O inominável

E agora, agora, agora? Pergunta Joana após se cansar de todas as possibilidades apresentadas. Brincava, estudava, vigiava as galinhas do quintal vizinho, inventava estórias, mas… e agora? O incessante movimento dos ponteiros do relógio, o silêncio que se impunha enquanto, sozinha, esperava que algo acontecesse, embora soubesse que nada acontece a quem espera.

Conta ao pai uma narrativa que acaba de inventar. Para Joana não é difícil fazer poesias, é só ir dizendo. Dizer, pois não age conforme sente, mas da maneira que diz. As palavras constituíam a matéria-prima para criar o próprio mundo e uma realidade que poderia ser bem diferente daquela sentida pela criança supostamente frágil e desprotegida. A menina órfã de mãe, essa mulher que, de tão esquisita, o pai não gostaria que Joana herdasse qualquer traço de personalidade. Nem mesmo que se parecesse com ele. Queria que a filha seguisse caminho diverso.

O que vai ser de Joana? Tão magrinha e precoce – pensa o pai. Não tenho nada o que fazer. Impaciente, ele responde: Bata com a cabeça na parede. A menina chora. Passava horas pensando, pensando. Joana tinha projetos de ser herói. Não sonhava com felicidade. Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? A professora ficou chocada com a pergunta. Ser feliz é para conseguir o quê? Como entender uma criança que, com altivez e orgulho, dizia-lhe que não gostava de se divertir? Infante, já possuía o esnobismo daqueles que caminham contrariamente à multidão.

Agora estava verdadeiramente sozinha no mundo. O pai morreu sem aviso prévio, o que lhe conduziu à casa de alguém que nada tinha a ver com ela, porque Joana nada tinha a ver com ninguém. Talvez você não encontre mais ninguém que sinta com você, como… disse-lhe o professor o qual a menina amava.

A mulher não se sentia bem com a presença da sobrinha na casa. Joana parecia saber o que eles pensavam. Calada, observava, analisava, mantinha distância dessas pessoas que apenas brincavam de viver, afogadas em afazeres diários e rotineiros, enclausuradas num ambiente onde nem o vento nem o sol possuíam licença para entrar. Joana não só penetrava as paredes, mas também o íntimo dos que ali habitavam. Vivia como se não precisasse de nenhum deles, de nada, bastavam-lhe as ideias, os pensamentos, a extensão do seu ser infiltrando em todos, espalhando-se pelo mundo.

Mas se estou dizendo que posso tudo… Joana respondeu ao ser flagrada roubando um livro. Aquilo de que a tia necessitava para se ver livre da menina de uma vez. Antes que encontrasse um jeito de anunciar para onde a mandaria, Joana sabia. Quando é que eu vou para o internato? Atônita, olhou para o marido. Ele permaneceu mudo enquanto devorava o alimento com violência.

Mesmo do professor, em quem confiava, viu obrigada a se despedir. O homem que não lhe dava respostas para as perguntas que fazia, por não sabê-las, que a aconselhava aprender encontrar tudo o que existe dentro dela e sugeria-lhe que lembrasse de firmar o próprio valor. Não é valer mais para os outros, em relação ao humano ideal. É valer mais dentro de si mesmo. Ele, o qual não só falava sobre prazer, mas o despertava na menina que, embora não estivesse inteiramente pronta, estremecia de gozos ao se aproximar do mestre.

Nunca sofra por não ter opiniões em relação a vários assuntos. Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la.

Joana compreendia as palavras e tudo o que elas continham, assim como compreendia esse homem que mudava totalmente de semblante e comportamento diante da esposa. A menina o amava. A culpa era dele por ter-se inclinado demais para Joana, por ter procurado, sim, procurado – não fuja, não fuja, – , pensando que seria impunemente, sua promessa de juventude, aquele talo frágil e ardente.

Ao notar a brusca mudança diante da mulher, ao perceber que ele recuava, Joana lhe deu as costas. Tivera dele o que precisava. Sabia que, talvez, ninguém mais lhe revelasse coisas como as que o professor ousava dizer. Vive-se e morre-se. Todos se esqueciam disso e só sabiam brincar.

Ela estava pronta para existir no agora. Diante da verdade óbvia e inescapável da morte ocuparia-se com a vida que pulsa a cada instante. Casar, ter filhos, trabalhar, contar dinheiro… Tudo isso era muito pouco. Não faria como os outros, não brincaria de viver. Jamais esqueceria que em pleno dia se morre. Só mais tarde encontraria novamente o professor, a quem se dirigiu para dar o último adeus antes de se casar com Otávio. Queria ver aquele que tanto lhe ensinara, olhar em seus olhos, dizer-lhe. Mas após sofrer o abandono da mulher, encontrava-se mais velho, gordo, doente, sem paciência para ouvir qualquer pessoa, inclusive Joana.

No orfanato, seu corpo de menina desabrochava. Joana sentia-se bem viva enquanto as outras meninas permaneciam imóveis, dormindo. As sensações a invadiam e tomavam o seu ser por inteiro. Entregava-se ao prazer de pertencer a si mesma, por meio de quem poderia sentir os outros e o mundo. Livre. Mas Joana queria mais. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por que casara? E com um homem tão previsível e pouco ardente.

Otávio caiu facilmente nos braços de Joana, a quem considerava forte e fria. Queria estar ao lado de alguém que não lhe condenasse os erros e não lhe imputasse culpa por fraquezas ou desatinos seus. Joana dava-lhe a impressão de que ele poderia pecar tranquilamente, sem o crivo dos julgamentos. Com ela, seria livre. Desfez o namoro com Lídia, tão dependente, passiva, frágil, inerte. Tão diferente da feroz, selvagem e destemida Joana.

No entanto, manteve-a como amante. Lídia lhe daria um filho, pois fora o único homem que conheceu durante a vida; para ela, Otávio representava o mundo e conferia-lhe existência. Tudo o que mais desejava era tê-lo de volta e formar uma pequena família.

Ao visitá-la, Otávio percebeu que Lídia se distanciara dele desde que carregava outro ser. Havia alguém crescendo no seu interior e isso deixava-a presunçosa de tal modo a desprezar outras mulheres. Apenas Joana seria capaz de desbancá-la do pedestal ao esfregar a verdade de que em todos os ventres de mulheres podem nascer filhos. Assim, não havia motivo para se dar tanta importância. Até os animais… Ela mesma poderia, se quisesse, mas não desejava ligar-se para sempre a alguém, mesmo um homem, quanto mais a Otávio que, aos seus olhos, não era nada estimulante.

Joana foi ao encontro de Lídia disposta a ceder-lhe o homem. Eu lhe darei Otávio, não agora, porém quando eu quiser. Se ela representava a víbora de quem não se sabia o que esperar, Lídia oferecia certeza e quietude. Ao seu lado, Otávio poderia descansar de pensamentos intranquilos, pois jamais o surpreenderia.

Ao sair dali, Joana caiu nos braços do amante. Um homem que sempre a seguia e agora, diante dela, vendo-a cansada, oferecia-lhe um lugar para repouso. Quem era? Pouco importava. Não queria saber de suas origens nem do seu passado. E mesmo sem questionar-lhe o nome entregava-se a ele como uma nova possibilidade de amar. Ainda que por instantes fugidios os quais no outro dia restariam esquecidos. Joana sentia-o penetrá-la e deixou-o. Não podia fugir dessa mulher que apenas com um olhar acendia dentro dele todas as capacidades. Você promete demais… Todas as possibilidades que você oferece às pessoas, dentro delas próprias, com um olhar… não sei. Palavras que ouviu de Otávio, outrora fatalmente atraído por ela.

Mas sabia que abandonaria esses homens. Impossível manter a liberdade ligando-se às pessoas. Nenhum deles teria mais o seu tempo. Iria sozinha, sem medo, pois se o seu destino era a grande morte, evitaria morrer diariamente dando-se aos outros. Sozinha no navio em direção a um não-lugar. Alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Sozinha a procurar algo maior que a liberdade. O inominável centro de quem tem dentro de si a própria constelação.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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