Eu, procuradora!

Era manhã chuvosa e um pouco fria em que acordara cedo para me aprontar o melhor que pude com as máscaras exteriores que davam a mim outros ares: salto alto, vestido preto, casaco preto, cabelos escovados, maquiagem suave, lábios escuros. Devidamente montada, como dizem as drag quens, cheguei à empresa, onde pegaria alguns processos, os quais levaria para casa.

Enquanto andava num dos corredores, ouvi alguém me chamar. Era um homem cuja voz identificava apenas pelo som, por já tê-lo ouvido tantas vezes me interpelar: Mas que elegância! É preciso vir para o trabalho assim? Não sei se por ironia ou por apreender a minha atmosfera interior, chamava-me procuradora.

Olha a procuradora – disse-me ele. Embora nunca tenha desejado sê-la à maneira de Lygia Fagundes Telles, escritora que também formou-se em Direito, desde o berço procuro por algo, e presumo ser esse o motivo de evidenciar no semblante a inquietação de quem está em permanente busca. Tenho a fome voraz não satisfeita por alimentos, e continuo a procurar, com ânsia e ardor, alguma coisa que vai muito além da aprovação num concurso e que faça de mim a Procuradora achada – plenamente satisfeita com a assinatura de um termo de posse.

Respondi a esse homem: ainda estou procurando, ainda estou procurando. E dei aquele sorrisinho de canto heróico dos que ainda têm a procura como escudo para seguir radiante, quero dizer, seguir adiante.

Ele aproveitou-se de minha disponibilidade elegantemente trajada e me fez uma pergunta: você consegue ler todos aqueles livros que costuma dizer que lê? Respondi que sim, porque nesse dia não estava nem um pouco a fim de enganar ninguém como em todos os outros. Tudo que falo é de fato o que vivo, ainda que não tenha o costume de revelar o que se passa nos bastidores do indizível. Na verdade, creio que exteriorizar é apenas uma forma de ocultar o mais essencial que grita dentro de nós. Há coisas que não conto no confessionário, nos livros, nem em minhas orações. Não dizem por aí que Deus sabe tudo? Pois que saiba, mas não de minha boca.

Leio muito, porque fiz da leitura um modo de viver, porque me ocupo com poucas atividades, porque moro com um esposo que me demanda apenas para questões ligadas à sobrevivência da espécie e não tenho filhos a exigir meu tempo. E também porque meu trabalho formal é pensar e escrever e faço isso naturalmente, sem esforço, de modo que respondo todas as solicitações com a facilidade de quem respira o ar vital. Então, de novo, a resposta é sim, eu leio tudo que digo que leio.

Esse mesmo homem pediu para tirar uma foto comigo. Concedi alegremente, sem nem ao menos querer saber o que ele espera de mim. Nesse dia estava toda de preto, o que me dá uma segurança muito além do que sou capaz de ter. O preto me enche de um poder ancestral que me faz ficar diante de qualquer homem, sem temer exposições às perguntas ou à imagem.

Despedimo-nos com sorrisos e gentilezas reciprocamente considerados. Dei às costas e, com passos firmes e traje negro, continuei à minha procura.

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