Os pingos da chuva caíam nos rostos daqueles que vagarosamente caminhavam rumo ao lugar em que dariam o último adeus à senhora M.

A natureza dá mostras de tristeza pela partida de vovó – disse um dos netos como a parafrasear o discurso de despedida do amigo de Brás Cubas.

Como eu gostaria que mamãe vivesse mais cem anos conosco – bradou uma de suas filhas inconsoláveis apesar do falecimento da mãe ocorrer após ela acabar de completar noventa e dois anos.

Ah! Eu não vou suportar. Vou desmaiar aqui mesmo. Josefina caiu para trás aproveitando a proximidade do ex-marido que ainda lhe despertava. Ele a segurou no colo e, ao percebê-la mais desperta que nunca, sussurrou em seu ouvido:

Pare logo com essa cena Josefina. Eu bem conheço os seus dramas. Ou abre esses olhos agora ou solto-a dos meus braços.

Ah! Mamãe! Volta mamãe! – disse Josefina se recompondo.

O padre entoava cantos e orações para aquela alma que se transformara em tão nobre e boa à hora da morte. As muitas mulheres que ali estavam lançaram olhares incrédulos umas às outras quando um dos filhos da senhora M. pediu a palavra.

Por favor, não enterrem mamãe antes que eu fale o que está preso em meu coração.

Mas logo você Robeval? Há quantos anos não visitava nossa mãe? Não consegue respeitar nem mesmo esse momento? Porque não fica calado e pede perdão pelo descaso com que tratou a nossa santa mãe desde que foi embora daqui para se atracar com aquela mulherzinha de quinta?

Deixa eu exercer meu direito de filho, Josefina. Quem é você para ousar falar de minha mulher nesse tom? Quem é você? Acabou de usar a morte de mamãe para cair nos braços desse sem vergonha do seu ex-marido. Fique calada e mesmo calada você já está errada.

Oh! Como ousa Robeval? Nesse momento, a mamãe deve estar do lado direito de Deus clamando pela sua salvação. Como uma mulher tão boa pôde ter gerado um homem tão insensível e ingrato?

Como ela foi capaz de gerar uma mulher tão dissimulada e fingida? – retrucou-lhe o irmão.

Não vou suportar essa calúnia em pé.

Nem venha de novo com esses seus chiliques. Dessa vez, do chão você não passa, Josefina – balbuciou baixinho o ex-marido.

Parem com isso. Que vexame! Se mamãe fosse viva morreria de desgosto de ver os seus amados filhos em guerra. Deixa Robeval falar, Josefina. Ninguém aguenta mais esse seu falatório desenfreado – interrompeu a mais velha em tom firme.

Mamãe querida, meu coração chora amargamente por ti. Há quinze anos estive afastado da senhora, porque as obrigações me tomavam. Agora, eis-me aqui minha venerada mãe. Jamais deixaria que as ocupações me privassem de estar pela última vez diante da mulher que me deu a vida. Perdoa-me por ter demorado tanto a vir, mas a senhora bem sabia, mamãe, da minha falta de tempo. Eu tinha que cuidar dos meus negócios e quinze anos se passaram num estalar de dedos. Quando dei por mim, já não me dei mais por ti. Vá com Deus, minha santa. Hoje mesmo retorno para cumprir meus deveres que por amor a ti vi-me obrigado a distanciar.

Podemos encerrar? perguntou o padre que tinha outro enterro a lhe exigir presença.

Eu quero falar um pouco, seu padre.

Pode encerrar, padre. Josefina já falou demais por hoje – disse impaciente a mais velha.

A senhora M. dormia o sono da eternidade, de onde ninguém jamais voltou. Filhos, netos e conhecidos choravam inconformados, buscando inúmeras respostas para aquele repentino adeus como se a idade não lhes bastasse para justificar o fim.

Robeval e Josefina continuaram a se estranhar e a trocar farpas no caminho de volta para a casa vazia da mãe. Os netos já se consolavam diante da promessa de um futuro com muitos anos pela frente tal qual a avó. Em breve, tudo voltaria a ser como antes e a ausência da senhora M. apenas seria lembrada como uma fumacinha breve de uma vela que se apaga.

Todos se esquecerão desse dia – lastimou para si mesma uma das netas da senhora M. que presenciou a despedida pensativa e calada.

Todos esquecerão esse dia. Ao saírem daqui, nem se lembrarão mais que o destino deles será o mesmo da vovó.

Publicado por:leiturana

Meu nome é Ana Veiga, moro em Brasília e tenho paixão pela leitura e pela escrita. Ler e escrever são para mim "vícios desde o início". Leio por prazer. Escrevo por necessidade. E, nesse espaço, quero compartilhar com vocês os maiores ensinamentos que extraio dessas leituras. Espero que gostem!

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