Desejo de amor

O espanto provinha da sabedoria de quem sente; ainda que quisesse não poderia voltar atrás, pois o desejo conduzira naturalmente os passos. Desejo de amor.

Outros foram os tempos em que experimentava o gosto bom de ter. De quando saía às cegas ao encontro daquilo que nem precisava procurar porque sempre achava. Mas tanto havia se passado sem que ninguém lhe desse as mãos suspensas no ar porque ela tudo dispensava. Parecia querer viver no deserto para provar a própria força e resistência. Como se tivesse que ir até o fundo de um poço sem fundo e, mais tarde, ressurgisse gloriosa.

Glória não há que se compare ao prazer de querer e ter; ou talvez de ter e, mesmo assim, não querer. Mas por que não querer o que se quer? Que coisa é essa tão maior que amedronta a ponto de deixar de viver mesmo diante da certeza do ultimato que sobrevirá?

A vida chamando, o amor gritando. “Fale mais baixo” – diz. “Se puder, cale-se”. Perdera o jeito. Mas vai desajeitada enquanto arruma o vestido e acerta o passo. Não há outro modo senão ir e ir vendo e provando o que vem vindo no caminho. O encontro ao que não se evita.

Essa mulher nada sabe. É tão burrinha que acredita nas ideias formadas pelos outros que também de nada sabem. Ela achava que as coisas deveriam ocorrer devagar e nunca lhe passara pela cabeça que em poucos minutos uma avalanche pode tomar conta de tudo. E descobriu que não era tão sabida para ficar todo o tempo de queixo e peito erguidos. Precisava ser mais humilde para reconhecer que há chama em tudo o que vive.

Sem querer assustar, chega de mansinho, ajusta o tom de voz, tateia… tudo em nome da delicadeza dos sentimentos. Como se o amor também não exigisse mãos fortes. Parece até uma iniciada.

Um homem disse-lhe, com culpa nos olhos: “Não quero deixá-la em pedaços”. E nem lhe vinha a lembrança de que algum dia fora inteira.

Ela só precisa sentir e saber que basta a alguém estar vivo para que haja fogo.

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