O que é a vida?

Em Água Viva, Clarice Lispector não apenas nega-o como livro, posto não ser assim que se escreve, mas adverte sobre a impossibilidade de alguém recontar o que nele está escrito pelo simples fato de não ser algo dotado de enredo: Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não é possível cantá-la sem tê-la decorado. E como decorar uma coisa que não tem história? A autora vai se deixando acontecer livremente na sucessão dos instantes que se fazem um após outro, sem intervalo. É o fluir da vida, o movimento, o dinamismo dos instantes que se seguem, sem pausa.

Viver é sempre é. É. A menor e mais importante palavra da língua portuguesa, porque nela, para a autora, tudo se encerra. A vida não tem passado nem futuro, pois estamos sempre na atualidade. Quando o futuro chegar será um agora que, imediatamente, deixa de ser o que foi. A vida é um instante incontável.

Clarice tinha por ambição o inalcançável: Quero apossar-me do é da coisa. A coisa que é apenas no exato momento em que ocorre, logo em seguida deixa de ser. Acende, apaga. É e não é. É e não é. A energia pulsa, conforme revelou um cientista quântico. Ela desejava atingir o cerne da vida, destituindo-se de todas as camadas sobrepostas, até que ao fim se deparasse com Deus ou Nada.

O instante é fugidio, desliza e escapa entre os dedos. Num sobressalto, ao tentar agarrá-lo, abrimos as mãos e elas permanecem vazias. O presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Quando digo sou, já não sou. O próximo instante dá lugar a outro sou, o qual encerra e acaba em si mesmo, rápido e fugaz para que surja outro, outro, outro…. até o expirar.

Nesse mesmo instante, o que acaba de acontecer deixou de ser. O passado inexiste, por isso a tentativa de criá-lo e recriá-lo no presente, quando o rememoramos ou sobre ele escrevemos. O instante-já passa se eu não o fixar em palavras. Quando o passado era presente, ele nos escapava, de modo que o vivemos sem a paixão da memória, onde tudo toma proporções maiores, como quando Clarice diz que quer alguma coisa tranquila e sem modas, tal qual a lembrança de um monumento alto que parece mais alto porque é lembrança.

A vida é Água Viva com seu fluxo. É fruir o que está sendo. A vida é semente viva. Não existe tempo para o mundo. O tempo não começa, não termina, e só importa a quem se sabe perecível. Só existe para o homem consciente do nascimento e da morte. Enquanto a morte não nos ultima, somos uma incógnita que sabe. Cada instante, se vivido, prolonga a existência, essa coisa que se faz continuamente até que a morte nos conclua.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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