O defeito que sustenta

Numa carta endereçada a uma das irmãs, Clarice diz assim: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro… Essa frase sempre me pareceu carregada de densidade e sentido. Clarice tinha defeitos reconhecidos por si mesma. Aliás, todos temos. Mas como nos é doloroso admitir. Como é mais fácil vê-los nos outros enquanto em nós os disfarçamos ou negamos. O que é uma grande bobagem, sabia Clarice. Sabia também que há defeitos que nos dão tanta força a ponto de, assentados neles, erguermos edifícios, quem sabe arranha-céus.

No entanto, quase sempre os vemos como algo maléfico que deve ficar oculto num lugar bem ao fundo para que não sejam percebidos nem mesmo por nós. Tentamos afastá-los para os recônditos da alma de tal modo que há um esforço sobre-humano no sentido de disfarçar o que é flagrantemente humano.

Ao que me consta, como parecia à escritora, há algumas falhas que, a despeito da reprovação provocada, é como uma espécie de alicerce sobre o qual construímos a vida. Nas muitas cartas direcionadas às irmãs, Clarice não se enfeita, não pretende se ocultar e revela partes de seu ser, temperamento e da própria personalidade que só os verdadeiramente grandes têm coragem de expor. Afinal, só os grandes sabem e admitem que também são pequenos.

Ela intitulou sua literatura como caótica e confusa. Admitiu o orgulho e a altivez, próprios dos que se dão importância. Ousou dizer que não era nem gostaria de ser popular, mesmo correndo o risco de ser antipatizada. Reconheceu em si violências, ferocidades, fragilidades, inseguranças. Afirmou: sempre fui um pouco cínica. Confessou: Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior. E como se não bastasse: Estou tão enojada de mim

Insatisfeita, instável, indecisa, ciumenta, áspera. Desesperançosa, anormal, colérica, egoísta, desumana. Irada, aflita, esquecida. Ainda disparou: Não me dou com quase ninguém. Seu repúdio a si mesma chegou ao extremo de dizer: Detesto pessoas que se parecem comigo. Denunciou ser esnobe por não se interessar pelas coisas do mundo, mas em vez de acusar o mundo, reconheceu que, na verdade, era ela quem tinha o temperamento pobre.

Chegou a questionar a irmã Tânia: eu sempre fui assim, difícil, melancólica? Até se via boa para com as irmãs, mas proclamou ser ruim para os outros. Sabia quão mais fácil é amar os que nos amam e a falta de surpresa e mérito que há nisso, o que a tornava comum como os que dão a vida pelos pais, filhos, netos… Tão óbvio e pouco heroico!

Diante do reconhecimento sincero de tantas falhas, Clarice tentou extirpar muitas delas para melhor conviver com os outros. E o que aconteceu? O touro castrado se transformou em boi.

Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim.

Ao cortar em si o que poderia fazer mal e incomodar os outros, ela afirma ter cortado a própria força, tão necessária para percorrer o caminho até o fim.

Postos esses inúmeros defeitos, como Clarice conseguiu produzir obras tão ricas vendo-se como ordinária, apesar de, para nós, parecer extraordinária e incomum?

A insatisfação constante, a permanente busca, o desejo de alcançar o inalcançável são desafios enfrentados pelos que não param de lutar até atingirem certo nível de consciência que os redima, por pouco que seja, dessa infinidade de falhas que o entendimento rejeita, mas não extingue. Se Clarice se sentisse satisfeita e completa em suas qualidades, não teria criado até a morte da pobre personagem Macabéa, que, de algum modo, representou a morte da pobre Clarice.

Mas não sou completa, não. Completa lembra realizada. Realizada é acabada. Acabada é o que não se renova a cada instante da vida e do mundo. Eu vivo me completando… mas falta um bocado.

Esse bocado que faltava não se completou durante a vida dessa mulher a qual não se poupava: Mas tantos defeitos tenho…. Defeitos que a levaram longe, tão longe que, ainda hoje, sua vida e obra vence as barreiras do tempo e do espaço. O que teria sido de Clarice caso se considerasse perfeita? Provavelmente, não teria ultrapassado nem as fronteiras da pequena aldeia ucraniana de Tchetchélnik, onde nasceu.

Não agasalho meus erros – escreveu. Soa tão mais digno admiti-los, não justificá-los aos outros, os quais, tantas vezes, não sabem e jamais compreenderão o que se passa dentro de nós.

A forma como se via refletiu na criação de suas personagens que nunca foram só boazinhas ou virtuosas. Joana, de Perto do Coração Selvagem, rouba livros sem o menor pudor, porque pensa que pode tudo. Agride um senhor atirando-lhe um objeto, sem culpas. Visita a amante do marido por quem sente desprezo. Por fim, o abandona sem remorsos.

Lóri, de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, é uma moça fútil, extravagante, vazia e que não se dava aos outros. Macabéa, de A hora da estrela, nem se sente muito gente. G.H é preconceituosa e mesquinha.

Coragem não lhe faltou para admitir tudo o que a constituía, quer soasse agradável ou nem tanto. Esconder-se é negar-se. Há que se ter cuidado para que a negação não alcance proporções abaixo de zero.

É Joana quem diz: Aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas. Clarice também aceitava tudo que dela vinha. Usou de confessos defeitos para dar vida e luz aos seus personagens, os quais só alcançavam certa iluminação pela consciência e aceitação da baixeza que os habitavam. Apenas quando G.H. se iguala à barata, animal imundo e nojento, é que se eleva acima da mediocridade em que vive.

Tocar as próprias imundícies sem julgamentos é o que faz Joana: Não se acusar. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é.

Se o abjeto, o escuro e o nojento habitam o mesmo espaço ilustre, límpido e admirável que há em nós, devem, igualmente, nos interessar e merecer a atenção, porque nos pertencem e, mesmo que os disfarcemos a fim de não deixá-los emergir aos outros, eles se mantêm latentes no mais profundo de nós.

Um defeito que nos serve de sustentáculo pode até soar estranho, mas não menos verdadeiro. Clarice talvez dissesse, mas se não, digo-o em seu lugar: eu vos amo, oh defeitos!, pois sem vocês, eu poderia ter sido tudo, menos a grandiosa escritora Clarice Lispector.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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