um dia de cada vez I

Coribe-Ba, domingo, 11 de julho de 2021.

Às 5h30min, acordo com a sonora e alegre voz da minha mãe a me chamar: “Filha”. O frio convidava-me para mais algumas horas sob as cobertas, no entanto, no dia anterior, havia assumido o compromisso de levantar bem cedo para realizarmos uma caminhada de pouco mais de uma hora. Ao me levantar, deparo-me com minha mãe prontamente trajada e desperta após tomar o café que preparara às 5h.

Em meia hora fico pronta e damos início à caminhada de domingo. Um vento gelado percorre o corpo durante os primeiros passos até que alguns minutos de puro movimento nos aqueça. Conversamos, rimos, fizemos algumas fotos durante o trajeto. Ao retornar, o nascer do sol ilumina pele e alma, faz-nos esbanjar um sorriso de contemplação.

“Como pode, filha, um único sol para iluminar qualquer lugar do mundo? Não é incrível?”

“Mãe, a senhora pensa nessas coisas?” – perguntei com espanto e admiração.

“Claro. Olha o céu. Parece estar pertinho de nós e, na verdade, é infinito. Não é incrível, filha?”

“Sim, mãe. É incrível. Eu também penso muito nessas coisas, mas não sabia de onde herdara. Agora entendi.”

O marido de minha mãe, ao nos escutar, balbucia: “Não precisavam se parecer tanto”.

Damos risadas. Dentro de mim aquela satisfação por sabê-la filósofa e não mera presença muda no mundo.

Que céu lindo pudemos admirar nessa manhã! Quão bom é ter olhos para ver, ouvidos para escutar, pernas para caminhar, espírito para perceber e mãos para elevar e agradecer.

Estávamos fascinados pela beleza do dia, contentes, luminosos, até sermos surpreendidos pelo barulho da ambulância que anunciava, talvez, algum trágico acontecimento. Percebemos à frente um agrupamento de pessoas em torno de alguém estendido no chão. Um acidente entre duas motocicletas deixa um rapaz ferido. Não me aproximei para vê-lo agonizar. O sofrimento do outro me dilacera, me entristece, me anula e coloca-me cara a cara com a realidade humana que tantas vezes reluto aceitar. Uma simples queda nos fere, debilita e derrama sangue.

Ah não! Como alguém pode sangrar e sofrer sob os belos e radiantes sol e céu? Entristeci. Não parava de pensar no rapaz que fora ferido enquanto percorria o caminho para chegar ao trabalho numa fria manhã de domingo.

Só mais tarde consegui respirar aliviada ao receber notícias de que ele estava bem. Não o conheço, mas nunca precisei ser íntima de ninguém para sentir a humanidade que nos une.

Depois do almoço, li algumas páginas de “Outros Escritos”, de Clarice Lispector, dado a mim pelo amigo Caminha. Não viajo sem Clarice. Tenho-a como uma velha amiga que, ao desnudar-se, possibilitou que eu me conhecesse melhor e, sobretudo, me aceitasse, me amasse. Clarice reforça a paixão que tenho pela pessoa que sou. Não é pretensão da minha parte. Como não nos querer bem se tudo o que somos, percebemos e sentimos só nos é possível por meio de nós próprios? Deveríamos intuir essa verdade logo nos primeiros anos de nossa vida a fim de não perdermos tempo ou nos torturar tanto.

“Talvez pela consciência tardia de que nós somos a única presença que não nos deixará até a morte. E é por isso que nós amamos e nos buscamos a nós mesmos. E porque, enquanto existirmos, existirá o mundo e existirá a humanidade. Eis como, afinal, nós nos ligamos a eles.” C.L.

Que não tardemos a nos amar, respeitar e entender no mais profundo de nós que representamos a única pessoa que não nos deixará até que a morte nos ultime!

À tarde, minha mãe insiste para que joguemos baralho. Concedo de bom grado, mas já nas primeiras partidas sobrevém o cansaço. Acho muito repetitivo, tedioso. Não gosto de jogo, não me anima nem me excita. Cheguei à conclusão que as competições não me atraem. O único jogo que permito jogar é o da sedução com os seus mistérios. Sutilezas, entrelinhas e delicadezas deveriam ser as únicas armas para fazer com que o outro se renda e nos conceda as cartas até a fatal entrega do trunfo.

18h30min Missa Dominical na Igreja da Praça da Matriz. Gosto de ir às missas. Essas que deixaram de ser apenas ritualísticas quando passei a entender os seus símbolos. Agradeço Dra. Filomena Camilo, médica pediatra e cristã que acompanho há pouco mais de três anos com suas explanações que me fizeram entender o significado da celebração cujos atos giram em torno do principal, a vinda de Jesus Cristo, o qual se faz pão para que dele alimentemos nosso espírito. Eis o pão vivo que desceu do céu.

É sempre bom revisitar a igreja onde ia às missas acompanhada de minha avó materna. Vejo o templo não apenas como um local de reforço da fé, mas também um lugar de memórias. De pé, frente a Cristo crucificado, lembro-me da primeira comunhão, do batismo ocorrido apenas aos 11 anos de idade, dos emocionados casamentos das últimas virgens da família com seus vestidos brancos e olhos sedentos e curiosos pela possível novidade da vida conjugal. A promessa de felicidade a que nunca aspirei numa vida a dois. Nunca desejei casar na igreja, muito menos virgem. Casar jamais foi um sonho. Pensava que se tivesse que ocorrer seria naturalmente, sem muitas euforias, fantasias ou festas. E como não representava sonho, casei acordada e de olhos bem abertos, sem papéis, testemunhas ou vestido branco que evidenciasse uma pureza há muito esquecida no paraíso perdido. Como jurar amor eterno? Senão que seja eterno enquanto dure como bem lembrou o poeta. Nunca esperei um príncipe. Sempre soube que os homens são homens todo o tempo e em qualquer idade. Ao saber de mim, compreendi-os bem.

Num relance, um dia posterior ao casamento de uma prima, apreendi em seu olhar certa tristeza de quem pouco gozou a noite de núpcias. No semblante, como quem pensa: “Era só isso?”. Sim. É só isso! Eu soube antes mesmo de casar.

A missa inicia com a convocação para pedirmos perdão pelos nossos pecados. Quanto a mim, nunca pequei. O proibido jamais me torturou. Amar é pecado? Eu amava. Tocar é pecado? Eu tocava. Sentir é pecado? Eu sentia tudo com muita intensidade. A consciência que me habita é de que não devo atentar contra nada que tenha sido criado. Então, não digo: “Perdoa os meus pecados.” Soa dentro de mim: “Perdoa-me por todas as vezes que atentei contra aquilo criado por Vós”.

Em êxtase, devoro um homem-Deus vivo, com seu corpo, espírito e sangue. “Vinde Senhor Jesus.”

“Eu não sou digno que entreis em minha morada…”.

Indigna, permito que entres em mim.

O padre anunciou a próxima missa para sexta-feira, 16 de julho, às 18h30min. Insaciável, se Deus permitir, lá estarei mais uma vez para atenuar fome e sede que nem mesmo Ele estanca.

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