Clausuras

Logo que cheguei em Brasília, no ano de 2009, comuniquei a uma colega de trabalho sobre a necessidade de agendar consulta com dentista para iniciar um tratamento destinado a aliviar os incômodos de algumas dores na face e no pescoço, as quais certamente decorriam da protuberante dentição inferior, herança genética da família materna.

A colega indicou-me uma profissional bastante conhecida na cidade, sob argumento de que se tratava de uma das melhores que se tinha notícias. Não hesitei me dirigir ao lugar indicado, onde fui examinada, de imediato e sem exames, apenas pelo olhar experiente da tão bem falada doutora.

Sem qualquer instrumento preciso de medir, salvo o próprio olho acostumado a encarar tantos outros rostos, pediu-me que sentasse numa cadeira frente a ela, para que pudesse enunciar o diagnóstico exato.

Disse-me que o problema era sério, no entanto havia duas possíveis soluções: a primeira, usar aparelho ortodôntico; a segunda, submeter a uma cirurgia ortognática. Ou faria uma dessas coisas, ou teria que lidar com dores ainda mais insuportáveis no futuro. Mal sabia que dores maiores já me acompanhavam naquele momento presente. Ainda, tratou de afirmar que meu rosto era torto, assimétrico, mas com grandes chances de ser corrigido mediante a escolha de uma das alternativas apresentadas.

Claro que a visão limitada daquela mulher não atingiu todos os desarranjos que tinha para ajustar, tão mais graves e urgentes que os evidenciados num mero rosto. Inclusive, mais importantes e prioritários. Nunca mais voltei para outros encontros e, sozinha, me empenhei a corrigir e alinhar incongruências não reveladas, a consertar outras falhas ocultas e vícios redibitórios que não confesso aos céus nem sob promessa de paz eterna entre os homens.

Além do mais, não desejo consertar meu rosto, gosto dele da maneira que é. Não me rendo a interferências que o transformem e afastem dele o estado original em que foi concebido, desenhado e moldado para corresponder aos ditames íntimos. Não é dos mais bonitos, não é dos mais feios. É meu. Ninguém no mundo teve, tem ou terá igual. Daí a preciosidade desse semblante e o cuidado de não transformá-lo.

Torto ou não, que tem ela a ver com isso? Quero minha face dissonante como nos primórdios, mas límpida, pura, transparente, sem pinturas definitivas, livre de procedimentos estéticos que tentem modificá-la para forçar juventude ou de cirurgias simuladoras de perfeição. Quero a assimetria de meus contornos. A cara torta com seu par de grandes olhos, sobrancelhas de arcos e pelos naturais, nariz farejador de doçuras e ameaças, boca sedenta cuja fome ninguém mata. Quero as rugas que aparecerão à medida que atravessar os tempos. Quero tudo conforme me foi e será dado.

Fui embora dali decidida a impedir que me tocassem o rosto ou qualquer outra parte. Suportaria todas as dores da face, do pescoço e da alma se com isso pudesse me manter intacta.

Passados dez anos desse episódio, meu rosto em nada me incomoda, muito pelo contrário, gosto dele cada vez mais. Retrata o mundo que há em mim. É um rosto duramente e alegremente conquistado, à custa de ousadias, pequenas vaidades, pitadas de orgulho, agudas indiferenças.

Mas o que começou a me incomodar foi a rapidez com que meus dentes se movimentaram desregradamente na boca sem nunca ter mastigado nada com violência. Dessa vez não precisei de alguém que me apontasse algo a corrigir. A estética me é cara, não a ditada por quem me olha de fora, mas aquela que busco e percebo como desejada, dentro daquilo que me apraz e do que concebo como harmônico e belo a partir de algo interno que ressoa. O rosto permaneceria o mesmo como forma de preservar e ressaltar a identidade. Os dentes não.

Dessa vez não pedi referências a ninguém. Escolhi o doutor a partir de meus pressupostos. O primeiro deles: tinha que ser homem. Por que? Não pretendo revelar. Adianto que, dentro desses critérios, a depender da especialidade médica, escolho pessoa de um sexo ou outro. Assim: psicologia, mulher; dentista, homem; ginecologia, mulher; cardiologia, mulher ou homem; nutrição, de preferência homem; oftalmologia, homem ou mulher. Cirurgia, sempre homem; parto, de preferência mulher. Nada tem a ver com preconceito. É uma espécie de sensibilidade para captar quem deve fazer o quê, não com os outros, comigo. Que isso fique muito bem claro! Você que me lê estabeleça os próprios limites e exigências.

Escolhi um dentista que nem se ateve às assimetrias do meu rosto, creio que nem as notou, foi direto ao ponto.

Vamos consertar esses dentes, mocinha. Abre a boquinha, dá a mãozinha. Ah esses dentinhos irão para os devidos lugares.

Assim mesmo, no diminutivo e com carinho.

Geralmente nas consultas, que são mensais, enquanto aguardo o doutor chegar, as assistentes mexem aqui, mexem ali, dizem uma coisa ou outra, até ele aparecer e decidir onde apertar ou afrouxar o aparelho ortodôntico.

Na última oportunidade em que compareci à clínica, pela primeira vez, o assistente era um homem. Um homem alto, magro, mascarado, mas não tanto a ponto de me impedir senti-lo. Eu estava totalmente descoberta, sem máscara e, mesmo em condição desigual, isso não me amedrontou. Para um homem, é preferível que tudo o mais esteja encoberto, menos o rosto. Um corpo toca outro com o corpo. Uma alma toca a outra com os olhos. Mesmo olhos míopes e nus de óculos ou lentes como estavam os meus naquele momento.

O doutor demoraria uns trinta minutos para atender, de modo que ficaríamos, o assistente e eu, no silêncio da sala branca e clara, pois é norma do estabelecimento não deixar os pacientes sozinhos enquanto esperam. Ele se moveu até o computador, onde consultou o prontuário e disse: Você está usando elásticos e vejo que passaram alguns exercícios para fazer. Respondi que sim, embora nunca os tivesse feito. Acho que soou tão naturalmente que ele riu em alto som. Mas por que não faz? Por preguiça. As respostas eram espontâneas e pareciam chegar aos ouvidos dele de modo engraçado. Sorriu mais uma vez para reforçar: Tem que fazer conforme prescrito.

É verdade! Farei! Senão meus lábios vão murchar não é? Como se houvesse maneira de mantê-los lisos e volumosos para sempre.

Ele ficou à vontade para conversar. Tenho impressão de que, quando usamos de franqueza ocorrem dois movimentos possíveis: o outro gosta disso e se aproxima muito de nós, ou odeia isso e se mantém a quilômetros de distância.

Confessou que nos últimos tempos tem sido difícil atender pacientes, pois a maioria está temerosa com o vírus que circula. Não querem ser tocados, apesar da impossibilidade de tratamento odontológico à distância.

Só ficaremos em paz quando todos forem vacinados – disse.

Não quis frustrá-lo com a verdade. Como lhe diria que não ficaremos em paz mesmo vacinados contra todos os tipos de vírus e doenças do mundo?

Contou-me que perdera um cunhado em decorrência da pandemia.

Você sabe como é o enterro de quem morre em decorrência do vírus? – questionou.

Nunca presenciei, mas sei que é indigno se levarmos em conta se tratar do último ato de despedida de uma pessoa.

Você já foi num enterro desse?

Não, mas li um livro que conta como funciona. A peste, de Albert Camus, já ouviu falar?

Respondeu que não. Discorri um pouco sobre a obra, mostrou-se interessado, anotou o nome, disse que a procuraria.

Gosta de ler? – perguntei

Sim.

Quais livros?

A bomba, A Bíblia…

A bomba me assusta, mas a Bíblia, ao contrário, me acalenta.

Falamos sobre a importância dos livros, a transformação que eles causam em nós, sobre a criação dos filhos. Disse que não é nada fácil educá-los. É pai de um homem de 25 anos, apesar de aparentar ser muito jovem.

Você tem filhos?

Respondi-lhe que ainda não tive coragem de dar um passo tão maior que minhas pernas e nem sei se terei.

Conversamos também sobre a importância da vida e de vivê-la, mesmo diante do risco da morte a nos rondar. Com vírus ou sem vírus, ela nos espreita a todo momento e pode nos surpreender a qualquer hora. Não devemos perder tempo. Ele concordou. Conversamos sobre o respeito que precisamos direcionar a nós próprios e aos demais. Revelei que escrevo. Ele suspirou, atônito: Agora entendi. Mas eu mesma, até agora, não entendi nada. Disse-lhe que, apesar do isolamento físico, experimento muitas alegrias em casa, principalmente em virtude do prazer estético de ler um livro, ouvir boa música e do contato com as variadas formas de arte.

A vista estava turva, não o enxergava bem. Ouvia apenas a voz suave, baixa, pausada, sentia a presença e a discrição daquele homem cuja metade da vida havia se passado dentro daquele consultório de pacientes intocáveis. Os anos que tenho em idade, ele passou dentro daquela empresa.

Prometi-lhe um livro de minha autoria. Senti sua alma, apreendi a atmosfera do seu ser. Ele precisa de pessoas que se deixem aproximar e tocar. Se o encontrar na rua, não o reconhecerei. A sorte é que a miopia só me impede ver a matéria, não a transcendência. Quanto a isso, o embaçamento da visão nada atrapalha. Meus olhos o viram sem ver.

Quando o doutor entrou na sala nossa conversa já tinha ido muito longe. Talvez o assistente nunca tivesse ultrapassado as paredes brancas e o silêncio daquele consultório em seus mais de trinta anos de prisão. Deu tempo de anunciar que estou lendo Dom Quixote. Perguntou se o livro é bom. Acho que não descobri adjetivo que o qualifique de tão bom – respondi. Despedimos-nos, sob o reconhecimento mútuo de que tivemos uma conversa agradável e prazerosa.

Prestes a sair da clínica, ele veio ao meu encontro. Você esqueceu isso. Estendeu as mãos e me entregou um objeto. Eu não havia esquecido nada.

Em breve nos encontraremos. Ele se aproximará de mim, tocará meu livro e me escutará falar em silêncio sobre coisas que aprendi durante os mais de trinta anos em que vivi sob outra espécie de clausura.

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