O medo do ridículo

O medo é um sentimento que acompanha o ser humano desde o começo de sua existência. Sem ele, talvez a espécie sequer tivesse sobrevivido, uma vez que se exporia a perigos que poderiam levá-la ao aniquilamento. Essencial para a continuidade do homem na Terra, o medo constitui-se uma das causas por que ele conseguiu se proteger, se estabelecer e perpetua há tantos anos. No entanto, a depender da intensidade de como é sentido, pode ser prejudicial, tanto nos casos de sua total ausência, o que potencializa que pessoas se submetam a situações arriscadas, quanto em senti-lo de forma exagerada, levando-as a se esconder, paralisar ou não agir.

Foi por medo que Adão e Eva esconderam-se de Deus ao ouvir os seus passos enquanto Ele passeava pelo Jardim do Éden. Mas o Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” E este respondeu: “Ouvi teus passos no jardim. Fiquei com medo porque estava nu, e me escondi.” (Gênesis). Temerosos, agimos à maneira de Adão e acabamos por não entrar no palco da vida.

Adão, o primeiro homem, sentiu muito medo de Deus e, por isso, fugiu do olhar de seu próprio Criador. Nós, porém, sentimos pavor do olhar do outro, assim, fugimos de nós mesmos, pois não nos lançamos para realizar aqueles desejos latentes que pulsam em nossos corações.

Clarice Lispector escreveu: Vou continuar, é exatamente da minha natureza não me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos.

Só esse despudor frente à vida é que pode nos levar a concretizar os chamados que emergem dos recônditos de nosso ser. Se Clarice, por medo, não ousasse escrever sobre suas emoções, suas percepções e os seus pensamentos, por considerá-los ridículos, jamais teríamos em mãos obras tão ricas e profundas, tão essenciais para o conhecimento e a compreensão do humano. Se ela desejasse esconder-se e não expor suas ideias singulares, se, por vergonha, escapasse de escrever os seus livros incomuns, seríamos todos órfãos da beleza e das peculiaridades de sua escrita. Se a crítica fosse tão mais forte que a sua paixão por escrever, Clarice teria sido apenas mais um anônimo dentre tantos que não se atreveram. Se a indiferença a muitas de suas obras pesasse mais que sua certeza de que escrever era até mesmo mais importante que ser amada, o mundo careceria de sua brilhante literatura.


Ela ousou como ninguém, desnudou-se em praça pública, sem medo. Precisava se expressar, e escrever era o principal meio de manter relações consigo e com o outro. Algo dentro dela insinuava que as coisas que precisava dizer só poderiam ser ditas pelas suas próprias mãos, de mais ninguém. O orgulho que convence de uma certa glória a respeito de si mesmo habitava também o interior de Clarice, que escreveu:

Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias. É uma grande aventura e exige muita coragem e devoção e muita humildade. Meu forte não é a humildade em viver. Mas ao escrever sou fatalmente humilde. Embora com limites. Pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha própria importância – tudo estará perdido.

Se Clarice não tivesse entrado no palco disposta a vencer o medo do ridículo estaríamos com o vazio de sua existência única. Se a humildade fosse o seu forte, não teria escrito uma linha sequer. Se a modéstia a tivesse invadido, permaneceria oculta pelos séculos. Estar convencido da importância daquilo que se tem a oferecer como sendo possível de ser oferecido apenas por si mesmo, de maneira ímpar, é o começo para encher-se de coragem.

Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo – diz uma das personagens de Clarice – e sou obrigada a pensar em quantas vezes nos encolhemos por medo de que um alargamento nos dê a exata medida da amplitude que poderíamos alcançar. Essa mesma personagem reconhece: Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

No livro Schopenhauer como educador, o filósofo Nietzsche conta que, certa vez, perguntaram a um viajante, que percorrera muitos países, em vários continentes, e que entrara em contato com vários povos, qual característica ele havia encontrado nos homens que habitavam todas as partes. O viajante respondeu que eles possuem uma certa tendência à preguiça. No entanto, Nietzsche disse que ele teria se expressado melhor se houvesse dito: eles são todos medrosos. E acrescentou:

Eles se escondem sob costumes e opiniões. No fundo, todo ser humano sabe muito bem que, sendo um unicum, só estará na terra uma única vez e que não haverá uma segunda vez em que um acaso igualmente notável vá fundir uma diversidade tão maravilhosamente matizada na unidade que ele é: ele sabe disso, mas o esconde de si mesmo como se escondesse uma má consciência – por quê? Por medo do próximo, que exige a convenção e com ela se protege. Mas o que é isso que impele o indivíduo a temer o próximo, a pensar agir gregariamente e a não ser feliz consigo próprio? Para alguns raros, talvez o pudor. Para a maioria, no entanto, é a comodidade, a indolência, ou, em uma palavra, aquela tendência à preguiça de que falava o viajante.

Seja por vergonha ou preguiça, também nos esbarramos no medo de viver o que é novo como retrata uma das falas da personagem de Clarice.

A escritora tinha total consciência de ser esse milagre único sobre o qual falara Nietzsche. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá.

Essa irrepetibilidade e unicidade do ser permeia a literatura de Clarice, de tal modo que, não sendo o outro, só nos há uma solução possível: assumir corajosamente quem somos ou desejamos ser.

Mas quem é esse outro que nos amedronta? Nietzsche questiona: por que dar ouvidos ao que o próximo diz? Ninguém pode construir por você as pontes sobre as quais apenas você deve atravessar o rio da vida, só você e mais ninguém. Há no mundo apenas um caminho que ninguém além de você pode trilhar: aonde ele conduz? Não pergunte, trilhe-o.

Assim, fez Clarice. Trilhou o seu caminho, a despeito das dificuldades e dos fardos que, ao sê-la, ela precisou carregar. Assumiu sua extraordinária singularidade, sem medo do ridículo, sem se importar com as críticas e as indiferenças que rondam todos aqueles que se aventuram a viver em estrita obediência aos próprios comandos. Destemida, atravessou os limites da timidez que, embora tentasse cerceá-la, não foi forte o suficiente para detê-la. Eu era o que sou mesmo, uma tímida arrojada. Eu sou tímida, mas me lanço.

Para ela, um dos graves erros que alguém pode cometer é deixar de fazer alguma coisa por medo do que os outros vão pensar. Ela chegou a dizer que é imoral desistir de si mesmo. Em momento algum, ela desistiu de ser Clarice Lispector.

Nietzsche diz ainda: cada um carrega em si uma singularidade fecunda como cerne de sua essência; e, quando nos tornamos conscientes dessa singularidade, apresenta-se a nosso redor um estranho brilho, o brilho do que é extraordinário.

É preciso ter a coragem de se lançar, apesar do medo, buscar a libertação desse ser exclusivo que quer desabrochar e expressar a essência que lhe percorre todo o corpo e a alma. Que destino Adão teria se não tivesse se escondido do Deus que o criou? Que destino teríamos nós se nos livrássemos do pavor de não sermos compreendidos pelos outros?

Que a coragem que fez Clarice ousar ser Clarice nos invada e faça brotar em nós a força necessária para afastar de uma vez por todas esse medo do ridículo que nos paira a todo instante.

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