Demasiado humano

Do chá saía uma fumaça aromática cujo prenúncio evidenciava o gosto saboroso que em breve provaria. Acompanhando a bebida, numa vasilha pequenina ao lado da bandeja, estava um minúsculo pedaço de bolo que, apesar de adoçar o paladar, não seria suficiente para matar minha fome. Queria mais dele. Queria um pedaço bem grande e, sei, conseguiria.

Graciosa, chamei o garçom. A mesma graça com que uma mulher pode arrancar qualquer coisa de um homem, se descobrir como bem usá-la. Primeiro, elogiei o sabor e a temperatura do chá para dizer-lhe logo em seguida: gostaria de mais desse bolo, pois ele está muito gostoso. O homem abriu um largo sorriso e comunicou: vou ver o que consigo fazer pela senhorita. Não o corrigi para que dissesse senhora, assim como não teria pedido-lhe para me chamar de senhorita caso tivesse enunciado a expressão adequada para uma mulher casada. É um dos muitos truques e faz parte da graciosidade usada para conseguir o que se quer.

Regressou com duas bandejas contendo dois pedaços de bolos bem maiores, só que de sabores chocolate e coco, anunciando-me que, infelizmente, não tinha o de limão disponível naquele tamanho. Fingi interesse em inspecionar os bolos em cada uma de suas mãos, agradeci a gentileza em tentar atender meu desejo, mas disse-lhe que só serviria mesmo se fosse o de limão, pois gosto dos sabores mais acres.

Minutos depois, um homem de terno e gravata aproximou-se. Era o gerente do estabelecimento fazendo que eu confirmasse o interesse em realmente levar o bolo de limão, ao que ouviu minha resposta afirmativa, e disse: se for possível aguardar um pouco mais de tempo, conseguirei providenciá-lo para a senhora.

Não tinha a intenção que meu desejo chegasse a instâncias superiores, mas ainda assim fiz questão de aguardar o tempo que fosse preciso para vê-lo satisfeito. Enquanto aguardava, um homem alto, branco e gordo sentado na mesa ao lado virou-se para mim: esses bolinhos que acompanham os chás e os cafés são muito bons não é verdade? Dá vontade de comer uns trinta. Assustei com o exagero. Trinta é muito para mim. Mas se não é tanto para ele que se há de fazer?

Sorri e respondi que era verdade. Ele estava sozinho e aguardava a conta. Tentou emendar um outro papo, mas eu realmente não estava a fim de usar simpatia para conseguir mais nada a não ser o bolo tão esperado. Deve ter percebido, porque acabou tentando me dar uma espécie de recado por meio de uma conversa num tom muito alto com o garçom que acabava de chegar.

Eu estou falando como médico. Eu sou médico.

Foi só o que consegui ouvir. De cabeça baixa estava; de cabeça baixa fiquei. Poderia ser o papa, o homem mais rico do mundo, o profissional mais qualificado do mercado nacional ou estrangeiro, o ganhador do Nobel em física ou química, o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Ninguém chamaria minha atenção por seus títulos e glórias. Estava interessada tão somente naquilo que ansiosamente aguardava.

Ao escutar sua voz altíssima anunciando que era médico, só consegui enxergar o humano, o demasiado humano, e me compadecer que ele precisasse se fazer conhecer e se mostrar por um diploma, o qual nada ou muito pouco diz sobre alguém. Se ele soubesse o meu desejo imediato, teria tido mais sucesso se dissesse que era confeiteiro.

O bolo chegou quentinho e saí triunfante com ele nas mãos. Como de outras vezes, havia conseguido o que queria. Ao sair do restaurante, escuto a voz: até mais moça. Era ele. Respondi silenciosamente: até nunca doutor.

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