Pobre cabeça de mulher

Pensou que eu estivesse por demais cheia de modéstia quando o informei não estar à altura de suas grandes questões e discussões. Os homens apresentam um aspecto peculiar ao dirigir-se a alguém do sexo oposto sobre quem consideram apta a tratar de igual para igual a respeito de assuntos sérios ou profundos. Refreio-os, antes que queiram enveredar por um mundo que é de total desconhecimento para a minha pobre cabeça de mulher, e deixo bem claro, antes que exijam de mim algo que não possa oferecer, que só escrevo sobre as obviedades de uma vida simples e comum.

Em outra oportunidade, contei a respeito de um homem que, humildemente, veio até mim sob o argumento de que, por eu ser uma mulher inteligente, precisava falar comigo a respeito de algumas coisas. Juro que pensei se tratar de algum conselho que quisesse para melhor lidar com a esposa ou com os filhos. No entanto, fui pega de surpresa e fiquei boba e boquiaberta quando o assunto foi revelado. Queria discutir sobre o formato do planeta Terra e provar física e matematicamente a impossibilidade de alguém pôr os pés na lua. Seu desejo era debruçar sobre grandes questionamentos astronômicos, enquanto eu, pequena, encolhia ainda mais, e olhava-o com enorme espanto e delicadeza por vê-lo ingenuamente supor-me universal.

Pois outro foi o homem que me procurou para conversar, e se apresentou de um modo tão agradavelmente receptivo como se diante de mim pudesse colher tudo o mais que não lhe foi possível de suas longas e acuradas leituras das grandes obras dos maiores autores russos, somadas ao estudo das respectivas biografias. Que sei sobre Anton Tchekhov, Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói? Ai Deus! Que sei eu?

Daí porque ele alegou que eu estava tomada de modéstia, talvez uma modéstia fingida, creio, mas não menos grave. Interrompi sua fala, olhei bem em seus olhos e expliquei-lhe que todas as minhas considerações a respeito de qualquer coisa é fruto somente de observação e sensibilidade pura. E que, se a constatação a que chego a respeito de algo, por vezes, coincida com a dedução de seu pensamento e raciocínio lógico, não sei explicar a que isso se deve.

Creio que não consegui convencê-lo, pois continuou a falar de assuntos muito difíceis, os quais ouvia sem muito entendimento. Ninguém acredita quando digo não saber, de tal forma que acabei me convencendo de que lá no fundo realmente saiba de algo importante para salvar um minuto da existência.

Era assim quando, com dezessete anos de idade, passei a trabalhar numa repartição onde dividia o espaço com sete homens. Eles evitavam falar sobre banalidades na minha frente, pois imaginavam, suponho, que, de alguma forma, iriam me decepcionar na minha frágil e dura condição. Prestavam uma certa reverência ao passar por mim e me cumprimentavam com olhares fugidios. Todos respeitavam a menina-mulher que causava neles atração e distanciamento.

Renato era um desses colegas. Gostava de passar longas horas conversando comigo a respeito de música e pintura. Seus filhos se chamam Pablo e Sarah, em homenagem a Pablo Picasso e Sara Kubitschek. Confessou que gostaria muito de apresentá-los a mim para que eu dissesse sobre a impressão que tive deles. Até tenho bola de cristal em casa, mas só por achá-la bonita como objeto estético, e dela não me utilizo para prever o futuro de crianças. Nem mesmo sei como vivem hoje sem a presença do pai que cedeu a uma doença incurável. Pelo menos os nomes foram dados a elas com grande esperança de que se enveredassem por um caminho promissor tal qual as pessoas que lhe inspiraram a nomear os filhos.

A última vez que nos vimos foi em Brasília. Fez questão de me telefonar para que fosse visitá-lo na casa de uma tia, onde estava hospedado durante os dias em que esteve na capital para tratar a doença. Ficou muito alegre ao me ver e, quando se despediu, tratou de dizer: Eu sabia, eu sempre soube que você seria grande e importante.

A razão deve ser porque moro na capital federal. Nesse lugar, as coisas mais ínfimas e insignificantes tomam proporções grandiosas. Um anônimo qualquer vira um ilustríssimo da noite para o dia.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

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