EM NOME DO OVO

Na entrevista dada à TV Cultura, ao ser questionada sobre se se considera uma escritora popular, Clarice Lispector é incisiva: “Não. Me chamam até de hermética. Como é que posso ser popular sendo hermética?” O entrevistador quer saber a que ela atribui essa adjetivação; responde: “Eu me compreendo, de modo que não sou hermética para mim.” Mas logo em seguida faz uma objeção e declara que há um conto que escreveu e que ela própria não o compreende muito bem, “é um mistério para mim”. Este texto se chama “O ovo e a galinha” e, talvez, por atribuir-lhe caráter misterioso, Clarice o escolhe para lê-lo no primeiro Congresso de Bruxaria, em Bogotá, ocorrido em 1975.

Mas ao contrário de Clarice Lispector, sem qualquer pretensão de impor meu entendimento a quem quer que seja, declaro que entendo “O ovo e a galinha” muito bem. Objeto de inúmeras, incansáveis e inesgotáveis leituras, “O ovo e a galinha” não permanece de todo misterioso e indecifrável para mim. O que há de invisível e oculto nele não é sobre o que se fala, mas a origem ou causa a respeito do que se fala. De onde viemos, para onde vamos, o que somos são as grandes perguntas sem respostas que permeiam a obra de Clarice, mas a falta de respostas não a impediu de perscrutar o mistério, mesmo ciente de que jamais conseguiria revelá-lo; sequer tocá-lo.

A galinha é personagem que se faz presente nos textos de Clarice como figura representativa da mulher, da mãe, a “depositária do ovo”, aquela cujo destino foi previamente traçado e impresso no próprio corpo que é todo configurado e moldado para receber, abrigar o filho e alimentá-lo, “nascida que fora para a maternidade”. A mulher é mero instrumento utilizado “por quem?” para perpetuar a espécie. “Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso.”

Segundo a autora “há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito”, cuja mulher foi diretamente escolhida para ser peça fundamental. Nem mesmo Deus, em toda sua onipotência, trouxe a luz ao mundo sem utilizar-se de um corpo de mulher. Marias, mulheres, todas eleitas.

Para Clarice “o destino de uma mulher é ser mulher” e ela não teme dizer que esse destino é a maternidade, no entanto, diz simbolicamente, porque há verdades que não são para todos os ouvidos. “Chamar de branco o que é branco pode destruir a humanidade.” E aqueles que ousaram dizer certas coisas foram punidos com a morte. “A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “rosto” morre; por ter esgotado o assunto.” O assunto esgota-se quando se diz: “O destino de uma mulher é ser mulher.” Ao contrário do que pensou Simone de Beauvoir, mulher nasce mulher e as que não nascem, mas sentem-se, querem tornar-se.

Clarice ousa afirmar que as mulheres não servem a si próprias, mas a esse destino que chega a ser mais importante que elas mesmas, que as ultrapassam, de modo que suas vidas não interessam. “A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha.” Ainda que se dediquem a outras funções, tudo é feito para que não esqueçam a função-maior. Inclusive, a proteção e as vantagens que se dão à galinha são apenas “as condições ideais para o ovo”. Mas elas acham que é tudo em nome da mãe. Daí que devem manter-se sempre distraídas, míopes, tontas, desocupadas e fúteis. A cabeça de uma galinha é tão pequena se comparado ao seu corpo; elas são tão nervosas, ciscam pra lá e pra cá, “cacarejam o dia inteiro”… Porque galinha não foi feita para pensar sob pena de desistir de sacrificar sua vida.

“O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.”

Ser mãe é sacrificar-se em prol do ovo, com prazeres e dores, sob a justificativa de amor grande, incondicional, sem considerar que amar implica lutos e perdas e que o amor não é dado em benefício da agente, mas daquilo que ela abriga com o fim de privá-lo do sofrimento da galinha de ser.

“Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal.”

Mas há aquelas que não querem sacrificar a própria vida, nem por amor, as que não sabem perder a si mesmas, doar-se, entregar-se; portanto, lutam contra o destino. São as que se sentem preciosas. “A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria.”

Ocorre que para a mulher que já viu o filho ter vida própria é que passa a ser sacrifício; “Nasce a mãe, nasce a culpa”. “Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu.” Nessa culpa, muitas se afundam, choram, adoecem, suicidam, sentem-se incompreendidas e cansadas. “Amo meu filho, mas odeio a maternidade” – a frase que muitas não conseguem mais calar, como quem diz: “Odeio meu destino, mas não consigo fugir dele”.

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