A menor entre os maiores

No primeiro dia de aula das séries do ensino fundamental, a diretora do colégio reservava três cadeiras na primeira fila. Duas, em virtude de parentesco, para os seus netos gêmeos. A terceira, para mim, sob alegação de que era a menorzinha da turma e, caso ficasse sentada ao fundo da sala, não enxergaria o quadro, uma vez que os demais alunos eram bem maiores que eu.

Seus netos acabavam por mudar de cadeiras ao longo do ano letivo. Quanto a mim, permanecia sentada durante todo o tempo no lugar devidamente marcado para atender às limitações de minha pequenez.

Penso que hoje a conduta dessa mulher seria duplamente censurada e tipificada segundo as disposições legais aplicáveis. Ao reservar os melhores lugares para os netos incorreria em nepotismo. E ao supor-me menor do que de fato eu era, a injúria restaria configurada.

Claro que não fazia por mal nem para prejudicar os outros estudantes. Era movida por amor e caridade. Talvez eu merecesse um lugar de destaque por sempre ter sido considerada uma das melhores da turma; talvez os netos também se transformassem nos melhores por sentarem-se ao meu lado. Éramos mutuamente beneficiados com a atitude dessa avó. Eu, por me sentir um pouco como um de seus netos. Eles, por estarem lado a lado com a menor de todas e, assim, não serem acusados de figurarem entre os grandes só por serem netos da diretora.

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