Nome roubado

Nossa amizade surgiu de maneira arranjada e teve o início marcado por um evento festivo de rua. Nesse dia, estava muito desejosa de comparecer, mas não quis ousar ir sozinha, como mais tarde vim a fazer tantas vezes. Comentei com uma amiga sobre a vontade de estar no local da festa e a convidei para ir junto comigo, ao que ela me respondeu que não poderia, mas sabia de alguém que, assim como eu, gostaria de ir, mas estava sem companhia.

Minha busca por diversão era tamanha que aceitei encontrar-me com a desconhecida no lugar e na hora marcados para o evento. O barulho, a imensa quantidade de pessoas e a euforia dos presentes impossibilitou que tivéssemos qualquer proximidade mais íntima, e a companhia mutuamente oferecida naquele momento era apenas estarem lado a lado, de corpos presentes, inertes e assustadas com tantos rostos sedentos a nos olharem sem jamais saciarem suas sedes, nem nós duas as nossas.

Acalmava-nos saber que tínhamos uma a outra, mesmo anônimas uma para a outra. Tranquilizava por roubar a verdade que relutávamos aceitar: a de que dentro da nossa pele estaremos sempre muito a sós, sozinhos ou no meio de tantos.

Apenas uma simpatia imediata parece ter brotado entre nós desse encontro primeiro. Uma espécie de possível amizade à primeira vista, nascida simplesmente do olhar de fora que, se bem olhado, diz muito de dentro. Por fim nos despedimos exaustas, não menos vazias, nem mais satisfeitas, sob o compromisso de nos encontrarmos outras vezes.

Uma amizade sincera brotou entre nós e, ainda hoje, perdura. Quando nos falamos, chamamentos carinhosos ressoam e a alegria nas vozes de ambas é facilmente percebida. Ela, mansa; eu, feroz, de tal modo que, quando me via supor que uma de nós pudesse manchar essa amizade, acreditava que o ato fatal só partiria de mim. Jamais imaginei que na sua mansidão ela pudesse me furtar o que quer que fosse, ainda mais algo tão precioso, o qual guardei para um momento que talvez nunca venha a existir e, por isso mesmo, era para ser só meu.

Em uma de nossas muitas conversas, confidenciei o nome que daria a uma filha, caso viesse a engravidar de uma menina. Ela ficava pensativa, silenciosa e nada dizia a respeito do que ouvia. Muito tempo se passou, ela contrariou as próprias expectativas de que jamais se casaria e, tão mansa era, que até conseguiu ter a filha que até hoje não tive coragem de trazer ao mundo.

Só me disse que estava esperando uma menina e também me deu notícias na época do nascimento. Um longo silêncio se fez em torno do nome da criança, o que chamou bastante a minha atenção a ponto de vir à mente questionar-lhe a respeito.

Em momento algum passou pela minha cabeça o motivo de tanto mistério a rondar um nome. Nada havia para esconder; ou havia? Peguei o telefone e, decidida, fui direta: Como a sua filha se chama? Uma mudez se estendeu por alguns segundos do outro lado da linha e, talvez por perceber que não tinha mais como escapar, eis que ela responde: É Clarice!

Era o nome que daria à minha filha e sobre o qual essa amiga se calava quando me ouvia falar. Como disse, a nossa amizade permanece intacta, e ela continua a ser aquela mesma desconhecida com quem me encontrei há tanto tempo num jogo de máscaras da festa de carnaval.

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