É apenas com duas pernas que se anda. Tão logo aprendemos a caminhar, dispensamos o apoio dos objetos e soltamos as mãos de nossos pais para, sozinhos, explorarmos a casa e os seus arredores. A criança se entrega em direção ao ímpeto de descoberta, e cada situação ou coisa que lhe surge, ainda que repetidamente, é como se nova fosse. Ela consegue se encantar com os brinquedos cujas formas são idênticas, ouve a mesma música inúmeras vezes, finge que se esconde dos adultos ainda quando seus pezinhos aparecem por debaixo das cortinas, sorri diante dos mesmos estímulos, encanta-se diante de todas as coisas e, alheia à ideia de passado ou futuro, deixa-se estar totalmente presente no instante em que vive.

Clarice Lispector, no livro Água Viva, fala a respeito da dificuldade que temos de captar o que ela chama de instante-já. Ou estamos com os pensamentos voltados para o ontem ou para o amanhã, como se nos fosse impossível mergulhar e tomar posse da coisa em si quando ela está acontecendo. A vida é. E por mais que tenhamos na memória os registros do que foi e expectativas quanto ao que há de vir, a vida é agora enquanto escrevo e o que acabo de escrever ficou suspenso no ar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa.

Entregar-se completamente ao “é da coisa” exigiria de nós o retorno ao estado inocente de criança, que se lança ao desconhecido confiante de que as duas pernas são suficientes para lhe abrir os caminhos.

No entanto, em algum momento passamos a não confiar. Antes que chegue a velhice a nos exigir uma espécie de necessidade de amparo físico, que nos torna dependentes de muletas, criamos os mais falsos apoios para nos firmar e reafirmar, sob o pretexto de estarmos seguros durante o trajeto que poucas vezes nos leva a algum lugar. Porque queremos sempre sair de um ponto e partir para outro, sem nunca entregarmos aos momentos e fatos contínuos que nos levam de um ponto a outro. E a saudade que resta vem dos instantes não gozados ao tempo em que foram, porque quando eles estavam sendo fugíamos mentalmente para um não-lugar ou atalhos de subterfúgios com seus emaranhados caminhos.

Em A paixão segundo G.H, a personagem descobre com espanto que, por muito tempo, valera-se de uma terceira perna. Além de posses de dinheiro e bens, de morar numa alta cobertura onde dominava a vista de uma cidade inteira, fazer escultura – atividade que lhe dava boa reputação, apesar do amadorismo com o qual a exercia – e de não se ocupar das atividades domésticas, porque tinha dinheiro suficiente para pagar empregadas, G.H. também estava confortável com a ideia que os outros tinham a respeito dela. Assentara-se na limitada imagem que escolhia refletir e que recebia de volta na exata medida.

Em que momento criara essa terceira perna? Provavelmente, no início da adolescência começamos pôr e justapor camadas e mais camadas. Essa fase intermediária em que, não sendo categorizados como crianças ou adultos, temos que inventar um rosto com o qual se apresentar a um mundo exigente e que nos impõe um limite sob o qual devemos nos fazer conhecer de uma ou várias formas. Depois de um certo tempo cada um é responsável pela cara que tem, diz Clarice. E o que precisamos fazer para manter essa aparência que construímos aos poucos e dolorosamente, muitas vezes, tem como custo a própria vida que se esvai sem percebermos nada de sua essência.

Num dado momento, ao se deparar com a luminosidade e a nudez de um quarto limpo de empregada, que na sua ideia preconcebida seria imundo e escuro, G.H percebe-se diante de sua própria escuridão. Um quarto pertencente ao lugar em que morava, um aposento desconhecido, que, de tão singular, afastava-se do semi-luxo dos demais cômodos, quase como uma acusação contra uma patroa que, para a empregada, era tão indiferente que mais valia afastar-se de todo aquele conjunto de coisas onde a vida era minimamente vivida, com vigilante mesquinhez e cuidado para não ultrapassar os limites de uma vida humanizada.

Que fizera eu de mim? Pergunta-se. Que fizéramos nós de nós? Quantas pernas criamos sob o argumento de que precisamos e precisamos de mais e mais, porque só com duas pernas é impossível? Cada acréscimo é um peso a mais que nos retém, cada acúmulo uma confissão de pobreza. Infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito. G.H se percebe pobre quando contrasta aquele quarto claro e nu com a opulência dos demais espaços que tediosamente ocupava. Nem mesmo se nutria dos raios luminosos do sol que barrava nas cortinas. A empregada, pelo contrário, escancarava as janelas para que o quarto fosse uma extensão do que se passava do lado de fora. A paisagem que via pela sua janela era a pintura natural de um quadro gratuito que G.H. não contemplava.

A revelação de sua pequenez a deixou em choque. Um mundo tão vasto, uma vida tão latente e potente perpassando todas as coisas e ela encolhida nos contornos criados para se fazer enxergar bem menos do que era. Esculpir esculturas era uma forma de sair de si e criar um objeto com as mãos numa flagrante fuga de criar a si mesma. Sua vocação era de arrumadeira, de pôr ordem às coisas, mas a terceira perna do dinheiro não deixava que ela exercesse esse chamado, pois podia muito bem pagar uma empregada. Ao colocar ordem, talvez ela mesma pudesse se ordenar e chegar a um estágio avesso à antiga ordem que criara.

A empregada pouco tinha a organizar dentro do quarto em que vivia, de pouca coisa precisava que já não tivesse. Eram suficientes suas duas pernas e o ar, o sol, a claridade e a imensidão que invadia um quarto escancarado para receber um mundo vivo, ainda que fizesse parte desse mundo uma barata a habitar o guarda-roupa. Barata é vida, matéria da mesma matéria humana, que, por repugnância e nojo, G.H preferia mantê-la bem longe ao dedetizar e tornar o ambiente morto para baratas e humanos.

Que fizera eu de mim? Quando esmaga a barata, G.H mata o “eu” construído durante toda uma não-vida. Ao entrar em contato com a substância branca e asquerosa da barata de que também G.H. é feita percebe que a vida tornada humanizada é o que nos desumaniza e nos distancia da essência das coisas. Aquilo de que nos afastamos sob o argumento de ser desumano é justamente o que nos torna menos humanos. As terceiras e quartas e infinitas pernas que criamos é que nos fazem caminhar para bem longe daquilo que simplesmente é. Transformamos essas pernas em extensão de nós. E disso resulta que pensamos que somos a profissão que exercermos, o dinheiro que temos, os bens que possuímos, os títulos que adquirimos, os móveis que compramos, o papel e as funções que representamos. O que resta de nós quando nos despojamos de todas essas cascas e máscaras é o que de fato somos – é o que é o humano, de humus, de terra, de pó, de substância presente em tudo o que há.

Um novo modo de ser se impõe a partir dessa consciência. G.H. reflete: perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que apenas com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Chega um momento em que se não pararmos para pensar e refletir, confundimo-nos com o conjunto de coisas e camadas que criamos. Chega um momento em que corremos um alto risco de não mais nos encontrarmos se perdermos as extensões do “eu” que fabricamos. Quem seríamos se, tal qual Jó, perdêssemos tudo? Tremo toda só de pensar. E antes que esse pensamento crie asas nesse instante-já, dou um salto para o futuro por medo de, ao voar, não conseguir resgatar as minhas pernas criadas com tanto suor e economia de vida.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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