a sabedoria dos ruins

O conto “Os desastres de Sofia” é um dos textos de Clarice Lispector que mais me impressiona. Após incontáveis leituras, sem, no entanto, vislumbrar deixar de relê-lo sempre que meu íntimo desejar, pareço a própria Sofia atônita diante de um homem que se revela: “Mas sei que vi. Vi tão fundo quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo.” Eu também vi, embora não saiba dizer o que vi.

Uma menina de nove anos cuja façanha é seduzir o professor alto, gordo, feio e de ombros contraídos, movida pela ânsia da matéria orgânica e ignorância de que é feita, guiada pela intuição, fome e sede que fatalmente a conduz ao homem. Ele, o santo. Ela, a prostituta culpada. Como seduzi-lo? Provoca-o durante as aulas, fala e sorri alto, irrita-o a ponto de fazê-lo odiá-la, tenta chamar a atenção do mestre das formas mais bizarras e inconsequentes, encara-o, mas ele nem a olha. Ao sair do colégio, leva o professor consigo até a cama, onde pensa nele antes de dormir. Ele a perturba mesmo quando não está em sua presença. No outro dia, recomeça o jogo da sedução que a fascina como se já houvesse tornado mulher.

Quer trazê-lo para o seu mundo a fim de salvá-lo dele mesmo. Do abismo em que imagina que aquele homem inocente, bom e desprotegido se encontra. Ela o ama como uma criança ruim que vê no crescimento uma redenção da maldade de que os infantes são feitos. Para Sofia, a meninice parece não ter fim. O que a move é a esperança de se tornar adulta e mais pura, já que, conhecendo a si mesma desde muito cedo, percebe-se, por vezes, má, dotada de instintos e ferocidades. A velocidade e a rapidez são os meios utilizados para alcançar mais depressa o estágio que pretende. Até chegar lá e perceber o quanto “a esperança é burrinha”.

Nada do que fizera até então conduzira-o ao seu mundo, pelo contrário, ele a evitava com todas as forças. Até que um dia o professor resolve contar uma história a respeito de um homem que sonhara com um tesouro e, ao acordar, decidiu viajar pelo mundo a fim de procurar o objeto precioso. Não o tendo encontrado, retornou para casa. Tanto plantou no seu quintal e tanto colheu que acabou ficando rico.

O professor pede aos alunos para completarem a narrativa cujo sentido é que a riqueza só pode ser fruto do trabalho duro. No entanto, Sofia, que já aprendera a “tirar a moral das histórias”, oferece-lhe uma totalmente destoante da que esperava. Escrever para ela era muito fácil e simples, pois “só sabia usar as próprias palavras”. E são essas palavras que provocam no professor algo que ela jamais imaginara. Na versão da menina, o tesouro está onde menos se espera. Bem diante dos olhos. É só achar.

“Suponho que, arbitrariamente, eu de algum modo já me prometia por escrito que o ócio, mais que o trabalho, me daria as grandes recompensas gratuitas, as únicas a que eu aspirava. (…) Ao contrário do trabalhador da história, na composição eu sacudia dos ombros os deveres e dela saía livre e pobre, e com um tesouro na mão.”

Pela primeira vez, o professor volta-se para Sofia com especial interesse. Quer saber sobre a história do tesouro que o deixou surpreso. Agora, ele a olha nos olhos, o que sempre evitara. Fala o nome da aluna em voz alta. O homem a reconhece; o texto, o verbo confere-lhe existência.

Quando percebe o estado em que o professor se encontra, misto de perplexidade e alegria, quer saber o que de tão excepcional havia escrito. Ela o enganara com a “lorota do tesouro”. Movida pela pressa de sair da sala para brincar e correr no pátio com os meninos, narrara qualquer coisa a fim de se ver livre da tarefa. E o “tolo” acreditara na mentira, pois ninguém encontra tesouro em qualquer lugar. E como se insinuasse que ela poderia ser esse tesouro, aí mesmo é que estava totalmente enganado. Ela não era “engraçada” nem “doidinha” como supunha. Era uma “safadinha” por quem um homem grande e bobo se deixava ludibriar.

Minguava a esperança que acompanhara a menina de encontrar redenção no crescimento. Esse homem, na tentativa de se salvar, agarrava-se a qualquer coisa, mesmo numa história descabida, sem pé nem cabeça. A mentira não serve apenas às crianças, os adultos também se deixam levar por ela. Há sede, vazio e carência por toda parte. O abismo da vida que nos leva a fantasiar, fingir e mentir não abandona o íntimo com a mudança dos estágios do corpo. Sofia e o professor se amaram, cada qual a seu modo. É preciso amar o ruim e o impuro mesmo que com amor duro e cheio de garras. Talvez, apenas nisso, o rei da Criação e a mulher do rei da Criação possam se redimir um pouco. Pois que assim seja! Amem!

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