Da cegonha à cegueira

Mãe – interpela o menino – de onde veio o meu irmãozinho? A mulher, que não estava pronta àquela hora da manhã para as curiosidades de criança, olhou para o marido num erguer de sobrancelhas como quem dizia – e aí? – ao que o marido deu de ombros como a insinuar que nada tinha a ver com aquilo, pois a pergunta não fora a ele direcionada. Sem escapatória, a mãe respondeu: Seu irmãozinho? Oh meu filho, seu irmãozinho chegou até nós trazido pelo bico de uma cegonha.

Mas as crianças de hoje não se satisfazem com explicações ilógicas e descabidas. O menino não se contentou com a resposta da mãe e insistiu: Mamãe, mas o meu irmãozinho não estava na sua barriga? Quem colocou ele aí? Eu nunca vi uma cegonha aqui em nossa casa. A essa hora, o pai já havia escapado do lugar onde conversavam. A mãe hesitou em continuar com a história da cegonha e achou por bem dizer a verdade.

Tanto você como seu irmãozinho foram colocados na barriga da mamãe pelo papai. Mas agora você é muito pequenino para saber de todos os detalhes. Então, a mamãe só pode te dizer nesse momento que quando o seu pai e eu quisemos fazer você e o seu irmãozinho nós dormimos tão bem agarrados, demos tantos beijos um no outro, nos amamos tanto que dessa explosão de amor nasceram João e Emanuel.

Dessa vez, João, com os seus seis aninhos de idade, não só entendeu melhor como também aceitou a explicação da mãe, pois em sua cabeça era muito mais lógico o irmãozinho ter chegado por intermédio do pai, que estava todos os dias em casa, do que ter sido conduzido por uma cegonha que ele nunca vira mais inventada. Um pouco mais satisfeito, correu em direção aos seus brinquedos e a mãe suspirou aliviada por não precisar lhe revelar em tão tenra idade os detalhes mecânicos que se dão entre as pessoas encerradas na alcova.

Há quem defenda que a iniciação infantil, no que diz respeito a assuntos sobre sexo, ocorra cada vez mais cedo – como se fosse de extrema necessidade que a criança, inserida nesse mundo no qual não é nada aconselhável que ela tome parte, entenda os meandros que não lhe serviriam para absolutamente nada em seu contexto lúdico e de fantasia. Essa questão e outras similares se dão numa atualidade em que a banalização do sexo no universo dos adultos respinga e atinge todos aqueles que, de alguma forma, estão em seu entorno.

Por muito tempo, o sexo foi visto como um tabu, um assunto sobre o qual era proibido e vergonhoso falar, por questões de ordem cultural, moral ou religiosa. Apesar de ser indispensável para a continuidade das espécies, o que indica o seu caráter de naturalidade, nunca faltaram quem dele se desviasse como algo que tivesse de ser mantido em absoluto segredo. Desde que Adão e Eva esconderam-se de Deus por vergonha de estarem nus, passamos um longo tempo a ocultar nossas partes mais íntimas como a esconder um tesouro que não poderia ser descoberto ou revelado nem para nós mesmos.

Diferente de um cão que copula livremente a qualquer hora do dia e sob as vistas de quem queira presenciar o seu ato puramente instintivo, os seres humanos civilizados se dão em suas relações íntimas bem longe da observação de seus pares. Ainda que seja o modo pelo qual homens e animais se igualam sob o aspecto da reprodução permanente e contínua, é a aura de segredo, mistério e erotismo que passou a acompanhar a intimidade entre os humanos que deu a essa relação um significado nobre, a qual ultrapassa um movimento meramente físico para alcançar a transcendência e, por vezes, o sagrado.

Desprovido do caráter secreto e oculto, escancarado pela verborragia com que muitos debatem as minúcias de suas preferências particulares, o sexo perde os atributos essenciais da fantasia, da surpresa e do mistério, que leva amantes a sondarem e se desejarem mais intensamente, e se transforma numa mera ginástica ou acrobacia pornográfica.

A mim não convém a defesa de falar abertamente sobre sexo quando essa transparência atinge os detalhes que não cabe ao público saber. Dizer o sexo como maneira de informar, elucidar e educar crianças, adolescentes ou adultos é importante e necessário, no entanto a abordagem deve levar em conta a idade e a experiência dos ouvintes, tomando-se o cuidado de não engendrar por territórios que ultrapassam as fronteiras daquilo que se precisa conhecer.

Certa vez, causou-me espanto deparar-me com um programa de TV, onde quatro ou cinco mulheres, aberta e grosseiramente, abriam ao público geral os detalhes mais sórdidos de suas predileções sexuais. Em cada depoimento se avultava muito mais uma ânsia por chamar a atenção e afirmar uma liberdade forjada que, beirando às raias da indignidade, aquelas mulheres se esforçavam para impor.

Recentemente, uma outra mulher do universo das celebridades, gravou um vídeo revelando e ensinando as miudezas e os pormenores do difícil processo sodômico que ela e o esposo praticam para facilitar o ato que, embora pareça árduo, pode se tornar fácil e prazeroso.

Inacreditável a que ponto chegaram as mulheres, sob pretexto da alcançada liberação sexual. E se me refiro a elas, não é por achar que provindas de homens essas atitudes são menos censuráveis, é pelo simples fato de que não os vi em cenas semelhantes, e isso não quer dizer que eles não protagonizam idênticas situações vexatórias e igualmente deploráveis. No entanto, percebo que, entre as mulheres, há um afã por essa exposição dispensável, movidas, talvez, pela necessidade de soltar os fantasmas que por tanto tempo elas se viram obrigadas a repreender e calar.

Moralizar o sexo não é o que pretendo muito menos impingir-lhe proibições ou discriminações. As pessoas devem ter e prezar pela independência de se relacionarem como querem, desde que aja entre elas o consenso; desde que não seja algo forçado ou que desrespeite uma das partes. O que me parece excessiva e, portanto, vã e desnecessária é essa banalização, a qual transforma o sexo em mero ato reprodutivo, automático e animalesco que precisa ser escancarado aos quatro cantos como para provar que gozamos de desmedida liberdade.

Se já não precisamos mais inventar aos nossos filhos coisas sem nexo como a história da cegonha, devemos pelo menos tirar as vendas de nossos olhos para nos livrarmos dessa cegueira que nos acomete de tal forma que já não sabemos até que ponto as nossas liberdades beira o grotesco, a decadência e a frivolidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s