Feixe de lucidez

Não raro, Clarice Lispector retrata em seus contos a vida da dona de casa comum, dedicada ao marido, às exigências dos filhos e ao ambiente doméstico, que, em algum momento, diante da observação de um acontecimento corriqueiro ou mesmo de algo natural e aparentemente incólume como a visão de uma rosa, revê toda a vida de modo a fazê-la pensar se realmente a vive da forma que melhor corresponda aos próprios anseios íntimos, à maneira que mais lhe apraz ou deixa-se levar cegamente por convenções, ideias e imposições alheias.

Algumas dessas mulheres, num feixe de lucidez, até conseguem sonhar abandonando-se ao desejo de escapar da situação na qual se instalara, como aquela do conto “A fuga”, que decide partir e deixar o marido, programa a viagem de navio que a afastará da prisão onde se encontra, no entanto retorna cansada ao lar e deita-se na cama onde enxuga as lágrimas e silencia. Ela se lembra que nem ao menos possui dinheiro para realizar a viagem, além do mais, o costume e o hábito paralisantes rondam-lhe os pensamentos: “Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa.”

Também a portuguesa do conto “Devaneio e embriaguez duma rapariga” encontra-se angustiada e triste com a própria vida. Certa vez, diante da ausência do marido e dos filhos, decide aproveitar o silêncio da casa para ficar um dia inteiro dentro do quarto entregue a si mesma. Vai até o espelho, olha os seios refletidos, entoa um canto de liberdade, mas no momento em que se lembra de sua condição de mulher fecha-se subitamente dura, colérica e feroz. Dorme algumas horas, acorda quando o homem chega, mas volta ao sono. Ele que se sirva das sobras do almoço e sequer ouse tocá-la. “Ai que não me maces! não me venhas a rondar como um galo velho.” Ela amava, mas não este com quem dormia todas as noites e que a fizera transformar-se numa “folha seca”.

“Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar. Quem sabe lá, isso às vezes aconteceria, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois.”

Houve um dia em que saiu com o marido para encontrarem-se com um negociante. Bebeu vinho, ficou tão eloquente que admirava a própria fala, embebia-se de si mesma; ardor, gargalhadas, desejo, brilho e malícia frente a outro tão mais interessante, rico e fino. Sensibilizou-se ao ver um quadro. Bem que poderia se tornar artista. “Ninguém lhe tiraria cá das ideias que nascera para outras cousas. Ela sempre fora pelas obras d’arte.”

Voltam para casa e, sentada no leito comum, vê-se diante da realidade. Sentia-se muito maior do que de costume, o vinho a alargara e a tornara luminosa, mas para se adequar ao ambiente concreto, feito de carne e sangue, precisava reduzir de tamanho, não se abandonar em sonhos. Lembra-se de quando uma mosca pousou-lhe na pele excitando-a muito mais que o toque do marido. “… que não me venhas a maçar com carinhos.” Abre os olhos, tudo igual, familiar. A falta de sentido, o “corpo anestesiado”, ela conformada, resignada, desiludida, triste.

Mas a promessa do dia seguinte encheu-a de força, pois representava a fuga de seus devaneios. Retiraria toda a sujeira da casa que havia negligenciado um dia inteiro, removeria a imundície daquele lugar já que não se permitiria limpar as poeiras de dentro dela. Nesta noite, era a “cadela” no cio a contemplar a lua alta. Mas na manhã seguinte, voltaria a ser a esposa, a mãe e a dona de casa que tudo ordena para que ela mesma não saia dos trilhos.

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