Mãos vazias

Na noite anterior, minha mãe relembrou-me o nosso compromisso do dia seguinte: “Filha, não se esqueça, o corpo chega às 9.”

À hora marcada nos dirigimos ao cemitério onde seria enterrado um tio-avô que, quando vivo, pedira para descansar eternamente na mesma cidade onde repousava os pais e demais irmãos mortos.

Ainda não conhecia a nova morada física dos que partem. Há tempos residindo fora de Coribe, na última vez que fora a um enterro, o cemitério ficava ao fundo do quintal de meus avós maternos que, ao morrerem, nem precisaram se afastar tanto da casa onde ficaram por tanto tempo. Apenas um muro os separam, hoje, do lugar em que viveram muitos anos de suas vidas.

Diante da falta de espaço para novos chegados, a municipalidade providenciou outro local, agora, distante do centro da cidade, para aqueles que tiverem suas almas desprendidas do corpo e, inertes, precisem ser abrigados. Soube que ninguém queria inaugurar o novo cemitério para não ter que lidar com o fato de um parente padecer, sozinho, em lugar afastado e ermo, até que um senhor se ofereceu para ali ser enterrado, quando sobreviesse sua morte, de modo que a partir desse momento outros concordaram em deixar os entes em tão corajosa companhia.

Percebi que muitos habitavam aquele lugar que há bem pouco tempo todos temiam. O esquife encontrava-se quase no chão, apoiado em dois tijolos, um em cada extremidade, enquanto aguardava-se a presença de alguns familiares que estavam prestes a chegar. Ao redor, poucas pessoas conversavam, choravam e lastimavam a perda daquele que no dia anterior vivia como se nada fosse acontecer. Mal sabia que uma insuficiência cardíaca lhe arrancaria de surpresa o último sopro.

Atrás dos óculos escuros, eu olhava e via o tio inerte e aos demais como quem dorme. A viúva fez questão de deixar bem claro que cuidara dele até o último momento, fazendo-lhe todas as vontades, alicerçada na desnecessidade de quaisquer provas. Duas filhas em desespero de dor pelo motivo óbvio da perda e, talvez, por outros que jamais suporia. Um único irmão presente, pensativo e distante. Os filhos inquietos andando de um lado para outro, quem sabe se, dois deles, entorpecidos para não sentirem ou sofrerem.

Do vidro, observava e refletia, disposta a logo esquecer, sobre um rosto imóvel que, sem prévio anúncio ou despedidas, tudo deixava e, assim, retornava ao pó apenas de mãos vazias entrecruzadas sobre o peito .

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