Gertrudes pede conselho

Gertrudes pede conselho, um dos contos de Clarice que mais me impressiona e dele me valho principalmente quando, diante de uma dúvida relacionada a algum desconforto íntimo, penso que um conselho poderia cair bem. Acontece que ao terminar de lê-lo, uma força ressurge dentro de mim de tal maneira que me levanto heroica e aliviada, disposta a não pedir mais nada. Se algum desejo de solicitar conselho passou pela cabeça, ele se dilui e evapora diante da dura descoberta de Gertrudes que é, também, a minha revelação.

Gertrudes é uma moça de 17 anos que decide enviar cartas a uma doutora para quem pede ajuda. Tendo em vista tratar-se de profissional encarregada de menores abandonados, cuja função é somada ao fato de escrever para uma revista onde dá conselhos, Gertrudes imagina que pode receber dela algum tipo de amparo. Sentia-se abandonada, no entanto, seu abandono não era como aquele dos menores cuidados pela doutora, os quais foram deixados pelos familiares jogados à própria sorte. Ao contrário deles, Gertrudes tinha pais e vivia confortavelmente com os recursos materiais a ela oferecidos, salvo se não tivesse que dividir o quarto com as irmãs.

Algo a inquietava. Gertrudes passava horas pensando e não se interessava pelas coisas do mundo. Não sabia explicar bem o que sentia. Cogitou suicídio, no entanto desistiu. Sentia-se cheia de liberdade, mas isso não a deixava mais contente (e eu imagino que o ser humano não quer só liberdade, o que ele quer é uma espécie de aprovação). Nesse contexto, demandou auxílio de alguém que supôs ter condições de socorrê-la.

Apelidada com o nome Tuda, o qual disse envergonhada, seus dias eram tomados por uma mistura de sentimentos que iam da agitação à calma, do tédio à contemplação, da tristeza à alegria, da doçura à aspereza, do choro à insuportável felicidade. Tuda tinha um sonho ambicioso: Imaginava um futuro em que, audaciosa e fria, conduziria uma multidão de homens e mulheres, cheios de fé a adorá-la. Depois, pelo meio da noite, deslizava para uma meia inconsciência, onde tudo era bom, a multidão já conduzida, uma ausência de aulas, um quarto só seu, muitos homens a amá-la.

Seu ideal era por demais ousado e a afastava intimamente das pessoas com quem convivia, as quais se preocupavam com milhares de coisas ínfimas e corriqueiras, mas não se importavam em saber o que ela sentia. Enquanto Tuda pensava se entraria para um convento, salvaria os pobres ou trabalharia como enfermeira, suas irmãs devoravam animalmente um bolo sem a menor preocupação com nada. A mediocridade a espreitava. Durante todo o tempo, o banal ocupava a vida daqueles que a cercavam.

Mas, impossível ser grande num ambiente como o seu. Interrompiam-na com as observações mais banais: “Já tomou banho, Tuda? Ou, senão, o olhar das pessoas de casa. Um olhar simples, distraído, completamente alheio ao nobre fogo que ardia dentro dela. Quem poderia persistir, pensava acabrunhada, junto de tanta vulgaridade?

A conselheira a ajudaria. Tuda pôs-se a imaginar esse encontro. Enfim, seria compreendida. Diria à doutora assim que entrasse no escritório: Vim aqui por excesso de audácia.

Mas não foi bem o que aconteceu. Ao deparar-se com a mulher teve vontade de fugir, pois nem mesmo em aparência chegava perto ao que Tuda imaginou. Não tinha olhos fortes, mas vagos. Não mostrava calma, mas mexia inquietamente as mãos.

A doutora falava, falava, desatenta, dispersa. Insinuou que as inquietações de Tuda decorriam da idade, que iam passar, que o mesmo acontecia a todos durante a puberdade. Ela não precisava se preocupar; era só uma fase. Tuda também falava, mas sobre coisas comuns, pois percebeu que a doutora era igual aos outros e que jamais a compreenderia. Nela, não havia nada em especial.

A mulher estava cansada, impaciente, distraída, mergulhada nas próprias questões, envolta nos pensamentos sobre si mesma, sem interesse pelos ínfimos problemas de menina.

Isto vai passar. Você não precisa trabalhar, nem fazer nada de extraordinário. Se quiser, se quiser arranje um namorado.

Como acreditar que essa frase, esse lugar-comum, saíra da boca de quem Tuda pensou que lhe dissesse: Você terá papel muito maior na vida?

Tuda percebeu que era indesejada. A doutora não conseguiu disfarçar a raiva diante da menina burguesa dando-se demasiada importância, a falar sobre coisas insignificantes enquanto outros padeciam de problemas mais sérios. As agruras porque passava pareciam maiores que as de Tuda.

Sua raiva aumentou ainda mais quando notou que, ao pensar dessa forma, contradizia a tese individualista a qual aderira, cuja explicação centrava no seguinte: por mais que saibamos dos problemas maiores enfrentados pelos outros, esse saber não soluciona os nossos. E lembrou-se de que alguém lhe falara sobre a inconsistência das mulheres, a dificuldade que elas têm de manter um pensamento quando ele, de algum modo, não coaduna com os anseios íntimos de identificação. Essas mesmas mulheres cujas teses de apoio mútuo só duram o tempo em que, no meio de tantas iguais, deparam-se com outra de pensamentos e sentimentos próprios que não se dobra e mostra ser mais firme, audaz e muito mais forte. Tuda seria Tudo, menos o que a doutora queria que ela fosse.

A menina sentiu que a doutora não gostava dela. Tuda tinha a desgraça de sempre perceber, presente naqueles que parecem possuir mais sentidos que a maioria. Inútil disfarçar, pois rapidamente apreendeu a atmosfera da doutora. Elas não se comunicavam, os problemas de Tuda não a interessavam. Que viera fazer ali? Era inexistente não apenas aos familiares, insensíveis para notá-la em dimensões maiores, mas também para a doutora que não estava à sua altura e com ela não estabeleceria relação de igual para igual.

Tuda intuiu que deveria andar sozinha e não precisaria mais ser compreendida por ninguém. Desejar a aprovação dos outros é inútil e humilhante. A doutora tentou esboçar algumas palavras de conforto, mas mostrava-se cansada, incomodada com a presença da menina que, a essa hora, percebera o quanto aquela mulher, cujos olhos haviam denunciado a alma, era vulgar.

O que Tuda buscava poderia jamais ser encontrado, mas aquela conselheira não era suficientemente autêntica para revelar essa verdade. A doutora sabia que se pode passar a vida inteira buscando qualquer coisa atrás da neblina, sabia também da perplexidade que traz o conhecimento de si própria e dos outros.

Tuda era perspicaz, viva e inteligente demais para se render a um conselho tão pobre: Você continua estudando, sem se preocupar muito consigo. Queria que a menina se distraísse e se ocupasse com coisas que a fariam desviar de seus sentimentos e inquietações, da busca que poderia ser inalcançável.

Tuda saiu altiva daquele escritório e foi numa sorveteria, onde encontrou meninas que a encararam com inimizade e desprezo. Mas aquelas garotas nada tinham a ver com ela. Que importava a fingida indiferença com que a olhavam? Sabia que as pessoas assim o fazem ainda mais quando percebem a grandeza que habita o outro. Essas meninas nada sabiam da aventura que Tuda acabara de viver e que a fez tocar a própria superioridade frente a alguém que se contentava em dar fúteis conselhos, dos quais Tuda não precisava. Mas apesar da animosidade dessas mulheres, esbarrou-se com um homem que lhe sorriu com dentes brancos.

Jamais seria a Tuda de antes, algo dentro de si havia crescido tanto a ponto de distanciá-la de todos ao seu redor. Não era a única insatisfeita no mundo, o que sentia era mais palpável do que imaginava, existia correspondência para os seus sentimentos, a diferença é que os outros tentavam disfarçar e esconder por medo e vergonha o que ela admitia.

Caminharia sozinha, sem jamais pedir conselho ou ajuda. Reconheceu-se como alguém capaz de atravessar planícies inteiras sem mãos que a conduzissem.

Continuaria a andar de olhos muito abertos, cada vez mais lúcida. Pensou: Antes era daquelas que existem, que se movem, casam, têm filhos simplesmente. E d’agora em diante um dos elementos constantes de sua vida seria Tuda, consciente, vigilante, sempre presente….

Prometeu-se levar uma vida diferente de Amélia, da mãe, do pai e de tantos outros. Passou a andar a passos firmes, orgulhosa com seus olhos dolorosos que viam demais. Só participaria da vida comum das pessoas com partes minúsculas de si mesma. Uma nova Tuda surgiu. A Tuda mulher. Uma mulher! O poder oculto desta palavra. Porque afinal, pensou ela… ela existia! Andaria sempre à margem, só, distante, isolada.

Não procuraria a mãe, nem a doutora, nem a ninguém, pois cada um vive mergulhado na própria vida sem sair inteiramente de si para ajudar quem quer que seja. Tuda diria o que quisesse, faria o que bem entendesse. Nem daqui a vinte anos voltaria a um escritório como aquele.

Caminhava apressada, sozinha, sem apoio, mas com firmeza, feroz de alegria, consciente de que não precisava mais de doutora nem de ninguém para lhe dizer quem é.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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