costume

Sábado à tarde em casa, sozinha. A vida presa a quem não vinha por vontade pura, deliberada. Esperava. Há quanto tempo esperava? Perdera as contas de quantos dias e noites. Como estava cansada, sem esperanças. Como estava infeliz. O que via no horizonte era a repetição de uma rotina, um círculo em que sabia de antemão que daqui muitos anos à frente, nada. Nenhuma promessa. E aquele ardor de vida vivendo e queimando por dentro. Os olhos abertos no escuro de um dia de sol. Vazia, vazia por excesso de doação a quem não queria nem lhe pedia.

Angústia comprimindo-a toda. Nem beijos que aliviassem a ânsia da boca aberta e seca de ar. Um abraço que suportasse as batidas altas do peito quente, desordenado por amar demais. Amar a invenção de um amor. Tristes olhos que um dia brilharam. A chama aos poucos apagada nos minutos que correm sem oferendas. Para receber tem que pedir. Às vezes implorar migalhas de pão que pelo menos sirva para matar a fome do corpo, já que a alma é matéria inalcançável.

Um mundo que só precisa de um pouco mais de palavras delicadas, vindas das profundezas do sentir verdadeiro. Nenhuma lhe fora dita que já não tivesse inscrita no dicionário dos dias passados. Um único verbo e tudo se faria novo. Perdoaria anos de desejos frustrados e incompreensões. Perdoaria uma vida inteira não vivida e feita de esperas.

O perdão mais imediato deveria dar-se a fim de estancar uma mina que só pingava. Não sabia de onde vinha o pensamento de que não precisava, como se a ela coubesse apenas a obrigação da entrega. Se pudesse dar alguns passos para trás, mas havia avançado demais até chegar ao lugar onde habituou a não ter. A verdade é que se acostumou ao nada e quando lhe oferecem alguma coisa é tomada pelo desejo de fuga por puro medo de receber.

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