Antes de ler Alice no País das Maravilhas, resolvi pesquisar a respeito e pude constatar várias interpretações referentes a essa incrível história. Imediatamente, dei alguns passos para trás, pois não gostaria de ser influenciada pelas inúmeras visões existentes sobre a obra. Queria me manter distante de todas as análises prévias para conservar minha pureza e liberdade diante do livro, abstendo-me dos juízos por outros emitidos. Fui, assim como nasci, nua e crua, ao encontro de Alice.

Confesso, sem pudor algum, que, no auge dos meus trinta anos, não conhecia a narrativa. Imaginava, pelo título, se tratar da história de uma menina chamada Alice, que vivia num país maravilhoso e aprontado suas peripécias de criança.

Até que um belo dia resolvi adquirir o livro, no entanto o deixei como enfeite numa estante e fui ler os livros os quais classifico como mais sérios. Mas depois de ter lido tantos livros que considerei “sérios” demais, decidi relaxar um pouco. Pensei: quero agora uma leitura bem leve, de preferência, uma historinha para criança dormir  – e eu também!

Para minha grande surpresa, não dava para dormir com a história de Alice, pois descubro na primeira página que ela está profundamente entediada e cansada de ficar à beira do lago, sentada ao lado da irmã, sem nada para fazer. Para piorar, o dia estava tão quente que Alice se sentia sonolenta e estúpida. Imaginei logo que esse tédio a levaria para algum tipo de aventura.

Alice olha o que a irmã lê para ver se encontra algo interessante, mas nota que não era grande coisa. Então, pergunta-se de que serve um livro sem desenhos e diálogos. O que ela faz é questionar a si própria o tempo todo, e eu, também questionadora, automaticamente entro no seu mundo.

Por que um livro haveria de ter desenho? Porque um desenho é o que é. Se desenho um gato, um cachorro e uma bola é muito provável que concordemos se tratar de um gato, um cachorro e uma bola. Há possibilidade de discussão, mas a discordância é menor.  O desenho parece “pôr fim” a uma questão. Por isso a expressão: Não entendeu? Quer que eu desenhe?

Quanto a necessidade de um livro ter diálogo, concordo com a menina: tem mesmo. É preciso conversar com ele. Questioná-lo. O leitor precisa dialogar com aquilo que lê. Não é obrigado a aceitar tudo que está escrito. Pode rever as suas certezas, as do escritor ou as de ambos. Pode, inclusive, discordar de tudo. O livro tem que conversar conosco. É preciso que leitor e escritor interajam. O escritor é quem escreve, mas o leitor é um co-autor.

Mas, lembrem-se, Alice estava à beira do lago cheia de tédio. De repente, ela vê um coelho branco e imediatamente o segue. Segue-o, porque lhe interessa um coelho com bolso no colete, algo que nunca tinha visto na vida. Segue-o, porque quem tem tédio quer algo que lhe falta. Alice busca o desconhecido, ainda que percorra caminhos inéditos. O caminho é longo e escuro. Alice vai, vai, vai… e cai.

Cai num saguão onde há muitas portas trancadas e uma mesa sobre a qual encontra uma chave de ouro. A chave abre uma portinha que fica atrás de uma cortina e que dá para um encantado jardim. Alice abre a porta, mas não consegue passar por ela. Logo mais, encontra uma garrafa com um líquido dentro e, antes de bebê-lo, sábia como achava que era, certifica não se tratar de veneno.

Alice não esquecera que se alguém bebe muito de uma garrafa marcada com a palavra “veneno”, é quase certo que vai passar mal mais cedo ou mais tarde.  Daí surge uma lição: é preciso ter muito cuidado com o que consumimos, pois um dia as consequências virão.

Após conferir, bebeu o líquido e seu tamanho encolheu. Paro e penso se quando criança bebi desse mesmo líquido, pois adulta me mantenho encolhida. Agora, lhe era possível passar pela porta que dava para o jardim, mas como ela esqueceu de pegar a chave em cima da mesa, antes de ficar pequenina, não mais conseguia alcançá-la.

Alice chorou, mas logo se ordenou a parar de chorar. Chorar não dá jeito! Ela se aconselhou a sair dali imediatamente. Em geral, a menina dava-se muitos bons conselhos (embora raramente os seguisse). Lembrei que há um bom tempo tenho me aconselhado a tantas coisas… Também me dou bons conselhos, mas… Ah! Como a entendo!

Às vezes, Alice se punia por trapacear a si mesma ao fingir ser duas. E quando se viu sozinha, sem achar uma solução para o seu problema de não conseguir passar pela porta, viu que não adiantaria fingir ser quem não era. Não conseguiria enganar a si própria. Estava diante de suas limitações e deveria encará-las. Ela ainda não estava preparada para entrar no jardim. Teria antes que viver mais experiências e aprender com elas.

No lugar onde se encontrava, também achou uma caixinha de vidro com bolo dentro. Comeu o bolo. Esperou que algo de extraordinário lhe acontecesse. Mas afinal, o que pode acontecer de extraordinário com alguém que come um bolo se todos comem bolo e nada demais acontece? Se Maria coloca a mão no fogo e queima, por que espero também colocar e não me queimar? Estaria esperando coisas extraordinárias diante comportamentos comuns e repetidos?

Surpreendentemente, Alice cresceu pouco mais de 2.70 m. Ficou tão grande que se distanciou até mesmo de seus próprios pés. Pensou em abandoná-los, mesmo que eles a tivessem levado até ali, mas desistiu senão talvez não queiram caminhar para onde desejo ir, pensou ela. Reflito sobre quantas vezes abandonamos quem nos ajuda a chegar onde chegamos quando vemos que estamos enormes.

Por crescer muito, ela alcançou a chave sobre a mesa, mas estava tão grande que, mais uma vez, não conseguiu passar pela porta. Chorou uma poça de lágrimas. Já nem sabia mais quem era. Depois, encolheu de novo e se viu afogando no mar de lágrimas que chorou quando estava grande.

Seu choro só foi interrompido quando encontrou um camundongo com quem ela se pôs a falar sobre gatos. O camundongo se afastou, pois não gostava desse assunto. Então o bichinho questionou Alice: Você gostaria de gatos, se fosse eu?

É claro que Alice não gostaria. Quem poderia gostar de algo que nos fere e mata? É possível gostar de algo que nos destrói? Penso que se não gostamos, mas por vezes nos acostumamos.

O camundongo levou Alice até a margem e outros animais se juntaram a eles. Mas como ela insistia em falar a respeito de sua gata Dinah, todos arrumaram um pretexto e a deixaram sozinha. Os outros bichos também não gostavam desse assunto, pois todos serviam de alimento para os gatos. Mesmo sem intenção, ela feria os sentimentos deles.

Alice ora crescia, ora encolhia, ora voltava ao seu tamanho normal, e assim tentava se adequar aos lugares por onde passava. Quando perguntada por uma lagarta sobre quem era, respondeu: Eu…eu… no momento não sei, minha senhora…pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então.

Já não sou eu, entende? Não entendo a mim mesma. Ter muitos tamanhos num mesmo dia é muito confuso.

Diante dessa confusão porque passava Alice, a lagarta a aconselhou: Não perca as estribeiras. E quando perguntada pela lagarta de que tamanho queria ser, Alice respondeu que não era exigente quanto a isso, mas não queria ficar mudando de tamanho a todo instante.

Na verdade, Alice não sabia bem o que queria e, por isso, acabava sendo como a ocasião lhe exigia.
Houve até quem dissesse que ela era uma serpente. Nunca sei ao certo o que vou ser no próximo minuto, murmurou a menina.

Penso: coitados dos que estão perdidos como Alice. Mas a notícia boa é que ainda dá tempo se acharem.

De uma coisa ela estava certa: queria porque queria entrar no jardim que avistou pelo buraco da fechadura tão logo chegou ao saguão.

No caminho, encontrou a Duquesa que contestou a sabedoria da menina: Você não sabe muito. Mas até pouco tempo atrás, Alice achava que sabia, pelo menos sabia mais que sua amiga Mabel. Essa era a sua referência. Só que nessa caminhada para chegar até o jardim, Alice foi confrontada com outros seres e, portanto, suas referências agora eram outras. Podia até saber mais que sua amiga Mabel. Mas provavelmente, havia muito a aprender.

Quando apareceu um gato em sua frente, Alice o perguntou: que caminho devo tomar para sair daqui?
O gato: isso depende bastante de onde você quer chegar.
Alice: o lugar não me importa muito…
O gato: então não importa que caminho você vai tomar.

Alice até já se esquecera que queria chegar ao jardim.

Depois, pergunta ao gato que tipo de pessoas moravam ali. O gato responde que à direita mora um chapeleiro e à esquerda uma Lebre de Março. E completou: Visite quem quiser, são ambos loucos.
Alice: Mas eu não ando com loucos.
Gato: Oh, você não tem como evitar.

Para explicar o que é ser louco, o gato deu o exemplo de um cachorro (tido por alguns como não louco) e mostrou que, uma vez sendo gato, fazia o contrário do que o cachorro fazia. Ah seu gato, entendi – taxamos de loucos todos aqueles que fazem o contrário do que fazemos. E somos apontados como loucos por fazermos o contrário do que os outros fazem. Concluí, pois, que Alice, o gato, o camundongo, a lagarta, a Duquesa, minha amiga Ana e eu somos todos loucos. E sendo assim, não há mesmo como evitá-los.

Só existiam dois moradores naquele lugar. Uma vez que Alice conhecia muitos chapeleiros, resolveu entrar na casa da Lebre de Março. Sempre indo atrás do que não conhecia, movida que era pela ardente curiosidade.

Quando Alice chegou, estavam reunidos numa mesa para tomarem chá a Lebre de Março, o Chapeleiro e o Albanaz. Ao notarem a aproximação da menina, gritaram que não havia lugar para ela. Mesmo assim, Alice sentou-se junto deles. Então lhe ofereceram vinho. Alice fez a observação de que ali só havia chá, portanto não era educado oferecer aos outros algo que não existia. Eles retrucaram: também não é educado sentar-se à mesa sem ser convidada.

Alice zangou-se, mas provavelmente aprendeu que não devemos oferecer o que não temos muito menos nos metermos onde não fomos chamados.

O chapeleiro disse-lhe que seu cabelo precisava de um corte. Ela não gostou do comentário pessoal, embora fizesse os seus comentários pessoais sem qualquer censura.

Durante o chá, fora confrontada com sua própria ignorância por meio de perguntas que não soube responder. Chamaram-na de estúpida, fizeram coisas que ela considerou grosseiras e, ofendida, foi embora e prometeu a si mesma nunca mais voltar naquele lugar.

Esse episódio me fez lembrar a primeira vez que fui a uma sessão de terapia e, após narrar alguns fatos, a psicóloga olhou bem em meus olhos e falou: você acha que a vida é uma tela e que você tem um controle remoto onde pode ligar e desligar quando quiser? Acha mesmo que pode controlar tudo?

Oh céus, sempre a questão do controle! Prometi que jamais voltaria naquele lugar e não voltei. Parece mesmo que ninguém gosta de ser confrontado com suas ignorâncias e seus defeitos.

Enfim, Alice conseguiu chegar ao jardim e se pôs a jogar croqué a convite da rainha. Entretanto, o jogo era muito confuso e sem regras. A rainha queria resolver todos os problemas mandando cortar a cabeça de todos. Mas Alice se inquietou com esse desmando da majestade: gostam muito de decapitar as pessoas por aqui. O grande mistério é que ainda reste alguém vivo.

O jogo de croqué, que acontecia no campo da rainha, representa muito bem a vida. Salve-se quem puder! E Alice precisava salvar-se. No jogo, ela se impunha. Quando a rainha pedia para cortarem a cabeça de alguém, Alice dizia: Tolice. Cheia de coragem, enfrentava o jogo e também a majestade. Sua ousadia fez com que a alteza lhe pedisse para decidir quem deveria ganhar a partida: a rainha, o rei ou o carrasco.

Alice aproveitou a ocasião e respondeu que quem deveria decidir era a Duquesa, pois sabia que essa estava presa e prestes a ser executada, por ter dado um tabefe na orelha da rainha. Dessa forma, a rainha ordenou que soltassem a Duquesa. Com esse ato, Alice a salvou. Aquela Duquesa tão mal-humorada que a menina conhecera outrora transformou-se num amor de pessoa para com Alice. Ah, os interesses!

Alice descobriu que assim como no jogo de croqué, no jogo da vida todos brigam tão terrivelmente que não se pode nem escutar a própria voz…todos falam ao mesmo tempo…e não parecem ter nenhuma regra em particular, pelo menos, se há regras, ninguém as obedece.

A rainha pediu que apresentassem a tartaruga falsa para Alice. A tartaruga falsa pôs-se a contar sua história. Explicou que, antes de se tornar falsa, era um tartaruga verdadeira que ia para uma escola no mar. Sua mestre, a Jabuti, colocava muitas coisas em sua cabeça. Ela tinha aulas extras de francês, música e lavagem. Alice indagou se haveria necessidade de ter essas aulas já que a tartaruga morava no fundo do mar.

Entendi de imediato o questionamento da menina: para que saber coisas que não nos são úteis? A tartaruga verdadeira passou por tantas lavagens, colocaram tanta inutilidade em sua cabeça, que ela acabou virando uma tartaruga falsa.

Penso: será o que as escolas fazem com as crianças? E será o que as mídias plantam nas cabeças das pessoas? A sensação que tenho é de que estamos falseando tudo. Quando ouço pais orgulhosos dizerem que os seus filhos têm mil matérias para estudar fico a imaginar qual a utilidade desse monte de coisa e porquê de não estudarem o que realmente importa para suas vidas. Será que estamos nos transformando em falsas tartarugas?

Alice estava bem mais contida desde que chegou ao jardim. Antes de falar qualquer coisa que pudesse ofender alguém – pensava. Sabia que tinha mudado muito e que não era mais a mesma.

No campo da rainha, começaria um julgamento, pois ela assara tortas que foram roubadas. Prenderam o Valete de Copas o qual estava sendo acusado desse crime. Havia doze jurados e o Rei era o juiz da contenda.

Alice apenas observava tudo com grande curiosidade, prestando atenção aos acontecimentos.  Ela sentia que estava crescendo muito naquele momento. A rainha ordenou que a chamassem para depor como testemunha do crime. Quando perguntada a respeito do que sabia sobre o caso, Alice respondeu: Nada.

Ela se sentia tão grande e corajosa que não tinha nem mesmo receio de interromper o rei quando acreditava necessário. Contestava rei, rainha e qualquer outro que falasse coisas de que ela discordasse.

Cale-se – disse a rainha.

Alice: Não me calo.

Cortem a cabeça dela, gritou a soberana.

Quem se importa com vocês? – questionou Alice. Vocês não passam de um baralho de cartas.

Depois de proferir essas palavras, Alice despertou e se deu conta de estava deitada no colo da irmã. Tudo não havia passado de um sonho.

Mas provavelmente, ela jamais seria a mesma, pois foi um devaneio que a levou ao autoconhecimento e ao crescimento.

A menina aprendeu a lidar com as próprias limitações, a crescer e a diminuir quando necessário, a voltar ao seu tamanho normal. Entendeu que não era tão sábia quanto imaginava, que era preciso saber falar e, principalmente, calar. Aprendeu a dialogar, a contestar, a não ter medo de enfrentar seus medos. Ela tornou-se grande e tinha certeza de que poderia, se quisesse, crescer ainda mais.

Foi o País das Maravilhas que permitiu o amadurecimento de Alice, porque para um país ser maravilhoso é preciso que ele consinta que seus habitantes se fortaleçam e cresçam.

Alice no País das Maravilhas é um livro fantástico, cheio de metáforas e de ensinamentos. Já não sou mais a mesma que era antes de lê-lo. Cresci com Alice e tenho uma enorme disposição de crescer muito mais.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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