Jogo de porcelana

Diminuiu o ritmo dos passos, pé ante pé, vagarosos, curtos, fracos. O quintal comprido ficou ainda maior diante da nova dificuldade que lhe surgia. Aproximou-se do muro em busca de apoio, virou-se à procura de alguém a quem pudesse suplicar por socorro. A voz abafada não alcançaria o tom necessário para fazer-se ouvir. Por sorte, deparou-se com o filho mais velho que correu em sua direção. Estava pálida, olhos assustados, o rosto encharcado de suor. Mais uma vez aquela maldita que, por vezes, maltratava o seu corpo.

Ai! Dor! Muita dor! – exclamou.

O filho suspendeu o braço esquerdo da mãe, colocou-o em volta do pescoço e a carregou no colo até a cama onde, sozinha, esperou quase duas horas por auxílio.

O cenário não era dos melhores. Hospitais lotados, leitos entupidos de pacientes sem ar e sem cuidados, médicos à beira da estafa, enfermeiros temerosos e divididos entre a missão de ajudar salvar vidas e o desejo de voltarem intactos para junto da família.

Essas eram as circunstâncias quando Tereza foi internada para tratar-se. As visitas proibidas devido ao risco de contágio de um vírus que se alastrava. Familiares mal conseguiam informações sobre o estado de saúde de seus entes que agonizavam por falta de assistência geral. Somava-se à dor física o silêncio ensurdecedor do quarto, onde as paredes brancas e iluminadas a obrigavam mergulhar numa viagem pelo seu íntimo. O cume da dor é o desespero ou o silêncio. Optou por calar-se.

Quando conseguia levantar-se da cama, com muito esforço, alcançava o celular e digitava algumas poucas palavras que direcionava a alguns parentes, os quais, do lado de fora, esbravejavam, mas rendiam-se à impotência.

Que fazer? As instituições públicas de saúde mal cabiam os próprios profissionais de tão abarrotadas, os hospitais privados inviabilizavam qualquer tentativa de internação pelos altos preços cobrados antecipadamente por seus serviços. O direito à saúde, aparentemente garantido pelo estado, com suas leis mortas e inexequíveis, nunca foi tão desmascarado. Que fazer? Continuar na imobilização total de um leito pouco confortável.

Após verificar todas as possibilidades para mudar o cenário desolador e constatar que nada podia ser feito, restava apelar para forças invisíveis, mas não menos poderosas.

Sem muito o que fazer, restava aos familiares a união de suas forças numa corrente de oração.Todos os dias à hora marcada, reuniam-se para rezarem o terço cujas intenções, repetidas incansavelmente a cada dezena, eram dirigidas apenas ao restabelecimento da saúde de Tereza. Nada mais importava naquele instante de dor e amor. Deus precisava ouvir as preces e os apelos dos fiéis que a Ele se dirigiam, cheios de fé, após o fracasso das instâncias humanas.

Nunca um ritual programado por aquele grupo cumpriu com tanto rigor os procedimentos para que houvesse a mais eficaz tentativa de salvação. Ninguém se atrasava nem dispensava sequer uma conta do rosário. Todos acompanhavam as cinquenta Ave-marias no mesmo tom e ritmo. Tereza estava entre a vida e a morte, de modo que toda concentração destinada à prece pela sua cura não se poderia perder por descompasso e dispersão dos humildes pedintes.

As últimas notícias dadas pela própria paciente foram de que houve uma melhora significativa em seu quadro clínico. As orações se intensificaram, afinal, fez questão de relembrar uma das rezadeiras, só Deus para conceder tamanho milagre.

Tereza voltou para casa mais magra, mais serena e poderia-se dizer, de longe, até mais desprendida dos objetos que a rodeavam. O filho que a socorrera dias atrás teve a ideia de comemorar com um jantar o retorno triunfante da mãe, anunciando-lhe que usaria o seu jogo de porcelana, única peça doméstica à altura do ocorrido.

Há trinta anos, a peça estava mantida trancada no armário, e a memória relembrava o exato momento em que recebera o presente de casamento caríssimo das mãos de um parente tão rico e nada miserável. Tereza não a usaria por nada nesse mundo.

Meu filho, o jogo de porcelana não. Pode quebrar, e é a única peça digna que tenho.

Mas mamãe, a senhora acaba de sair do hospital por milagre de Deus. Por um triz poderia não estar aqui. Por muito pouco também jamais colocaria as mãos em seu jogo de porcelana.

Mas eu estou aqui e viva. Vamos usar pratos e copos normais.

O filho não insistiu. O jantar foi servido em pratos duplex e em copos de molho de tomate comprados no supermercado da esquina. A doença que acometeu Tereza parece em nada ter insinuado que a existência é breve e traiçoeira. A qualquer momento podemos ser abocanhados e, se o jogo de porcelana não for urgentemente utilizado nessa vida, nas próximas, é bem pouco provável que seja, pois nem mesmo Tereza acredita em reencarnações.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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