Fatal destino

Tantas vezes aquele acontecimento lhe vinha à cabeça, invadia sem prévio aviso. Como flashes de instantes, sorrateiramente penetrava por entre frestas não fechadas pelo tempo que nem sempre dá conta de tudo. Quando menos esperava aí mesmo é que surgia com a força estranha do oculto. Uma vaga lembrança perdida que chegava a se perguntar se de fato ocorrera aquilo que pensava ter existido.

O homem aproximava-se, sem pedir licença, e ela calava, atenta, sentindo, deixando… Ele voltava, devagarinho. Permitia, não alardeava, muito menos confessava.

Em algum ponto as visitas deixaram de acontecer. Eram tão silenciosos aqueles momentos, desprovidos de resquícios, que ela mesma duvidava de que alguém estivera ali. Preferia acreditar que não passava de imaginação e evitava pensar no sofrimento de uma vaga ideia. Sentia-se culpada. Ela, tão menina, uma criança, por que obrigavam-na a coisas de adulto? Ora, talvez já tivesse nascido um pouco velha.

Certo dia, numa fila de supermercado, um homem a interpelou: “Menina, você sabe do seu poder?” Ela sabia, mas relutava. Também não queria nada que a diferenciasse das outras em troca de ter que suportar carga tão pesada. Não pedira para nascer, muito menos exigira graças ou benevolências. Para quê? A troco de ter que lidar com os extremos dos sexos? Porque o que nela fazia com que homens se aproximassem desde muito cedo era o mesmo que distanciava as mulheres desde muito cedo. Amada e odiada, venerada e antipatizada por motivo comum.

A amizade lhe era escassa, quase impossível de acontecer. Se, de um lado, recebia desprezo e indiferença das filhas de Eva, cujas comparações deságuam em ciúmes e desavenças, do outro, ficava de sobreaviso a aguardar o momento em que os pretensos amigos lhe revelariam as reais intenções. Era sozinha por imposição de um destino que não escolhera.

Com um desses amigos ousara mais, pois sabia que o desejo dele não recaía em mulheres. Imaginou que estava diante de um sentimento que poderia durar toda a vida, pois isento de expectativas escusas vindas da outra parte. Por um longo tempo saíam para almoçar, tantas risadas e cumplicidade que era bonito vê-los juntos. Algumas pessoas estavam tão acostumadas com os dois que, ao deparar-se com um, já perguntavam pelo outro. Ela contava-lhe sobre encontros e namoros. Ele mantinha suas reais preferências em segredo. Sabendo, ela nem lhe indagava a respeito e mantinha a discrição como uma das chaves do relacionamento.

Num dia em que voltavam sorridentes de um evento, em plena luz do dia, ele desviou o caminho e parou o carro debaixo de uma árvore. Ela, sem entender, imaginou que o veículo apresentava algum problema. “O que aconteceu?” – questionou-lhe. Ele não titubeou: “É que não aguento mais de vontade de lhe dar um beijo.”

Surpresa, atônita, tomada por um misto de desilusão e tristeza, disse-lhe: “Pensei que podíamos ser apenas amigos. Vamos já sair daqui.”

Não quis encará-la outra vez. Nunca mais se viram. Mais tarde, tomou conhecimento de que ele estava casado com outro homem. Quanto a ela, sem amigos ou amigas. Sozinha por fatal destino.

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