Descrição de uma sala

Aqui em casa, os objetos passaram a ter vida. E quem deu vida a eles fui eu. Não soprei as suas narinas tal qual fez o Criador ao vivificar o homem. Fiz outra coisa: dei-lhes destinação específica e significado.

Na sala, de onde escrevo nesse momento, predominam as cores amarelo e cinza. O amarelo já existia na parede da entrada do apartamento quando me mudei para cá. Se tivesse escolhido a cor, provavelmente seria um tom claro e neutro, mas acabei me adaptando ao amarelo, afinal de contas, o ser humano se adapta a tudo, embora não devesse.

O sofá cinza é pequeno. Agasalho-o com mantas, que chamo de roupas, e elas são em número de três: uma amarela, uma cinza e uma bege escura. Só lhe darei outra caso alguma se deteriore. Por enquanto, essas são mais que suficientes para mantê-lo bem vestido. Gosto igualmente de todas. Dão um charme ao sofá, embora quando nu, ele tenha lá os seus encantos intensificados pelo quadro que fica acima.

Além da manta, enfeito-o com muitas almofadas, alternando entre cores neutras e coloridas, de modo que há quem reclame não sobrar espaço para quem queira se sentar. Em nome da estética, algumas coisas precisam ser sacrificadas. Mas nada que um tapete não resolva. Ao ocupar o sofá, as almofadas descem para o andar de baixo e ficam espalhadas no tapete até o momento de retornarem aos seus lugares.

Nele me deito para ler, pois além do conforto que oferece para me deliciar com um livro, se é noite, a vista da janela costuma ser um quadro negro com a lua voltada toda para mim. Essa paisagem só desaparece quando há o voluntário fechar das cortinas brancas. Não poucas noites, a lua foi só minha e de mais ninguém.

Mas o objeto da sala de que mais gosto é a poltrona que fica frente ao sofá. Também de cor cinza, tem os pés amadeirados em tom marrom. Combina com o seu macho e oposto. Ele, maior. Ela, menorzinha, delicada, pomposa e elegante. Está sempre ereta e nem mesmo permite que quem nela se encoste curve as costas. Dou-lhe o aconchego de duas almofadas, uma neutra clara e outra com misturas de mais tons. Nunca vi objeto com tamanha dignidade. Olho-a de longe, pois sua altivez me repele. Não estou à sua altura. Prefiro mesmo é jogar-me no sofá, que se alarga para me deixar à vontade e segura. Minha relação com a dita cuja é de admiração à distância. Acho-a de uma simplicidade e beleza estonteantes. Quem sabe um dia eu chegue ao seu nível. Por enquanto, ela lá e eu cá no sofá.

Entre ele e a poltrona, uma mesa lateral branca, onde disponho o abajur e alguns outros objetos, cujos sentidos ressoam quando olho para eles: a representação de Cristo na cor branca e com o coração dourado, a bola de cristal, uma vela que costumo acender para lembrar-me a vida que se esvai.

Os objetos decorativos de que mais gosto são os abajures e as almofadas. Além de terem valor estético, tornam o ambiente mais agradável e aconchegante. Tenho abajures em outros cômodos e ao lado da cama onde durmo. Quando aceso, dá ao quarto um aconchego extra para prazerosos momentos de leitura. E já que pulei para o meu quarto, nele há apenas um armário, uma cama de casal e um criado-mudo, onde alojo o abajur, a bíblia e os livros que leio no momento. Cada uma dessas coisas, têm razões de sobra para estarem ali.

A mesa da sala é quadrada e de vidro. Tem uma base amadeirada e linda, de uma elegância que invejo. Rodeada por quatro cadeiras, formam um conjunto harmônico, simples e perfeito. Serve para sentarmos no momento das refeições e fica disponível para eventuais situações que surgir e se mostrar útil e necessária.

O painel da televisão também abriga objetos significativos: acima, outro Cristo com um castiçal ao lado. É o Sagrado Coração de Jesus, que fiz questão de deixar ao centro, crente de que as promessas feitas a Santa Margarida Maria Alacoque atingem o meu lar, em especial a primeira: A minha bênção permanecerá sobre as casas em que se achar exposta e venerada a imagem de meu Sagrado Coração. Exponha-a, venero-a e eis que sou abençoada.

Dois elefantes pequenos dourados, representando a abundância; três mini-budas vermelhos, cada um tapando uma parte do corpo: olhos, ouvidos ou boca, para lembrar-me a necessidade de não ver, não ouvir e não falar certas coisas; e mais uma bola preta que, embora não saiba o que possa significar, conquistou-me de graça, sem que precise me fazer sentido algum. Gosto tanto dela que, quando quebraram uma, coloquei outra igual no lugar. Sem falar na bailarina negra, cuja postura mais parece de uma pensadora, e por isso, ousei adquiri-la. Esses são os objetos dispostos no painel, cuja decoração é completada com três pufs que ficam abaixo dele e rente ao seu comprimento: dois amarelos e um marrom.

Mas o toque finale para que o lugar atenda aos meus anseios íntimos é a prateleira com os livros. Não me canso de olhá-los, contemplá-los e admirá-los. Organizo-os com critério, escolho-os para estarem ali pela beleza da edição, preferência do conteúdo ou predileção ao autor. Disponho-os de maneira que valorize a capacidade decorativa e estética deles. Sim. Livros são objetos reflexivos, austeros, mas também estéticos e decorativos. Deixa o ambiente sofisticado, imprime-lhe ar interessante, seduz, provoca, arremata. Alguns poucos objetos entre os livros e pronto. Eis uma revelação. Eis um mundo disponível a apenas alguns passos de mim.

Escrito por

Meu nome é Maiara Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade e dom. Nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio das leituras e da vida. Espero que gostem!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s