não há respostas ou a falta de resposta

De onde vim? Quem sou? Para onde vou? Essas perguntas, subliminarmente ou de modo explícito, permeiam toda literatura de Clarice Lispector. Ainda que escape às definições possíveis, ela pode ser lembrada como alguém que passou a vida à procura da coisa, de algo que, embora invisível e intocável, fosse causa, fonte ou origem de tudo que se manifesta aos nossos olhos e constitui a chamada realidade.

Essa procura se reflete em sua escrita, com que se ocupou até a morte e por meio da qual buscou tocar o impalpável, ou melhor, encontrar as respostas para as principais perguntas existenciais. Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

No romance A hora da estrela, escrito à beira do suspiro final, ela não esconde, já na dedicatória, tratar-se de um livro inacabado, porque lhe falta a resposta. Uma vez que não a encontra, cumpre a promessa e escreve até o fim.

Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando. O espanto, o estranhamento, o mistério e as interrogações diante do absurdo de estar vivo e de morrer foram as grandes inquietações da Clarice menina e mulher. A que nasceu sem saber por que, viveu, amou os outros, criou os filhos, escreveu e partiu não se sabe para onde.

Ela reconhece que a busca por explicações se mostrou infrutífera, inclusive dá vida à personagem que, diante de perguntas feitas ao namorado, ouve dele: Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta? Macabéa é a própria Clarice de olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos, admitindo para si mesma, na iminência de partir, o fato de não ter conseguido desvendar o mistério da existência que tanto a inquietou. Existir não é lógico. Além disso, pode ser totalmente desprovido de sentido.

Quem conta a história de Macabéa é Rodrigo S.M., o qual faz questão de afirmar ser o personagem mais importante dos que integram esse livro de treze títulos, cujo começo diz: Tudo no mundo começou com um sim. E tem por “grand finale”, também, um Sim.

Rodrigo S.M. representa a Clarice escritora, cuja maior importância não é sem razão, pois se não escrevesse os outros personagens sequer existiriam. Antes de adentrar propriamente na vida de Macabéa, reflete sobre a palavra e o ato de escrever. Para escrever não-importa-o-quê o meu material básico é a palavra. E procura falar de modo simples, nu, sem enfeites, tratando de dizer que essa simplicidade foi conseguida à custa de muito trabalho.

Admite que a escrita deu-lhe destino, pois a inseriu numa classe. No entanto, afirma que o faz não por ser intelectual, uma vez que escreve com o corpo. As sensações. E por que escreve? Não sabe responder. Só escrevo o que quero, não sou profissional.

Fazia questão de manter a liberdade e se considerava amadora. Ao tempo em que declarava estar morta quando não escrevia, também dizia que escrever lhe atrapalhava a vida. Mas deixou registrado que seguia esse destino por imposição. De quem? Escrevo por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”. Ofício que realizava de ouvido, isento de mentiras, sem fazer concessões ou rogar passagem. O que escrevo não pede favor a ninguém e não implora socorro: aguenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.

Com essa mesma dignidade, escreve o último livro no qual retrata a pobre vida de Macabéa, nordestina, órfã, perdida, que sai de Alagoas e vai para o Rio de Janeiro, onde arruma emprego de datilógrafa e mora num quarto com mais quatro moças, situado numa rua tomada pela prostituição. Ela que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha o terceiro ano primário.

Macabéa é tola, delicada, incompetente e vaga. Faltava-lhe jeito de se ajeitar. Para viver, pedia licença. Ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também Clarice, por meio do personagem principal Rodrigo S.M., confessa: Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus.

Mais uma vez confessa o que buscou durante a vida “encontrar o mundo e seu Deus”, busca que se mostrou inócua, luta que restou perdida, resposta que não veio, palavra não encontrada, mistério não revelado, motivo de “força maior” por que escrevia.

Quanto à Macabéa, ela era o próprio erro em forma de gente, além de encardida, suja e mal cheirosa. Mesmo sem saber tinha lá os seus encantos. Um dia, sob ameaça de ser demitida pelo chefe, desculpou-se com ele de modo a lhe revelar uma inesperada delicadeza que foi capaz de comovê-lo a adiar o ato. Saiu atordoada e se viu diante do espelho com a cara deformada, o corpo magro e encurvado, tão jovem e enferrujada, tão idiota e infeliz. Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha.

Vivia em meditação, entregue ao vazio de si mesma, acreditava em algo, “em quê?”, não se sabe, mas que lhe enchia de vontade de viver e a conduzia ao estado de graça própria dos santos. No entanto, não pensava em Deus, não o tocava. Ele também não pensava nela. Deus é de quem consegui pegá-lo. Macabéa não o pegava. Obediente, muda, subserviente, não indagava. É assim porque é assim. Melhor aceitar a falta de respostas que levar um baita “não” na cara. Vivia sua pobre vida vazia e murcha e nunca se revoltava ou gritava.

Virgem, seus ovários eram tão secos que ela seria incapaz de propagar-se em outros seres. Menos mal. No mundo há misérias suficientes. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. Macabéa bem que sentia uma coisa debaixo da saia, ah como sentia! Para passar o nervosismo da vontade insatisfeita tomava água com açúcar. Tinha sensualidade e muita lascívia dentro de seu corpo frágil. Quando olhava a foto 3 x 4 do namorado, a excitação subia ao sangue, pulsava-lhe as partes e ela precisava rezar a fim de ficar mais calma.

Atendendo ao apelo mudo de mulher é que foi conduzida ao homem. Olímpico, também nordestino, a convidou para passear. Ela, apesar de tola, sentia, e aceitou de imediato o convite receosa que ele desistisse. Olímpico passou a ser tudo para Macabéa, o outro que lhe conferia existência num mundo em que estava perdidamente sozinha.

Paraibano, foi criado por um padrasto que ensinou-lhe a arte de passar a perna nos outros. Roubava sem culpa e haver matado um homem constituía o segredo que lhe dava força. Queria vencer na vida, virar deputado, ver seu nome estampado nos cartazes, fazer que todos um dia soubessem quem ele era. Mas também tinha lá sua fraqueza. Chorava escondido nos enterros de desconhecidos. A verdade é que Olímpico era um coração solitário pulsando no mundo, o qual se afirmava grotesco, avarento e mesquinho, talvez como forma de mascarar sua precária condição de machozinho frágil.

Ao contrário de Olímpico, a moça achava que não precisava vencer na vida. Só queria mesmo era viver. Mas também alimentava o sonho de ser artista de cinema, o qual confidenciou ao namorado: Adoro as artistas de cinema. Sabe que Marylin era cor-de-rosa? Ele respondeu-lhe: E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema.

Ela não entendia as ofensas do rude Olímpico. Dava muito valor às boas maneiras, mas ele achava que a coisa mais importante da vida era mesmo o dinheiro. Macabéa não lhe causava prejuízo algum. A única cortesia que ele fez durante o namoro foi oferecer-lhe um café, o qual ela pediu para acrescentar um pouco de leite, mas o namorado tratou de avisar que se houvesse acréscimo ao preço ela pagaria a diferença. E quando foram ao zoológico, Macabéa pagou a própria entrada.

Não foi difícil para Olímpico deixar Macabéa e cair nos braços de Glória, que tinha gordura, casa e comida na hora certa, tudo o que podia interessá-lo. Na tentativa de amenizar a traição, Glória não só convidou a colega de trabalho para tomar um lanche em sua casa como também emprestou-lhe dinheiro para consultar uma cartomante.

Macabéa não recusou as bondades de Glória, nascidas do remorso de quem primeiro bate para depois alisar. Por não ter mais nada a perder, aceitou o dinheiro. Desesperada, foi ao encontro daquela que revelaria seu grande Destino.

A cartomante não só descreveu o futuro de Macabéa como a fez conhecer a vida miserável e infeliz que vivia no presente. Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de você, filhinha! Mas que horror!

Ela se espantou, pois não sabia que tinha vida tão ruim. Gostava de viver, alegrava-se, acreditava em anjos, tomava café frio antes de dormir, ia ao cinema de vez em quando e até se dava o luxo de comprar uma flor quando recebia o salário. Isso era tudo que tinha e conhecia. A vida que lhe agradava por não usufruir nenhuma outra. Mas, se agora descobria-se infeliz, havia a promessa de um belo futuro. Não seria demitida do emprego, teria o namorado de volta, melhor ainda, conheceria um homem que lhe entregaria uma grande quantia em dinheiro e depois se casaria com ela.

Macabéa transformou-se magicamente em outra pessoa. A promessa de felicidade a modificara por dentro. Uma felicidade explosiva que mal cabia dentro do corpo raquítico e fraco. As palavras! Oh! As palavras que contém em si mesmas o poder de alterar as sensações e a própria vida. Macabéa começou a tremelicar toda por causa do lado penoso que há na excessiva felicidade.

Saiu da cartomante ao encontro do seu maravilhoso e feliz Destino. A morte. Sim, a musa lhe alcançou em cheio ao ser atropelada por um Mercedes amarelo. Deitada no chão, seu corpo sangrava, as pessoas a notavam como quem olha para o céu e é ofuscado pelo brilho de uma única estrela.

Com a dignidade de barão, Rodrigo S.M. narra o ato final da personagem que ele tanto ama. Ele é Clarice imprimindo o registro da própria morte, recusando-se a deixar escapar o fim daquela que constitui o sujeito e o objeto de sua Literatura, o cerne de seu interesse – ela mesma. Eu me uso como forma de conhecimento. Eu te conheço até o osso.

Clarice se transmuta em suas personagens para viver todas as sensações possíveis, do nascer ao morrer. Não encontrou o que buscava, não tocou o intocável. O inalcançável fugiu à sua pretensão. E apesar de narrar a morte de Macabéa como se fosse a morte de si própria, intuía que, simbolicamente, não morreria: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.

Não morreu. Permanece viva no legado de sua vasta e inquietante obra, dentre a qual A hora da estrela, último romance. O livro que, para ela, não passa de um silêncio, de uma pergunta.

Pergunta sem resposta.

Sim.

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