AMOR

“Ninguém me ama, ninguém me ama”, repetia baixinho enquanto escorregava inteiramente o corpo por debaixo das cobertas. “Ainda estou acordada. Acende a luz.” A mulher sorria; fazia-lhe as vontades até que o sono viesse atirá-la no escuro da inconsciência. No outro dia, desperta, sentia a mais amada dentre todas e a confiança lhe invadia como a certeza de um dom.

Caminhava altiva, crente que possuía grandeza para tocar o alto. Parecia acreditar que era destinada à salvação dos outros, que poderia dizer palavra ou frase capaz de transformar mendigo em abundante, prostituta em imaculada, criminoso em santo, doente em pessoa cheia de saúde. Imaginava que se desse muito aos outros seria irremediavelmente amada. Adorada por aqueles que diante dela se ajoelhariam com promessas de se tornarem cada vez mais sãos.

Porque entregue a ideal tão alto mantinha-se cada vez mais sozinha, isolada. Ao seu redor não lhe havia correspondência. As demais entregavam-se à banalidade cotidiana, deixavam-se conduzir facilmente por outras, incapazes de formular algo novo ou manifestar sobre coisas que não fossem as do momento. Quando tentava enveredar por caminhos pouco percorridos recebia em troca a indiferença de olhares vagos e sem brilho, como se ao ouvi-la sentissem o perigo de vir à tona verdades que preferiam manter abafadas, jamais reveladas para não perturbarem a vigília.

Compreendia cada expressão e por meio delas percebia que a ninguém é dado o poder de mentir ou disfarçar. Calava-se. No mais fundo de si brotava a certeza de que jamais se faria amada, pois relutava conceder.

Mas para continuar precisava de força e era da força de um amor que lhe pedisse, oh não!, lhe implorasse para manter-se como é. Quem se aproximaria sem garras que ferissem sua sensibilidade já arranhada ? Quem ousaria aceitá-la límpida e transparente em seu estado mais puro? Bruto?

Inventou que era amada por um Deus grande, mais tão grande que, de tanto amor, se refez toda. E quando vinha o pensamento “ninguém me ama, ninguém me ama” não mais surgia aquela que com um toque iluminava o quarto. Então clamava pelo sublime, pela fonte de amor incomensurável. Acreditava no milagre de que uma luz azul se acendia toda dentro dela. “O céu em mim”. Sentindo-se amada, adormecia.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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