A arte da sedução

O vento lá fora uiva, atinge-me sentada no sofá da sala. Gélido, não consegue esfriar-me, tomada que estou pela lembrança sorrateira que ora chega e aquece o meu desejoso coração humano.

Era uma manhã também gelada na cidadezinha de Penedo, interior de Alagoas, quando coloquei os pés para fora do carro e fui transportada para uma outra época, quem sabe pela forte presença do passado em suas ruas e centro histórico.

Não tive a menor dúvida de que, em algum momento do tempo e do espaço estivera ali, como senhora ou escrava, mas com certeza num corpo de mulher. Assim serei nas sucessivas e eternas vidas. Menos que um tormento, ser mulher, feminina, sabedora de mistérios e profundezas, é a minha exaltação e o meu modo de existir nesse mundo que, a despeito das pluralidades, foi configurado dual.

Dirigi-me ao hotel e, da varanda de uma suíte do quinto andar, contemplei o verde, a neblina e as construções antigas que imperavam no meio da ultrapassada modernidade. À noite, mais uma vez de pé, frente à cidade adormecida, ouvi o telefone tocar.

Era o recepcionista, o qual informava sobre uma visita à minha espera. Afirmei ter ele confundido a numeração do quarto, pois não conhecia absolutamente ninguém naquelas redondezas. Alguém chegara para um acerto de contas relacionado a acontecimentos pretéritos? Alguma pessoa de quem utilizei-me de seus serviços forçados na época em que fui possuidora de homens?

Tenho certeza que essa visita não é para mim – relutei.

É sim, senhora – disse e, mais uma vez, ao repetir o número do quarto, não havia como fugir.

Apresentou-se a mim um homem com quem havia conversado apenas por telefone sobre os ajustes das reuniões que sucederiam ao longo da semana. Adiantou-se, segundo ele, pela curiosidade que lhe despertou o meu tom de voz.

Não consegui esperar até amanhã – disse-me.

Chegou um pouco mais próximo, com os olhos postos e fixos em cada parte de mim, elogiou os cabelos, balbuciou perplexo algo em torno dos meus olhos, convidou-me a dar um passeio pela cidade morta.

Aceitei.

Mostrou ruas, igrejas, construções levantadas à custa da longa escravidão que imperou no país. Num desses lugares, ainda era possível sentir um clima abafado e sufocante, como se almas vagassem ali, sem esquecerem seus passados roubados para atender interesses ambiciosos que não elevaram nem dominados, nem senhores.

Quis voltar para o hotel e descansar, teria pela frente uma semana agitada, em que apresentaria um longo trabalho com suas inúmeras e inacabáveis regras e leis. O homem se aproximou ainda mais, impetuosamente estendeu as mãos até os meus cabelos; afastei-me. Ele se aproximou, tentou um beijo. Afastei e me despedi: Até amanhã.

Logo cedo ansiava por me ver chegar. No primeiro dia, um funcionário em carro oficial buscou-me no hotel, o qual foi dispensado pelo homem, que fez questão de fazer as vezes de motorista. Tentava me concentrar nos assuntos técnicos que precisava expor nas reuniões, e era novamente surpreendida por um olhar investigativo de quem quer possuir um corpo.

Mas a barreira desse mesmo corpo é uma alma que não se deixa tocar por quem não pretende ser tocada. Um único olhar, encontro ou despedida é capaz de me fornecer as percepções que preciso para saber se ocorrerá outro olhar, outro encontro e outra despedida. Eu sabia, desde o primeiro momento naquela noite no hotel, que aquele homem não tocaria a matéria física de meu ser. Muito menos o imaterial desse mesmo ser.

Ele era rústico, agressivo na sua maneira de aproximar, não me dava espaços, sufocava-me a sua deliberada vontade de agradar que tanto me desagradava.

A sedução não passa pelo campo do visível e palpável, ela é sutil, permeia lugares impenetráveis que o pretenso amante deve sondar devagar, paciente, sem ultrapassagem perigosa que possa ser fatal e minar toda aura de jogo e mistério.

Convidou-me para jantar. Aceitei. Ele poderia ter atrasado alguns minutos para não evidenciar sua ânsia, mas como imaginei, chegou minutos antes. Desci à hora marcada. Elogiou minha roupa. A comida estava saborosa, o vinho delicioso, a luz de velas deixava o ambiente convidativo para permanecer ali por toda uma vida se estivesse em melhor companhia.

Quando saía do carro, tocou forte o meu braço:

Não vai me convidar para subir?

Por que convidaria?

Sorri, desci do carro, fui para o quarto onde uma cama grande e quente me aguardava. Dormi feito anja durante toda a noite.

Faltavam apenas dois dias para a minha partida. No descanso entre um intervalo e outro das reuniões, fui despertada de um curto sono pelo toque do telefone. Era o recepcionista anunciando a chegada de uma encomenda. Um buquê de rosas vermelhas e bombons. Aceitei.

Minutos após, o telefone tocou mais uma vez. Era o homem, curioso para saber se havia gostado do presente. Não gostava de flores, mas ocultei-lhe a informação para não feri-lo diretamente . Só mais tarde passei a comprar orquídeas e me sentir fascinada por elas.

Convidou-me mais uma vez para um jantar no meu último dia na cidade. Dessa vez, recusei. Aleguei cansaço e indisposição, o que era verdade. Tive um pesadelo horrível, onde me vi perdendo o voo de volta para casa. Felizmente, nada daquilo que me atormentou era real. Estava pronta para o retorno. Na recepção do hotel, um objeto aguardava para ser entregue antes de minha partida. Num papel estava escrito: “só abra quando chegar em casa”. Obedeci.

Ao desembrulhar o presente fui surpreendida com uma lingerie vermelho-sangue. Mandou abrir em casa, creio, por saber que não a usaria em Penedo, sob nenhuma hipótese. Afinal, com quem?

Mas também não a vesti em Brasília. Não uso roupas vermelhas, à exceção da noite de Natal, e, ao contrário das flores, que passei a gostar muito, continuo sem dar espaço para o vermelho e para os homens que ainda não descobriram as sutilezas da instigante arte da sedução.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s