O peso da luz

A solidão permeia toda literatura de Clarice Lispector. Percebe-se a presença desse tema nos contos, nas crônicas, nas cartas, sobretudo nos romances. O primeiro deles “Perto do Coração Selvagem” traz Joana, a mulher que experimenta a solidão já na infância e assim transcorre a vida, mesmo no período em que permanece casada com Otávio. Também, o último deles, “A Hora da Estrela”, com a pobre Macabéa, perdida e sozinha na cidade grande, abandonada pelo namorado, único que poderia confirmar-lhe a existência, mas a troca por outra na primeira oportunidade.

As personagens, na maior parte, femininas, parecem carregar os próprios dramas da escritora, que também deixou transparecer de inúmeras formas que a solidão era um estar em si. Talvez isso se devesse, em especial, à condição da família, que se viu obrigada a deixar o país de origem, em virtude da perseguição aos judeus, e aportar em terras estranhas à maneira dos exilados. Clarice nasceu no percurso de fuga, numa pequena aldeia da Ucrânia, onde pararam apenas para a mãe dar à luz a menina. Ainda, conviveu com a doença que progressivamente paralisava essa mãe, levando-a à morte.

O sentimento de culpa jamais abandonou a filha mais nova e a fez acreditar ser a causa da patologia que atingira a mulher que a gerou. Como se não bastasse, na adolescência, perdeu também o pai, restando-lhe apenas duas irmãs, das quais se afastou fisicamente durante os muitos anos em que viveu fora do Brasil para acompanhar o marido em seu ofício de diplomata.

Antes de casar-se, experimentou a desilusão do amor não correspondido, o qual era destinado a Lúcio Cardoso, com quem manteve apenas a proximidade de amigos ao tempo em que permaneceu o distanciamento do desejo irrealizável que ela jamais usufruiria.

Tanto a relação familiar como a do amor impossível foram retratadas no livro “O lustre”, seu segundo romance. Nele, Virgínia experimenta o estranhamento de pertencer a uma família cujos membros são totalmente alheios aos pensamentos e sentimentos dela, ao que se passa em seu interior, inclusive ao amor que sente pelo próprio irmão Daniel, com quem mantém um segredo que a ilumina contra o mundo. Clarice acredita na força que um segredo pode dar a alguém e, não raro, apresenta personagens, aparentemente frágeis, mas vigorosos pelo inconfessável tesouro que guardam dentro de si.

No casarão antigo e vazio de objetos, ornado por um solitário lustre e um tapete de veludo vermelho, mora a família composta por pai, mãe e filhos, Esmeralda, Daniel e Virgínia, além da avó paterna. Esmeralda, a preferida da mãe por lembrar-lhe os bons tempos idos, silenciosamente resignada, exasperada, nervosa por se ver presa ao ambiente doméstico e aos cuidados forçados de sua gente. Em contraposição, Virgínia, livre como um cão, fluida, movida por sensações que lhe percorrem o corpo, amando impossivelmente e fazendo desse amor a força de seus dias. Amor, que por não se materializar, é ainda maior e mais precioso dentro dela. “Ela só tinha ardor.” E, de tanto ardor, queimava sozinha e liberava todos da obrigação de amá-la e a ela se prender, inclusive Daniel, que se afasta sem que jamais tente impedi-lo.

Quando Virgínia e Daniel, sob a justificativa de estudarem na cidade grande, partem juntos para, anônimos, viverem sozinhos, ele se une a outra mulher e recua ante a liberdade. Retorna para a família com a esposa, enquanto a irmã permanece só para sentir a si mesma e tudo o que a cerca, sem interrupções ou pausas, imune ao peso dos outros.

Ao se ver diante da necessidade de abandonar o quarto em que morava e abrigar-se junto a duas primas percebe ser impossível dividir o espaço com alguém sem deixar-se influenciar ou contaminar. A liberdade de Virgínia incomoda as outras mulheres a ponto de exigirem dela o mesmo comportamento. No entanto, recusa-se a passar os dias sentada diante de uma máquina de costura em companhia das primas que há muito fecharam as portas para tudo o mais que se apresenta além do espaço físico onde ocupam.

Como o lustre aceso só e imponente numa sala; como o sol sozinho a clarear o dia; e a lua solitária a iluminar a noite, Virgínia precisava estar distante de todos. O brilho intenso atrai, mas também afasta por ofuscar a visão dos que o contemplam. O peso da luz é a solidão.

“Ela seria fluida durante toda a vida.” Com essa frase, Clarice inicia “O lustre” e nos dá mostras de que a personagem corre como um rio e nada a aprisiona, nem mesmo o amor, quer da família, quer de um homem.

Com essa fluidez, percorre todos os lugares e relaciona-se, mas jamais ancora-se em lugar algum. Daniel, Vicente, Adriano, Miguel… quantos homens de fato a possuíram para, depois de morta, ser acusada de prostituta por uma mulher que temeu perder o homem que supunha ser seu?

Sem pertencer a ninguém, Virgínia viveu uma espécie de liberdade alicerçada no centro vivo de si mesma. Se para Clarice Lispector, “a solidão é um luxo”, para a sua personagem a solidão é uma necessidade sem a qual a vida não pode ser verdadeiramente sentida.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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