Abandono

As primeiras horas da manhã eram de um silêncio sem promessas. Acordava bem cedo, preparava o café forte, sentava-se horas no sofá da sala, onde alternava entre pensamentos e leituras. O vento entrava pela janela, o canto dos pássaros soava tênue nos ouvidos, às vezes, vozes de pessoas, choro de crianças, barulho ao longe de carros em movimento. As horas passavam devagar e o dia se intensificava todo em seu interior.

As lembranças sobre si mesma sempre a mostravam caminhando sozinha. Só mais tarde rendeu-se a dividir o espaço com outra pessoa. Um homem que dormia enquanto ela, na sua ânsia, devorava atenta cada fiapo de vida. Quando acordava ao meio dia, anos de existência já haviam despertado dentro dela.

À hora de preparar o almoço, dirigia-se à cozinha. Precisava alimentá-lo antes que saísse para mais um dia de trabalho, o qual se estenderia até a noite. Mais uma vez, sozinha, entregava-se a afazeres domésticos ou a cuidados consigo. Só não dormia. Preferia permanecer gozando esses momentos em que a própria companhia não a deixava se perder. Gostava do que pensava e das coisas que sentia lá no fundo. Rememorava o tempo em que foi amada por outros homens. Adorada como acredita que deveria ser, pois também é adoradora.

Ele anunciava “estou indo”, virava as costas e batia a porta. Ela não esperava mais nem um beijo na testa. “Vai com Deus”, respondia. Fechava os olhos úmidos e o acompanhava pela janela até o carro desaparecer. Depois ficava a pensar se algum dia lhe surgiria alguém que dela se despedisse com o amor e a saudade dos amantes.

Havia dias em que aproveitava o tempo para enfeitar aquilo que pretendia ser um lar. Trocava os lençóis da cama por outros limpos e cheirosos, arrumava os travesseiros com a delicadeza de mãos pequenas, dava dois passos para trás e olhava admirada o que poderia ser um belo e prazeroso ninho de amor.

Gostava de ambientes aconchegantes e agradáveis, com almofadas, tapetes, abajures que dão o tom de meia luz a lhe conduzir para cenas de romance.

Comprava flores. Orquídeas brancas eram as suas preferidas, pois têm a simplicidade e a sofisticação no ponto exato para seduzir qualquer olhar afável. Enquanto molhava as raízes da flor, fitava-a silenciosa e imaginava que, também ela, era uma orquídea. Uma orquídea que só não murchava com a secura dos dias, porque bebia de águas profundas. Águas que minavam um pouco a cada dia pela rudeza. Rudeza que parecia precisar para contrapor seu mundo por demais sensível.

Os passos na escada prenunciavam a chegada. Entrava mudo, calado. Ela tentava conversar sobre algo que lhe encantara durante o dia, imaginava com isso poder animá-lo. Fingia escutar, não prestava atenção nas falas da mulher que calava-se de súbito no meio de uma frase. Ele nem ao menos percebia a falta de sentido que ficava suspensa após a interrupção. O olhar não repousava nela, mas nos objetos, na parede, no nada.

À hora de dormir, cada um nos extremos da cama larga de lençóis perfumados. O homem não percebia nada do que preparava para recebê-lo. De costas viradas, dormia logo nos primeiros minutos. E ela com as mãos cruzadas e repousadas junto ao peito se mantinha toda acordada com os olhos abertos no escuro.

Uma resposta para “Abandono”

  1. Um excelente conto sobre solidão, o fim da paixão e a difícil arte da convivência. Escrito com sensibilidade e no cativante estilo de Maiara Veiga.

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