Por que Clarice lispector

Tudo o que li até o momento sobre vida e obra de Clarice Lispector partiu da tentativa de desvendar e revelar a escritora pelo conjunto de sua obra e do que se sabe sobre ela a partir de pessoas que a conheceram. Muitas vezes, seus livros são lidos e relidos com o intuito de traduzi-la. Esse não é o meu caso. Apesar de Clarice ser uma mulher interessantíssima e de beleza estonteante; apesar de transparente, lúcida, enigmática, inteligente e tantos outros adjetivos; apesar de admirá-la imensamente, nunca a li com o intuito de explicá-la ou compreendê-la.

Ela deixou uma rica e luminosa contribuição ao mundo, e conseguiu, por si mesma, mostrar a que veio. A mim, resta apenas a tarefa deliciosa, prazerosa e encantadora de ler os seus livros, não para trazê-la à tona, mas para compreender e deixar emergir os ecos que suas palavras ressoam em mim.

Clarice nos mostra que a grandeza de uma pessoa não se assenta na ausência de fragilidades, angústias e inseguranças, mas na capacidade de tocá-las e as transformar em pérolas ou em obras de arte.

O artista convive com emoções e sentimentos contrários durante toda a vida. Talvez, se pudesse escolher, optasse apenas pelo sentir mais belo. Mas ser humano não é tão simples assim. Talvez, o maior sofrimento de quem faz arte, parta da consciência de que, lado a lado com o desejo de transcendência, convivem nele violências, incompreensões, dúvidas, medos, tristezas e tantos outros sentimentos que nos levam do sublime ao grotesco em questão de segundos. O artista deseja ser Deus, mas deve contentar-se em ser o que é: homem.

É vão o esforço de entender e desmistificar Clarice. Ela tentou durante toda a existência chegar ao âmago do ser. Pegar na “coisa” de que somos feitos. Mas é preciso conviver com o mistério do qual somos feitos. Nunca saberemos. E se soubéssemos, não faríamos arte. Se Clarice tivesse descoberto a “coisa” não teria escrito sequer um livro. E se eu soubesse do que se trata também não a leria. Nesse caso, comemoro não saber só para ler e reler sua obra.

O primeiro contato com Clarice ocorreu na cidade de Goiânia, em 2004, aos 16 anos de idade, no cursinho pré-vestibular Diretriz, durante uma aula de Literatura, cujo professor se chamava Júnior.

Esse professor costumava ler em voz alta algumas obras literárias e explicar as diversas chaves de leitura e interpretações a respeito do que lia. Uma vez, leu um conto de Clarice Lispector, cuja protagonista era uma empregada de nome Eremita. À medida que explicava, conduzia-me, com fascínio e espanto, pelo labirinto das palavras e dos significados, de modo que, ao final da leitura, eu não saberia repetir nada, mas senti absolutamente tudo.

A afinidade com a literatura de Clarice foi imediata, entrou pela pele e, desde então, nunca mais nos abandonamos.

Creio que fui parar em Goiânia só para conhecê-la, pois morei na cidade apenas por 6 meses, e a única coisa marcante de que me lembro desse período foi o Encontro Amoroso com Clarice.

Tudo o que Clarice escreveu, ao ler, é como se eu tivesse escrito. Por ela, nutro profundo amor, devota admiração e confessada reverência. E se me perguntarem por que Clarice não hesitarei em dizer: Porque Clarice sou eu. Porque eu sou Clarice.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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