Um dia de cada vez II

Coribe-BA, sexta-feira, 16 de julho de 2021.

Desde que cheguei a Coribe, sábado, 10 de julho de 2021, tenho acordado cedo todos os dias. Minha mãe levanta às 5, faz o café, realiza as atividades domésticas rotineiras com a pontualidade e o rigor de muitos anos. Varre o quintal e a frente da casa mesmo que não haja folhas caídas, limpa o chão limpo, retira o pó dos móveis e dos objetos que nunca se deleitaram na sujeira. Ela tem mania de limpeza e de organização que muito me agrada pelo prazer de estar num ambiente de frescor, no entanto penso que às vezes exagera nos afazeres. Faz tudo com tanta pressa que é quase impossível não ouvir o barulho que denuncia cada uma de suas tarefas diárias e repetidas as quais realiza antes de partir para o trabalho formal que a remunera.

É bom estar na terra de minhas origens materna, onde passei a infância e parte da adolescência. Aos 16 anos deixei a cidade para estudar, pois as possibilidades oferecidas não despertavam o meu interesse. Nessa época, não sabia bem o que queria, mas o que não apeteceria minha vida restou muito claro para mim, pois sempre observei bastante ao redor e, pela experiência dos outros, conseguia desvencilhar-me de situações que jamais seriam capazes de provocar-me alguma espécie de satisfação ou alegria.

Criança, já apreendia o ambiente, as emoções, os sentimentos, as lutas e as agruras dos que me eram próximos. Nunca condenei a maneira de viver de quem quer que fosse, nem mesmo quis impor meu modo àqueles em quem notava outras aspirações, mas havia acontecimentos que, para mim, seria a representação da própria morte. Uma morte em vida. O que é pior.

Não sou saudosa. Não há nada do passado que eu me pegue desejando reviver. Quando me vem alguma lembrança de outros tempos percebo-a muito fugaz. É que amo demais estar no presente, o exato momento em que vivo, como esse em que escrevo sentada no sofá da sala da casa da minha mãe enquanto ouço o barulho do vento frio de julho, o cachorro latir, o canto do galo do quintal vizinho e a melodia dos pássaros. A casa está silenciosa de vozes. Todos saíram. Aproveitei para ficar sozinha assim como quando estou em Brasília e passo grandes períodos gozando de tudo o que há dentro de mim. Eu não sei se isso é o que chamam de amor próprio, mas como curto estar comigo mesma. Como é difícil abrir mão de estar só para estar junto aos outros. Percebo que cada vez me afasto de tudo que vem de fora. Uma falta de interesse por tantas coisas. Sinto uma riqueza tão grande dentro de mim, gosto dos pensamentos que me habitam, dos sentimentos que movem meu espírito, das emoções que se apossam desse corpo que é tudo o que tenho. Modo de dizer. A consciência de que nada tenho não me deixou pobre, ao contrário, deu-me leveza, serenidade, compreensão e, quem sabe, um pouco de plenitude. Despertou-me o gozo de existir, de ser. Ser o quê? Bem, é muito profundo e impalpável para expressar em palavras. Mas sinto sou algo, embora intraduzível, confesso.

Coribe-BA, domingo, 18 de julho de 2021.

À noite fui à missa dominical. Entre muitas outras coisas, o padre falou sobre perdão, compaixão e fraternidade. Saí da igreja disposta a libertar todos de meus julgamentos, algo que talvez restasse possível se de lá me dirigisse a alguma montanha ou a um deserto. Só que meu destino era o jantar na casa de uma tia.

Ao chegar, os demais já estavam saciados de comida. Enquanto me servia da mesa farta conversavam sobre o mau comportamento de sacerdotes até desaguar em histórias de pessoas da família. A vítima da vez foi meu pai, que Deus o tenha!

Dele, basta-me conhecer um pouco de seu temperamento e comportamento. Mais para saber de mim do que do homem que foi. Quanto ao mais, não tenho sequer curiosidade. É prazeroso ouvir que era alguém alegre, inteligente e bom. Do meu pai, agarrei-me a esses adjetivos e ao mais dele que há em mim dentre tudo o mais que nem ao menos sei.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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