A PIOR DAS TENTAÇÕES

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada ao forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou como que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”

“Quando lhe haviam dado para ler a “Imitação de Cristo”, com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido – perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação.”

Se Laura escapou ao fascínio de imitar Cristo, por imaginar que copiá-lo representaria a perdição de uma pessoa, não se pode dizer o mesmo sobre a tentação de imitar uma rosa, a qual cedera a ponto de ser internada sob o argumento de que “não estava bem”.

Após alguns dias de internação, Laura volta para casa sem, no entanto, esquecer a recomendação médica de que ela tomasse um copo de leite entre as refeições para evitar a ansiedade ocasionada pela fome e, principalmente: “Não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem”.

Mas para estar “bem”, Laura deveria ocupar-se, sem pausas, o que fazia com certa destreza ao passar as roupas do marido, organizar metodicamente as atividades domésticas, ordenar a casa e ficar à espera de Armando com o fim de atendê-lo em suas necessidades. Vestida discretamente de marrom, “ela castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser”, passava o dia cuidando de tudo, sempre cansada, exausta, sonolenta, vivendo a “verdadeira vida” ao lado de um homem que nunca pretendeu se casar com uma bailarina, mas com uma mulher larga, lenta e de pernas grossas, de quem poderia se esquecer por horas já que ela não representava qualquer perigo à sua virilidade.

Para tanto, Laura não parava um instante sequer, “as pessoas na Terra se cansavam e envelheciam” e assim devia ser, “ela, que nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem” vivia para agradá-lo; ele, que fingia escutá-la em suas conversas cansativas, preferia mesmo que a esposa fosse pequena, chatinha, boa diligente, “uma senhora distinta”, “mulher sua”.

Armando retornava do trabalho às pressas, ofegante, temeroso de encontrar Laura calma e serena, entregue a si mesma. Tudo que mais desejava era olhá-la e deparar-se com um sorriso que passou a ser símbolo de sanidade da mulher à espera do homem. Porque não a suportaria com aqueles sintomas dos quais ela já havia se curado. “Não mais aquela falta de fadiga. Não mais aquele ponto vazio e acordado e horrivelmente maravilhoso dentro de si. Não mais aquela terrível independência. Não mais a facilidade monstruosa e simples de não dormir – nem de dia nem de noite – que na sua discrição a fizera subitamente super-humana em relação a um marido cansado e perplexo.”

A normalidade seria apenas o cansaço, a ocupação sem tréguas, a falta de tempo, o rosto decaído, a busca de uma finalidade para cada ação, a falência diária, a obediência cega e muda. Laura cuidava para ser “normal” como os demais, de modo a não escandalizar aos outros nem ao marido de quem sentia tanta piedade que cuidava de não ultrapassá-lo. “Ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranquilo se empluma nas águas, se tornara super-humana”.

Era preciso igualar-se aos outros, entregar-se à vida comum, fugir das extravagâncias para não ser novamente mandada àquele lugar dos que não estão bem. “E, como para todo mundo, cada dia a fatigava; como todo o mundo, humana e perecível. Não mais aquela perfeição, não mais aquela juventude. Não mais aquela coisa que um dia se alastrara clara, como um câncer, a sua alma.”

“Olhai os lírios do campo”, “olhai para as aves do céu”. “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”, “não vos inquieteis”. Se Laura fugiu ao chamado de Cristo, “a pior tentação”, quando se percebeu estava diante do apelo mudo de rosas perfeitas, belas e tranquilas. As rosas plenas em suas vestes de ser. Majestosas a não mais poder.

Era preciso se desfazer delas, pois também eram tentadoras. “Aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco.” Pensou em dá-las à amiga Carlota. Evitar olhá-las e deixar-se seduzir. Olhai, olhai, diz Cristo. E olhar é pura loucura do corpo. Laura resistia. Até quando? “Olhou-as com enlevo, pensativa, profunda”. E antes que a empregada levasse as rosas para Carlota, Laura se deixara tentar pela perfeição.

Não mais fatigada, cansada e sonolenta. Livre de preocupações e ansiedades, “eu me deixo ser”. As rosas abriram-lhe a claridade. Laura estava fresca, luminosa, calma e suave. Serena, sem pressa, altiva na sua solidão. Perfeita e desabrochada como uma rosa.

“Voltou, Armando. Voltou” – disse Laura ao marido.

Era a perfeição. “Sede vós perfeitos, como é perfeito vosso Pai celestial” – ah Cristo!

Armando fingiu não entender. “Ele sabia que ela fizera o possível para não ser luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso”.

Laura, alerta, tranquila, com “a serenidade do vaga-lume que tem luz”. Ao imitar a rosa, ao sê-la, ela cedera à pior das tentações. Mulher.

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