Santo bonito

Desde criança ouço minha mãe dizer que é por demais devota e adoradora de Santo Expedito. Na família materna, muitos recorrem, de preferência, a Nossa Senhora Aparecida, a boa e generosa mãe que, com seu manto sagrado, cobre a todos indistintamente e sem pausas. Mãe a gente chama toda hora. Dizemos: Ave Maria! Mãe do céu! Virgem Maria Mãe de Deus! Mãe é nome tão doce que até sem ter o que falar a gente chama: Mãaaae!

Que é?

Nada não!

É só para pronunciar mesmo e ter na boca o gosto da palavra dita.

Diferente dos outros familiares, minha mãe resolveu se apegar foi ao santo das urgências, o que diz muito sobre o seu modo de ser. Parece que ela só se desespera mesmo em casos de extrema necessidade, quando a coisa fica tão feia que se mostra irresolúvel por instâncias digamos mais fracas, e é preciso apelar para forças poderosíssimas e mais ágeis.

Além de responsável pela solução de questões urgentes, urgentíssimas, Santo Expedito também é conhecido como o santo das causas impossíveis. Mas sinceramente não sei o que tanto minha mãe tem de urgente para resolver e quais as situações impossíveis a que ela tanto demanda interferências. Nunca conversamos a respeito. E também não pergunto para não violar a intimidade que os dois estabeleceram e que dura há tanto tempo.

Só sei que uma vez entramos numa conversa sobre figuras religiosas e ela me disse: Minha filha, compra um Santo Expedito para você. Para ele, não há causas impossíveis. É meu santo preferido e ele nunca nega nada a ninguém.

Filha obediente que sou, lá fui atrás do milagreiro. Comprei um bem grande, bonito e forte, porque além de milagres queria uma imagem de um homem muito bem apessoado na minha sala.

O problema é que, de tão bonito, forte e poderoso, nunca tive coragem de me aproximar dele para pedir nada, nem mesmo nas minhas mais avassaladoras urgências. Olho para Expedito, o qual segura com a mão direita aquela cruz levantada para o alto, onde está escrito hodie, e pisa, com o pé direito, num corvo que tentava adiar a sua conversão ao repetir-lhe cras, cras, cras, que quer dizer amanhã, amanhã, amanhã, e fico toda inibida de chegar perto. Embora a cruz que carrega com a palavra “hoje” seja convidativa para não mais adiar a proximidade, sua beleza me intimida.

Tenho recorrido a outros, às vezes, até a mim mesma quando não consigo balbuciar sequer uma palavra, atônita que fico frente a ideia de pedir algo que muito quero no momento e ver a graça concedida, tendo depois que arcar com as consequências daí advindas. Falo assim: Ai Deus, o Senhor sabe o que preciso. Muitas vezes não sei o que peço. Então não vou pedir. Aí acontece umas coisas que só Deus mesmo para saber que era bem o que eu queria e não disse.

Uma vez que Santo Expedito está há muito tempo em minha casa, virgem de pedidos, pela falta de demandas de minha parte, resolvi mandá-lo para a minha mãe, que recorre tanto a ele. Junto a ela, o benevolente santo teria favoráveis condições de mostrar a que veio e muito mais oportunidades de provar o que sempre ouvi dela – que Expedito é o santo das causas impossíveis e urgentes.

Mãe, vou mandar Santo Expedito para a senhora.

Por que, filha?

Acho que ele não ficou bem aqui. Assim que souber de alguém que viaje de Brasília para Coribe me avise que vou mandá-lo praí.

Assim ela fez. Quando soube de alguém que poderia transportá-lo avisou-me para embalar o santo e entregá-lo para fulano que o faria chegar em suas mãos.

Procurei papelões, isopor e caixa para protegê-lo, a fim de evitar ferimentos decorrentes de possíveis pancadas durante a viagem. Estava tudo pronto e eu não tinha dúvidas de que estava fazendo a coisa certa. Fitei Santo Expedito com um genuíno olhar de despedida e eis o que se seguiu:

Quando fui deitá-lo na caixa, num ato de total desprendimento e desapego, ocorreu-me questionamentos paralisantes: onde estou com a cabeça a ponto de colocar um santo poderosíssimo como Santo Expedito para fora de minha casa? E se um dia resolver comprar outro e ele não aceitar minha residência como morada, ao lembrar-se que o despachei para tão longe?Estaria subliminarmente deixando transparecer que não tinha urgências a resolver e que nada era impossível para mim e, por isso, dispensaria a sua presença?

Só sei que não tive coragem de me desfazer dele e, como para compensar o meu quase desatino, dei-lhe um lugar de destaque na estante que mais gosto, num lugar bem visível da sala, que é onde merece ficar.

Tive que revelar para minha mãe o ocorrido e ela concordou com a minha decisão de cancelar a viagem de Santo Expedito.

Continuo calada diante dele, sem coragem para lhe pedir nada. Olho-o de lado, desconfiada, à distância, e rezo para que nunca precise de algo tão urgente ou impossível assim que tenha de me render e me jogar aos seus pés desesperada. Mas a verdade verdadeira é que não quero mostrar desespero frente a um santo que, de tão bonito, me emudece toda.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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