o caroço, é a desconstrução até chegar aos ossos, é a estrela que brilha porque representa o ser nu e cru, livre de máscaras, de coisas e de nomenclaturas que enfeitam.

De todos os personagens dos romances de Clarice, Macabéa é a única que morre, talvez para demonstrar que a morte nos iguala, momento em que nos despimos de absolutamente tudo aquilo que construímos à custa de tempo que é vida, mas que não nos priva da morte. Ela, que fulmina a todos. Morre-se num instante. Mas o grande problema é que a gente se esquece.

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